Down Theater (Terminado)

19 Capítulo 19 - Clímax (Atualizado)


Notas iniciais
Eu achei que o capítulo estava muito mais pífio do que deveria, então basicamente o reescrevi diversas vezes. Não sei se está ideal, mas agora pelo menos está mais crível.

CAPÍTULO DEZENOVE: CLÍMAX

Um mundo tão gélido quanto aquela perda se abria entre o horizonte do verdadeiro palco. Um lugar exótico e talvez tão estranho quanto todo o Down Theater. Uma placa de pedra que flutuava ao negro céu. Um véu que encobria o mundo aonde tudo havia acontecido.
A água rasa, parecia fria, tanto quanto uma porção de gelo. Os joelhos de Mors se molhavam entre a água fria, lavando alguma de suas cicatrizes.
Ajoelhado naquele mundo, com uma visão tão abrangente mais ao mesmo tempo tão cega. Cegueira essa que sempre seguiu o garoto, lá no mundo real e até mesmo no mundo atrás da cortina. Enxergava às cores, a luz, as sombras, o dia e a noite. Porém a ilusão do teatro cobriu seus olhos, e quando finalmente pôde voltar a enxergar, tudo já havia acabado.
As lágrimas de Mors se juntavam a inundação do palco, o garoto, ajoelhado, dava socos fortes contra o chão. Sua agonia e dor por perder o único amigo que tivera em toda sua vida. Uma amargura tão grande, e assim descontou-a contra o chão de pedra, até suas mãos começarem a sangrar.
“Caius!” ele gritava. Depois berrando “Por quê?! Por quê?! Caius!” e assim continuava, dando vários golpes ao chão.
O menino louro, e sua lança haviam sido engolidos pelo véu negro daquele lugar, sumindo para sempre. O sorriso funerário de Caius assombrava os olhos de Mors. Ele não merecia ter morrido, assim como o senhor das correntes não merecia.
Agora os dois estavam mortos e Mors estava sozinho para enfrentar Scurra.
Não demorou muito para que uma Rune acabada, roxa e manca, fosse até próximo de Mors. A garota de cabelos enrolados tinha a face inchada, roupas rasgadas e mancava lentamente.
— Mors?! – ela notou o garoto – Você voltou... – notou também suas lágrimas. – O quê aconteceu...
Ao lado de Mors, ela viu um corpo. Este era Tommy com a barriga aberta, com trapos amarrados para fechar o sangramento, foi o único método que Mors encontrou para a situação quase mortal de Tommy. O garoto respirava com dificuldade, e sangue escorria em sua boca.
— O que aconteceu?! – ela disse horrorizada, ela então percebeu que faltava alguém junto a eles, Caius. – Onde está Caius!? – Assim Mors não respondeu diretamente, apenas continuou socando o chão, enquanto gritou “CAIUS... ELE ESTÁ MORTO!” terminando a frase com uma grande pancada ao chão de pedra.
A pupila de Rune quase sumira com a notícia, a mesma começou a tremer. A garota gritou, um grito de terror e medo, mas acima de tudo, um de dor.
— Você... Está mentindo... Você... NÃO! – a garota Caiu de joelhos, fraca. – VOCÊ MATOU-O NÃO FOI?! MATOU-O!
Lágrimas desabaram do rosto da menina, sua tristeza era visível, havia perdido o amado. Mesmo que ele tenha traído-a, mesmo que ele tenha traído todos, e tenha machucado-a, o amor dela era forte por Caius. E agora o menino estava morto.
Os outros atores começaram a se levantar, de sua lástima dor e ferimentos, que o finado Caius lhes deixara. Vincent vinha devagar, segurando um de seus boomerangs, surpreso pela noticia, Amy vinha atrás do garoto. E uma Dáhlia hesitante analisava tudo aquilo, a garota de cabelos negros notou o ferimento de Tommy, e notou também os ferimentos de Mors.
— VOCÊ MATOU CAIUS! – gritava Rune desesperadamente triste.
—Não! – respondeu Dáhlia em sua defesa. – Não vê? Olhe o estado de Tommy, olhe o de Mors, eles lutaram... E Caius traiu a todos nós!
— Você também sua cretina! Traiu todos nós! Como pode sequer falar do... Caius... – Rune parecia sentir um choque ao nome do menino, voltando a chorar.
Mors não olhou para nenhum de seus companheiros. Parou de socar o chão e então disse friamente.
— Amy... Cuide de Tommy...
Assim a garota assentiu com a cabeça e correu para perto do pequeno menino tão pequeno comparado as feridas, encharcado de água e sangue.
— Você também Dáhlia... Você também... — A garota hesitou, tentou dizer alguma coisa, entretanto Mors interrompeu-a secamente. – Escolha seu lado Dáhlia... Já não fez erros o bastante? Ajudá-lo é o mínimo que você pode fazer...
A garota sentiu-se como se tivesse levado um pancada em seu estomago. Mas eu fiz por você Mors... Ela pensou. Mas nada valia agora.
Assim a menina de cabelos negros, foi ajudar Amy. Enquanto Rune chorava sozinha.

Um portal abriu-se no horizonte. Uma porta vinda do além. O verdadeiro culpado por tudo deu-se o vislumbrar da visão de Mors.
Um homem de meia idade, chapéu de bobo da corte, com sininhos barulhentos balançando em cada passo. Em seus braços o homem carregava uma menina. Cabelos brancos, Mors percebeu sua amada, Alice. Scurra havia encontrado-a.
O Homem também carregava seu sorriso maníaco de sempre.
— Ó, o que acharam deste lugar?— não esperou resposta nenhuma, e nenhuma foi dada, além do ódio que os seus atores sentiam ao homem se aproximar. – O Verdadeiro Palco, é o nome que eu dei. Bom não acham? Para terminar de vez o último ato, da última peça que o Down Theater terá em toda grande eternidade.
— Você... – disse Mors com repugnância enquanto se levantava.
O menino notou os olhos assustados de sua amada. Alice.
Scurra pegou uma faca de seu bolso, e imediatamente Mors rugiu.
— NÃO!
Porém, o homem usou-a contra Alice, mais não para matá-la ou machucá-la, mas sim desamarrá-la. E no mesmo instante que as cordas caíram, a garota correu para os braços de Mors, tremendo.
— Parece que um de vocês está faltando... – disse o homem, cabisbaixo.
— Se lamenta por isso, está arrependido? – perguntou Dáhlia, com ódio do homem que a fez trair a Mors e seus companheiros.
O homem riu maniacamente, entre tosse seca e mudanças no tom da voz. E terminou com um sorriso malicioso aos lábios.
— Lamento sim. – disse ele. – Por que era para que todos vocês não estivessem mais aqui. Caius, aquele inútil... fez o trabalho pela metade se matando. E deixou sobrando seis... Além da cria. Ele devia ter executado todos vocês como eu disse!
— Como ousa falar o nome dele?! – Mors encarou-o. – Bastardo!
O homem só pode sorrir de novo.
—Agora crianças, façam-me o favor. Terminem a peça, e cumpram seu destino... Morram todos!
Todos os jovens notaram ali, algo que poderia ter sido visto facilmente antes, Scurra era um mentiroso.
— E o nosso desejo?! – perguntou Amy, a garota mais ingênua ainda insistindo.
Scurra balançou seus sinos.
— Desejos?! – e então riu. – Crianças, vocês não deviam se apegar a coisas tão fantasiosas como desejos... Alias, foi apenas um teatrinho, era encenação, fingimento, atuação, mentira... – o homem continuou ainda. – Vocês acreditam mesmo que uma peça tem valor na realidade? Uma farsa para encantar os olhos tem valor na sociedade? Esse é o mundo em que a cultura não é suportada, eu odeio a realidade tanto quanto vocês, e então olhem diretamente pra ela! Olhe! Não há desejo algum! Mundo cruel dê a eles seus desejos... Ô pobres atores humilhados pela realidade...
Desta vez, Mors veio à frente.
—Tudo faz sentido agora...
Scurra pareceu surpreso.
— Finalmente descobriu o objetivo desde o começo, meu caro?
Os olhos antigamente cegos do garoto olharam os de Scurra com ódio.
— Você nos jogou num campo de batalha, e nos obrigou a lutar até a morte, com pessoas vivas! Você nos fez matar inocentes que você teve medo de enfrentar! E tudo por um desejo infantil! – Rugiu Mors.
— Desejo infantil de vocês, deixo claro. – Scurra retornou – É apenas uma peça, uma grande peça alías.
— Isso nunca foi uma peça, isso é uma carnificina!
— E vocês aceitaram participar dela de bom grado, quero dizer... Com um pouco de ameaça e risco de morte. – sorriu Scurra.
— Você é o demônio!
— EU?! – Scurra riu descontroladamente. E depois estralou o pescoço. — Você foi o demônio, você matou os inocentes, você e somente você, escolheu destruir vidas em troca de um desejo que você nunca sequer teve em mente. – sorriu outra vez
maliciosamente – Eu serei o deus do novo mundo Mors, o mundo em que aquelas pessoas, e o mundo em que você e seus amigos morreram para criar! Um mundo novo e fantástico! Aonde apenas os miseráveis humanos e sua realidade fétida e hipócrita serão destruídos. E é essa a magia da minha peça do Down Theater! e ela nós levará todos para baixo, tão fundo na insana infinidade!
Mors empunhou sua espada, a lâmina parecia compartilhar de sua raiva, em todo ódio que sentia.
— Estou cansado de você palhaço... Eu vou cortar sua maldita garganta! – gritou Mors. – E seu sorriso malicioso virará sangue em sua própria boca!
O garoto atravessou Alice, a garota albina segurou sua mão por um único segundo, antes de o garoto correr com a espada empunhada na direção do bobo da corte.
Mors jogou a espada com toda sua fúria contra o homem sorridente a sua frente.
Quando viu se o ataque tinha funcionado. Sua lâmina se encontrou entre as duas mãos de Scurra, que tinha parado o ataque antes de chegar ao seu peito, tão facilmente e rapidamente que Mors mal tinha notado.
— Perdoe-me Mors... Parar seu esforço assim. – ele falou do jeito mais sarcástico que foi possível. – É que... Ainda falta um pouquinho de atuação para nós... Não me leve a mal, ainda não está tudo pronto pra platéia...Mas espere apenas um instante...
E nesse momento, jogou a espada para o lado. Fazendo Mors e sua lâmina voarem metros, aterrissando bruscamente nas pedras.
—Ah, pronto! Agora estou bem armado. – Disse o homem, que assim como Dáhlia fazia, pegou uma espadas de uma mão, de dentro do portal negro que se fez ao seu lado. – Agora você pode vir Mors! – disse ele, sorrindo.
Mors assim obedeceu, com toda sua ira mostrada em movimentos rápidos. Porém Scurra segurava uma lâmina similares a de Mors. Mors tentou cortá-lo pela direita, foi defendido rapidamente, e a mesma espada já vinha em sua direção. Mors recuou com dificuldade, quase perdendo a vida contra a lâmina de Scurra.
O homem, apesar da idade e aparência, era rápido e habilidoso o suficiente para matar Mors a qualquer momento. Scurra era melhor que ele, e Caius, seria então apenas o senhor das correntes habilidoso o suficiente para derrotá-lo? Jamais saberia, pois este homem, assim como Caius, estava morto. Só havia Mors, só ele e sua espada contra Scurra.
Mor movimentou sua lâmina para cima, tentando alcançar o rosto do homem. Que defendeu no mesmo instante, e assim, com a bainha da espada, deu uma pancada no rosto de Mors, bem onde seu nariz sangrava, da luta contra Caius.
A dor e o sangue, preencheram suas narinas novamente. Mas Mors não podia fraquejar, ele tinha que acabar com o show de uma vez por todas.
O menino aproveitando a distração do golpe. Rodou a bainha em sua mão, tentando acertar o homem.
O bobo espadachim, porém, defendeu novamente, sorrindo.
— Previsível. – disse ele.
— Previsível– Repetiu e indicando com o olhar, Mors mostrou o chapéu de bobo, pro próprio Scurra. Um de seus sininhos havia sido cortado, e assim, o mesmo caiu ao chão tinindo uma única vez.
O homem pareceu surpreso. Talvez julgasse que o garoto mal conseguiria encostar-se a si.
Scurra sorriu, e afastou-se de Mors. Ali estava na mesma posição em que os dois haviam se conhecido. As roupas surradas de bobo seguiram o movimento dos braços abertos do homem. E assim, o verdadeiro palco começou a tremer.
— O que é isso?! – gritou Vincent e Alice no mesmo tempo.
Mors estaria se fazendo a mesma pergunta.
Cordas caíram do véu negro que era o céu. Imensas cordas de aço pretas, junto com estas, fantoches começaram a cair.
Bonecos estes de quase dois metros de altura, feitos de cobre, madeira, ou qualquer metal velho. Humanóides feitos de peças e vigas de metal, e sua aparência lembravam a os de fantoches, seu rosto era diferente em cada um, eles usavam um chapéu de bobo da corte surrado, um pouco mais simples que o dê Scurra. As cordas metálicas lembraram Mors de um show de marionete. Eram centenas de milhares, alinhados como o exercito mais bizarro que Mors havia visto, eles abriam um circulo aonde o garoto e o bobo se encontravam, e havia um espaço aberto para que os outros vissem os dois. A multidão de fantoches ia até parte do horizonte, eram muitos.
Era exatamente isso.
Amy se pronunciou
—São aqueles bonecos que eu vi no fundo da biblioteca de scripts! – ela disse olhando com certo temor. – Não parecia que eram tantos...
— Você sabia disso Amy? – perguntou Dáhlia.
— Então daquela vez que você caiu na biblioteca e não me disse o que tinha visto... – Vincent ligou os pontos
— Exatamente Amy minha fofa, você está correto também Vincent, suas travessuras quase revelaram parte do roteiro.Vocês são muito preguiçosos – disse Scurra, com seus brinquedos atrás de si e ao redor, parados. – Vocês são muito preguiçosos, precisam de ajuda até para morrer, foi uma boa idéia guardar estes camaradas.
As marionetes, tinha rostos redondos, lembrando uma caveira humana. Não havia nenhum tipo de olhos, bocas, ou afins. Apenas pregos e retalhos de metal variados por todo seu rosto e corpo. Era como grandes homens feitos de metal, sem nenhuma expressão.
— Você parece ter estado ocupado fazendo estes... – disse Mors corajosamente. – Mas se esqueceu do todos nós passamos por sua causa? Esqueceu-se o que fizemos pra chegar até aqui?
O homem riu.
— Ouviram isso meus atores reservas? – disse ele se virando para os brinquedos humanóides.
As marionetes emitiram um som estranho.com seus fios amarrados aos corpos, em partes aleatórias. O exército de Scurra passava de algumas centenas ou mais.
— Mors... Saía daí, ficar no meio deles e desse homem não é seguro. – disse Alice, segurando fortemente sua espada. – Nenhum lugar aqui é seguro...
Scurra pareceu se deliciar com a cara de espanto dos atores. Já tão condenados, desde os ferimentos com o último ato.
Quatro pedaços retangulares de madeira caíram do céu, com fios de prata pregados em cada um, era o “controle” das marionetes. Scurra os pegou delicadamente, e os colocou entre os dedos da mão esquerda, enquanto segurava a espada em outra. Os fios eram poucos comparados aos de todos fantoches unidos, mas era por eles que Scura controlava todos os mesmos, e isso tornou-se evidente quando os bonecos antes imóveis, se moveram rapidamente rangendo suas articulações para segurar as armas, com seus estranhos dedos.
Os homens marionetes, avançaram contra Mors. Enquanto Scurra ria.
O menino se moveu sobre eles, com fúria circulando todos seus músculos. O primeiro boneco veio tentando brandir a lâmina curvada em Mors. O garoto se moveu para o lado rapidamente, e assim que o golpe bateu contra o chão, fazendo algumas pedras e poeira subirem, o menino, cortou o braço do seu atacante. O ferro foi partido facilmente. Outro monstro de Scurra correu contra Mors, porem o garoto, usou do mesmo artifício anterior, e quando o golpe em falso atravessou seu lado próximo, o menino brandiu sua lâmina contra a cabeça da marionete, decepando-o e arrancando sua corda.
Eu posso vencê-lo, murmurou para si mesmo, Eu preciso vencê-lo, esse é o meu destino. Toda sua determinação guiava seus golpes habilidosos, e a fúria de seus olhos, a dor em seu coração, culminava na maior força que seguiu suas veias até ali. O destino era derrotar Scurra e vingar a enganação que passara até aquele momento.
Os outros bonecos presos a cordas, recuaram por comando do próprio Scurra. O homem parecia confiante.
—Excelente! Bravo! É por isso que conseguiu ser a peça perfeita no meu jogo– ele disse batendo palmas. – derrotando a maioria dos guardiões, não se sente orgulhoso. Mas você não pode destruir um exercito sozinho pode?
—Sozinho? – interrompeu uma voz suave. Pelos lábios muito bem conhecidos por Mors. – Quem disse que ele está sozinho?
Alice empunhando sua arma veio a frente, ao lado de Mors. Aquilo parecia deliciar Scurra ainda mais.
— Era isso que eu esperava uma atitude. — disse o homem. –A cria e o demônio, são românticos demais para dar certo na realidade. Eu tornei isso realidade, não deviam agradecer de todo seu coraçãozinho?
Mors e Alice pareceram não ligar par ao comentário. Eles iriam morrer, era quase certo, e pensando por um lado, aquilo seria romântico. Até para uma tragédia como aquela.
Mas não morreria antes de Mors cumprir a missão, disso ele teve certeza.
— Mors, seu objetivo é cuidar de Scurra, não foi o que meu pai te deixou? Essa responsabilidade. nós cuidamos desses lixos metálicos.
O menino assentiu com a cabeça, virando seu olhar frio para o homem.
— Este é meu mundo Mors, não há como derrotar-me aqui.
Mors surpreendeu-se com a última cartada de Scurra.
E por um segundo, pensou se aquela seria mesmo uma boa jogada. Este mundo... Não pertence a Scurra, pensou, Não a partir do momento que fomos jogados aqui, uma prova disso é como Dáhlia consegue controlar aqueles portais. Não precisamos ser ensinados a atuar nesse mundo. O roteiro sempre foi nosso também.
E com isso em mente, o garoto excedeu toda sua força de vontade.
Concentrou-se mais, lembrou do discurso que o Senhor das Correntes havia dito “Uma peça de Teatro, nada é sem seus atores. E eles nada são sem uma boa atuação”. Mors focou em uma coisa diferente a partir dali.
Desta Vez, Mors olhou profundamente os olhos pequenos de Scurra.
O vento passou diante Mors enquanto esse o atravessava, seus amigos, companheiros estariam ali lutando para ajudá-lo. Ele só tinha um único dever e de novo, esse era o mais difícil, destruir aquele que criou todo o teatro, todas as mentiras, e tudo pelo que passou. A morte de Caius lhe deu força suprema.
Mors forçou um ataque frontal com Scurra. Esse defendeu plenamente, mesmo segurando a espada com apenas uma mão, enquanto na outra controlava as marionetes.
Mors pisou forte, e levantou a espada, tão forte que a bainha quase rachou. Scurra perdeu o equilíbrio, e cambaleou para trás
— Não me subestime palhaço! – gritou Mors
— Você já se tornou um grande incomodo Mors! – O homem virou bruscamente, tentando acertar o braço do garoto. O mesmo defendeu, suas espadas estavam juntas, se forçando contra a outra, a direita de Mors estava com duas espadas, algum movimento brusco e Scurra quebraria sua defesa, matando-o.
Mors, empurrou-se para o lado, dando uma cambalhota e desferindo um golpe contra a perna direita de Scurra, mas a espada do bobo já estava lá e as duas rangeram.
O homem usou sua espada para desferir um golpe em Mors, que defendeu rapidamente. Mors tentou jogá-la contra seu utilizador, forçando-a para frente. Scurra repeliu a ofensiva, e tentou golpeá-lo rapidamente por cima. Mors defendeu.
E assim, os dois lutavam no meio do verdadeiro palco, utilizando suas espadas da maneira mais rápida e mortal possível, Desviando dos ataques um do outro. Jogando a lâmina um contra o outro, fazendo faíscas subirem
Scurra num último golpe fulminante cortou a espada de Mors ao meio, fazendo os dois pedaços em que foi dividida cair para baixo. O homem riu como nunca.
Mors percebendo as poucas chances que agora tinha, tentou socar o homem. Que segurou seu punho rapidamente. Jogando sua própria espada fora.
— Sua raiva e hesitação te julgam garoto, tem medo de me matar? – perguntou Scurra. – É uma pena.
Mors respondeu com olhos enfurecidos:
— Você está amaldiçoado por tudo que fez homem. Você está destruindo as graças daqueles que realmente se importavam com você.
Mors se livrou da mão de Scurra e desferiu um soco no mesmo braço. O homem respondeu com um chute na canela de Mors que o fez gritar de dor.
—Você fala do Wells? Ele era um traidor miserável.
Mors usou sua outra perna e chutou o peito de Scurra, que cambaleou cuspindo sangue. O garoto aproveitou, e deu uma cabeçada em sua barriga, o que fez o palhaço tossir mais sangue.
— Você é o único miserável aqui!
Scurra usou seu braço esquerdo que controlava as marionetes e bateu com a madeira e os pregos na cabeça de Mors, que caiu para a direita, mas se levantando depois. Sua testa sangrava, com o liquido escarlate escorrendo por sua face.

As marionetes avançaram contra Alice sozinha. A mesma gritou, quando acertou sua espada no primeiro boneco.
—O que diabos estão esperando?! – gritou, golpeando uma marionete nas pernas. –este é seu palco, sua peça, e este lá no céu, é um de seus companheiros lutando contra a mentira em que todos vocês caíram. Então pergunto para vocês uma última vez: Erguerão suas armas uma ultima vez, para lutar por seus desejos?!
Vincent, Amy, Rune, Dáhlia e até o fraco Tommy se entreolharam.
— Por Caius! – gritou Rune.
E os cinco atores correram com suas armas contra o exercito que tinham a frente, e corriam contra a mentira que quase morreram para sustentar. Era a hora de decidir seu próprio destino, e acabar com a peça de mentiras de uma vez por todas.
Dáhlia rapidamente, recompôs todos seus sentimentos, deixou de lado a diferença entre ela e Alice, para lutar lado a lado contra o inimigo em comum. A garota mais determinada do que nunca disse:
— Afastem-se!
Assim os outros atores, seguiram para trás da menina, enquanto as marionetes vinham correndo contra Dáhlia. O chão tremeu, e junto com ele, os portais de Dáhlia apareceram atrás de si, uma quantidade tão grande como a que usou no terceiro ato. Então a menina morena de aparência e atitude adulta, apontou seus braços para frente e mais uma vez gritou “Fogo!”.
A artilharia respondeu perfeitamente, e no mesmo segundo, milhões de tiros, mísseis, granadas e afins, foram jorrados contra o inimigo.
Os feixes acertaram as marionetes de ferro, fazendo seus retalhos explodirem ao céu, fazendo uma chuva de fogo e explosões, que culminaram numa destruição de boa parte dos bonecos de Scurra.
Porém havia centenas deles, e assim Alice decidiu avançar. Os outros a seguiram.
Menos o machucado Tommy, que permaneceu ao lado de Dáhlia, com o machado ao seu lado.
— São tantos... – disse Dáhlia.
— Pelo menos uma vez nessa peça, devemos ser úteis para Mors – disse o menino ao seu lado. – Já está na hora desse mundo de intrigas ser apagado.

Alice e Amy avançaram de frente para o exército de marionetes. As duas eram incrivelmente ágeis, e como num show de acrobacias desviavam de golpes fulminantes dos monstros humanóides, que vinham de todos os lados.
Pulando, desviando, e subindo nos próprios inimigos. Alice enterrou sua espada em suas cabeças, depois pulando diretamente para o torso de outro, cortou seu tórax ao meio, derrubando-o consigo.
Amy atirava suas facas de arremesso, em inimigos, que depois de terem seus corpos metálicos furados por várias facas, caiam em direções variadas, derrubando assim outros. A menina correu por baixo das pernas de alguns, o que era fácil para alguém do tamanho dela. Suas adagas perfuraram as pernas de alguns, fazendo-os cair. Um notou sua presença, e assim tentou chutá-la, porém neste momento a menina desviou para a direita, e cortou o membro do fantoche.
Vincent corria em meio aos inimigos. Vários perceberam a agitação do menino, e cercaram-no, nesse momento, Vincent usou seu artifício. Tirou quatro boomerangs, que estavam pendurados em suas calças. As armas tinham lâminas que se auto acionavam no momento da colisão com alguma coisa. O garoto de pele parda jogou cada um para uma direção diferente, as armas voaram rapidamente, já atingindo inimigos nas partes da cabeça, ou torso.
Os restantes foram na direção do menino, não esperando que a arma do menino voltasse contra eles. E assim, quando menos esperavam, os boomerangs voltaram, derrubando um bando de fantoches desmembrados.
Rune corria entre os inimigos, atirando chuvas inteiras de flechas. A garota levava menos de segundos para literalmente pintar um inimigo de flechas bem colocadas.
Desmembrando a maioria.

Mors e Scurra lutavam agora sem armas, apenas com seus músculos. Mano a mano, soco a soco, golpe a golpe. Incrivelmente a batalha grosseira e seca era mais selvagem que a dança de lâminas, só se escutava as pancadas na pele.
— É incrível que ainda consegue se manter em pé garoto. – Disse Scurra depois de dar uma cotovelada na barriga de Mors. – Você merece o papel.
Mors cuspiu na cara de Scurra, fazendo o homem se distrair.
— Quebre a perna, canalha!
O garoto desferiu uma joelhada no lado direito da barriga do homem, fazendo-o abaixar, Mors deu-lhe um soco no queixo, que o fez levantar novamente, o homem respondeu com um chute no ombro do menino, o mesmo então jogou a perna de volta para o bobo da corte e então segurou fortemente a cabeça do homem, colocando sua perna esquerda no antebraço também esquerdo, o braço em que o homem segurava o controle.
— OQUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?! – Scurra gritou enquanto sangue saia da lateral de sua boca.
Mors segurou com a outra mão, os fios de metal que subiam ao céu.
— EU ESTOU CORTANDO OS FIOS QUE TE PRENDEM AO SEU ÓDIO! – respondeu, com uma mão apoiada na cabeça de Scurra, outra segurando os fios, e sua perna apoiada no antebraço do homem. – à suas ordens.
— NÃO! – gritou o homem com dificuldade, tentando empurrar o garoto.
— Era o que eu queria ouvir! – Assim, Mors deu total impulso em sua perna, puxando fios metálicos, assim que foi para trás, os fios também o seguiram se partindo, enquanto Scurra berrava.
Assim que caiu no chão, Mors percebeu que o estrondo foi muito maior, olhou ao redor e viu as marionetes de Scurra, virarem apenas pedaços de metal, caindo como se nunca tivessem tido vida, um por um aos montes. Formando um circulo de destroços ao redor dos dois.
— MALDITO SEJA!
Antes que pudesse se vangloriar pelo que fizera a mão de Scurra então foi de contra ao pescoço de Mors, começando a forçá-lo duramente, enquanto o levantava no ar. Mors tentava respirar, em vão. O homem então sorriu, e disse em seu ouvido.
— Quer saber Mors? – disse ele baixinho.— Como é que você ficou cego?
Com a outra mão, Scurra aproximou dois dedos dos dois olhos do garoto. Mal havia entrado em seus olhos, e Mors já sentira a dor que tomava conta de si. Com seu pescoço sendo esmagado pela força impressionante de Scurra.
Aqui estou, pensou, No meu último sopro de vida. Sem ajuda, de frente ao meu destino. Tentei enfrentá-lo, porém falhei. E agora na hora em que as luz estão saindo de meus olhos... Percebo que na verdade nunca quis morrer. Então Mors lembrou-se da frase do Senhor das Correntes “Nós só precisamos fazê-lo lembrar de seu passado”.
— Por que não me diz umas últimas palavras Mors? Antes de eu cegá-lo como fiz a anos atrás. –
Disse o homem com os dedos à frente de Mors.
—Scurra. Você é a criatura mais miserável que já encontrei, não há esperança em você, não há graça, ou esperança. Você matou tudo que um dia podia te fazer humano, e se transformou em ódio e insanidade. Você é digno de pena. –disse Mors, quando os dedos de Scurra tocaram seus olhos, num feixe roxo vindo dos dedos curvados do homem. Sangue jorrou de seus dois olhos. Ele estava cego novamente, e assim caiu miseravelmente. Ele houve a voz de Alice ecoando pelo verdadeiro palco, a amada que nunca mais veria.
Scurra riu.
— Miserável eu? Olha como você está no chão. Fraco, sem esperanças e cego pra sempre, mesmo neste mundo... Parece que a fantasia não é tão grata a você não é mesmo?
Um eco maior que os gritos de Alice ecoaram por todo o véu negro, um que mor reconhecera. O cheiro de metal envelhecido foi reconhecido.
Diante Scurra, vários vazios negros flutuavam, era a mesma técnica de Dáhlia, a invocação de armas pelo camarim. Mas comparado com a técnica de Dáhlia era assustador. Os círculos negros se entendiam até o céu, aonde a visão não chegava mais. Eram centenas, muitas centenas, milhares de armas apontadas todas para Mors. Era mais do que um exercito de qualquer nação poderia ter, o suficiente para destruir uma bairro inteiro em apenas um tiro, era esse o verdadeiro poder de Scurra.
— Está ouvindo as armas se carregarem Mors? E ainda há mais, está a todo seu redor, ao redor de todo esse verdadeiro palco. Assim que eu ordenar, você, Alice e todos os outros morreram, e não sobrará nada de vocês ou de suas memórias. – Scurra sorriu – Você não pode ver meu caro, mas há uma linda escopeta encostada na cabeça da garota que você ama. Pode sentir o medo dela? – Uma arma qualquer atirou ao nada, e Alice gritou em desespero, não tinha acertado ela, mas o medo foi suficiente para a fazer ela cair de joelhos.
Mors derrotado, desistente e fraco, não pôde ignorar aquilo. Era a garota que amava, era as pessoas com quem convivera, e era a vida de todos indo embora.
— Você conseguiu seu objetivo, Scurra. Mate-me e deixe-os ir, você já causou tragédias o suficiente, pra todos eles!
Scurra sorriu.
— Essa é a sua punição meu ator, por ter destruído todos os guardiões. Vou primeiro matar a cria, e depois você vai ouvir um por um os tiros que sacrificaram seus amigos.

Surgindo do véu negro, um último ato do senhor das correntes obedeceu Mors.
Várias correntes caíram , de tamanhos distintos, uma gigantesca ricocheteou nas armas flutuantes de Scurra derrubando-as.
— CORRENTES?! – Scurra havia se desesperado. – IMPOSSIVEL!
Mais correntes caiam do céu, destruindo as armas de Scurra uma a uma. Estas disparavam contra, mas havia várias correntes. Explosões encheram os céus, Mors ouviu com firmeza cada uma, cada corrente quebrando espingardas, metralhadoras e afins.
As correntes caiam mais e mais, e logo nenhuma arma de Scurra estava ali para defendê-lo. Os destroços caiam por toda parte.
— MALDITO! – Scurra percebeu que Wells não estava ali e avançou contra Mors, mas então uma corrente puxou sua perna, como se tivesse vida própria.- SAIAM DAQUI. FIQUEM LONGE!
Todas correntes então se arrastaram até o homem circulando os membros de Scurra. Várias correntes prendiam Scurra, que tentava tirá-las, sem nenhum resultado. As serpentes de metal entrelaçado se estendiam por todo corpo do homem que se debatia.
Mors ouviu, diante seus pés, um objeto cair, o menino pegou e apalpou com seu tato. E no mesmo momento descobriu o que era: A máscara sem expressão alguma, que o Senhor das Correntes utilizava.
— NÃO! – gritou Scurra com toda sua sanidade, tentando a todo custo sair das correntes. – NÃO! TIRE ISSO DE PERTO DE MIM! NÃO FAÇA ISSO! PARE!
Mors levantou-se e chegou mais perto do homem que se contorcia entre as correntes do pai de Alice. O menino notou que os outros atores circulavam os dois. Salvos das armas flutuantes e vitoriosos contra as marionetes de Scurra, totalmente intrigados com aquilo.
—NÃO! NÃO!
Gritou Scurra. Então Mors disse baixinho em sua orelha, perto de um de seus sininhos.
Assim, o menino pôs com toda a força a máscara na cara de Scurra. Enquanto o mesmo se contorcia entre as correntes.
Scurra gritou de Terror com a máscara em sua face. Então Mors disse baixinho em sua orelha, perto de um de seus sininhos:
— Esse é o fim de sua peça ridícula. O julgamento te espera no seu próprio passado, cortesia de Wells Sarun, o senhor das correntes. Espero que tenha um bom show.