Doux Apollo et sa muse
9 Chapitre Neuf
Esme acordou ao som de vidro quebrando.
Ela se levantou meio atordoada, e percebeu que não estava em seu quarto, e sim na casa de Grantaire. Arregalou os olhos, pensando que o pior podia ter acontecido com ele e foi correndo até o quarto. Ao chegar lá, o viu de joelhos no chão catando alguns cacos de vidro.
"Está tudo bem, eu apenas derrubei um copo sem querer, sou desastrado" Disse. Esme o ajudou a recolher o resto do vidro e jogou-os fora. Foi até a cozinha e lá pegou o cesto de croissants, levando-o para o quarto para dividi-lo com Grantaire.
Os dois comeram em silêncio até Grantaire começar a puxar assunto.
"Você vai no discurso hoje?" Esme franziu as sobrancelhas confusa. "Hoje é quarta. Normalmente Enjolras faz discursos na praça. As vezes Marius, Courfeyrac e Combeferre se juntam a ele." Ela assentiu.
"E os outros?"
"Nós, ficamos assistindo e entregando panfletos. Até Gavroche ajuda as vezes." disse frisando o nós, para mostrar que ele também era um membro (não tão ativo) do grupo.
Esme gostou da ideia. Fazer discursos na praça era uma ótima ideia para atrair seguidores dos Amis de l'ABC.
"Tudo bem então, eu vou." Grantaire sorriu e assentiu.
Passaram o resto da manhã arrumando a casa. Eles jogaram as garrafas vazias que ocupavam quase todos os cantos da casa fora e limparam as prateleiras das estantes. Grantaire estava feliz por estar na companhia de Esme e ela estava feliz por ele não estar se afogando em álcool, segundo ele, ele iria tentar beber menos.
Antes de meio dia, os dois já estavam a caminho da praça onde seria o discurso. Ao passarem pela Place de la Bastille, de dentro da grande estátua do elefante da bastilha, saiu Gavroche.
"R! Que bom que você está melhor. 'Ponine contou o que aconteceu" Grantaire colocou o pequeno Gavroche nos ombros e o carregou pelo resto do caminho.
A praça já estava cheia de gente, todos esperando o discurso começar. Enjolras estava no canto de um palco improvisado, frente à mansão do General Lamarque. Ele andava de um lado ao outro enquanto tentava memorizar o texto de um pedaço de papel, provavelmente o que ele devia dizer para a multidão.
Não foi fácil de encontrar Jehan e Courfeyrac, porém Grantaire reconheceu o colete florido de Jehan a quilômetros de distância. Os dois estavam ao pé do palco destribuindo panfletos para o povo. Os dois usavam os broches que Esme havia costurado.
Ao vê-los se aproximando, Jehan veio correndo em sua direção, fazendo seus longos cabelos, que estavam soltos naquela ocasião, voarem atrás de si.
"Ah, vocês vieram! Como está se sentindo R?" Perguntou após abraçar os dois. A essa altura, Gavroche já havia se juntado a Courfeyrac.
"Bem melhor, depois que vocês foram embora eu dormi como um anjo. Ah, e minha mão parou de sangrar" Falou mostrando que a atadura em sua mão ferida estava limpa. Jehan sorriu e pegou dois broches no bolso da calça.
"Coloquem, Enjolras ficará feliz em ver vocês usando" Falou passando a mão pelos cabelos. Esme olhou ao redor. "Cadê o resto do pessoal?"
"Estão espalhados entregando panfletos, e Bahorel está vigiando a polícia." Disse voltando para o lado de Courfeyrac.
O dois prenderam os broches em suas blusas e pegaram alguns panfletos com Courfeyrac. Eles se separaram e começaram a destribuir para algumas pessoas no meio da multidão. Enjolras logo começou a discursar.
"Cidadãos franceses, pergunto a vocês, O que igualdade e dignidade significam? A dignidade fala profundamente à condição humana, não a conceitos jurídicos abstratos. Ela apela para as nossas emoções e valores, a dignidade, pode ajudar a tornar os direitos humanos mais populares." Falava para o povo que se animava e gritava em resposta, Esme passou a gritar também. Quando deu por si já estava logo em frente ao palco, gritando com euforia.
Enjolras sorriu e continuou com o discurso, olhando diretamente para Esme.
"E igualdade...Vocês não acham que sofreram demais na mão de quem nos governa atualmente? A única pessoa que se importa com o povo no momento é o próprio povo e o General Lamarque, que está muito velho e pode morrer a qualquer minuto. Não devíamos ficar parados, temos que fazer alguma coisa! Temos direito a tantas coisas quanto os nobres..." Esme começou a sentir vontade de se expressar também, ela queria falar com o povo.
Ela chamou Joly que estava por perto e pediu para que ele segurasse os panfletos para ela e a ajudasse a subir no palco. Ao notar o que ela estava tentando fazer, Enjolras segurou sua mão para que ela subisse.
"O meu amigo aqui está falando de igualdade, porém eu adoraria completar o seu discurso" Enjolras parecia confuso, porém não tentou impedir que ela falasse.
" Vocês vivem falando de igualdade. Não discordo completamente, estão certos em muitas coisas, porém você esquecem de uma parte muito importante do povo. As mulheres." Alguns homens na multidão vaiaram, mas Esme não se intimidou.
" Desde sempre as mulheres tem sido oprimidas pelas homens, não todos, mas a maioria. Não podemos ir a qualquer lugar sozinhas, pois corremos risco de sermos estupradas ou sabe o que mais... acreditem, já passei por isso." Falou olhando para Jehan, que corou.
" Apenas acho que devíamos lutar pelos nossos direitos também. Sei que muitas mulheres aqui tem medo de serem contra seus maridos, mas se não começarmos aos poucos, ninguém irá. Temos que mostrar aos homens que também somos fortes!" Gritou e foi aplaudida por algumas pessoas, isso a fez se sentir bem consigo mesma, como se pudesse mudar o mundo.
Mas foi que isso mudou e ela se viu paralisada. Viu então a última pessoa que esperava ver naquele momento. Claude estava ali, e ele olhava diretamente para ela.
Marius, que estava na lateral do palco viu para onde Esme olhava e a ajudou a descer. Enjolras continuou o discurso de onde ela havia parado, mesmo preocupado com o que a havia perturbado. Marius a guiou para um local um pouco mais afastado da multidão, porém os dois foram seguidos por Claude.
"Então é isso Esme? Você foge do nosso casamento para andar com esses desajustados?" Perguntou irritado. O rosto de Esme se retorcia de ódio.
"Eles não são desajustados! São meus amigos, e prefiro andar acompanhada deles do que do senhor" Cuspiu enquanto voltava para o povo puxando Marius consigo. Claude a puxou de volta.
"Me solta!" Falou mais alto, Claude afrouxou o aperto em seu braço, mas não a soltou.
"Seu avô irá adorar saber que você fugiu da vida de uma menina rica para poder se juntar à essa revolução" Disse tentando chantageá-la. Esme soltou uma risada sarcástica.
"Pode contar, não estou nem um pouco preocupada com o que ele vai pensar. Isso é problema dele"
Algo na expressão de Claude mudou, ele agora parecia mais perigoso, e apertava o braço de Esme com mais força. Ao notar o braço da irmã ficando vermelho, Marius empurrou Claude para longe dela.
"Deixe-a em paz Claude. Vá embora agora, não queremos confusão." Falou ameaçador. Claude se aproximou.
" Ora, se não é Marius Pontmercy. Fugiu de casa porque o vovô foi mal com você, foi? Como é viver com esses ratos imundos?"
Antes que Marius batesse em Claude, Combeferre e Grantaire se aproximaram, esse último segurando Marius para que ele se acalmasse.
" Esse cavalheiro está te incomodando Esme?" Perguntou Combeferre educadamente. Esme assentiu. Ele então se virou para Claude.
"Meu senhor, está perturbando a mademoiselle, acho melhor se retirar."
Combeferre era um jovem educado, odiava a violência e apenas a usava se fosse necessária, o que quase não acontecia, pois seu tamanho acabava intimidando as pessoas. Claude começou a gargalhar, fazendo Esme arquear a sobrancelha.
"Agora está andando com os engomadinhos esnobes da Sorbonne? A que nível você se rebai-" Combeferre o segurou pela gola da camisa.
"Não me chame de esnobe, essa é a última coisa que eu serei na vida"
Antes que Claude pudesse reagir, uma gritaria foi ouvida. Ao que parece, o protesto acabou ficando agressivo e a polícia teve que intervir. A última coisa que viu antes de ser puxada por Grantaire foi Enjolras pulando do palco e saindo correndo junto a Jehan e Courfeyrac.
Os soldados empurravam o povo e os agrediam. Grantaire e Esme tentaram escapar por uma das ruas laterais porém foram perseguidos por dois policiais até os Jardins de Luxemburgo. Os dois conseguiram se esconder atrás de um arbusto próximo ao lago e para sua sorte os policiais passaram direto.
Quando o perigo já havia passado, Grantaire se levantou detrás do arbusto, porém pisou na saia de Esme e caiu para trás dentro do lago. Como se isso já não bastasse, ele se segurou em seu braço e Esme acabou caindo no lago também.
Depois do choque momentâneo, os dois começaram a rir e a jogar água um no outro. Provavelmente ficariam mais tempo nadando e brincando se a água não estivesse tão fria e não estivessem preocupados com o que poderia ter acontecido aos seus amigos.
"Será que os outros estão bem?" Perguntou a Grantaire, enquanto torcia a barra da saia e se sentava na grama. Grantaire passou a mão pelos cabelos molhados os deixando mais bagunçados que o normal.
"Aposto que sim. Sempre combinamos de nos encontrar no Musain as 18:30 se algo sair errado e tivermos que nos separar. Podemos ir para lá agora." Disse.
Esme se levantou e torceu os máximo que pôde de suas roupas. Tiraram os broches de suas camisetas e os guardaram nos bolsos, para não chamar atenção.
Os dois foram correndo até o Musain para que não ficassem muito expostos ao frio enquanto molhados. Assim que entraram, Musichetta que ficou surpresa por vê-los molhados, os entregou toalhas de mesa para se secarem. Ao subirem para a sala de reuniões, foram recebidos por Bossuet e Joly. Este último brigando por eles por estarem molhados.
"Meu deus, o que aconteceu com vocês? Vocês podem pegar uma gripe assim, talvez até pneumonia!" Falou enquanto usava uma das toalhas para secar o cabelo molhado de Esme. Ela notou que Joly estava com alguns arranhões nos braços e Bossuet tinha uma atadura na perna, o que não era novidade...
"Caímos em um lago" Respondeu Grantaire, secando o próprio cabelo.
Combeferre e Marius estavam mais no fundo da sala e ao ver Esme, foram falar com ela. Os dois estavam com as roupas sujas e rasgadas.
"Porque estão assim?" Perguntou, apontando para um grande pedaço da manga da blusa de Combeferre que estava faltando.
"Depois que vocês fugiram, Claude falou algumas coisas ruins de você Esme. Só demos um jeito de fazê-lo calar a boca" Falou Combeferre, ajustando os óculos.
Ela estava surpresa. Combeferre, o homem mais pacífico que existe (mais até que Jehan) brigou com seu ex-noivo, somente por ele ter falado coisas ruins dela? Ela sorriu e agradeceu. Foi aí que ela viu Jehan sentado em uma das mesas com a cabeça abaixada. Ela foi até ele e sentou-se ao seu lado.
"O que foi Jehan? Tudo bem?" Perguntou, ele levantou um pouco a cabeça e a balançou, fazendo um sinal negativo.
"Estou com dor de cabeça. Um dos policiais puxou o meu cabelo enquanto eu corria. Eu devia tê-lo prendido antes do discurso" Musichetta apareceu por alguns segundos na sala e depositou uma xícara de chá na frente de Jehan, que murmurou um "Merci" em resposta.
Após alguns instantes, pode-se ouvir uma discussão no andar de baixo, e logo depois, surgiram Enjolras e Courfeyrac, suados, cansados e bufando sem ar, tirando isso, não parecia ter tido mais estragos.
Assim que os olhos de Enjolras foram depositados em Esme, este foi andando rapidamente até ela e a abraçou, fazendo com que todos presentes, inclusive Esme ficassem surpresos com a reação do líder.
"Você está bem? A partir do momento em que a polícia interviu eu perdi você de vista...porque está molhada?" Franziu as sobrancelhas.
"Caí no lago, longa história, mas estou bem." Riu.
"Sabe Esme, você gostaria de se encontrar comigo mais tarde?" Esme levantou uma sobrancelha, corando furiosamente.
Ao perceber que todos o estavam encarando surpresos (Courfeyrac mais ainda, pois estava com a boca escancarada e parecia prestes a explodir), Enjolras endireitou o colete e apertou o nó da gravata, tentando parecer mais sério.
" Quero dizer, gostaría de ficar até depois da reunião, gostaria de falar com você...sobre o protesto de hoje" Se apressou para completar.
A sala ficou em silêncio por alguns instantes. Silêncio este que foi interrompido por Bahorel carregando um Feuilly semi consciente e com diversos hematomas pelo corpo ao seu lado.
"Por Deus, o que aconteceu com ele?" Perguntou Marius, ajudando Bahorel a colocar Feuilly sentado em uma cadeira.
"Ele tentou lutar contra três policiais ao mesmo tempo, o coitado apanhou mais do que bateu. Se eu não estivesse lá, ele teria virado pó" Riu, dando tapinhas amigáveis nas costas de Feuilly, que fez esforço para sorrir.
"Esme, R, porque estão molhados?" Perguntou Feuilly com a voz fraca. Esme passou a mão pelos cabelos.
"Céus! Quem liga?" Se sentou ao lado de Jehan e pôs-se a pentear seus cabelos com os dedos.
(...)
Ao final da reunião, todos já haviam ido embora. Apenas Esme e Enjolras haviam sobrado e estavam arrumando alguns papéis em cima da mesa. Esme foi para o lado de Enjolras na mesa central, onde haviam penas, papéis e alguns livros.
"Então, sobre o que queria falar comigo?" Perguntou.
"Sobre o seu discurso hoje. Nunca imaginei que você pensava assim" Esme corou e mexeu um pouco no cabelo.
"Acho que foi o calor do momento, eu apenas quis compartilhar com o povo meus pensamentos e minhas opiniões." Enjolras sorriu, algo que Esme não estava muito acostumada a ver.
"O que acha de me ajudar a escrever os próximos discursos? Posso incluir a igualdade entre os sexos neles." Esme concordou com a cabeça e começou a escrever algumas ideias em um papel.
"Só acho melhor você não subir no palco para discursar, pelo menos não por enquanto. Vamos ver o que o povo pensa do assunto primeiro" Isso a desapontou um pouco, mas era uma boa ideia.
Passaram boa parte da noite organizando ideias e discursos. Esme percebeu que Enjolras era realmente apaixonado pela patria e pela ideia de uma nova revolução. Ela se sentia feliz com isso.
Como acabaram muito cedo, resolveram parar para conversar.
"Então...Grantaire está melhor?" Esme notou que de todos os seus amigos, Enjolras era o único que não chamava Grantaire de R.
"Sim, ele disse até que iria diminuir a bebida. Acho que isso é muito bom para ele." Enjolras apenas riu, como se não acreditasse que o cínico pudesse parar de beber.
"Enjolras, eu acredito nele, você também deveria. Acho que ele pode mesmo parar com isso. Ele não é apenas um cínico alcoólatra. Ele tem muitas qualidades. Ele tem facilidade em fazer amigos e tem mais...você sabia que ele é pintor?" Enjolras balançou a cabeça.
"Já o havia visto desenhando na parte de trás de alguns dos nossos panfletos, mas não sabia que ele levava isso a sério."
"Não o julgue tanto...ele não merece. Certamente tem um motivo para ele fazer o que faz."
Os dois então ficaram em um desconfortável silêncio por alguns minutos, apenas ouvindo o ponteiro do relógio na parede.
"Melhor eu ir embora, está ficando tarde." Comentou Esme, enquanto se levantava. Enjolras se levantou rapidamente logo depois.
"Permita-me levá-la para casa. Jehan me contou do que aconteceu ontem e eu não acho que seria prudente sair sozinha a essa hora novamente."
Caminharam em quase absoluto silêncio por quase todo caminho.
"Sabe Enj, você é um bom amigo, é leal. Por isso todos gostam tanto de você" Enjolras parou então, estático. "Enj?" Perguntou.
"Era só um apelido, desculpe por chamá-lo assim" Disse envergonhada.
"Não, é...tudo bem, pode me chamar assim se quiser."
Alguns segundos de silêncio se passaram
"Só acho injusto seu nome ser tão curto, não dá para criar um apelido para você" Esme abriu um pequeno sorriso.
Os dois chegaram até o apartamento de Esme sem nenhum problema. Quando ela foi abrir a porta, Enjolras a chamou.
"Esme, você havia comentado no em que nos conhecemos que queria entrar para a faculdade não é?"
"Sim, eu disse. Por que?" Perguntou se encostando no batente da porta. Enjolras deu de ombros.
"Por nada. Boa noite mademoiselle" Fez uma pequena reverência e saiu andando pelas ruas escuras de Paris, deixando Esme confusa.
"Homens...sempre tão estranhos" Murmurou entrando e fechando a porta.
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