O resto da noite, Esme fez o possível para evitar Grantaire. Ela ainda estava confusa e não estava afim de o ouvir murmurando besteiras enquanto se afogava em um copo de licor. Mesmo assim, Esme se perdeu em seus pensamentos tentando entender o que ele havia lhe dito

"Esme?...Esme!" Ouviu alguém a chamando e a tirando de seus devaneios. Era Joly.

"Ah! O que foi?" Perguntou se virando para ele. Pela expressão de seu rosto, ele devia estar falando com ela há minutos sem que a mesma prestasse atenção.

"Oras, mas você não ouviu nada que eu disse? Eu queria saber se você podia ir na cidade amanhã comigo e com Bossuet. Amanhã é aniversário de Musichetta, a barista, e nós queríamos comprar algo para ela. Já que você é mulher...bom, podia ajudar." Perguntou corando um pouco. Ao seu lado, Bossuet sorriu nervoso. Definitivamente não havia como negar nada para Joly, ele era adorável, mesmo parecendo preocupado o tempo inteiro.

Depois de aceitar ajudá-los, Bossuet e Joly contaram para ela do estranho relacionamento que tinham com Musichetta, mas ela, como uma boa amiga, não os julgou, até porque amor é amor de qualquer forma. Mesmo que sejam três pessoas que se amem igualmente.

Esme então voltou ao seu trabalho de costurar broches combinando com as faixas que havia feito antes, furando os dedos uma vez ou outra pois não estava acostumada com essa tarefa.

Assim que o relógio bateu 22:30 ela se lembrou que teria que cozinhar o jantar, ela então se despediu de todos (menos Grantaire que para variar já dormia nas mesas do fundo cercado de garrafas vazias) e saiu com Marius e Courfeyrac, parando no balcão apenas para pegar as cestas de compras com Musichetta, que soltou uma risadinha ao ver Esme empurrando os meninos para fora do café.

Ela estava feliz por ninguém ter notado seu desentendimento com Grantaire, mas é claro que Courfeyrac notou, e ele fez questão de tocar no assunto na volta para casa.

"Então, o que houve entre você e Grantaire? Ontem estavam super amigos e hoje depois que você saiu da mesa dele vocês mal se olhavam" Falou com um sorriso de lado.

"Então quer dizer que você notou?" Perguntou mal humorada, enquanto chutava as pedras no chão.

"Claro que notei, eu sou o centro, o homem do povo, o meu trabalho é prestar atenção nas pessoas. Então, o que ele te disse que te deixou chateada?" Passou um braço pelos ombros de Esme.

"Como sabe que ele me disse alguma coisa?" Perguntou tirando o braço de Courfeyrac de seus ombros.

"Ah, ele costuma fazer isso. Seja o que for que você disse pra ele, parece ter o afetado também. Ele nem discutiu com Enjolras hoje, estava muito quieto, preocupante, eu diria" Falou beliscando a bochecha de Esme e andando mais rápido que ela, a deixando pra trás com Marius.

"Você está quieto, o que houve?" Perguntou para o irmão que andava cabisbaixo.

"Discuti com um professor de novo. Fui expulso da aula dele" Falou. Esme bagunçou seu cabelo, após alguns segundos tentando fazer uma expressão séria, Marius abriu um sorriso e apressou o passo puxando Esme consigo para conseguirem acompanhar Courfeyrac que já estava no fim da rua.

Ao chegarem em casa, Esme foi para seu quarto pois era o único com um pequeno fogão à lenha para cozinhar. Ali ela acendeu o fogo e encheu uma grande panela com água. Cortou alguns legumes e fez uma sopa. Colocou em três tigelas e foi com elas para o quarto dos meninos.

Comeram calmamente até Courfeyrac se pronunciar.

"Meu Deus! Essa é a melhor sopa que existe, tem certeza que nunca cozinhou?" Perguntou esvaziando a tigela. Esme sorriu.

"Absoluta, apenas olhava as empregadas cozinhando e acabei aprendendo" Respondeu. Marius insistiu para que Esme fosse descançar e que ele e Courfeyrac iriam lavar as tigelas e a panela (não que o último tivesse concordado com a ideia).

Ela não percebeu que estava tão cansada até então foi até seu quarto e se deitou, sem nem ao menos trocar de roupa. Logo adormeceu.

(...)

Acordou pela manhã com uma imensa dor nas costas. Ao que parecia, aquela cama não era tão confortável quanto a do quarto de Marius, mas resolveu não reclamar, pois era o melhor que tinha.

Trocou de roupa, colocando o vestido novo que havia comprado e suas velhas botas marrons. Escreveu um bilhete avisando que iria ao mercado com Joly e Bossuet e o colocou por debaixo da porta do quarto de Courfeyrac e Marius.

Ao olhar no relógio que já se passava das 10h ela resolveu ir correndo, para não deixar seus dois amigos esperando, porém esqueceu sua bolsa de dinheiro e teve que voltar quase o caminho inteiro de volta para pegá-la.

Chegou na praça sem ar de tanto correr, mas logo avistou Joly e Bossuet em frente à loja de vestidos. Andou até eles e os cumprimentou, claro que quando Bossuet foi a abraçar, ele deu uma cabeçada em sua testa, machucando tanto ele quanto ela, que começou a rir do azar do homem ( e só deixou Joly preocupado enquanto olhava para suas cabeças para ver se não haviam sofrido uma concussão).

Passaram alguns minutos olhando as araras de roupas enquanto Joly contava todas as coisas alegres que já fizeram com Musichetta, deixando Esme encantada.

No final, escolheram um vestido vermelho. Antes de ir para o Musain, onde segundo eles, Musichetta estaría terminando seu turno da manhã e estaria os esperando, passaram em uma floricultura e compraram um buquê de rosas.

Chegando ao café, puderam ver a jovem de cabelos negros cacheados sentada em uma mesa bebendo uma chícara de café. Ela sorriu assim que os viu entrando.

Joly deu um passo a frente puxando junto Bossuet. Os dois entregaram a caixa com o vestido e o buquê para Musichetta, que soltou um pequeno suspiro de surpresa e abraçou os dois, que trocaram olhares com Esme do outro lado da sala, que apenas assentiu com a cabeça. Musichetta os encheu de beijos até notar a presença de Esme.

"E esta senhorita? Deve ser a irmã do Pontmercy não é? Enjolras comentou sobre ela" Falou indo em sua direção. Esme corou ao som do nome do líder.

"Ah sim, é Esme, irmã de Marius. Ela nos ajudou a escolher o seu presente" Disse Bossuet.

Musichetta a abraçou e deu um beijo em cada uma de suas bochechas, as deixando marcadas de batom e fazendo Esme corar mais ainda.

Passaram mais um tempo conversando até Esme se lembrar que haviam prometido comprar algo para Gavroche, Eponine e Azelma. Se despediu do trio e foi novamente em direção ao mercado.

Dessa vez ela comprou uma garrafa de leite e diversos pãezinhos na padaria. Foi então até a rua onde os havia encontrado no dia anterior, e ali estavam novamente, Azelma sentada e Eponine e Gavroche correndo um atrás do outro.

"Cheguei, pessoal! E trouxe seu almoço" Anunciou. Ela tirou do cesto um pão e o entregou para Gavroche, que comeu rapidamente quase que em apenas uma mordida.

Entregou o cesto à Eponine, que se sentou ao lado de Azelma e logo começou a comer também. Abriu a garrafa de leite e a colocou junto com as meninas. Se sentou e começou a conversar.

"E então, vocês tem família? Não quero ser rude, é só curiosidade" Perguntou.
Eponine deu de ombros.

"Temos um pai e uma mãe. Não são pais muito exemplares. Há anos atrás nós tínhamos dinheiro sabe? Mas eles sempre queriam mais e roubavam o tempo todo. Possuíam uma estalagem em Montfermeil onde costumavam roubar os clientes. Olhando agora é terrível, mas na época, me parecia normal." Parou para ter certeza de que Esme estava prestando atenção.

"Tinha também uma menina que morava com a gente, chamava-se Cosette, mas era apelidada de cotovia por ser pequena e magrinha. A mãe dela a deixou lá para poder trabalhar em outra cidade...anos depois um homem a levou. Foi quando papai e mamãe começaram a tratar mal a gente, ao menos eu e Azelma, pois Gavroche sempre foi mal tratado" Falou empurrando o menino para o lado, de brincadeira. Esme balançou a cabeça incrédula.

"E onde estão agora?" Esme quis saber.

"A dois quarteirões daqui. Quando perdemos a estalajem, viemos para Paris. Moramos em um pequeno quartinho em um complexo. Porém é mais fácil ficar nas ruas do que aguentando meu pai e sua gangue." Respondeu logo depois voltando a comer. Azelma então se levantou e foi se sentar ao lado de Esme.

"E você Esme? Porque você anda por aqui por Saint Michel? Pelo jeito que fala e compra comida para nós, parece vir de uma família rica" Esme respirou fundo, nervosa. Mas eles eram seus novos amigos e haviam compartilhado sua história com ela, ela devia fazer o mesmo.

"Sim, meu avô é rico. Há semanas atrás houve uma briga e meu irmão fugiu de casa. Como eu era a próxima na linhagem da família, meu avô arranjou um noivo pra mim. Muito bonito, mas muito ignorante. Eu não estava pronta pra casar e queria estudar. Então, no dia do meu casamento, eu fugi com o meu irmão." Disse. Gavroche então abriu um sorriso.

"Ela agora faz parte dos Amis de l'ABC" Completou por ela. Ela era mais uma ajudante, já que não participava ativamente do grupo. Eponine riu.

" Conhece os Amis de l'ABC?" Perguntou. Eponine assentiu.

"Esse idiota aqui só fala disso. Já fui a uma reunião ou duas" Respondeu apontando para Gavroche. Uma luz então veio à cabeça de Esme.

"Venha na reunião de hoje, vai ser bom ter uma menina por lá para me fazer companhia, o excesso de testosterona me mata" Eponine sorriu.

"Tudo bem, mas só porque não estou afim de fazer o trabalho sujo pro meu pai hoje" Respondeu.

Esme passou o resto do dia na praça com Eponine e Gavroche, já que Azelma tinha que se encontrar com a mãe e não podia faltar. Brincaram de esconde-esconde com Gavroche nas vias estreitas enquanto tentavam desviar de carruagens por pelo menos quatro horas seguidas. Quando já estavam cansados demais para continuar, Esme comprou biscoitos e os dividiu com os dois irmãos. Ao perceber que já estava escurecendo, resolveram ir para a reunião.

Pela movimentação do café, eles haviam chegado cedo, apenas algumas pessoas estavam presentes. Musichetta já havia voltado ao seu turno e quando passou por eles com uma bandeja na mão, piscou para Esme. Ela usava o vestido vermelho que havia ganhado.

Subiram as escadas e tiveram que desviar de Bahorel que estava brigando com uma pessoa aleatória no meio do corredor.

A sala de reuniões estava quase totalmente vazia, nela só estavam Enjolras, Courfeyrac, Combeferre e Marius, que foi logo em direção ao trio para os cumprimentar. Gavroche o ignorou completamente e foi direto falar com Courfeyrac.

Marius então se virou para Eponine, que parecia hipnotizada.

"Ah, você trouxe alguém Esme? Você é...irmã do Gavroche, Eponine não é? Já te vi por aqui antes." Disse. Eponine saiu do transe e corou, assentindo com a cabeça enquanto passava a mão pelo cabelo.

Ao notar isso, assim que Marius se afastou e voltou a conversar com Enjolras, Esme puxou Eponine para o canto mais afastado da sala.

"Eu vi isso! O jeito que olhou pro Marius, você gosta dele!" Cochichou sorrindo. Eponine franziu as sobrancelhas.

"Eu não...olha, se vocês estão juntos, me desculpa é que..." Tentou falar mas Esme a interrompeu.

"O que? Não! Ele é meu irmão. Então você gosta dele não é?" Falou um pouco mais alto fazendo com que Eponine tampasse sua boca com a mão.

"Fale baixo! É, talvez eu goste dele. Mas ele não deve saber disso, não agora." Esme levantou as mãos em um sinal de rendição. Elas se sentaram na mesa mais próxima e ficaram conversando baixinho para não incomodar os meninos, que pareciam estar planejando algo importante.

"Mas e você e esse tal de Enjolras? Ele não para de te olhar desde que chegamos" Comentou Eponine depois de passar alguns minutos analizando o líder. Esme revirou os olhos.

"Ele está preocupado demais com a revolução dele pra pensar em romance, também não é como se fossemos o casal perfeito, somos bem diferentes" Falou tomando um gole do seu copo de vinho.

Depois de um tempo, mais pessoas foram chegando. Parecia que a cada dia vinha mais gente, o que devia estar deixando Enjolras muito feliz. Porém, conforme as pessoas iam parando de chegar, Esme ficou se questionando onde Grantaire poderia estar. Após duas horas e nada dele aparecer, ela resolveu ir falar com algum dos meninos.

"Jehan, sabe onde Grantaire pode estar? Ele não chegou até agora" Perguntou preocupada. Jehan parou o que estava fazendo e se virou para ela.

"Realmente não sei, ele deve estar em casa, porém, ele nunca faltou nenhuma reunião desde que tudo começou, estou tão preocupado quanto você." Respondeu, sua voz falhando.

"Sabe onde ele mora? Vou atrás dele." Falou indo em direção à porta. Jehan se levantou rapidamente e a seguiu.

"Vou com você" E saíram os dois, deixando Enjolras, que estava fazendo um discurso em cima de uma mesa curioso e preocupado.

Notas finais
Aeeee~ Gente, comprei meu ingresso pra assistir Les Mis no West End! Estarei lá em Junho