Down Theater (Terminado)
21 Capítulo 20 - A história de Scurra: Parte 2
Notas iniciais
Depois de muito tempo...
- Ela tem uma doença de nascença, incurável. – disse o doutor, para Scurra.
Wells, e sua esposa esperavam-no lado de fora. — Como assim incurável? Você está dizendo que minha filha vai... – Scurra parecia inconfortável. A febre da menina começou há um ano, mais era passageira. E nunca tinha feito a garotinha desmaiar. -Incurável, mais há tratamento. E por sua sorte, temos uma máquina para esse tipo de doença, depois de alguns meses internada... Receio que a cura será uma questão em absoluto. — internada por meses?! – Scurra começava a enrolar uma mecha de cabelo, algo que fazia apenas quando estava muitíssimo nervoso. – Você deve estar de brincadeira! Porém o rosto do médico não parecia transmitir mentiras. A situação era séria. — Esta aqui é a papelada. – o doutor pegou alguns papéis aonde Scurra tinha que assinar. – A máquina é cara, e a única na região, ela custou muito para nosso hospital, por isso o plano de convênio deve ser mais alto. — Quanto? – perguntou Scurra, porém qualquer que fosse o valor, não interessava. O homem tinha um bom emprego, e poderia pagar. Além de que pagaria qualquer quantia, já que sua filha era a coisa mais preciosa que havia adquirido. Scurra amava sua filha como nunca um pai amou um filho. E nenhum valor poderia fazê-lo desistir de sua vida. O doutor indicou o valor mensal. — Meu deus... – Scurra tremeu, a quantia era muitíssimo alta. – esse é o valor de um trimestre, ou semestre? — Não. – respondeu o doutor. – Esse valor é semanal. Scurra chocou-se. — E a garota deverá ficar internada desde já, se a máquina for desligada... – O doutor pareceu temer dar a noticia. – Sua filha morrerá.Scurra pagou então a partir daquela semana, se doendo todas as noites que ficava sem por a filha para dormir, e vê-la todos os dias numa máquina tão grande e cheia de aparatos que Jane parecia ficar muito pequena em comparação. Porém os males mal tinham começado. Um dia, Scurra viu o filho do chefe de sua empresa, tratar funcionários, e a própria babá, como se fosse seus cães. Uma semana depois, numa reunião que marcou com seu chefe, disse o que havia visto. O filho de seu chefe estava ao lado do pai imóvel. — Entendo, filho, venha cá. – o chefe de Scurra, tirou o sinto em sua frente, e então. Deu uma grande pancada no rosto do menino, o roxo ficou visível em segundos. — Senhor, acho que não precisa agredir o menino... – disse Scurra, se sentindo mal com aquela cena. — Não Scurra, eu não agredi meu filho... Você agrediu-o, e por tê-lo feito isso, você está demitido. — Scurra ficou paralisado com aquelas palavras, não podia acreditar nas palavras do homem. Havia percebido o por quê do filho de seu chefe tratar mal sua babá, e funcionários, ele era igual ao pai. — Não contarei isso à polícia Scurra, seria um incômodo para mim, e meu já maltratado filho. Porém não vou poder negar os boatos. Scurra então teve a primeira grande briga com Raela. O homem agora estava desempregado, e só tinha uma semana para arranjar um emprego, pois a próxima parcela do convênio que mantinha sua filha viva estava chegando. E devido ao caos com a falsa agressão do filho de seu chefe, não conseguiu emprego algum. Scurra estava mal falado em todas as empresas próximas, e algumas até puderam fechar a porta na sua cara sem nem ao menos uma entrevista. Isso continuou por aquela semana, Raela teve que trabalhar dobrado, e Scurra retirar toda sua poupança para pagar. Mais uma semana tinha ido, Jane sua filha, continuava no mesmo estado. Até quando os esforços dos dois seriam suficientes? Scurra estava duramente desempregado. - O Down Theater. – Wells sugeriu. Quando chamou Scurra para tomar café em uma cafeteria famosa na cidade. Aonde insistiu em pagar. — Você está louco? Você me pagou um café e não uma bebida! – Disse Scurra, aquela sugestão seria completamente absurda, apesar de ser o desejo de infância de Scurra. — Escuta Scurra, você sempre sonhou em ser um ator, e a próxima peça daquele teatro está chegando, e estão contratando atores! – disse Wells e suas mechas brancas, com total entusiasmo. – Você tem idéia de quanto aquele maldito teatro paga pelos atores? Wells pegou um papel que havia guardado em um bolso de sua jaqueta e entregou para Scurra. O papel dizia “A Malevolência”, e mais “Uma peça imperdível, do novo livro original de Edward Hallf”. — Edward Hallf... Não seria o próprio diretor do teatro? – Scurra se intrigou. — Você realmente sabe tudo sobre esse teatro não é? Veja! Olhe o valor pago aí em baixo. Scurra então leu nas entrelinhas abaixo das informações e datas. O valor estava ali, naquele papel amassado, pequeno, mais destacado. — Essa quantia... Seria realmente o suficiente para suprir, mais apenas uma semana... – Scurra logo desanimou-se. — Não, não! A o pagamento é semanal! Eu disse, é perfeito pra você e... Scurra se fechou em seus pensamentos por um instante. A magia de trabalhar no teatro de sua infância, a platéia, o papel principal, era tudo que tudo sonhara, e poderia conquistar tudo com sua filha, saudável.
Mas Scurra era um grande amador, as audições eram nesta mesma semana, e o máximo que tinha atuado era na sua infância. Era impossível conseguir o papel principal. E foi isso que disse a Wells. — Pare de bobagens é seu sonho. – insistiu o amigo. – E mais, nós ensaiaríamos todos os dias, parando apenas para dormir e comer. Eu também estou desempregado... E qualquer papel nessa peça me ajudaria muito! Preciso pagar o aluguel, e Alice sempre gostou de Teatro. Scurra foi convencido, depois de muitos e mais discursos de Wells. Mesmo com a desaprovação de sua mulher, Scurra estava confiante. Os ensaios aconteceram nos seis dias da semana seguinte, até o dia da audição, que seria realizada domingo de manhã. Scurra se esforçou completamente, comprou livros sobre atuação, que leu em apenas um dia, comprou figurino improvisado. Pediu conselhos de um velho artista aposentado que trabalhava no subúrbio. E ele e Wells evoluíram. Seu sonho mais profundo estava em jogo, e ainda mais importante, a vida de sua filha, Jane. A peça se tratava de um homem bom chamado Wornie, que tinha a missão dada por um anjo, de salvar toda a vida no mundo, porém seu coração puro e ingênuo era sempre enganado pelo traiçoeiro Bobo da Corte, que era a personificação do mal, e conseqüentemente maior vilão da história. Scurra chegou cedo ao maravilhoso Down Theater, um lugar grande, aonde centenas de pessoas iriam todas a noites apreciarem as peças famosas que ocorriam no local. Havia barraquinhas de comida em sua porta, oferecendo seus produtos para aqueles que viam, às vezes apenas ver a grandiosidade daquele local. Um lugar majestoso, onde atores, atrizes, roteiristas famosos, e diretores, passavam suas peças para o povo. Aonde também celebridades, políticos, e pessoas com relativa importância, se reuniam para encontrar todo tipo de pessoa grande o bastante para apreciar aqueles espetáculos. Dentro era todo enfeitado com milhões de poltronas negras, grandes cortinas vermelhas, com ornamentos de ouro, um palco arredondado e brilhante, e vários camarotes suspensos por pilares de mármore. Era igual o na televisão, só que ainda mais majestoso. As auxiliares ajudaram Scurra a se vestir com um pré-figurino de Wornie. Não havia ninguém na platéia, além do próprio diretor, e escritor da peça: Edward Hallf. E outros dois jurados. Hallf era um homem bem mais velho que Scurra, porém não tinha sinal de envelhecimento, talvez por causa do dinheiro que aplicava na sua aparência, assim Scurra imaginou. Tinha olhos pequenos e penetrantes, que desafiaram o talvez futuro empregado. Notou também nas últimas poltronas, Wells, seu melhor amigo, já com figurino de um personagem coadjuvante, a qual tentaria o papel. O mesmo acenava para Scurra desejando boa sorte. E Scurra notou também ao seu lado Monie Evans e Wander Evans, um casal de atores já um pouco conhecidos que tinham seus papeis garantidos na peça. Era um casal bonito, de rostos pálidos e cabelos negros. Apenas Monie, tinha um olhar mais maternal, aonde segurava um garotinho de cabelos e olhos negros brilhantes, que Scurra apreciou. No palco, nada além de Scurra, arrumado como nunca fora um dia. Com o figurino emprestado do teatro. E a timidez e vergonha que o fez tremer, assim que Edward Hallf disse: “Audição para Wornie, Candidato ao papel: Scurra Monfret. Por favor senhor Monfret, comece com sua interpretação.” E com essas palavras, Scurra fechou seus olhos, enquanto o vento vindo detrás do palco balançava seus cabelos pardos, o homem ali, na cegueira momentânea, tirou toda a vergonha e todo o nervosismo que existira. E dali, encenou com nunca antes pôde. A atuação surgiu em cada silaba que pronunciava com exatidão, transcrevendo do roteiro o sentimento do próprio personagem. Scurra se tornou Wornie, e nos segundos que surgiram, desafiou o próprio Down Theater. Que entregou aplausos fervorosos dos jurados, de Wells, dos Evans, e claro do Sr. Edward Hallf. — Se me permite a pergunta, senhor Monfret, és mesmo um amador? – Disse Edward Hallf, cessando as palmas. – Venha até aqui, preciso apertar a mão de um talento tão grande. — Senhor. E Cortez, Scurra desceu o palco, indo até a platéia quase vazia, apertando a mão de Edward Hallf, seu futuro chefe. — Foi uma das atuações que eu mais me impressionei. Lembrou-me a audição da senhora Evans. – disse Hallf, dando um aceno para a mulher, atas das poltronas. – O Papel de Wornie, é absolutamente seu. Puxa, genial meu caro Monfret, estou diante do meu próximo Wornie. — O senhor é muito gentil. – disse Scurra tímido, enquanto via Wells assobiar para ele com um sorriso. — O senhor parece está nervoso meu caro, parece ter trabalhado bastante. – Disse Edward Hallf. – Vá para casa, e descanse, o pagamento será feito no primeiro dia de ensaio. Scurra havia saído sem nem ver o resto das audições, nem mesmo a de Wells. Edward Hallf, lhe assegurou, tão surpreso por sua atuação, que o papel principal era incontestavelmente de Scurra. Sua filha seria salva, e tudo isso fez Scurra descansar nessa semana que se passou, visitou-a algumas vezes. Preocupado, mais pelo menos grato por seu sonho e sua filha estarem bem de novo. Wells mal apareceu nessa semana que antecedia o primeiro ensaio, estranhamente. Mas Scurra pensou que talvez Wells não tivesse conseguido o papel, e por isso não queria desanimar seu melhor amigo. Tolice, Scurra pensou, sobre o amigo que o apoiara até agora, Eu o apoiaria de qualquer modo.Tudo parecia bem, até Scurra voltar ao Down Theater, para o primeiro dia de ensaio. — Scurra, infelizmente, o papel principal não é mais seu.O rosto de Scurra tornou-se perplexo enquanto Edward Hallf pronunciara tal frase. Ele estaria brincando, com certeza. Depois de tantos elogios, só poderia ser uma brincadeira teatral. - Não Scurra, não estou brincando. – continuou Hallf. — Mas, e a atuação fantástica, a incontestável... Você disse! — Nada é incontestável. – Hallf disse secamente. – Fantástica? Que ego grande Sr. Monfret. — Você! Você disse, os jurados também aplaudiram.. — Veja bem, eu sei o que eu disse Monfret, porém era só algo do momento, sua atuação é boa sim, admito. Talvez me iludi pelo momento. Mais você é muito caricato, não seria um bom Wornie. Mais talvez seja um perfeito Bobo da Corte.O ódio na face de Scurra era facilmente visto. Estava com vontade de estrangular o pescoço do diretor do Down Theater, porém não podia fazê-lo. — Quem pegou meu lugar? – Aquela pergunta dava um mal pressentimento para Scurra, seriam aqueles malditos Evans? Ele não sabia, mas desconfiava. — Scurra, saber quem tirou seu lugar não vai lhe dar ele de volta... — QUEM PEGOU MEU LUGAR?! — Wells... Wells Sarun. Difícil seria adivinhar o que passou na cabeça de Scurra naquele dia. Seu melhor amigo, teria lhe traído. Isso na mente do pobre insano homem, aonde sua antiga personalidade voltou com a noticia de que sua filha estava praticamente sem salvação. Raela não se conformava com tudo aquilo,com Scurra cada vez mais nervoso e doentio. O relacionamento foi então fadado a acabar. Numa imensa briga onde Raela deu um tapa na cara de Scurra.O prenúncio do fim de tudo. Sua ex-esposa se mudou para a casa dos sogros. Deixando a doença consumir o pobre homem, enquanto sua filha morria lentamente no hospital que não poderia mas pagar. Wells não esqueceu Scurra, tentou diversas vezes encontrar Scurra que permanecia trancado num porão sujo e úmido, que se encontrava embaixo de sua própria casa. Mal sabia Scurra que Wells havia tentado doar metade de seu dinheiro, para salvar a filha do melhor amigo. Foi num dia feio e nublado, que ocorreu a última visita de Scurra a sua filha. Com algo que já sabia o tempo inteiro. — Sua filha está morrendo, Não tem mais que algumas horas de vida, a máquina foi desligada.Scurra nada disse, nem expressão teve. O que para o doutor foi extremamente estranho. Comparado com as vezes que tinha dado a mesma noticia. Scurra viu então, poucas horas depois, sua filha morrendo antes de podê-la tocá-la, numa incubadora desligada. Da qual a vida teatral arruinada não pode pagar. Encontrou depois, Raela chorando no corredor do hospital. — Nossa filha morreu. – disse ela, vermelha, enquanto lágrimas escorriam por toda sua face. Ele nem respondeu, apenas concordou com a cabeça. — E a culpa é sua.
Depois das últimas palavras em tom baixo de Raela. Dois seguranças tiveram que segurá-la e tira-la do hospital. Mas não antes da mesma dar alguns tapas na cara de Scurra, que mal desviou deles. Ela gritava insultos, em meio a choros. Era culpa dele, ele mesmo sabia. Scurra não compareceu ao enterro da própria filha, que ocorreu três dias depois. A luz de sua casa foi cortada, assim como a água tempo depois. As cartas se amontoaram entre a caixa do correio, mesmo as de seu antigo melhor amigo. Ninguém mais o vira, boatos corriam no bairro, que havia morrido. Raela tentou ligar algumas vezes, mas a linha de Scurra também havia sido cortada. O mundo exterior havia se tornado invisível, enquanto a insanidade cobria a nova face de Scurra. Quando a doença toma conta de seu corpo mortal. Seus pensamentos são algo que nem um deus poderia esclarecer. Os fantasmas que assombravam Scurra, seus próprios pesares. Nada mais tinha importância. Difícil dizer por exato, o que aconteceu naquele porão. Um mundo novo apareceu diante sua insanidade. Talvez um poder místico composto por sonhos destruídos? Nunca ninguém poderia definir. O mundo atrás da cortina foi criado. Um lugar aonde a realidade nunca pegaria Scurra. Mas mesmo dentro daquele novo universo. Uma pulga continuava no colchão de Scurra. Wells. Os vales, as cidades destruídas, os rios e os mares, todos eles, os novos amigos de Scurra cochicharam em seu ouvido “vingança”. Apenas uma última coisa antes de se entregar a fantasia insana que criou dentro de sua mente destruída, deveria ser feita. E Scurra não poderia ser o deus de seu próprio mundo sem isso. Uma vez por ano, no Down Theater, o diretor deixava os filhos de seus funcionários visitarem o trabalho de seus pais. A data era a mais irônica possível, para Scurra, perfeita. Era também o último ensaio antes da peça do senhor Edward Hallf. Scurra entrou no grande salão do Down Theater. A porta aberta atrás dele, trouxe uma corrente de ar fria, incomum para aquela época do ano. As poltronas se encontravam enfileiradas, o palco e tudo bem arrumado. Scurra encontrou apenas empregados limpando o palco, ou os camarotes. E duas crianças no canto do salão correndo e pulando. Uma delas, albina, facilmente reconhecida. — Venha Mori! Eu sou mais rápida! – disse Alice, enquanto corria perto das poltronas enquanto suas mechas brancas corriam pelo ar. Scurra observou a filha do seu ex-melhor amigo, com certo ódio, e dor ao mesmo tempo. Sua filha da mesma idade, estava morta. Scurra quase se prendeu em pensamentos. Quando o garoto que brincava com Alice, parou por um momento, na frente dele. Um calafrio passou por Scurra, enquanto o mesmo fitava a criança. Um garotinho da idade de Alice, cabelos negros, olhos escuros, porém brilhantes como os de qualquer criança. Esses mesmos olhos fitaram Scurra por vários segundos, entrando fundo na alma do homem prestes a cometer vingança. — Você... – Scurra tentou dizer. – Quem... O menino se manteve em silencio, enquanto deixava um último olhar penetrante em Scurra. Aquilo seria um aviso? Uma mensagem escondida em seus olhos escuros brilhantes? Ou apenas a ingenuidade infantil? Scurra demoraria para saber. O garoto fez todos os pensamentos do homem de cabelo cor de palha sumirem por alguns instantes. Até que: — Mori, cadê você? – Alice disse em meio a algumas poltronas, a garota albina mal tinha percebido seu “Tio”.O menino então, virou-se de costas, sem emitir nenhum som, e correu para onde Alice estava. Depois Scurra só ouviu o som das brincadeiras das crianças. Mas em sua mente, ele se perguntou “Quem é esse garoto...”. Mas a resposta veio em pouco segundos. “O filho dos Evans” ele soube. Então partiu para a sala do diretor do Down Theater, Edward Hallf. O homem estava sentado em sua sala mal iluminada, com a janela que ia para um beco escuro atrás da construção. Scurra entrou silenciosamente. Porém Hallf percebeu, elevando um sorriso quando viu o seu ex-candidato à Wornie. - Como é bom vê-lo novamente Scurra! – Hallf viu a aparência estranha e doente do homem. Seus cabelos cor de palha penteados estavam embaraçados e enrolados, rugas haviam crescido em torno de sua face alongada. Sua barba estava completamente mal feita, seus olhos fundos com olheiras. – Você está realmente mal, aonde se meteu? Tentávamos te contatar sempre, e seu amigo... — Minha filha morreu. O rosto de Scurra ao contrário do que Hallf esperava, não estava triste. E sim fundo e inexpressivo. — Sinto muito Scurra... Porém nada eu poderia fazer, e nem você... Mas não se preocupe você ainda fará um ótimo bobo da corte... Deixe-me apenas... – o homem então, pegou um chapéu de bobo, separado em duas partes, com sininhos na ponta, e o pôs na cabeça de Scurra. – Viu, ficou ótimo... — Sim, sou um bobo da corte agora. – respondeu Scurra secamente. — Sim senhor Monfret, sabia que... – Hallf não conseguiu dizer mais nada. Vendo a verdadeira face de Scurra com o chapéu que tinha posto na cabeça do homem. A íris de Scurra quase desaparecia em seus olhos fundos, suas rugas se contraíram, e um grande sorriso maníaco estampou seu rosto de bochecha a bochecha. Uma grande risada psicótica se agarrou ao ambiente, seguindo de uma explosão. Todos os funcionários se dirigiam ao salão principal, à frente ao palco. Aonde agora Wells estava ensaiando seu papel como Wornie. Usando uma máscara sem expressão alguma, que o homem deixou cair, assim que Alice correu entre suas pernas com medo do barulho que a explosão na sala do diretor causou. A risada irônica percorria todo palco do Down Theater, fazendo eco entre os camarotes, e todo o ambiente teatral em si. Wells olhou para trás, conhecia essa risada. Scurra apareceu diante o palco, arrastando o corpo de Edward Hallf pelo colarinho, o homem estava claramente morto. O sangue de Hallf acompanhava seu caminho desde sua sala, manchando o palco inteiro. O horror dos funcionários e outros atores foi inevitável. Porém aqueles que correram para a saída, foram surpreendidos, por um camarote que caíra, enterrando dois funcionários em pedaços de mármore. — Não tenham medo meus caros! – Disse Scurra, jogando o corpo de Hallf para o lado. Para que todos pudessem ver os olhos esbugalhados do antigo diretor do Down Theater. – Não tenham medo da morte igual esse covarde teve. – O homem manteve o chapéu, que tininha os sinos, enquanto os atores e funcionários gritavam. – Scurra Monfret, esse é o nome do novo diretor desse teatro amaldiçoado. - Scurra! O que diabos você esta fazendo, você está matando pessoas! – disse Wells abraçando a filha. Scurra ignorou as palavras de Wells. — Esse teatro maldito destruiu meus sonhos, destruiu minha vida, destruiu meu casamento, e destruiu a vida de minha filha. Eu amaldiçôo cada peça horrível que se passou por aqui, amaldiçôo todo ator que pisou nesse palco velho, amaldiçôo todo funcionário que já limpou essas paredes repugnantes, e amaldiçôo cada pessoa que já pôs os pés nesse inferno de lugar. O Down Theater me levou para baixo, para o fundo da terra, para viver como um verme, fraco, doente, sozinho e miserável. A dor que me consumia, me fez fazer coisas incríveis, a loucura que tomou conta de mim, me ajudou a construir um mundo muito melhor que este... Mas só faltou algo para mim, em toda minha desgraça suicida. Sim, faltou. Mesmo que minha própria mente destruísse tudo que vivi até este momento, esse inferno de poltronas e atores falsos continuaria em pé. Por isso, eu como o novo diretor ordeno a todos vocês, meus subordinados: Queimem, queimem com esse teatro imundo! Desapareçam nas cinzas dessa construção falsa, caiam junto com todos estes pilares! Acabem-se junto com essa peça, atuem meus caros, atuem! – Enquanto falava, fogo começava a surgir de todos os lugares, palco, cortinas, algumas poltronas. Pilares se quebravam sozinhos, madeira se retorcia, a cortina se rasgava. Os holofotes caiam pouco a pouco. Wells corria entre o lugar, tentando proteger a filha, enquanto pedaços do teatro caiam em cima deles, poltronas voavam no ar, o chão tremia. Enquanto o homem gritava com a filha em seus braços “Scurra! Pare com isso! Scurra! Éramos amigos! Eu tentei te ajudar, juro que tentei!” Porém seu antigo amigo, com um chapéu de bobo na corte na cabeça apenas disse: — Você é pior que todo esse teatro Wells, você me traiu.- Scurra abriu seus braços, enquanto ria histericamente. – Este é o gran finale! Para todos vocês!Uma gigantesca energia se formou no centro do palco atrás de Scurra. Esse mesmo fenômeno puxou Wells, com seus gritos, e filha. E mais três funcionários, ou atores, Scurra não se importava. Tudo isso antes da bola amarela, explodir. Causando um gigantesco impacto que terminou de destruir o antigo formoso teatro. Porém Scurra não foi nem um pouco afetado. O homem apenas fez uma reverência, enquanto a energia sumia. “Wells, pobre Wells, queimou no centro de seu próprio papel” ele cantarolou, enquanto caminhava a saída do teatro em pedaços. Assim, quase pulando de felicidade. Viu as poltronas queimarem, assim como as cortinas, e pedaços do teto desabar, camarotes caírem, corpos queimados e ensangüentados. Todos mortos, ele pensou com certo orgulho, todos eles.Todos de fato, menos um. Antes da porta quase caída que liberaria Scurra para o mundo exterior daquele teatro acabado. Uma criança permanecia ali imóvel, encarando o homem, igual havia feito anteriormente. -Morrison Evans- disse Scurra, agachando para olhar o menino de perto, que não demonstrou medo diante o assassino de seus pais e sua amiga. Apenas engoliu o choro. E encarou com olhos penetrantes, o homem que tinha lhe deixado órfão. Aquilo não teria efeito algum em Scurra, mas estranhamente teve. Um efeito que impediu o recém assassino e maníaco, de matar a última pessoa do Down Theater. O homem ergueu seus dois dedos, até os olhos negros brilhantes do garotinho silencioso, e encostou os dois fortemente, enquanto sangue escorria do globo ocular do pobre menino. Então o bobo da corte disse, enquanto o brilho dos olhos do garotinho sumia, e se preenchia de sangue. – Você não viu nada, meu caro.
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