Notas iniciais
Último capítulo dessa história que mudou minha vida. Muito obrigado pela leitura.

EPÍLOGO.

As coisas que aconteceram depois que o mundo atrás da cortina foi fechado para sempre ocorreram rapidamente, repentinamente, e se posso dizer, estranhamente.

Scurra não tinha poder nenhum além daqueles que haviam sido selados com o fim de sua peça e seu mundo alternativo. Na despedida de Mors, o portal foi destruído e qualquer vestígio daquele mundo fantástico teve o mesmo destino.

Mas então como explicar os acontecimentos que ocorreram em seguida? Talvez o último desejo de Mors, tenha ressoado mais forte que o infinito e seu próprio sacrifício.

Assim que saíram do portal, demorou apenas quarenta e oito horas até que o pai de Tommy reencontrasse o filho no abandonado teatro. O milionário cego, que lembrava tanto Mors para Tommy pela primeira vez, parecia quente, em vez do mar de gelo que sempre foi.

O desaparecimento de seu único filho, e fruto de sua amada. Emergiu no homem uma preocupação forte que apenas a paternidade poderia proporcionar. E desta vez, Tommy também estava feliz de reencontrá-lo.

O garoto, apesar de ter seu pai de volta, não se esqueceu do Down Theater, e com a ajuda de todos, atuou mais uma vez.

Scurra então, ganhou o papel de herói, o renegado ator de teatro, que salvou seis crianças de um sequestrador maníaco, que tinha prendido elas no teatro. Segundo os seis e o próprio Tommy, por ele, talvez estes não estivessem mais vivos. Uma mentira teatral.

O então pai magnata, não tinha como agradecer o homem por todo heroísmo. E então, o velho Scurra não havia completamente morrido:

— Senhor, não há nada no mundo mais reconfortante de ter salvo essas crianças, dá-las o sorriso novamente, é a única recompensa que eu um dia gostaria de ganhar... – Disse o homem olhando para cada uma das crianças, que por um momento pensou que elas poderiam revelar a verdade, e fazê-lo apodrecer na cadeia. Mas por sorte nenhuma delas desmentiu. Então o bobo da corte continuou. – E por isso mesmo, o senhor, como grande empresário que é, poderia ajudar-me a livrar essa cidade de lugares sujos, e abandonados como esse. Que são infelizmente oportunidade pra esse tipo de meliante. Já veio nesse teatro antigamente senhor? Na época de seu real esplendor? Talvez com sua aprovação e apoio. Poderíamos transformar esse velho lugar, num centro cultural novamente, e reestabelecer seu antigo valor. – Concluiu o herói.

E assim o discurso de Scurra deu certo, e não só isso, foi surpreendente o resultado. Em menos de uma semana, o pai de Tommy havia contratado uma eficiente construtora internacional, e livrado o nome do teatro de suas dividas públicas.

E ainda, o presenteou à Scurra, como recompensa por ter salvado seu único filho. Scurra era o diretor do Down Theater. Mas claro, estaria ao lado de Alice, que ia o supervisionar de perto. E garantir que seu pai tenha orgulho do homem, e dela mesma.

O caso ficou conhecido na cidade, estampando todos os jornais da semana. Homem vestido de bobo da corte salva crianças de sequestrador.

E o nome dos antigos atores foram facilmente reconhecidos.

Os pais de Amy, foram buscá-la. E a garota mesmo sentida por deixar seus antigos amigos, e dois deles dentro do portal. Foi presenteada por um cachorro.

Não por seu antigo cachorro perdido, afinal, fazia muito tempo desde seu sumiço. Mas um novo, e mesmo que não substituiria seu antigo amigo canino, era agora um novo amigo e companheiro para a doce menina.

Não muito tempo depois, o irmão de Vincent apareceu. Arrependido pela briga que os dois tiveram no passado, e revelou que havia procurado o irmão desde a mesma. Dinheiro agora era algo menos escasso. Já que o mesmo havia arranjado um emprego bom numa fabrica na cidade vizinha, e tinha até alugado um apartamento. Vincent nunca mais, precisaria viver na rua, e muito menos brigar por isso. Vincent revelou para os atores restantes antes de ir embora com irmão, que teve um sonho, em que o Down Theater iria se reerguer novamente, tão prospero e talvez mais majestoso que o de antigamente.

Rune, a menina havia perdido seu amor, depois de tudo que havia acontecido no mundo atrás da cortina. Nada iria curar aquela ferida. Nem mesmo o reencontro com seus pais, que não demorou pra acontecer. Porém, a menina era jovem, e teria talvez muitos amores para encontrar pela frente. Bom, mas isso não impediu a mesma de pisar no pé de Scurra antes de partir.

Assim como sua antiga amiga, Dáhlia havia perdido seu amor, havia o traído também, e o perdido muito antes para outra garota. Seu desejo nunca iria se realizar, mas antes de voltar para casa. Ela deu um abraço em Scurra, afinal o homem, mesmo feito tudo aquilo, ajudou-a quando estava precisando de consolo. E por último deu um aperto de mão em sua antiga rival, Alice. Afinal, assim como ela, havia perdido Mors. E então não havia mais motivo para guardar rancor.

Depois de todos encontros e reencontros, apenas duas pessoas permaneceram no palco. O bobo da corte, e a filha do líder dos guardiões. Scurra agora, teria de cuidar de Alice como sua própria filha, e fazer o desejo de seu finado amigo realidade. A menina deveria reconhecê-lo como tio, mesmo que não possa perdoá-lo. E os dois juntos seriam a família mais incomum de todas, vivendo num teatro aonde suas vidas e seus passados foram forjados.

Num momento a sós, enquanto comiam na antiga mesa em cima do palco a ser reconstruído. Ela perguntou.

— Até hoje, Scurra não entendi tudo que aconteceu. – admitiu a garota.

Scurra brincou com sua taça de vinho barato. E entre um gole, respondeu.

— Mors não podia passar Alice, foi isso que aconteceu, ele fez do mundo atrás da cortina seu mundo. E o mundo não o deixaria-o ir tão fácil.

— Duvido que tenha sido apenas isso. – ela encarou-o com seus cabelos brancos e olhos azuis. – Você está me escondendo algo.

Scurra não respondeu de primeira. Na verdade demorou quase uma hora, para que o homem cedesse para o olhar seco de Alice.

— A verdade é que sete pessoas podem passar, não mais e não menos. Essa é a capacidade do mundo atrás da cortina.

— Não entendi, você está dizendo que...

— Eu só entrei no mundo, assim que Caius morreu. E você só pôde passar para cá, depois que Mors foi absorvido pelo mundo atrás da cortina.

A menina ficou chocada no mesmo instante. O que a fez tremer, e olhar para o fundo preto, esperando um portal aparecer, para poder buscar Mors. Mas nada poderia acontecer.

— Não! Não é possível! Porque você não me disse isso antes?! – ela gritou.

— Sete entraram, e sete voltaram, independentes de quem fosse. Você acha mesmo que seu pai, forte como era, teria sido derrotado tão facilmente por crianças? Não seja ingênua.

— Você está me dizendo que ele sabia de tudo isso? – Ela perguntou horrorizada.

— Com certeza, ele nunca desejou voltar daquele mundo, porque se ele tentasse, estaria interferindo na vida dos outros. Ele havia premeditado que Mors se sacrificaria para dar a você uma vida digna. E Mors concordou com isso, mesmo você não sabendo.

Ela pensou com raiva no menino cego “Mentindo pra mim desde sempre, Maldito mentiroso... E mesmo assim, nunca parou de se importar comigo... Só o queria aqui, para bater nele por mentir pra mim tão descaradamente, e talvez dar algum beijo nele depois disso.”

— Porém, não se iluda Alice, Mors não iria poder passar de qualquer jeito, mesmo que eu não tivesse passado pra completar o numero sete. O mundo o pertencia.

— Porque tudo tem que ser tão injusto?! Logo com ele... Ele era a única pessoa que realmente merecia sair daquele inferno.

Scurra concordou com a cabeça.

— Sim, nosso salvador o menino cego. Mas o mundo não o merecia.

***

O bip da máquina que demonstrava os sinais vitais soava sem parar. Os médicos finalmente conseguiram recuperar a consciência dela.

Clair acordou desnorteada, com a visão turva, mal enxergava as duas enfermeiras que removiam os tubos de respiração. E mal conseguia mexer o resto do corpo.

Ele finalmente conseguiu o dinheiro, meu doce irmão, ele conseguiu. Eu acreditei até o final que ele conseguiria. E ainda bem, agora tenho a vitalidade suficiente para agradecê-lo. Ela pensou ainda exausta, sua cabeça doía, assim como todo seu pobre corpo frágil.

Uma das enfermeiras ajudo-a a ficar sentada na cama. A garota loira notava que seus cabelos tinham perdido o brilho, opacos, assim como sua vida era desde que chegou a o hospital. Ela procurou com o olhar azul, seu irmão pela sala. Ou até mesmo para janela que vinha do pátio do hospital.

— Está procurando alguém moça? – perguntou uma enfermeira, enquanto separava os soros, numa pia perto da porta.

— Si-sim, meu irmão... Ele não veio me visitar? – Clair perguntou curiosa, o que mais queria no mundo nesse momento era vê-lo.

A enfermeira demorou para responder, esperou organizar os soros e separá-los. Juntos com algumas agulhas, para depois enfim responde-la.

— Ninguém vem visitá-la a mais de três meses minha querida. – Ela então disse.

Clair ficou surpresa com a informação. Aonde seu irmão foi parar? Ele a visitava sempre, três vezes por semana pelo menos. Teria ele se esquecido de sua própria irmã? Mas aquilo era impossível, se seu irmão não fosse mais visitá-la, como estaria pagando a máquina que a mantinha viva? Ao não ser que outra pessoa estava pagando.

— Mas, e o pagamento? Tem certeza? Meu irmão é a única pessoa que tenho no mundo, e ele só saia daqui para trabalhar, não é possível que ele tenha arranjado tanto dinheiro, pra não precisar vir aqui por tantos meses.

— Como seu irmão se chama querida? – a enfermeira perguntou.

— Caius! Ele se chama Caius! Tenho certeza que algo está errado, ele com certeza deve ter vindo aqui mais vezes...

— Desculpa senhorita, mas pelo que consta na ficha. – Disse ela mostrando o papel de visitas. – Ninguém vem lhe visitar a mais de três meses, como eu havia dito antes.

— Como isso é possível... Quem está pagando? – Ela ficou triste e chocada de imediato. Clair fez a pergunta mais para si mesma do que para a enfermeira, porém foi ela que respondeu:

—Um senhor chamado Monfret, doou uma quantia generosa por seu tratamento. O que livrou as dividas de seu irmão, e permitiu que você vivesse. Mesmo não sendo seu irmão, você é uma menina de grande sorte, conhece esse Sr. Monfret?

Clair discordou, nunca havia ouvido falar nesse nome. Seria alguém que o irmão conseguiu para financiar? Mas onde então, seu irmão estava?

Dois dias se passaram, e Clair não precisou de nenhuma máquina pra ajudar na sua respiração, seus pulmões agora estavam se recuperando. E conseguia dar poucos passos pra fora da cama. Mas sem o irmão, ela não poderia ser liberada.

Ninguém teve noticias, nenhuma visita. Ela estava preocupada, talvez o irmão tenha a esquecido, e pensar nessas coisas deixou-a triste. Havia chorado na noite anterior.

Era cedo quando uma enfermeira diferente da última apareceu na porta. Perguntando se ela conseguia se levantar. Clair afirmou, e com isso pôde andar até o refeitório e tomar seu primeiro café fora do quarto.

A mesma enfermeira que a acordou, chamou-a no refeitório.

— Senhorita, uma pessoa veio lhe visitar, os seguranças não o deixaram entrar. Porém ele está no pátio a esperando.

Clair correu, com todas as forças que agora havia recuperado. Correu como se o mundo estivesse acabando nesse exato momento. Rapidamente, estava no pátio do hospital. Porém, para sua decepção, nada encontrou ali.

Ela se acalmou por um instante e percebeu num banco ao seu lado um objeto vermelho. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando reconheceu aquele laço, o laço vermelho que seu irmão lhe dera, quando a garota havia sido internada.

— Estive esperando há muito tempo, pra te ver finalmente com esse laço em seus cabelos. – disse uma voz facilmente reconhecível atrás dela.

***

Scurra estampava um grande sorriso em seu rosto, talvez o que tinha sobrado de sua malícia, o que fez Alice pensar nas coisas horríveis que o homem estaria pensando. Já havia dois meses se passado, desde que a peça de Scurra havia terminado. Mesmo passando todo esse tempo com Scurra, mesmo que sua desconfiança no homem havia sido perdida aos poucos. Às vezes, o vislumbre de sua antiga loucura voltava à tona.

— Porque essa cara, Scurra? Por finalmente o Down Theater estar reformado? – A menina estava impecável, com um vestido preto, que realçava seus cabelos albinos, e sua pele clara. – Ou por finalmente, depois desses anos, uma peça de verdade vai acontecer hoje?

— Ah, minha querida Alice, tudo isso e muito mais. – ele soltou um risinho. Olhando os novos pilares de mármore, as cortinas vermelhas sem rasgo algum, o salão cheio de poltronas cheirosas, e o palco brilhando. – Se Edward Hallf me visse agora, eu, o diretor do Down Theater! Estreando depois de tudo, sua obra “A malevolência”. Tenho certeza que o homem deve estar se revirando no túmulo.

O público chegou rapidamente ao por do sol. A reinauguração do Down Theater era matéria de jornais, conversas na ruas e até televisão. Scurra estava deveras orgulhoso. As barracas de comida na calçada se estendiam até o fim da rua, e algumas se mantinham até do outro lado da rua.

Com as portas fechadas, a banda clássica de frente pro palco, e cortinas fechadas, Scurra o diretor, apareceu. Aonde discursou sobre o teatro, e as obras que já passaram pelo lugar. E por fim disse

— Contemplem agora, A reencarnação do Down Theater, na peça que nunca conseguiu ser feita! A malevolência de Edward Hallf! – e assim, os aplausos seguiram Scurra enquanto o mesmo saia do palco.

As cortinas abriram e o show começou. Ele se juntou à Alice, a cumprimentar algumas pessoas importantes no camarote.

A peça se resolveu diante a orquestra, enquanto um ator interpretava Wornie e sua jornada na grande peça que seguia. As pessoas aplaudiam a cada movimento do carismático protagonista.

Tudo ocorria bem, quando enquanto Alice e Scurra desciam as escadas dos camarotes, a luz acabou. Diante o blackout a plateia reagiu bem, pensando provavelmente que aquilo fazia parte do show. Scurra e Alice correram até um funcionário, perguntando o que diabos havia acontecido. Quando nesse instante a luz voltou. E agora as cortinas havia se fechado novamente.

— Você planejou isso Scurra? – Alice perguntou, não havia se lembrado dessa parte da peça.

O homem negou com a cabeça.

— O que diabos está acontecendo no meu teatro!? – O ex-bobo da corte, agora com roupa de grife e gravata, parecia abandonar agora qualquer cortesia.

Para a surpresa dos dois uma voz ecoou pelo salão. Tão ou mais alta quanto aquelas vindas dos microfones dos atores. Que fez o maestro cessar qualquer trilha sonora.

— Através dos sinos... Atrás do véu...

A voz era familiar para os ouvidos de Scurra e Alice, familiar demais.

— Não, não é possível! – Os olhos de Alice se encheram de lágrimas, enquanto a menina albina corria para subir no palco, com Scurra logo atrás dela. Quando os dois estavam no meio da escada, a cortina novamente abriu. Uma ventania encheu o lugar, com que fez, vários instrumentos da orquestra caírem. O publico aplaudia os efeitos especiais, enganados com a situação. Scurra caiu para trás da escada mas se levantando no mesmo segundo.

Um grande feixe de luz dos holofotes mostrou no centro do palco a figura. Atrás dela. Um portal feito de pedra, onde um véu negro cintilava.

A figura vestia uma roupa de gala, preta e dourada. Com um colete bonito como poucos poderiam ser. Em seu ombro esquerdo um manto vermelho que descia até depois de seus joelhos. Usava botas marrons, brilhantes.

Os cabelos negros facilmente reconhecíveis, eram jogados diante sua máscara. Branca, aonde o recorte lembrava o do senhor das correntes, os dois buracos para os olhos, revelaram olhos negros, cintilantes de tão mortos. A máscara não tinha face alguma, emoção alguma, era só um rosto branco. Era a máscara de Wells.

A figura andou devagar sobre o piso de madeira que era o palco, com todos os olhares em cima dele, o garoto resmungou algo baixinho, cambaleando. Tropeçou no fim do palco e caiu pra frente, em cima da orquestra, derrubando todos os instrumentos, na colisão uma corda de violino soltou desafinada, a percussão bateu uma na outra, e os trompetes pareciam assustados.

Alice correu, como se seu amado fosse ficar para trás novamente, como se essa fosse sua última chance de vê-lo. Ela esbarrou nos músicos, fez um violoncelo cair, derrubou um contrabaixista, quase bateu de frente na harpa, e pulou um músico qualquer que havia caído. Mors estava ali fraco, e ela o colocou em seus braços e o apertou como se ele fosse sua presa, fazendo sua máscara cair, e talvez fosse. Scurra chegou logo depois, fazendo ainda mais bagunça e atrapalhando os músicos atordoados.

A menina arrumou o cabelo do menino, enquanto o abraçou forte, os dois de joelhos.

Seu choro lavou o colete do garoto. Ele disse com um sorriso doce no rosto:

— Sonhar sem você não é a mesma coisa... – ele tossiu. – É uma pena que nunca mais poderei enxergar seu rosto novamente, enquanto você sempre poderá ver o meu. Ele tocou o rosto pálido da garota suavemente, sentindo sua pele. – Quão egoísta.

Seus olhos que nunca mais enxergariam, fecharam-se atordoados e cansados. Nunca se sentiu tão vivo, enquanto respirava suavemente junto de sua amada. A platéia não sabia o que fazer, não dava para interpretar aquela cena, e então apenas timidamente aplaudiram. Afinal o show tinha que continuar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!