Down Theater (Terminado)
14 Capítulo 14 - Checkmate
Checkmate A manhã que cede a noite gélida. O nascer do sol depois do escuro congelante. E foi assim que aquela manhã se pareceu. Mesmo que a temperatura tivesse aumentado consideravelmente, o frio ainda não tinha deixado os corpos dos novos habitantes do velho Down Theater sozinhos.
Após o banquete no café da manhã Scurra andou sem rumo em todo o teatro. Era a primeira vez que todos viam Scurra sem seu típico chapéu de bobo da corte. O mesmo também se sentia incomodado com a falta de seu acessório. O homem parecia muito diferente sem o chapéu, ele com seus cabelos enrolados a mostra, oleosos e mal cuidados, porém ele parecia mais comum e menos doido. Mas a insanidade sempre permanecia em seu sorriso, e em seus olhos pequenos cheios de rugas. Desistindo de procurar seu chapéu em todos os lugares do teatro. Scurra derrota se dirigiu até sua sala. A porta estava estranhamente aberta, Scurra quase nunca esquecia a mesma aberta. O quarto estava escuro, com a janela que ficava atrás da mesa tampada pela cortina. O homem acendeu a luz. — Bem vindo Scurra. – disse a voz familiar. – Estava esperando sua chegada.Então Scurra achou seu chapéu. O menino de olhos mortos, pele pálida e cabelos negros permaneciam sentado na cadeira do homem, com um chapéu de bobo da corte em sua cabeça. O menino fitava o nada, enxergando escuro. Porém o sorriso malicioso de Mors cintilava em seu rosto. Scurra ficou surpreso de imediato, porém, analisando a situação, o homem sentou na cadeira rangente que tinha a frente da mesa. — Lembro de este chapéu ser meu – Scurra disse malicioso. — Ah é? – Mors continuava, com seu sorriso, com um ar muito familiar do próprio Scurra. – estranho... Ele parece estar em minha cabeça. Scurra se pois a gargalhar maniacamente. Mors seguiu-o ainda mais forte. O menino cego parecia mais insano e doentio que o próprio bobo da corte, e os dois sabiam o que isso significava. — O que planeja meu caro? – brincou Scurra. – assumir a peça? Mors riu. — Claro que não meu caro. – ele continuava sorrindo, porém sua voz e olhares eram frios. – Estou assumindo outra peça.As sombracelhas de Scurra curvaram-se para cima. Se deliciando aquela estranha situação. Os dois se encaram friamente, porém com seus sorrisos maliciosos competindo entre si. O frio da disputa circulava toda a sala, deixando sua temperatura abaixo de zero. — O que você quis dizer com isso, meu pequeno ator? devo lembrá-lo que apenas uma peça pode acontecer por vez, e infelizmente eu dirijo essa. – disse Scurra. — O palco é grande Scurra. – respondeu o garoto. – Só precisamos observar, se será grande o bastante para nós dois. O vento fez as cortinas se afastarem, fazendo com que o raio solar vindo do beco ao lado iluminasse o canto da sala empoeirada. — Você parece com certeza um bom diretor, Mors. – Scurra entendia aonde o menino iria chegar. — Ah, você é um melhor, com certeza melhor. – Rebateu Mors. – Você faz seus atores trabalharem com sucesso, e ainda consegue esconder toda a trama nas mangas. – Mors forçou o sorriso. – Você é melhor... por enquanto.Scurra se perdeu em pensamentos por um instante. Mors havia o posto em cheque. — Então você quer jogar? – perguntou Scurra. — Isso é um desafio? – retrucou Mors. — Desafio é quando se há chances de ganhar meu caro. Mors riu. — Então já sabe de sua derrota iminente? Mors podia ter posto a peça do homem sobre pressão, mas não compreendia os motivos de Scurra ainda, esse era o objetivo da vitória do jogo que o menino estava propondo. Seria arriscado demais jogar sem essa informação. Scurra entendia isso muito bem, sabia que tinha um jogador hábil desafiando, mas a sorte estava no seu lado do baralho. — Qual é seu objetivo Mors? – perguntou o homem. – Acha mesmo que por um chapéu em sua cabeça o fará um jogador melhor que eu? – O homem deixou o menino quieto. – A verdadeira cartada está em meu olhar, meu caro, e não em meu chapéu. E infelizmente você não tem olhar nenhum. – assim terminou num sorriso. O fogo cresceu no olhar de Mors. Scurra via-o, o menino estava se apresentando uma real ameaça a seu grande espetáculo. Já imaginava o que o menino queria com isso, porém o mesmo respondeu. — Eu vou terminar sua peça como um ator. – O menino fez os sininhos balançarem e tinirem no ar. – E até o final do último ato, irei desmascará-lo. Não morrerei em sua peça até esse momento, você errou em achar que eu era apenas mais um peão pra seu objetivo final, palhaço, eu estou aos poucos descobrindo o seu real objetivo. E quando eu o fizer, sua peça terá terminada. – O menino sorriu, e então vasculhou seu bolso, e retirou uma foto. A foto era a mesma que Scurra guardava em sua gaveta, Mors tinha roubado mais do que o chapéu do homem, ele tinha roubado um movimento, que poderia conduzi-lo a vitória da partida. Mors nunca viu a imagem da foto, porém após a noite na fogueira, ele tinha perguntado a Amy o que a menina via. Ele havia escolhido a mais inocente dos peões, e assim sabia que isso deixaria-o livre de Scurra. “Dois homens” a menina disse, “Dois homens e duas meninas, parecem ser filhas de cada um”.
O menino cego não sabia o que aquilo significava ainda. Mas ele conseguiu notar a grande surpresa de Scurra, e assim sábia que havia feito um belíssimo movimento para descobrir toda a verdade. Mors levantou-se de sua cadeira, e se dirigiu a porta. Antes de sair tirou o objeto de sua cabeça e atirou o chapéu de bobo ao chão. — É melhor você começar a mexer suas peças, Scurra. – o menino alertou-o.– Ou então vencerei esse jogo sem nenhuma dificuldade. Xeque.A porta atrás de Scurra bateu fortemente, deixando-o só, com a foto em cima da mesa, e seu chapéu jogado ao chão. — Uma simples menina causou tudo isso. Só poderia ser mesmo A Cria. – Disse o homem, sozinho a si mesmo. – Envenenou meu ator, e agora a peça está ameaçada por esta falha no roteiro. – O sorriso voltou ao seu rosto. Uma risada maníaca circulou sua sala. – Mas não há problema, não há. A verdadeira peça está se movendo sozinha. Isso está se tornando terrivelmente mais interessante do que deveria. Fiz bem em escolher Mors. Porém o meu grande astro, pode não gostar de seu desfecho. Um grande tempo se passou até Scurra se retirar de novo de sua sala, e quando o fez, parecia inabalado, com seu chapéu na cabeça e brincadeiras infantis, como sempre fazia. Serviu-se assim o banquete de almoço no centro do palco. Mors e o homem encontraram-se de novo, os dois na cadeira oposta da mesa. O Banquete se encerrou, assim, Scurra voltou-se a sua sala, porém não sozinho. O circulo se fechava sobre Scurra, o homem previu isso desde o começo da peça. E seu trunfo contra Mors está na informação de que, ele já sabia do encontro do garoto com Alice. E agora só tinha que movimentar os peões e assim o fez. Dáhlia estava em sua sala, em pé. Scurra sentou em seu trono de diretor, que antes tinha sido roubado por Mors. Assim o homem já sabia qual peça iria movimentar, e seria duas de uma só vez. — Dáhlia – ele disse – Traga Caius até mim. Dáhlia hesitou por um instante, estranhando aquelas palavras. — Scurra... Trazer Caius? — Exatamente, faça isso sem que Mors perceba. – O tinir de sinos de seu chapéu fizeram de sua palavra um ato a cumprir. Poucos minutos depois Dáhlia trouxe Caius, o menino protestava até chegar na sala de Scurra. Porém a insistência de Dáhlia era enorme, a menina havia se tornado um peça no tabuleiro de Scurra, e assim Caius foi derrotado. — Diga logo o que quer, estava treinando. – Disse o menino loiro com sua brutalidade de sempre. — Feche a porta – pediu Scurra. E assim Dáhlia o fez. A sobrancelha de Caius curvou-se em desconfiança. O homem sorriu. — Estava escondendo algo de vocês até agora. Porém a situação se complicou a partir do momento em que vocês encontraram a garota desconhecida atrás do portal... Caius virou seu olhar para Dáhlia em fúria. — Você... – ele disse vorazmente. – Você contou sobre a menina! — Eu... Eu... Você realmente confia nessa garota?! – tentou se defender Dáhlia. — Confio mais do que em você! – Caius parecia irritado. – Você traiu Mors! Por que?! A menina tentou se defender mais desta vez as palavras não saíram de sua boca. A pele da menina tomou uma cor avermelhada. — Você o ama não é? – Descobriu Caius. – Dá pra perceber só de olhar de longe, não sei como o próprio Mors não percebeu ainda. E mesmo assim, por um simples ciúmes idiota, você traiu-o! — E você, seu grande idiota! Fica iludindo a pobre Rune! – ela retrucou. — Rune? Você está louca mulher? — Você sabe muito do bem do que falo Caius! – Dáhlia respondeu no mesmo tom – Você percebeu como ela te olha, e o quanto vocês ficam juntos! Caius calou-se, murmurando baixo pra si mesmo “traidora”. Scurra interrompeu. — Vocês não têm tempo para brigarem. – o homem tomou o controle da conversa. – O que quero lhe falar Caius, é que só posso realizar um único desejo. O menino se enraiveceu-se ainda mais. — Você! Seu velho mentiroso do inferno! Você estava nos enganando esse tempo todo! – o garoto de um chute na mesa de Scurra, fazendo sair do lugar. – Sabia que não devíamos confiar em você, eu e Mors sabíamos! Scurra não se intimidou.Mexeu em sua gaveta, e tirou um pequeno e macio objeto, um laço vermelho. Entregando-o na mão de Caius. — Isso... Isso é... Dela... Ela. – Caius não encontrou palavras, apenas tremia, olhando firmemente ao laço em sua mão. — Só posso realiza um desejo, Caius. E estou pensando em realizar o seu. – Continuou o palhaço. – O mais nobre de todos os outros, salvar sua irmã que permanece em coma no hospital. Coitada, as máquinas que mantêm ela viva são caras, um preço muito elevado, e talvez mesmo que você consiga o dinheiro... — Eu não deveria estar aqui... – Lágrimas atravessavam o rosto do menino loiro na escuridão do quarto, enquanto o mesmo fitava o laço. – Eu devia estar tentando arranjar o dinheiro... eu — eu... Não deveria estar aqui... -... E talvez mesmo que você consiga o dinheiro, o estado dela é crítico. – O homem vestido de bobo, pôs a mão no ombro do garoto. – Eu estou decidido a salvá-la e realizar seu desejo Caius... Porém você terá que trair Mors. — Você está louco, trair Mors? – perguntou Caius, ainda chorando. — E não só ele, todos os outros. É apenas um desejo para sete pessoas. – disse Dáhlia. — Do que você está falando Dáhlia, e o seu desejo?! – perguntou Caius. — O único desejo de Dáhlia é apenas ter uma chance com nosso astro cego. – respondeu Scurra. – E para isso, precisamos também eliminar uma certa personagem fora do roteiro.- Vocês! – Caius engoliu o choro, ainda segurando fortemente o laço de sua irmã. – Eu não posso trair Mors! Ele é meu melhor amigo! — Mas você precisa. Ou então seu desejo será perdido pelo dele. — Ele não tem desejo nenhum! — Ah! Ele pode não ter tido. – Scurra disse friamente. – Mas depois que encontrou a menina, ele tem posso garantir. Por que então, ele sempre se mantém na linha de frente das batalhas, você acha que ele se arrisca por seus desejos? — Igual ele fez de novo no terceiro ato, Caius, Mesmo quando você estava liderando o ataque. – acrescentou Dáhlia. Caius lembrou-se do ato em fogo. Aonde ao fim, mesmo com seus esforços o menino cego matou o guardião sozinho. — Eu só posso conceder um único desejo. – continuou Scurra. — E Mors descobriu isso, por essa razão ele se mantém na linha de frente. Ele não arrisca a vida por vocês, claro que não. Ele quer brilhar. E por isso passará por cima de todos vocês para conseguir isso. — Isso não é possível, não acredito em você seu palhaço mentiroso! – gritou Caius. — Acreditando ou não meu caro. Eu sou seu último recurso para salvar sua irmã. – Scurra envenenava a mente de Caius. — Você quer mesmo trocar sua amada irmã, por um garoto que fingiu ser seu amigo, e que está pronto pra te trair? A postura de Caius tinha mudado, o menino pensou diante os dois durante algum tempo. Ele tinha apenas duas escolhas. A Irmã era a razão por trás de tudo que fazia, e do motivo que havia aceitado continuar na peça. Todos os outros desejos eram egoístas demais para serem realizados. O dele não, ele só queria a irmã dele viva, para que tudo pudesse ser como antes. Claire, o nome de sua irmã, e o antigo sorriso dela o atormentava na decisão. Quando o menino decidiu-se, seus olhos estranhamente tomaram um brilho avermelhado, cintilando entre sua pálpebra. — O que então terei de fazer? Scurra sorriu. A peça principal do jogo agora era sua, bastava apenas agora, movimentá-la. O Xeque tinha se voltado a Mors, e o garoto mal desconfiava. — o Quarto ato começará amanhã. – Disse Scurra. – E até lá, aja normalmente com seu amigo. Não transpareça nada, assim como Dáhlia vem fazendo. Deixe-o planejar o ataque amanha, e depois que vocês tiverem matado o guardião, você e Dáhlia devem matar a garota que se auto proclama Alice. – o homem sorriu para Caius. – Depois disso meu caro, todos os guardiões estarão mortos. E Mors voltará a ser seu amigo como era antes de conhecer essa maldita garota. E então nós três prepararemos o brilhante quinto e último ato, fazendo com que seu desejo seja o único. Então enfim sua irmã será salva. Scurra tinha tracejado o plano inteiro. E Caius agora estava decidido a participar deste movimento. Dáhlia e seu amor por Mors, Caius e seu desejo de salvar a irmã. O homem utilizou de tudo isso para fazer seu jogo. A peça estava quase no fim, no fim tão esperado que Scurra planejou.
— A cria – disse o homem a si mesmo. Horas depois de Caius e Dáhlia terem deixado sua sala, para agir normalmente. O jogo entre ele e Mors nem havia começado, e seu desfecho já era certo, apenas a derrota esperaria o menino cego.O homem vislumbrou novamente a foto que Mors havia descoberto, memórias passadas dançaram em sua mente. Levando-o a um ar quase melancólico. Um grande sorriso circulou a face do homem vestido de bobo da corte. Enquanto seus sininhos tiniam como uma música de vitória. O homem disse à sala vazia.- Xeque-mate.
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