Down Theater (Terminado)

20 Capítulo 20: A História de Scurra: Parte Um.


Notas iniciais
Fazia tempo que não postava, eu sei. Esse capítulo é muito grande e trabalhoso. Por isso a demora.
Iria postar ele inteiro, mais aí ficaria muito tempo sem atualização na página.A parte dois ainda não está pronta, mais logo ela será finalizada, e o capítulo mais importante do Down Theater poderá ser lido na integra.

CAPÍTULO VINTE: A HISTÓRIA DE SCURRA: PARTE UM

A infância de Scurra, um simples garoto que morou até ali no subúrbio da cidade. Pouco o menino falava com seus pais, ainda menos com outras pessoas. A falta de cuidado pela paternidade não se dava em conta da irresponsabilidade de seus pais, na verdade o tempo deles era curto. O trabalho exigia demais do Sr. e Sra. Monfret.

E este seria o destino da criança Monfret, Scurra seria um trabalhador comum, tão obcecado pelo trabalho, que nunca teria tempo para seus futuros filhos.

Porém nunca foi isso que o garoto desejou.

O menino tinha altura comum para aquela idade, cerca de dez anos. Tinha aparência também comum, com apenas o rosto um pouco mais longo que os demais. Tinha cabelos cor de palha, mal cortados pela tesoura de papel que seu pai usava, porém tinha os cabelos bem alinhados para o lado, por conta do pente de sua mãe, pente esse, que tinha os dentes curvados na ponta, deixando sempre a parte extrema do cabelo do garoto, um pouco enrolada.

O garoto costumava a brincar no parque do subúrbio, um lugar velho com brinquedos quebrados e abandonados, rodeados pela velha cerca de metal, lotada de buracos. O lugar abandonado não era utilizado mais por crianças, além de Scurra, por causa dos brinquedos quebrados que poderiam facilmente machucar alguma delas. O lugar então foi usado como ferro velho pelos moradores, deixando vários pedaços de automóveis, pneus, materiais enferrujados e outras coisas sem mais nenhum valor.

Scurra brincava de atuar, uma paixão que desenvolveu assistindo filmes de época, e peças de teatro, que sempre passavam no canal local, aonde o teatro regional era estampado com vigor.

O menino deu vários saltos entre os brinquedos quebrados, quase desequilibrando uma ou duas vezes, porém enquanto estava em cima do velho escorregador, uma sombra invadiu o parquinho abandonado.

— Quem se atreve a entrar no meu teatro?! – disse o menino orgulhosamente, escondendo o medo que sentia.

O invasor riu artificialmente. Scurra então notou que a voz do invasor era de uma criança.

— Então este é o seu teatro senhor?

— É meu, não ouviu da primeira vez? – disse Scurra acima do escorregador, tentando visualizar o invasor escondido atrás de o que um dia fora uma balança. – Saía das sombras, ou vá embora!

Então o invasor se mostrou.

— Não foi minha intenção irritá-lo.

O garoto tinha a mesma altura que Scurra, um rosto pálido, cabelos brancos bem penteados. O invasor era albino, Scurra percebeu.

— Você é estranho. – disse Scurra sem remorso.

— Por causa dos meus cabelos brancos? – perguntou o invasor.

— Não... – respondeu o garoto. – Por você estar aqui comigo, este lugar é abandonado, apenas eu venho aqui... E me consideram estranho.

O invasor recebeu aquilo quase como um elogio, era difícil alguém não ligar para as diferenças. Então mudou de assunto:

— O que você estava fazendo? – perguntou o garoto. – Meu nome é Wells.

— Bem Wells, não sei como não percebeu. – o menino de cabelos cor de palha estufou o peito. – Sou um ator, estava atuando. E o senhor invadiu meu palco... Olhe só a estranheza que você causou no publico. – Scurra apontou um monte de ferro velho.

O garoto não estranhou a imaginação fértil do ator de brincadeira. Em vez disso entrou na peça.

— Oh! Desculpe publico! – fez uma reverencia na direção do ferro velho. Depois se virando novamente para Scurra. – Sou um novo ator contratado... Qual teatro é mesmo esse meu companheiro?

— O Down Theater! – respondeu Scurra. – O maior teatro de todo o mundo! Ou pelo menos da região. – sorriu o menino.

— Down Theater... –Wells pareceu pensar um pouco. – não é aquele que passa no canal nove? Ontem eu vi a peça A montanha do Crepúsculo.

- Sim, esse mesmo.– o menino ficou intrigado. – pensei que só eu assistisse o canal nove...

— Bom... Não o único. – riu Wells. – Minha TV só pega dois canais, esse ou o canal treze, onde só passa noticiários.

— Entendo. – um pouco de decepção circulou Scurra, porém aquela era uma chance para uma grande amizade ser formada, talvez a única para alguém como o menino, então convidou Wells – Invasor, o que disse é verdade, é um ator contratado?

— Certamente! – respondeu o menino albino.

— Então bem vindo, isso é, se você esta disposto a vida teatral!

— Você fala engraçado. – riu Wells.

— E você é um invasor, vai aceitar participar da peça ou não? – perguntou Scurra.

— tudo bem. –respondeu

O menino de cabelo cor de palha desceu o escorregador.

— Meu nome é Scurra. – e assim os dois deram um aperto de mão, que selaria sua amizade.

Naquele dia e no próximo, na tardezinha Wells e Scurra se encontravam todos os dias, para atuar nas melhores peças que um dia dois meninos conseguiram participar. Chuva, sol ou neve. Os dois amigos iam todos os dias ao parque abandonado, vislumbrar da fantasia e das brincadeiras estranhas, diante um lugar velho e abandonado. Uma grande amizade havia sido formada.

Os dias se passaram, a amizade entre o ator de brincadeira e o invasor apenas aumentaram. Mas logo suas brincadeiras no parque foram acabadas já que o mesmo havia sido reformado anos depois, tirando toda a graça das peças teatrais que Scurra promovia.

No colégio, Scurra permanecia com um garoto de aparência comum. Com os mesmos cabelos de palha, dessa vez deixada de qualquer jeito, já que sua mãe já não penteava mais seus cabelos, e seu pai não os cortava mais.

Scurra era considerado um menino preservado, aonde na maioria das vezes só conversava com Wells, que havia se tornado um aluno não só exemplar nas notas, mais também nas atitudes, tinha uma relação pacifica com a maioria dos alunos, os quais sempre pediam ajuda para o garoto. No começo, seus cabelos albinos estranhavam os outros adolescentes. Com o tempo, os demais colegas mal percebiam a diferença.

Scurra tinha amadurecido, porém o seu sonho continuava o mesmo.

— Ator. – respondeu ele.

O resto da sala o observou por alguns instantes, trocando comentários entre si. A aula era sobre empregos que os alunos queriam ter. A resposta de todos foi a mais comum para todos, menos para aquele aluno em especial.

— Ator... – pensou o professor surpreso pela resposta. – é uma profissão de fato incomum, acho que ninguém respondeu algo assim.

— Claro professor, é por que o Scurra é retardado. – respondeu um garoto da segunda fileira ao lado da de Scurra.

A sala então riu por um segundo. Scurra, porém não demonstrou sentimento algum.

— Silêncio! – o professor quis retornar no comando. – Não há por que julgar o colega! Cada um tem um sonho diferente e...

— Sonho? – Scurra interrompeu. – Realidade, professor.

O mesmo garoto caçoou imitando a voz de Scurra. O nome do garoto era Carter.

— Desculpe-me, é que ser ator é algo muito raro e difícil... – o professor se corrigiu.

— Impossível. – concluiu Carter. – A peça de teatro da escola não prova absolutamente nada, Scurra não tem capacidade para isso.

— Desculpe-me Carter, se você não tem inteligência mental o suficiente para ser mais do que um simples operário. – respondeu Scurra com veneno.

E os dois se levantaram, ignorando o professor.

— Operário, assim como os seus pais são, Scurra.

— Sim, por que eles não tiveram estudo o suficiente, com você é diferente, você é naturalmente um grande idiota.

Carter se enfureceu rapidamente. Mais antes que alguma agressão tivesse sido trocada, o representante da sala interveio.

— Carter, por favor, o professor planeja continuar dando aula. – Disse Wells, o representante.

O garoto bufou, sentando em sua carteira.

— Nem professor, nem seu amiguinho te protegerão lá fora! – ameaçou Carter.

— Muito bem, assim eu posso quebrar seus dentes sem nenhum incômodo. – jogou de volta Scurra.

Wells, jogou Scurra para o lado.

— Professor, posso falar com o meu colega um instante? – perguntou o garoto albino.

— Ah... Sim, claro.

Os dois foram para o corredor do ginásio. Aonde Wells bufou.

— Você sabe que todos da nossa sala te odeiam não é? – não havia sido uma verdadeira pergunta.

— Metade dos professores da escola, o diretor irresponsável, e aquela faxineira do almoxarifado. – Concluiu Scurra.

— Exatamente, e tudo isso é por causa da sua personalidade forte, que você nunca se intimida a controlar. – As mechas brancas de Wells circularam sua testa, e o olhar paterno que sempre tivera com Scurra brilharam. – Por que você tem que ser tão fechado assim?

Scurra virou-se contra Wells, impedindo que a paternidade que nunca tivera, fosse transmitida pelos olhos de seu amigo. O jovem enrolou uma mecha cor de palha atrás da orelha, como fazia sempre que ficava nervoso.

— Por que eu TENHO que me abrir para pessoas ignorantes? – Ele disse, mais pra ele mesmo do que para seu melhor amigo. – Personalidade forte... Isso é por que eu apenas não tenho medo de ser o que sou? Essas pessoas ignorantes não podem compreender uma mente verdadeiramente humana. São humanos? Essa gente egoísta e fútil? Não me parecem nada mais do que seres descartáveis. O mundo não me compreende, e eu não compreendo, não esse... Não esse mundo dos humanos, ele não faz sentido.

Wells parecia um pouco tocado pelas palavras de seu amigo, já estava acostumado a seus discursos rotineiros. Ele nunca se encaixaria como uma pessoa comum, mas isso seria realmente ruim?

— Scurra, você é meu melhor amigo, você compreende não é? – perguntou Wells

— Sim... Compreende o que? – Scurra confundiu-se entre seus pensamentos.

— Nada – concluiu Wells. – Apenas tente não levar uma surra longe de mim, tudo bem?

Scurra riu. Um pequeno sorriso malicioso, que por vezes Wells via no seu rosto. Talvez um traço do que havia por vir.

— Você quis dizer, não matar ninguém?

Porém, Wells não ouviu a ultima frase de Scurra. Já que tinha voltado para sala. Scurra continuou ali, em seus pensamentos no corredor, até o sinal bater novamente.

Os dias se passaram, Scurra continuava causando problemas que Wells custava para resolver. Mas nada interferiu no julgamento da amizade dos dois. Wells nunca falara que Scurra estava errado, e Scurra compreendia o jeito que Wells tentava ser. Ele sempre buscava o melhor em todas as pessoas, independente do jeito que elas eram. E talvez por isso os dois haviam-se tornado amigos.

Porém o ano acabou. E para a surpresa de Scurra, Wells não havia ido para a festa de formatura, que quase obrigou Scurra a comparecer.

A raiva de Scurra por ter sido deixado sozinho durou pouco. Wells avisou no último momento que estava se mudando para uma cidade industrializada, a centenas de quilômetros dali.

O trem partiria em vinte minutos, e Scurra tinha que atravessar metade da cidade para chegar à estação.

O jovem correu entre as ruas cheias de neblina e garoa. Escorregou uma ou duas vezes. Seu melhor e único amigo, estaria indo embora em poucos segundos, e era a última chance de tentar convencê-lo a ficar.

Scurra num misto de pânico e emoções correu o mais rápido possível, chegando a velha estação cinco minutos antes do horário do trem passar.

Quando chegou lá, porém, nada havia, nem Wells, nem sua família.

O vendedor de bilhetes percebeu o desespero do menino molhado e cansado, olhar para todos os lados, esperando Wells sair de algum lugar.

— Você é amigo da família que estava aqui, meu caro? – perguntou o funcionário.

— Estava...

— Sim, o trem estava previsto para daqui a cinco ou dez minutos, mais se adiantou pela falta de pontos. Sabe como é, a essa hora da noite, poucas estações ficam em funcionamento.

Scurra parecia inconfortável.

— Wells...

— Era o nome do garoto... Loiro? – perguntou o funcionário, percebendo a expressão de Scurra. – Ele parecia tão tenso quanto você, ele também não esperava que o trem tivesse chegado antes. Ele custou para entrar no vagão.

Scurra então socou a placa de preços dos bilhetes.

— Agora estou sozinho.

Era o que Scurra havia pensando naquela época. Mas havia sido fortemente enganado, alguns anos se passaram depois que Wells havia partido.

Scurra conheceu uma linda moça, na qual casou anos mais tarde. Nem sabendo como havia conseguido ter intimidade com a mesma, seus amigos aumentaram.

Arranjou um bom emprego em uma grande fábrica da cidade.

Tudo permanecia incrivelmente bom. Até Wells bater de novo em sua porta.

“Pai, aqui que mora seu amigo?” pergunto a voz suave e delicada de uma menina atrás da porta que Scurra vinha atender. “Sim filha, fique quietinha, ele parece estar vindo”.

Scurra reconheceu a voz suave, um pouco mais grossa. Porém era facilmente reconhecível. Scurra Monfret abriu a porta.

— Scurra! – Wells sorriu a sua porta.

— Wells! – Scurra abraçou seu velho amigo sorrindo.

E então, voltou seu o olhar para a outra pessoa que acompanhava seu amigo. Uma menininha, de cabelos tão albinos quanto os do pai, e um sorriso tão reconfortante quanto o de ver seu amigo novamente.

— Você teve uma filha Wells? Você está brincando!

— Sim, essa aqui é Alice. Alice, esse é o amigo do papai que lhe contei, o nome dele é Scurra, pode chamá-lo de tio.

A garota não conseguiu pronunciar a palavra tio corretamente, porém disse perfeitamente o nome Scurra.

Wells deu uma má olhada para sua filha, achando aquilo rude. Porém Scurra nem notou, deu um grande abraço na menina, carregando ela no colo logo depois.

— Você quer conhecer uma amiguinha Alice? Ela deve ter sua mesma idade. – disse Scurra sorridente, enquanto segurava a criança albina.

— Sim... – a garotinha respondeu envergonhada.

Wells olhou com desconfiança.

— Scurra... você não está me dizendo que...

Uma voz feminina ecoou até a porta. A mulher de Scurra se aproximou.

— Scurra quem é no portão?

— Wells, ele realmente veio Raela! – respondeu Scurra a sua mulher.

— Raela?! – Wells pareceu completamente surpreso. – Você se casou com a Raela? Aquela do ensino médio?

Scurra riu pela surpresa do amigo.

— Eu tive que me virar sem você meu caro. Depois de um tempo que você se foi, voltei para a festa de formatura, e ali estava Raela, tão triste quanto eu. E nos consolamos. E então... Espere! Vamos entrando, que falta de educação minha.

Scurra com Alice no colo, fechou a porta atrás de Wells, que educadamente disse:

— Com licença.

— A sala é por ali Wells.

Wells encontrou uma sala confortável, com dois sofás grandes e acolchoados, e uma lareira. Uma escada a esquerda, aonde levava aos quartos acima.

Wells sentou no sofá, conversando com Raela, sobre como tudo aquilo tinha acontecido. Raela era uma mulher morena, de pele clara e expressão doce.

Scurra deixou Alice com o pai.

— Amor, onde está Jane?

— No quarto, ela ainda está com febre. Vai acordá-la? – perguntou Raela.

— Claro, numa ocasião especial como esta, ela precisa estar aqui. Que tal tirarmos uma foto com nossas garotas Wells?

— Adoraria.

Pouco tempo depois, Scurra voltou com Jane, sua filha. Uma menina de aparência doce como a mãe, e cabelos cor de palha como os do pai. Ela era um ano mais nova que Alice, que tinha quatro anos.

Raela buscou a câmera um pouco antiga que eles tinham. Os dois amigos ficaram um do lado do outro, com suas filhas do outro lado.

O flash passou por seus olhos rapidamente, registrando o momento do reencontro dos velhos amigos. Porém nesse mesmo momento, Jane desmaiou.

Notas finais
Lembrando, a parte dois logo deverá ser postada.