Notas iniciais
Estou inspirada esses dias e resolvi adiantar a fic XD

Esme teve que seguir Jehan segurando em sua mão pois estava extremamente escuro nas ruas e não dava para enxergar um palmo à sua frente.

"Como você sabe para onde estamos indo?!" Perguntou enquanto tentava não tropeçar nos próprios pés.

"Me acostumei a levar Grantaire para casa quando ele está bêbado demais para ir andando" Falou andando mais rapidamente "Se você acha que assim já está ruim, imagina ter que carregar alguém do tamanho de R nas costas" Completou.

"R?" Perguntou curiosa. Era um apelido engraçado para Grantaire. Jehan tossiu.

"Bom, ele costuma assinar cartas como R...então passamos a chamá-lo assim" Ele suspirou e depois continuou.

"Sabe Esme, você pode ver Grantaire como um bêbado qualquer que enche a cara por diversão. Mas ele tem seus problemas, como qualquer um. Essa é a maneira dele de se livrar deles. Completamente compreensível"

"Bom, eu acho que ele devia compartilhar seus problemas com os outros. Não é bom guardar essas coisas para si mesmo e se afogar em álcool."

A conversa praticamente terminou por aí. Quanto mais andavam, a escuridão ia acabando e dando lugar para luzes de bares e bordéis. Pela arquitetura, Esme pôde perceber que estavam em Montmartre. O problema é que nas vielas escuras podia-se ver movimentação. E nessa hora, isso podia ser perigoso.

Sair pelas ruas procurando por Grantaire naquela hora não havia sido uma boa ideia. Ela devia ter esperado para fazer isso no dia seguinte.

"Hum...Jehan, devíamos voltar para o Musain, está tarde e esse lugar é perigoso. Podemos voltar aqui amanhã" Tentou convencê-lo.

"Bobagem, estamos quase chegando." Respondeu a puxando por uma rua mais estreita e escura.

Esme começou a ouvir passos vindo detrás de si, isso a fez se agarrar mais ainda a Jehan. Logo então ela pôde ouvir uma risada.

"Ora, ora! Mas olha só o que temos aqui...duas pombinhas" Falou uma voz carregada de sarcasmo e um estranho sotaque espanhol.

Das sombras surgiu um rapaz que não devia ter mais que dezenove anos. Tinha os negros cabelos penteados para trás e uma cartola na cabeça. Usava roupas que não pareciam servir direito nele e por um breve momento ela considerou que ele poderia as ter roubado.

Esme juntou toda a sua coragem para falar alguma coisa.

"O que você quer?" O rapaz riu novamente enquanto se aproximava. Jehan puxou Esme para trás para que ela se afastasse do homem.

"Ah, nada. Só queria acompanhar as senhoritas." Falou enquanto tirava um canivete do bolso interno do sobretudo. Esse movimento só fez Jehan se aproximar mais ainda do estranho.

"Não sou senhorita, se o senhor quer saber" Disse cruzando os braços.

Tudo bem, realmente Jehan lembrava uma garota, com seus longos cabelos loiros acobreados presos em uma trança caindo sobre o ombro direito e grandes olhos azuis cercados por longos cílios. Porém sua altura, seus ombros largos e a falta de curvas o denunciavam. E ficava mais evidente quando ele falava, pois possuía uma voz doce porém masculina.

O estranho pareceu um pouco surpreso, porém o sorriso brincalhão não saiu de seu rosto, se aproximou de Jehan, que em momento algum tentou se afastar, e o segurou pelos braços, o prendendo no lugar.

Jehan se contorcia tentando se livrar do aperto nos braços.

"Largue ele! Largue-o agora!" Esme gritava desesperada, com medo de que Jehan fosse ferido.

"Vamos ver se seu amiguinho aqui é homem o suficiente para se virar sozinho. Ou ele é mulherzinha demais pra isso?" Perguntou tentando induzir Jehan a brigar com ele. Porém o poeta apenas continuou tentando se soltar se debatendo.

Esme, temendo pelo pior, pegou uma pedra no chão e a jogou contra o rapaz, que soltou Jehan na hora para segurar no ferimento que a pedra havia feito ao acertar sua cabeça.

Esme puxou seu amigo para perto de si e o abraçou rapidamente. Os dois começaram a correr, fugindo do agressor, que havia se recuperado e os perseguia.

Ao virarem em uma rua, trombaram com a última pessoa que esperavam ver naquela hora. Eponine.

"'Ponine, o que está fazendo aqui?" Perguntou sem ar, a menina deu de ombros.

"Ouvi vocês dizendo que iam procurar o Grantaire. As ruas são perigosas a essa hora da noite, achei que seria uma boa ideia vir atrás de vocês" Falou entrando na rua de onde os dois vieram.

"Não, não vá aí! Tem um louco atrás de nós!" Disse Jehan a puxando de volta. Ela apenas riu e insistiu em entrar na rua. Ao ver o perseguidor, deu uma alta gargalhada.

"Sério mesmo Montparnasse? Não têm pessoas melhores pra você roubar em outro lugar não?" Perguntou cruzando os braços.

O tal Montparnasse deu um tapa em seu rosto e a empurrou, avançando na direção de Esme e Jehan, que em um surto de fúria, socou a bochecha de Montparnasse, fazendo com que este caísse no chão.

"Posso ser completamente contra a violência, porém jamais maltrate uma dama na minha frente!"

Enquanto Montparnasse estava semi consciente no chão, os três fugiram o mais rápido possível, enquanto Jehan liderava o caminho para a casa de Grantaire.

Chegaram em frente à uma pequena casa de tijolos vermelhos de dois andares. Enquanto Jehan começou a bater na porta com força e gritar por Grantaire, Esme resolveu checar se Eponine estava bem.

"Você conhecia aquele cara?" Perguntou analizando a bochecha da amiga que estava um pouco vermelha e inchada. "Montparnasse? Crescemos juntos e ele agora faz parte da gangue do meu pai. Ah, não se preocupe comigo, isso acontece com mais frequência do que você pensa" Disse apontando para a bochecha.

Esme se juntou a Jehan e juntos gritavam pelo cínico e batiam na porta, irritada com o barulho, Eponine pediu para que se afastassem e chutou a porta, arrombando-a.

Entrando no apartamento desarrumado, o peculiar cheiro de vinho e licor barato atingiu o nariz de Esme, deixando-a nauseada.

A sala era pequena, havia um sofá vermelho e uma mesa de centro, os dois manchados com vários respingos de tinta e algumas estantes de livros. Na cozinha havia um pequeno fogão à lenha que parecia pouco usado, um armário onde provavelmente estava estocada a comida, um balcão e uma mesa de jantar prestes a desmontar a qualquer momento onde repousavam diversas garrafas vazias.

Enquanto saíam da cozinha, ouviram o barulho de algo sendo quebrado vindo de um dos quartos. Para chegar à fonte do som, bastou seguir os rastros de garrafas, cacos de vidro e manchas de tinta pelo chão. No fim do corredor, haviam três portas. Ao chegar no fim dele, entraram pela porta da direita.

No quarto, se depararam com Grantaire caído no chão ao lado da cama, parecia ter desmaiado. A maior parte do espaço da cama estava ocupado com mais garrafas e algumas roupas sujas. Em sua mão, pedaços de uma garrafa quebrada lhe cortavam a pele.

Esme e Jehan logo, em desespero, se puzeram a levantar Grantaire, enquanto Eponine se livrava das garrafas que ocupavam a cama.

O colocando sobre ela, Jehan começou a tirar os cacos de vidro que haviam perfurado sua mão enquanto Esme procurava por algum pedaço de tecido com o qual pudesse fazer um curativo. Após achar uma tira de pano em uma das gavetas do criado mudo, a enrolou na mão de Grantaire para que o sangramento parasse.
Durante todo esse tempo, Jehan e Eponine tentavam acordar Grantaire.

"Ele não vai acordar assim, chamem Joly aqui. Ele vai saber o que fazer" Falou se sentando ao lado de Grantaire na cama. Jehan e Eponine se entreolharam.

"Vão logo! Eu tomo conta dele!" Respondeu enquanto se levantava e empurrava os dois porta a fora. Suspirou e se sentou novamente junto a Grantaire.

(...)

Esme não havia notado que tinha adormecido até sentir movimento perto de si. Ao abrir os olhos, notou que Grantaire tentava se sentar em uma posição confortável. Ela obviamente tinha que intervir.

"Você não ouse se levantar, o que quer?"Falou levantando-se vagarosamente. Grantaire apontou para a própria garganta.

"Água...minha garganta arde" Disse com a voz rouca. Ele mal conseguia abrir os olhos, que estavam inchados e vermelhos.

Ainda atordoada por estar um pouco sonolenta, Esme errou o caminho para a cozinha e acabou entrando no quarto da frente. Antes de pensar em voltar por onde havia vindo, ela percebeu que o quarto onde ela havia ido parar era como uma pequena galeria.

Haviam várias telas espalhadas pelo chão, pelas paredes, em cavaletes ou apenas pedaços de papel. Algumas pinturas retratavam cenários, outras pessoas, crianças, homens, mulheres (algumas nuas) porém havia uma coberta no centro da sala. Esme não se atreveu a espiar o que era, mas ficou abismada com a quantidade de talento de Grantaire.

Talento este que quase não era valorizado.

Saiu do quarto em silêncio e foi até a cozinha. Lá pegou um copo d'água e um croissant em um cesto dentro do armário.

Voltou para o quarto onde Grantaire continuava esperando por ela sentado, agora ele esfregava os olhos e forçava a vista para poder enxergar direito.

Pegou o copo de água e o virou de uma só vez, assim que terminou, começou a comer o croissant. Esme sentou-se ao seu lado, esperando que ele terminasse. Ele mordeu um grande pedaço do pão e sorriu de lado.

"Calíope, então você resolveu me visitar? Um simples mortal? O que houve, eu morri?" Esme se impressionou que mesmo no estado em que estava, ele continuava com o cinismo de sempre.

"Quase, Jehan estava preocupado com você...eu também. Viemos te procurar e o encontramos desmaiado no chão" Respondeu afastando alguns cachos suados dos olhos de Grantaire, que riu.

"Ah, então foi isso...não é a primeira vez que acontece, só que normalmente dura menos tempo" Terminou o croissant em uma enorme mordida.

"Então é isso? Sempre que não consegue lidar com seus problemas você bebe até apagar?" Esme estava desapontada. E com pena também. Ela queria ajudar porém não sabia o que fazer. Sabia que se pedisse para que ele parasse de beber, ele não obedeceria.

"Se veio aqui para dizer isso, pode ir embora." Respondeu. Esme se sentiu envergonhada. A intenção não era ofender. Continuou parada no mesmo lugar. Permaneceram em silêncio pelo que parecia uma eternidade, até Grantaire tossir e engasgar.

"R...tudo bem?" Perguntou virando-se para ele, que sacudiu a cabeça.

"Acho que vou vomitar" Disse respirando profundamente, Esme correu até o outro lado do quarto onde pegou um balde vazio do chão e voltou para o lado de Grantaire no momento exato em que ele despejou todo o conteúdo do estômago no balde.

Esme prendeu a respiração e massageou as costas de Grantaire para confortá-lo, esperando ele terminar, ela voltou para a cozinha onde encheu o copo de água novamente e entregou a ele, para que melhorasse. Foi nessa hora que Joly, Jehan e Enjolras chegaram.

Ela se afastou um pouco e deixou Joly se aproximar mais para examinar Grantaire, enquanto Enjolras continuou de pé próximo à porta e franzia o nariz para o balde que agora estava no chão ao lado da cama. Jehan fez o favor de sair do quarto com o balde para se livrar do conteúdo.

Para examiná-lo melhor, Joly pediu para que Grantaire tirasse a camisa, fazendo com que tanto Esme quanto Enjolras corassem e desviassem os olhares. Grantaire soltou uma risada rouca.

"Dois deuses envergonhados com a minha semi nudez? Mas hoje é o meu dia de sorte!" Enjolras bufou irritado.

Após mais alguns exames, Joly se levantou enquanto arrumava sua bolsa médica.

"Ele apenas bebeu até desmaiar, está tudo bem agora" Respondeu. Enjolras se aproximou dele e de Grantaire.

"Tudo bem? Não está nada bem! Ele simplesmente encheu a cara, completamente irresponsável!" Gritou alterado. Grantaire continuou calmo.

"Vocês tiraram o dia para me insultar não é?" Disse tentando fazer uma piada. Porém deu para ver que estava magoado.

"Você podia ter se matado" Respondeu agora a apenas alguns centímetros do rosto de Grantaire, os dois ficaram se encarando pelo que pareceu uma eternidade, porém foram interrompidos por um espirro de Joly.

Enjolras só acordou do transe quando notou que estava com a mão sobre o peito nu de Grantaire. Ele corou novamente e se afastou.

"Talvez tivesse sido melhor assim. Não iriam sentir minha falta." Foi a resposta de Grantaire. Enjolras pareceu abalado com aquilo, pois ficou calado.

Joly logo começou a falar.

"Quer que eu fique aqui e cuide dele? Posso fazer isso." Disse, assoando o nariz em um lencinho. Esme sorriu.

"Não precisa, volte para Bossuet e Musichetta, eu passo a noite aqui." Enjolras logo começou a protestar.

"E te deixar sozinha com ele? Nem pensar, sabe-se lá o que ele pode fazer" Esme revirou os olhos

"Ele não vai fazer nada! Ele precisa de ajuda, eu não tenho nada melhor para fazer, posso cuidar dele." Grantaire resolveu se defender.

"Eu não preciso de ajuda, posso me virar sozinho, pode ir"

Jehan que permanecia em silêncio até agora deu um leve soco no braço de Grantaire e sussurrou algo como um "cale a boca". Grantaire cruzou os braços e permaneceu emburrado.

"Eu fico." Falou pela última vez Esme. Enjolras piscou algumas vezes e saiu do quarto, batendo a porta ao sair. Jehan se desculpou por Enjolras, se despediu do grupo e foi atrás dele.

Joly escreveu uma lista de coisas a fazer se Grantaire passasse mal novamente e foi embora também. Deixando apenas os dois em casa.

Esme achou um livro em uma estante na sala e se sentou na cama ao lado de Grantaire para ler. Enquanto tentava se concentrar no livro, sentiu Grantaire cutucando seu braço, ela se virou em sua direção.

"Me desculpe por fazer você me ver vomitando" Esme riu.

"Tudo bem, não me importei. Mas não foi uma cena muito agradável" Grantaire voltou a ficar em silêncio.

"Você me chamou de R mais cedo..." Comentou um tempo depois. Esme baixou o livro.

"Jehan me contou que era seu apelido. Então, acho que foi instintivo." Respondeu. Grantaire acentiu com a cabeça e ficou olhando pela janela. Suas olheiras estavam piores do que o normal e ele parecia mais cansado, porém não conseguia dormir. Esme resolveu puxar conversa.

"Sabe, sei que você bebe para se esquecer do mundo...mas acho que você devia compartilhar o que sente com alguém, para se sentir melhor"

"Eu faço isso, com Jehan. Mas eu não bebo para esquecer do mundo. Eu bebo para parar de sentir dor." Disse colocando a mão sobre o peito onde fica o coração. Esme baixou o olhar.

"Eu não gostaria que você morresse. Eu iria sentir sua falta. Muita" Comentou. Grantaire ficou paralisado. Seus olhos brilhavam. Ele logo a puxou para um abraço. Ele teve que se segurar para não chorar. Era a primeira vez que alguém falava isso para ele, sem contar com Jehan, é claro.

Se separaram e Esme deu um radiante sorriso, que fez Grantaire sorrir também.

"Sabe, eu vi algumas das suas pinturas no outro quarto. Você tem muito talento." Disse, Grantaire pareceu incomodado.

"Você...viu a pintura grande? Coberta com um pano?" Esme pareceu confusa. "A que está no meio da sala? Não, achei melhor não tocar nela"

Grantaire suspirou e Esme teve uma ideia.

"Porque você não me pinta?" Grantaire pareceu surpreso. "O que?"
"Faça uma pintura de mim. Quero ser sua modelo." Falou corando. Grantaire pensou bastante e aceitou. Esme ficou muito contente.

Os dois passaram o resto da noite deitados na apertada cama conversando sobre a vida. Como havia sido sua infância, como era sua família, o que esperavam do futuro e etc.

"Esme...o que você acha dessa revolução que o Apoll- quer dizer, Enjolras está planejando?" Se corrigiu.

"Eu acho loucura ele querer construir uma barricada mas, se for preciso, irei apoiar essa decisão." Respondeu com sinceridade. Continuaram conversando até adormecerem.

No meio da noite, Esme acordou com o peso da cabeça de Grantaire sobre o seu peito, depois de muito esforço, ela conseguiu sair de baixo dele e se levantou, indo deitar-se no sofá da sala.

Porém ali, continuou a refletir sobre a revolução. Será que estavam mesmo fazendo o certo? Ou seria aquilo suicídio?