Down Theater (Terminado)
15 Capítulo 15 - A verdade acorrentada
A Verdade Acorrentada
O frio dos dias passados havia se esvaído para longe. Um calor suave reconfortante enchia o ar do teatro. As cortinas vermelhas rasgadas se mexiam calmamente junto à brisa que entrava das frestas entre o telhado. O quarto ato começaria em breve, depois do ato do colosso, depois da serpente, e depois do fogo, o que o quarto ato poderia representar? O jogo de Scurra e Mors seria posto em prática? Apenas o nascer do sol daquela manhã poderia nos dizer. O café da manhã foi dentro dos conformes como sempre. Um sorridente Scurra elogiava a bela manhã, e brincava com sua comida, elogiando o gosto. Todos os outros atores pareciam normais, como todas as manhãs. Caius continuava com sua cara fechada de costume, Vincent alegre, Tommy tímido comendo entre pequenas mordidas. Dáhlia olhava Mors entre poucos intervalos, Rune sentava perto de Caius, puxando conversas que o garoto se limitava em dar respostas curtas, Amy vez ou outra atirava um pedaço de casca de pão em Vincent. Tudo parecia normal. Para Mors, normal até demais. Depois de tudo que passaram todos os riscos de vidas, e promessas impossíveis de Scurra, como é que todos se sentiam confortáveis naquele estranho ambiente destruído? O próprio menino se sentia assim às vezes. Mas agora ele tinha declarado guerra ao objetivo desconhecido de Scurra. E apesar da declaração, nada parecia ter mudado ainda.Esta noite Mors tentou sonhar com Alice no começo, assim como conseguiu umas duas vezes, depois do segundo ato. Mas a partir do terceiro, ele não a encontrava em seus desejos noturnos, nem mesmo uma única vez. E ele sabia o que isso significava. – Você me prometeu que não mataria nenhum guardião a mais! – tinha dito ela em um dos sonhos antigos. Mors se lembrou da ameaça também: – Se você quebrar sua promessa, os guardiões serão o menor de seus problemas. –ela tinha o encarado. – Eu mesmo te enfrentarei. Porém, ele quebrou sua promessa, o terceiro guardião tinha sido morto por Mors, igual os outros dois também haviam sido. E era sempre ele quem os matava, às vezes sem nem ao menos saber pelo que. Ele tinha se tornado um demônio, ele mesmo compreendeu, ele havia enganado friamente Alice, e havia matado três guardiões seguidos, e agora iria matar o próximo... Ou talvez não fosse bem assim. Agora a própria menina que tinha salvado sua vida, estava à espera no mundo atrás da cortina, pronta para tirá-la dele. Ele a enfrentaria, a garota familiar, que sentia uma estranha atração. Ele seria capaz disso? Nem o próprio menino conseguia responder. Scurra armou o palco como de costume, encarregou de tirar a mesa e suas cadeiras, com a ajuda de Dáhlia. A menina que estranhamente andava próxima do homem nada confiável. Mors havia percebido essa aproximação, uma pena ele não ter notado o porquê disso. Não demorou muito para que o palco do Down Theater permanecesse arrumado, quer dizer, sem a mesa. Pois os estilhaços de madeira, papéis queimados e pó, continuavam ali. Scurra se submeteu a dizer: — O belo teatro... – disse com a voz calma. – Nosso grande espetáculo, meus belos atores. Finalmente está chegando ao seu pleno fim. – ele abriu os braços em posição de cruz. – Mas ainda restam dois atos pra isso. Atrás da figura do homem vestido de bobo, entre as cortinas vermelhas rasgadas, e diante ao palco de madeira parcialmente comida e desgastada por cupins, ao fundo negro da parede, Um portal feito de pedras desgastas e entulhos do próprio Down Theater, a porta dimensional se formava lentamente, então o véu negro se estendeu entre seu formato retangular. — Boa sorte meus atores. – disse Scurra deixando a passagem livre, reverenciando-os enquanto passavam para dentro do portal. – Lembrem-se, sintam a peça. Sejam a peça.As palavras de Scurra foram suficientes. Os atores disseram adeus ao velho teatro em seus subconscientes. Principalmente Mors, nunca se sabia quando seria a ultima vez em que se pisara no palco do Down Theater. O Vasto negro encheu os olhos das seis crianças. Para Mors, o seu vasto negro de costume começava a desaparecer entre o véu. As crianças caíram no escuro, indo mais depressa até que caíssem no mundo atrás da cortina. O cheiro do lugar parecia doce, lembrando as flores daquela estação. Aquilo parecia estranhamente familiar para o garoto antes cego. Sua visão começava a voltar, e quando o primeiro raio de luz atravessou sua pupila, sua boca secou instantaneamente. Agarrado a grama verde, o menino não acreditou naquilo. Este lugar, não é possível. Eu... Tentou pensar o garoto, mas suas palavras eram fracas. Quando admirou a construção em sua frente, soube de exato o lugar. Foi aqui, pensou Mors, Aqui que eu sonhava com Alice, nunca tive idéia de que esse lugar existia...As sete crianças estavam num pedaço de terra com grama macia e verde, ao lado direito de Mors, um canteiro de flores, aquelas de que havia recordado o cheiro, aquelas que foram suas companheiras de sonho junto com Alice. Nunca imaginei, Pensou, Que seria nesse lugar, que enfrentarei Alice. Aquele pensamento deixou Mors angustiado. A esquerda do rapaz havia um monte de entulho, eram pilares postos desordenadamente em cima dos outros. Alguns meio quebrados outros com rachaduras significativas.
A sua frente estava ela, a gigante escadaria que Mors se lembrava, e acima de todos seus degraus o templo. — Esse é um dos lugares mais lindos que eu já vi. – disse Amy maravilhada, olhando o templo acima de si. O Templo flutuava sozinho no céu, iluminado pelos raios de sol. A brisa fresca passou por entre Mors, e levantou algumas folhas. E um pensamento rápido passou por sua mente. — Não tivemos tempo de pensar num plano. – Disse Caius empunhando sua lança. – Não acredito que isso será fácil. Então atacaremos todos juntos essa fortificação. Dáhlia carregou o único revolver que levara. Vincent amarrou dois boomerangs, um em cada lado da coxa, para fácil manuseio. Rune, já tinha o Arco a postos, olhando de longe o santuário, a fim de encontrar algum alvo. Amy tinha uma de suas facas já empunhada. Tommy tirou seu machado do chão. Eles não podem encontrá-la, percebeu Mors, Eles iram matá-la se encontrarem-na, não posso deixar isso acontecer. Quando Caius veio ao segundo degrau, Mors o puxou pelo ombro. — Eu irei primeiro. – disse o garoto cego. – Vou checar as fortificações primeiro, e achar o lugar do guardião, lá em cima deve ser um labirinto de salas. Caius pareceu desconfiado, a estrela de palco tinha tomado a linha de frente novamente. Porém as palavras de Scurra permaneceram em sua mente “Deixe-o liderar, deixe-o pensar que vocês não sabem o que ele trama.” — É a garota não é? – perguntou Caius baixinho, quase inadmissível, mas o menino de cabelos loiros teve a certeza que Mors ouvira. — Sim – respondeu Mors baixinho. Enquanto os outros atores murmuravam atrás dos dois. — Vá em frente então. – Caius então sorriu, dando um leve tapa em seu ombro. O menino cego começou a subir a escadaria, depois de alguns minutos o menino ainda estava antes do meio da escada, porém Caius sabia que ele não ouviria daquela distancia. Virou-se para Dáhlia, murmurando baixinho em seu ouvido. — Siga-o. – Disse ele. – Mate a garota se tiver a mínima chance. Assim que chegar até o guardião, uma explosão será nosso sinal. ***Mors seguiu seu caminho andando escada acima, degrau por degrau, acabava de passar da metade da escadaria, e parecia que suas pernas não o agüentavam mais. O menino de cabelos e olhares morenos lembrou-se das escadas do Down Theater, e teve saudade de seus pequenos degraus. Continuou subindo na imensidão, estava os pelo menos oitenta metros acima de seus companheiros no gramado lá em baixo. A visão do Templo gigantesco estava a sua frente, ficando mais clara a cada degrau deixado para trás. Depois de um tempo, o garoto estava em frente ao templo flutuante. Olhando por um segundo a escadaria atrás de si. Uma estranha nevoa tinha a coberto, o que dificultou ver seus amigos lá em baixo. Grandes pilares se erguiam a sua frente, todos absurdamente altos e grossos. Haviam inúmeras esculturas grafadas, lembrando histórias passadas da qual Mors não teve tempo de vislumbrar por mais de um segundo. A sua frente, diante a parede do templo flutuante, estava uma velha porta de metal enferrujado, nem um pouco convidativa. Um grande cadeado dourado estava entre o encontro das duas portas. Mors tirou a espada de suas costas, sua nova espada. A montante que lhe fizera companhia havia sido perdida no terceiro ato. Seu novo armamento era menor e muito mais fino, como um sabre, a lâmina era mais leve, mas nem por isso menos letal. O garoto a movimentou com o braço direito, batendo duas vezes contra o grande cadeado, que tornou a se despedaçar, caindo no chão. O garoto empurrou a grande porta de ferro. Assim entrando no saguão de entrada, o lugar era enorme, e também enormemente vazio, outros vários pilares ficavam aos lados do salão deixando o centro vazio, apenas com um chão de mármore decorado com ouro e ornamentos pintados. Várias figuras estavam ali, mas a principal era uma máscara de teatro. — Então você veio. – A vozsuave e familiar de Alice era inconfundível, ao outro lado do salão estava a garota, com sua armadura branca, uma capa igualmente branca pendurada em seus ombros, um protetor peitoral feito de ouro, ombreiras e joelheiras, além de uma bota marrom claro. Ela estava em todo seu esplendor, linda como Mors sabia que sua amada era. A espada se encontrava em seus punhos, a lâmina virada para baixo. – Eu lhe avisei Mors, avisei-lhe disto! Você matou outro guardião, mesmo prometendo que não iria, você mentiu para mim!A garota tinha seu olhar enfurecido posto nos olhos negros do garoto. Nenhum ruído saiu dele. O menino também com a espada em mãos não fez nada, e tampouco disse. Até sua respiração parecia não fazer som, mesmo com o eco do lugar. Algo devia passar em sua cabeça, pensamentos e perguntas, porém se estava, não o parecia. O silêncio tomou conta. — Se pronuncie mentiroso! – gritou Alice. Porém o menino nada disse. Ela então levantou sua lâmina, apontando na direção do garoto. – Saía do templo! Saía agora, engula suas mentiras e falsas promessas! Eu nunca deveria ter confiado numa pessoa como você. Não se atreva a dar mais nenhum passo, ou o matarei! Assassino! A ultima palavra pareceu ecoar dentre o salão, refletindo o som dentro da cabeça do garoto. Um estranho sorriso malicioso cruzou sua face, gargalhadas histéricas e obscuras ecoaram pelo saguão de entrada. — ASSASSINO?! – A palavra parecia ser divertida para Mors, que ria histericamente. — Sim, assassino você disse! E é exatamente o que eu sou, um mentiroso assassino!A garota pareceu surpresa. — Agora que admite... – ela pensou. – Vá embora, e nunca mais volte a ameaçar esse mundo! O riso de Mors continuava ecoando entre os pilares.- Nada disso minha bela. – ele disse com movimentos doentios e bruscos. As veias de suas mãos saltaram, enquanto brandia a espada ao ar. – Eu cheguei muito longe para voltar atrás agora. Este é o meu destino, e eu enfeitarei-o – O garoto apertou com as duas mãos na espada, apontando para Alice. – Hoje você me dará esta dança minha bela, a dança que decidirá a vida desse espetáculo.A menina surpresa e angustiada pela atitude de Mors apertou sua lâmina. Uma mistura de raiva e dor enchiam as palavras da garota de cabelos loiros quase brancos. — Eu não posso acreditar no que estou ouvindo. – a decepção a fez tremer. – Você... Não importa, você pediu por isso. Com essas palavras a garota branca correu entre a direção de Mors. O menino negro correu para frente, numa colisão de lâminas e assobios de estocadas. Os dois se moviam muito rapidamente, pareciam feixes se deslocando no salão, luzes opostas, o preto e o branco. A colisão foi estrondosa, assim no meio do salão, duas lâminas se chocaram com força imensa, faíscas vermelhas se formavam do ferro contra ferro. — Conseguiu impedir meu ataque. – disse um Mors sorridente, forçando a espada contra a lâmina de Alice, que rebatia quase na mesma intensidade – estou quase impressionado. – admitiu. — Se impressione com isso! – foi seu grito de guerra, retirando a lâmina da cruz, e voando-a de volta contra a direita de Mors. O aço rangeu quando Mors defendeu-se, para a surpresa de Alice. A espada de Mors segurava a lamina de Alice para baixo. Seus rostos se encontraram. O menino se cegou um minuto apenas, vendo o rosto enfurecido de sua amada. Ainda sim tão linda. Alice chutou o peito de Mors, o garoto com sua atenção danificada, havia sido golpeado em cheio. O corpo do garoto recuou metros atrás, com a força do impacto. A menina sem esperar, já vinha de encontro a ele. Mas o garoto havia acordado. Espadas se colidiam em suas frentes, em uma formação cruzada de lâminas e lascas ardentes que rangiam diante o aço. Sem tempo a perder, Mors moveu pela esquerda, a defesa da garota foi imediata. Ele tentou então pegá-la pela direita, duas vezes, voltando à espada do choque. Ela sempre defendia bravamente. Ela está se mostrando uma guerreira incrivelmente forte, ele compreendeu, Depois de todas essas lutas, eu ainda pareço não conseguir superá-la. Estou lutando como se meus ataques diretos tivessem a mesma intensidade da montante. Mors brincou com sua lâmina no ar, depois do segundo choque. Assim sua lâmina se moveu rapidamente contra Alice, que nem ele mesmo pode a ver direito. Apenas viu as faíscas. Ele agora travava um combate rápido, de choques duros, estocadas e movimentos que iam por todo lado.
Alice era tão habilidosa como ele, usando as mesmas estratégias, atacando todas as direções livres, assim que o impulso das lâminas recuava diante a cada batida. Rapidamente. Milhões de movimentos foram feitos entre o salão, graciosos, rápidos e mortais, a dança que o garoto tão esperava se deu muito bem. Porém naquela dança de movimentos e lâminas, ele compreendeu que o primeiro a se distrair levaria o golpe que encerraria a dança. E naquele ritmo tudo era imprevisível. Está na hora de jogar sujo, eu irei abalá-la emocionalmente. Sujo assim como Mors sabia que Scurra ficaria orgulhoso. Porém logo desistira. Num ultimo encontro de laminas, Mors forçou-a pra frente, forçando a garota a defender, e empurrar pra frente, para que sua própria lâmina não fosse jogada contra si. Ela esta cansada, está exausta, triste e com ódio, e ainda sim pode lutar bravamente. Ela está horrível, e mesmo assim por quê? Por que lutar tanto? Isso está machucando-a mais do que a mim. A cada golpe contra minha pessoa, a mente dela parece se revirar. Ele notou então, as lágrimas miseráveis que circulavam seus olhos, seu rosto angustiado. — Por quê?! – perguntou ele. – Por que ainda está lutando? Isso está destruindo-a! Pare com isso, desista! – O garoto não suportava vê-la assim. – Por que Alice!? Pare! — Eu... – ela tentou dizer, enquanto as lagrimas escorriam por sua face doce e pálida. – Eu não posso deixar você matá-lo! – ela gritou. – Por que o último guardião é meu pai! A loucura falsa de Mors desapareceu no instante disso. Ele não podia mais forçá-la a lutar contra ele. Ele não entendia aquele sentimento, de paternidade, e de amor. Era um sentimento que nunca tinha encontrado. Nada parecia igual aquilo, era o mesmo sentimento que o fazia não seguir em frente na dança. O amor, era algo que ele não podia enfrentar, não algo puro assim, algo que ele nunca entendeu antes. Mas agora eu amo, e já não me importo mais com a peça. Eu a machuquei e menti, forcei-a a lutar contra mim, enquanto ela se confundia entre defender o Pai que ama, ou o garoto que tinha conhecido há pouco tempo. Mors soltou sua espada no chão de mármore, a mesma caiu miseravelmente. Enquanto este recuou para trás. — Eu não posso machucá-la mais do que isso. – Disse ele friamente. – Não me importa mais esta peça, não quero matá-lo. – Seus sorrisos maliciosos tinham sumido. – Eu não sabia Alice, eu não tinha intenção. Os pensamentos conflitantes encheram-no. Enquanto Alice desistia de atacá-lo e secava suas lágrimas. O que era tudo aquilo? Como pessoas haviam se estabelecido no Down Theater? Como o pai de Alice era um guardião? Qual o objetivo de Scurra? Todas essas e milhões de outras perguntas circulavam sua mente enfraquecida. Uma estranha luz veio do canto interior do teto, uma escotilha aberta mostrava uma estranha luz. Uma escada de degraus flutuantes saiu da sala iluminada lá em cima, elas se formaram até chegar perto do chão do saguão principal. A escada se formou, com seus degraus, dirigindo do saguão até a sala com a estranha iluminação lá em cima. Alice olhou para o garoto, numa expressão de surpresa. — Meu pai – Ela disse meio sem jeito – Acho que meu pai quer conversar com você. Por alguns segundos Mors fitou a garota, com os olhos sombreados de vermelho, da onde algumas lágrimas escaparam. Ele queria ficar ali e conversar com a garota, mas o chamado do próprio pai dela, e guardião o deixou angustiado. Ele havia vindo matá-lo, em primeiro momento. Seria uma armadilha por ter traído a promessa que fez a Alice, e lá em cima, estava esperando a sua morte?Não havia como saber sem subir. Se fosse sua punição que encontrasse, não iria fraquejar. Ele matou até agora, deveria estar pronto para sua própria morte. Ele deu uma ultima olhada em Alice antes de subir os degraus. Ela olhou para ele de relance, depois virou, enquanto mais lagrimas desciam de seu rosto. Mors caminhou para cima, subindo os degraus, muito menores que os do templo, porém tão majestosos e estranhos quanto o mesmo. Nesse tempo, eliminou o medo, e atiçou a curiosidade. Se fosse morto, gostaria de pelo menos saber o porquê de tudo isso, a razão de Scurra, e do teatro. Porém como o pai de Alice poderia saber disso? Mors subiu o último degrau, para olhar a sala que se encontrava agora. A sala era tão grande quanto o salão de mármore lá embaixo, as paredes pareciam ser feitas do mesmo material, porém mais escura. Uma desordem de objetos empilhados em cima dos outros, estavam em todo o ambiente da sala. Engrenagens, grandes, pequenas, e algumas do mesmo tamanho que um colosso, Todas empilhadas em cima das outras, formando pirâmides turvas, pareciam pilhas frágeis. Mors entrou com cuidado, pois qualquer movimento, e uma dessas pilhas poderiam engolir o pobre menino. Engrenagens de bronze, prata, decoradas, simples, velhas e rachadas, brilhantes. Todos os tipos. Passou por uma gigante, o menino teve que subir nela, para poder ver além das outras pilhas. Percebeu também, inúmeras correntes, ligando as engrenagens, ou simplesmente soltas. Tão diferentes de tamanho e material quanto o resto. O Teto era o mais estranho. Não havia nenhum tipo de luz, ou archotes. A iluminação era meio azulada, e alguns cantos rochas. O céu parecia um grande mapa do universo. Com várias galáxias planetas, e estrelas como pontos brancos. E seria um mapa, se tudo isso não se movimentasse. — Mors. – Chamou uma voz rouca e suave. – Um estranho. Na maior pilha de engrenagens e correntes, que se estendia até quase o teto. Havia um homem em pé, olhando as estrelas e constelações. Mors chegou mais perto devagar. Então começou a escalar o monte, alto, e inclinado. Era maior que os pilares na entrada do templo. Uma queda poderia não matá-lo, mais deixá-lo inconsciente. Logo na metade da montanha de metal, sua perna escorregou, numa engrenagem que caiu pra baixo. O garoto teria caído, se algo não tivesse agarrado seu braço. Uma corrente, agarrou seu braço. Segurando-o. No outro braço, a mão do homem que havia vindo ver, o puxou para cima. Assim a corrente que se movimentava sozinha, lhe deu um empurrãozinho para cima. No topo do monte, ele pode ver o estranho homem, ou guardião. Não sabia direito. O homem usava uma mascara de teatro, sem feição nenhuma, feita de um material branco diferenciado. Mors se lembrava de duas mascaras de teatro, uma com feições tristes, e outras com feições alegres. Mas aquela não representava nenhuma destas. Não representava nada, não tinha expressão nenhuma. Apenas dois buracos para os olhos azuis do homem, que lembrava muito os olhos de Alice. A máscara parecia de algum modo muito presa ao rosto do homem. Por alguns segundos, Mors imaginou que aquele fosse o rosto do homem. O guardião tinha grandes cabelos brancos, parecidos com os da filha. Mas este, tinha alguns fios mais desgastados. Sua roupa era algum tipo de conjunto medieval nobre. Havia a cor roxa, dourada e bege em excesso. Com varias decorações como desenhos. Uma capa preta que se estendia em suas costas, com detalhes dourados. Usava luvas brancas e limpas. E uma bota de couro, com os mesmos detalhes que a roupa. Não se via pele no homem, talvez, apenas a de seu pescoço e nuca, que estavam um pouco escondidos pela mascara branca e cabelos igualmente brancos. O guardião estava centímetros abaixo do teto. Que Mors percebeu que não era um teto, e sim um tipo de mapa, porém, sem fim. Como projeções em cima de suas cabeças. O homem brincou com alguma estrela, e a jogou para o lado, juntando outra aqui e ali. — Então você é o garoto que minha filha andou comentando. – Ele não parecia nervoso, tinha a voz calma e suave, assim como a da filha. Mors pareceu ouvir um pequeno risinho também, escondido entre a máscara. – Mors, seu nome certo? – O Homem não esperou resposta. – Mors, um estranho num mundo estranho. Um garoto familiar a minha filha. O que é um pouco estranho não acha? Comparado com os anos que ela viveu aqui... Quanto passou dos dez anos, eu parei de contar. E por que continuaria?Pouco do discurso do homem fora entendível a Mors. O menino tentou ser educado e dizer algo. — Alice parece ser familiar a mim também senhor... — O senhor das correntes. – Disse ele, deixando os planetas para trás, encarando Mors. – É assim que me chamam aqui. Um estranho apelido, para que não pode mais ter um nome humano. — Desculpe-me. – disse Mors, arrependido de tudo que fizera. – Eu queria encontrar a verdade, saber sobre esse mundo... — Mors, o garoto cego. – interrompeu o Senhor das Correntes. – Mors, o invasor. Mors a estrela de palco. Mors, o verdadeiro significado de Morte para os guardiões. Você matou-lhes, sabia? Matou três, e aqui, está o último guardião, a sua frente, indefeso e inofensivo. Por que decidiu desistir agora? – Os olhos azuis do homem, encontram os negros de Mors. – Pelo sentimento estranho que sente por minha filha. E também as duvidas que circulam sua pobre mente. Da onde a inocência foi arrancada assim, que sua cegueira se foi. Me diga, Mors, o que faz neste mundo? E por que tem matado meus companheiros até aqui?- Um teatro... Um portal, um bobo da corte, desejos prometidos... – ele tentou se lembrar de tudo. – É muita coisa. - Certamente que é – O homem respirou fundo. – Tem a idade de minha filha sabia? E uma vez conheci um garoto com seu mesmo nome, com a mesma idade de minha filha... Porém ele não era cego, então talvez não seja você. – O senhor das correntes, jogou uma de suas luvas fora, mostrando a sua “mão” à Mors. Não era uma mão, mais sim algo formado de correntes, e algumas engrenagens, que simulavam dedos. – Ele não era cego. – Continuou, pondo outra luva no lugar da mão de ferro. – Não era, assim como eu não era essa coisa a sua frente. Assim como eu e minha filha não vivíamos aqui. Assim como aqueles guardiões um dia foram homens. - Eu... Suspeitei que os guardiões tivessem algo de humano. – Mors estava intrigado com as revelações, mais incerto com o que elas queriam de fato dizer. — Claro que suspeitou. Me parece um menino inteligente. Então me diga, por que os vem matando, e o por que veio até aqui hoje.Mors ficou em duvida se poderia confiar no homem. Porém este parecia muito mais sincero e sano do que Scurra. E havia traído sua filha e matado os guardiões, talvez devesse mesmo aquela resposta. — Um homem, chamado Scurra, vestido de bobo da corte. Atitudes idiotas e suspeitas. – respondeu um garoto. – Reuniu eu e mais outros, a fim de realizar seus desejos. Assim que terminasse essa peça. — Matar todos os guardiões? - Sim, senhor. E nos convenceu, dizendo que a morte nos esperava se não concordássemos em fazer isso. – Ele pareceu culpado. – Mas fui eu que os matei, admito. Queria descobrir a verdade, a razão de Scurra. Queria chegar até o fim, e nisso me tornei menos humano, que os guardiões... — Uma peça de teatro, um nome familiar, roupas de bobos da corte. – O senhor das correntes, parecia lembrar-se de algo a muito esquecido. – Isso inclui também um Teatro? - Um abandonado e destruído, difícil chamá-lo de teatro agora. – disse Mors. – Mais sim, como pode saber disso? O homem virou-se para o espaço e planetas em sua cabeça. Com suas mãos, espalhou-os para o lado, fazendo com que alguns tipos de imagens passassem no quadrado vazio que ele havia feito. - Você procura respostas. – ele disse. – Eu acho que posso dá-las. Gostaria de saber toda a verdade sobre o homem vestido de palhaço, e o porquê de estarmos aqui? -Mors concordou. Desconfiado, e surpreso com as imagens que passavam diante sua cabeça. - Vamos dar uma olhada no passado de Scurra.
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