Down Theater (Terminado)

22 21 - O Cessar de Cortinas


Notas iniciais
Finalmente, depois de anos sem postar aqui. Eis os ultimos dois capítulos dessa história. Peço desculpas infinitas pra vocês, de verdade. Estou muito envergonhado de ter terminado essa história a anos e não ter postado ela devidamente a vocês nesse site. Mas pra aqueles que gostaram dela, saibam que tenho um novo livro já pronto que postarei em breve, aguardem. Obrigado pela compreensão.

CAPÍTULO VINTE E UM: O CESSAR DE CORTINAS.

Os gritos de horror de Scurra ecoavam por todo comprimento do verdadeiro palco, e além, até aonde aquele véu poderia levar aquelas roucas ondas sonoras. Roucas, abafadas, sujas entre tosse e desespero.

A amizade de Scurra e Wells tinha se perdido no fim do Down Theater. E ressurgido anos depois no fim da imaginação teatral do homem vestido de bobo da corte.

O verdadeiro palco se estendia até o horizonte, cercado pelo negro que determinava as linhas da realidade. A peça de Scurra havia acabado. Mas o mundo atrás da cortina continuava ali.

Mor ouviu sem misericórdia, aquele homem amaldiçoado. A dó não reconfortava o que aquele homem louco tinha feito. Mors não pensava em sua falta de visão, já que era essa comum. Pensava em Wells, Alice, e os outros que tiveram sua vida destruída pela insanidade de Scurra. Era triste.

Scurra estava coberto por correntes levemente rachadas, de tamanhos e grossuras diversas, umas de cobre, outras de ferro, e alguma com detalhes dourados. Seu melhor amigo, forçava-o a encarar seus pecados, para tentar resgatar o homem que havia sido, atrás de toda tragédia e loucura. A máscara do senhor das correntes tirava a máscara de ódio de Scurra.

O homem gritou entre choros.

As crianças atrás de Mors, apenas observavam. Tinham dó do ser doentio que sofria com seu passado, mas tinha raiva deste mesmo ser, aquele que jogou-os na vida teatral, forçou-os a lutar por seus desejos, fez com que virassem amigos, para depois poder brincar com os sentimentos de cada um. Remetendo na tragédia que ocorreu ali.

Dáhlia tinha os braços entre o ombro de Tommy. Seu sangramento havia parado, porém mal conseguia ficar em pé. Dáhlia tinha sentimentos confusos sobre aquela visão, Scurra foi seu amigo, mas a seduziu a trair os companheiros e seu amor, já perdido.

Vincent abraçava Amy, que ficava perturbada com aqueles gritos e aquele sofrimento. Rune não demonstrava nenhum sentimento de compaixão, Caius havia morrido, e o verdadeiro culpado era Scurra.

Alice permanecia estranha aquilo, assim como todos, à quê estava acontecendo.

Os fantoches de Scurra caídos em volta deles, destruídos, e postos para baixo, assim como seu criador. A água permanecia parada, apenas molhando o calcanhar das crianças, e os joelhos de Scurra.

— Mors, o que está havendo com ele? – Foi a própria Alice que perguntou aquilo que todos tinham a curiosidade de saber.

Coube ao menino cego, e de cabelos negros explicar.

— Scurra era amigo de seu pai, Alice, o melhor amigo. – disse devagar, entre os gritos do homem a sua frente. – O teatro com qual Scurra sonhou destruiu a amizade dos dois, assim como a sanidade desse homem amaldiçoado.

— Amigos? – ela parecia estar chocada.

— Não se lembra Alice? Deste homem fora das roupas de palhaço? Sem o sorriso malicioso, e sem a loucura? – Mors estimulou-a a pensar. – Ele era como um tio pra você, e mesmo assim lhe fez isso. O melhor amigo de seu pai, desgraçou a sua juventude, e matou seu pai.

Ela estava sem reação, uma visão de um homem de cabelos cor de palha segurando-a no colo apareceu em sua mente. Uma filha morta também.

Ela estava sozinha no mundo, assim como Scurra.

— Sei que você não pode perdoá-lo Alice, Nenhum de nós pode. – Mors aumentou a voz, para caso Scurra conseguisse ouvi-lo. – Este homem destruiu o Down Theater, aquele mesmo teatro que um dia amou. A vida tornou-o louco e sozinho. A loucura o fez criar esse mundo no fundo de seu cérebro afetado. A vida é a maior culpada pela miséria de Scurra. E Scurra é culpado por nossa miséria. – após uma pausa, continuou em tom alto. – Ele privou Alice do mundo real, jogando ela e seu pai dentro deste mundo. Privou-a de um futuro, de uma vida normal. Privou-a mim, do afeto da paternidade, quando matou meus pais no dia da destruição do Down Theater. E errou por me deixar cego, e não morto.

A máscara de Scurra caiu sozinho, e as correntes afrouxaram-no. O homem tinha a cara magra e algumas rugas, nariz cumprido, cabelos cor de palha enrolados e sujos, um chapéu de bobo da corte, que tirou naquele momento. Mostrando a vermelhidão em seus olhos brilhantes, demonstrando o arrependimento de todos seus atos.

A multidão de crianças gritou insultos assim que o homem olhou pra cada uma. Rune parecia a mais brava de todas, chegando a quase bater em Scurra, mas estranhamente, Alice aquela que devia ter mais ódio daquele homem, parou-a.

— Sei que nada que eu faça agora poderá ser algum tipo de desculpa válida para a situação que coloquei todos vocês. – o homem disse, ainda de joelhos, fixando o olhar no chão, sério como nunca esteve.

— Nunca aceitaremos suas desculpas! – gritou Rune. – Você matou-o! Matou Caius!

— E seu melhor amigo, meu pai. – disse Alice. – E todos aqueles que morreram com o Down Theater.

— Todos os guardiões que na verdade eram funcionários... – acrescentou Tommy.

Mais e mais frases julgado Scurra ferveram no verdadeiro palco. Até Mors ser obrigado a cessar aquela cortina de palavras que nada além de ódio poderiam trazer.

— Palavras duras não trazem pessoas de volta a vida. – disse Mors, para seus companheiros. – Assim como desculpas não concertam erros. – disse para Scurra.

Scurra estava lacrimejando quando se arrastou aos pés de Mors, puxando sua roupa.

— Vo-Você está me desculpando?! É isso meu garoto?! – ele puxava cada vez mais, enquanto lágrimas caiam de seus olhos amarelos. – Que tipo de coração bondoso e...

Mors interrompeu-o com um grande soco na cara. Que fez com que Scurra cuspisse uma mistura de saliva, sangue e arrependimento.

— Não peça perdão para mim canalha! – Mors gritou. O que afugentou Scurra para trás. Porém Mors puxou-o nada delicadamente para cima. – Peça para o fantasma de Caius, e de sua irmã! Peça para Wells, aquele que nunca desistiu de você! E peça aquela menina órfã ali! Quem você deveria ter protegido como Tio, e não destruindo toda sua vida!

Scurra tremia, tentando gaguejas alguma coisa.

— Eu... Eu...

— Mas isso não acabou Scurra. – Mors desafiou-o com a mão suja de sangue segurando o colarinho da roupa de palhaço. – Você tem desejos para cumprir!

No momento do fim daquelas palavras Scurra hesitou. Mas os punhos de Mors poderiam falar mais alto.

— Sim eu cumprirei! Farei o que eu posso... – foram as poucas palavras roucas de Scurra.

— Isso mesmo! Fará exatamente tudo para melhorar a condição dessas pessoas que você iludiu, e arruinou a vida! – disse do jeito mais duro que conseguira. – Afinal velho, você tem alguém para deixar orgulhoso.

— Wells... – Scurra parecia ficar ainda mais arrependido com a lembrança de seu antigo melhor amigo.

Alice apareceu do lado de Mors.

— Faça a morte de meu pai valer à pena.

— Eu farei querida! Juro que tentarei! Desculpe-me...

— Nunca irei desculpar você Scurra. – Disse ela, amargamente. – Mas meu pai considerava você como um irmão. E eu considerarei você como um tio.

— Você dará sua vida se for preciso Scurra, dará o seu melhor para fazer com que essa menina tenha uma vida digna da qual você privou, por todos esses anos nesse mundo infernal. Eu mesmo irei garantir isso! – Mors disse, soltando seu colarinho, fazendo o homem cambalear para trás. – Relaxe palhaço, agora você também tem uma vida digna para construir, fora da loucura e do ódio.

Scurra então mirou Mors com um sorrisinho. Não de malícia desta vez. Mas um verdadeiro. Para aquele garoto cego, que o impediu de cometer ainda mais erros. E resgatar sua sanidade fora daquele mundo de ilusões.

O momento foi interrompido com um grande estrondo, um prédio inteiro havia caído no verdadeiro palco, se quebrando em milhões de partes de concreto. As crianças se abaixaram rapidamente. Mas apenas uma pedrinha voou diante eles.

— Mas que diabos? – Se indagou Vincent.

Outro gigantesco objeto caía do infinito. Um dragão morto, separado das asas. Caíram um pouco mais perto do que o edifício. E segundos depois uma arvore chamuscada caíra longe dali.

— Eu tenho um mal pressentimento sobre isso... – Mors disse.

Outro barulho cortou o céu, os objetos estavam caindo mais frequentemente. Desta vez uma mão do colosso caiu próximo a Amy, que caiu para trás pelo impacto.

— O que está acontecendo Mors?! O que são essas coisas?

A cara de Scurra não parecia favorecê-los quando Mors perguntou para o homem.

— Parece que o resto da sua peça... Está se deteriorando.

Mors então compreendeu, após que a peça terminava, geralmente os cenários e os instrumentos eram guardados. Mas no caso daquilo, eles se auto destruíam.

— Você está dizendo que o mundo atrás da cortina está entrando num modo de auto destruição? – perguntou Mors seriamente preocupado.

— Acredito que sim, esse mundo cumpriu sua razão, terminou a peça.

— Você não está interferindo nisso então Scurra? Então isso quer dizer que esse mundo tem vontade própria. – Mors percebeu.

A face dos demais atores entrou em pânico. Quando outro edifício do segundo ato caiu perto da beirada do palco. Alice então perguntou:

— O que isso quer dizer Mors?

O menino adotou uma postura séria. Quando ouvia cada vez mais quedas, coisas gigantescas batendo contra o chão de pedra e água. Perto, outros longes, mas logo alguns desses restos do teatro iriam cair em suas cabeças.

— Isso quer dizer que temos que correr! Agora! – gritou Mors. – Rápido, até o portal!

O que não era de fato animador, o portal estava a metros e metros a frente, e entre eles um campo minado reverso.

Todos os Sete e Scurra começaram a correr. Alice segurava nas mãos de Mors, para guiá-lo até o portal. A salvação parecia muito mais longe.

— Rápido! – apressou Dáhlia. Enquanto ajudava Tommy a correr.

— Estou tentando! – ele disse, com cara de dor a cada passo.

— Mas não está sendo o bastante!

Scurra então chegou atrás dos dois e rapidamente o colocou no ombro.

—Eu o carrego! Vá Dáhlia!

A imensidão negra que separava o mundo atrás da cortina chorou. A chuva caia como restos dos diferentes lugares por quais os garotos percorreram. Uma espécie de medo e nostalgia passava por eles, ao ver tudo que passaram diante seus olhos novamente. Até mesmo a água dos mares e lagos caiam. Uma cachoeira estava no meio do caminho, junto às águas caiam árvores queimadas, terra e também dragões mortos. As crianças tiveram que fazer o contorno, mas não antes que uma onda passasse por eles. O que dificultou os passos de Mors.

Um dragão ainda continuava vivo, e passou perto demais de Rune, mas antes que o mesmo pudesse tentar abocanhá-la, um gigante pedaço de laje caiu em seu pescoço. Levando-o junto com a onda.

Incrível como mesmo no último segundo da peça, ela ainda nos revela surpresas. Nem todos morreram... Pensou Mors.

Ao longe uma das marionetes de Scurra, corria sem rumo. Até que um pilar caiu em cima de seu corpo de metal. E sumiu ali embaixo dos destroços.

As crianças continuaram correndo o máximo que puderam. Pedras e destroços caiam seguidos deles. E agora o próprio palco rachara.

nas extremidades do palco de pedra, ele já se despedaçava rapidamente, enquanto mais coisas caiam.

Mors ouviu o tremor que seguiu aquilo. Fazendo todos cair.

Assim que tocou com o rosto no chão, o mesmo se partia diante sua face, sentiu o vento vindo do vácuo negro embaixo de sim. Uma erosão começou embaixo de seu corpo. O garoto se levantou com dificuldade. Enquanto aquela rachadura crescia rápido.

— Corram se ainda querem viver! – Gritou Mors, quando a mão de Alice o puxou dali, impedindo que o garoto tivesse o mesmo destino que Caius.

O portal agora ficava mais perto.

Outro prédio caiu ao lado deles. Que tiveram que passar com cuidado entre a rachadura que aumentava, e o concreto destruído. Vidros voaram diante suas cabeças.

A saída estava a poucos metros.

Correndo, Rune atravessou primeiro, e desapareceu no véu negro, Vincent logo depois, desviando de uma pedra de médio porte que caiu em cima do portal. Dáhlia exitou, vendo Scurra carregando Tommy sozinho.

— Rápido antes que o portal seja destruído! – gritou Scurra.

Dáhlia então desapareceu no véu, junto com Amy que também atravessou o portal. Scurra jogou Tommy para o outro lado, e voltou para ajudar Alice a guiar Mors. Enquanto o apocalipse surgia no fim do horizonte.

O tamanho do palco havia diminuído em metade de seu tamanho original e a rachadura onde estavam tinha sido transformadas em beirada.

Scurra passou pelo portal. Alice logo atrás, ainda de mãos dadas com Mors, porém a mesma ficou surpresa, quando sua mão não passou.

Mors bateu de frente com o véu do portal, mas nada havia acontecido.

O garoto foi para trás soltando da mão de Alice e avançou contra o portal novamente. Mas nada ocorreu. O barulho das quedas e destroços caindo chegavam mais perto.

— Não...

Scurra e Alice voltaram do portal, Surpresos com o palco que estava cada vez menor.

— Vamos Mors, rápido! Os dois empurraram o garoto porém, o mesmo não passava do véu.

Alice começou a tremer, seu rosto de alivio tinha se transformado em choro.

— Scurra! Oque está acontecendo, porque Mors não consegue passar!?

— Eu- Eu não sei... Eu...

Uma árvore havia caído perto dali suas folhas queimadas passaram pelos três.

— COMO VOCÊ NÃO SABE! TIRE MORS DAQUI! SCURRA... – Alice estava cada vez mais nervosa, e as lagrimas não podiam ser contidas.

—Eu sei. – a resposta veio de Mors. Eu sei, esse mundo tem vontade própria.

— Do que você está falando Mors? Outro truque de Scurra?! – A garota quase avançou no homem. Porém Mors separou-os.

— Scurra, quando você se trancou aqui nesse mundo, não havia saída certo? – Perguntou Mors.

— Si-Sim...

— Apenas quando seu desejo de vingança era forte demais, que o portal surgiu certo?

— Exato, antes eu não tinha conseguido... Passar...

Scurra tinha compreendido.

— NÃO GOSTO DESSAS PALAVRAS! PORQUE MORS NÃO PODE IR CONOSCO?!

— Esse mundo Alice, tem vida própria. Scurra não passou porque estava com vontade de vingança, na verdade, ele não pertencia mais a esse lugar... O teatro reconheceu-me como parte dele.

— Não! Não! O que isso quer dizer?! – Alice abraçou Mors com toda força possível, tentando passá-lo pelo véu do portal. Berrando, enquanto suas lágrimas molhavam a camisa do garoto – Vamos Mors, Vamos por favor.

— Depois de atuar do melhor jeito possível, você Mors, se prendeu a peça... O mundo atrás da cortina não é mais meu, a partir de todo o ato que você completava, mais o mundo começava a se acostumar contigo. Agora então... Você é o dono deste mundo?

Mors negou com a cabeça.

— Me parece agora, que este mundo é meu dono.

— PAREM DE FALAR BESTEIRA! PAREM, VAMOS! VAMOS MORS, VAMOS POR FAVOR! – gritava Alice. Enquanto via o chão se despedaçar cada vez mais.

—Scurra! Já sabe o que fazer. Você vai dedicar sua vida a essa garota. Ou nem esse nem o outro mundo me pararam. Está me ouvindo?!

O homem assentiu com a cabeça.

Mors se saiu do agarrão de Alice. Beijou-a com toda a vontade que tinha. E com a mão em qual a mesma se segurava nele, empurrou-a para o véu.

— Eu te amo!

Scurra deu um ultimo olhar para Mors. O garoto mesmo sem ver pode notar. E então o homem se despediu, atravessando o véu.

O garoto, sozinho no fim do mundo, pegou a espada cortada ao meio que ainda manteve junto a si.

Alice, sei que agora, você terá a verdadeira vida que tiraram de você. Esse último beijo, selará o sentimento que construímos nesse teatro. Eu consegui salvá-los todos, até Scurra de sua própria loucura. Sei que Caius está me esperando no fundo desse infinito negro. Eu não tenho mais arrependimentos. Enfrentarei minha solidão sem fim, isso é meu castigo por matar as pessoas que foram jogadas aqui. Esse meu último ato, garantirá que nenhuma pessoa, nunca mais seja presa nesse inferno. .

Com essas palavras, Mors abençoou o seu movimento. Sua lamina cortou o portal, que se dividiu em dois, e o véu desapareceu. Jogou a espada para o infinito. O chão agora se resumia a apenas a porção embaixo de seus pés.

— Vou levar este mundo junto a mim a o esquecimento, para toda a eternidade.

Com o corpo fraco, o garoto andou para frente, e caiu com os braços abertos, levando consigo o mundo atrás da cortina. Indo de encontro à eternidade.

Notas finais
Muito obrigado!