Doux Apollo et sa muse
10 Chapitre Dix
Esme acordou se sentindo mal. Os acontecimentos do dia anterior a deixaram extremamente cansada. Ela resolveu não fazer nada muito importante durante o dia. Iria à praça se encontrar com Eponine e passar o dia com a amiga. Antes de sair, resolveu bater na porta de Courfeyrac e Marius para ver se não queriam ir com ela.
Como ninguém respondeu ao bater, ela resolveu entrar mesmo assim. A cena à sua frente a fez querer rir, porém ela tinha que fazer silêncio.
Courfeyrac estava dormindo como uma pedra, quase caindo da cama e tremendo de frio, pois suas cobertas haviam sido chutadas para o pé da cama. Não havia nenhum sinal de Marius no quarto. Ela entrou, cobriu Courfeyrac e o empurrou para o meio da cama para que este não caísse. Saiu e seguiu seu caminho para o centro.
Ao chegar lá, encontrou Eponine conversando com Marius, nos últimos dias, os dois pareceram se tornar cada vez mais próximos. Passavam muito tempo juntos, mais do que a própria Esme passava com o irmão.
Eponine gesticulava rapidamente, como se estivesse brigando com Marius. Esme se aproximou.
"Bom dia, o que houve?" Perguntou, parando ao lado de Eponine.
"Meus pais estão armando um golpe à um senhor que vem vindo com a filha, porém seu irmão não quer sair daqui. Vai se meter em problemas!" Disse apontando para duas pessoas bem vestidas que se aproximavam da rua onde estavam.
Uma era uma menina de sua idade, com longos cabelos loiros e rosto de anjo. Ela usava um chique vestido azul marinho e carregava um cesto de comida. Ela estava de braços entrelaçados com quem parecia ser seu pai. Ele tinha os cabelos quase completamente brancos e aparência carrancuda, parecia intimidador.
Somente nesse momento Esme notou os pais de Eponine em um beco próximo, sujos e mal encarados que colocaram Azelma sentada ao seu lado e mandaram que fingisse estar doente.
"Eponine, tome cuidado com a polícia!" Gritou sua mãe com a voz esganiçada. Eponine estremeceu e saiu correndo, fazendo com que Marius e Esme fossem atrás.
A correria fez com que Marius esbarrasse na menina e derrubasse seu cesto, espalhando pães pelo chão.
"Eu não a vi, perdão" Desculpou-se Marius. Os dois estavam paralizados olhando um para o outro e trocando sorrisos, deixando para Esme a tarefa de recolher os pães e os colocar novamente no cesto.
"Aqui está mademoiselle, desculpe" Disse Esme, entregando à senhorita seu cesto. Antes que a menina pudesse dizer alguma coisa, seu pai apareceu e a levou para longe dos dois.
Esme puxou Marius para o mais longe possível de lá.
"Você viu isso? Ela era linda, aqueles profundos olhos azuis, por que me afastou dela?" Perguntou triste.
"Para que você não fizesse besteira, se continuássemos lá poderíamos estragar o tal plano dos Thenardier." Marius suspirou.
"Eu nem sei seu nome...mas ao menos tenho isso" Falou enquanto mostrava para a irmã um lencinho de seda, que provavelmente pertencia a senhorita de cabelos loiros.
(...)
Marius fez questão de procurar Gavroche e pedir ajuda ao menino para encontrar a misteriosa dona do lenço.
Horas depois, enquanto Esme saia de uma livraria, foi abordada por Eponine.
"Esme, tenho que lhe pedir para que não vá me procurar semana que vem. Meu pai...quer cometer um crime terrível e provavelmente irá querer que eu participe, não quero que corra nenhum risco" Esme concordou, mesmo morrendo de preocupação, mas o que poderia fazer, segundo Eponine, ela sabia se virar.
As duas continuaram a conversar até alguém cobrir os olhos de Esme a fazendo abrir um grande sorriso.
"Sei que é você Grantaire" Falou rindo.
"Como adivinhou?" Perguntou frustrado.
"Senti seu cheiro. Você cheira a liquor barato e grafite, mas enfim, o que foi? Deve ser algo importante para você sair de casa a essa hora" Falou, ele sorriu.
"Você disse que queria que eu lhe pintasse...eu estou inspirado hoje" Ele levou um susto quando Esme o puxou pelas ruas enquanto ria.
"Vamos logo então, estou muito ansiosa!" Grantaire sorriu.
Esme quase derrubou a porta de Grantaire com tamanha a força que usou para abri-la. Isso fez o cínico rir e se surpreender ao mesmo tempo. Ela parou no meio da sala e olhou em volta ansiosamente.
"E então, o que eu faço?" Perguntou agitada, dando leves pulinhos de alegria.
"Você fica aqui enquanto eu pego as tintas e o cavalete" Falou desaparecendo dentro do quarto-galeria. Voltou logo depois com uma sacola, alguns pincéis e equilibrando uma tela e um cavalete embaixo do braço. Ele ajeitou tudo e tirou algo parecendo um vestido de dentro do saco.
"Para quê isso?" Perguntou Esme pegando o vestido de suas mãos. Era um vestido sem alças, de um tom de amarelo quase creme com bordados.
"Para vestir. Espero que caiba em você" Falou. Esme revirou os olhos e foi até o quarto de Grantaire onde se vestiu. Voltou para a sala segurando a saia do vestido para não tropeçar.
Grantaire a olhava de olhos arregalados e boca aberta, fazendo com que ela corasse. A guiou até um canto da sala e a ajudou a sentar contra a parede, cruzando um pouco as pernas e abaixando um pouco a alça do vestido. Ele pegou alguns grampos em uma caixinha na estante de livros e a ajudou a prender os cabelos em um coque alto com alguns fios soltos.
"Agora, não se mexa até eu avisar que pode" Ela assentiu com cabeça e olhou intensamente para Grantaire, que parecia estar nervoso, pois suava e uma vez ou outra lambia rapidamente os lábios rachados.
Passou-se quase uma hora quando Grantaire disse que ela poderia mexer o rosto pois ele já estava pintando o corpo. Esme ficou grata por isso, pois pode encostar a cabeça na parede e fechar os olhos.
Ela aparentemente caiu no sono, pois quando abriu novamente os olhos, estava deitada na cama de Grantaire e o cínico estava ao seu lado, deitado de barriga para baixo e com o rosto enfiado no travesseiro. Esme abriu um sorriso.
Ao notar que ainda usava o vestido amarelo, se levantou vagarosamente, tentando não acordar Grantaire, pegou suas roupas no canto do quarto e as foi vestir em outro cômodo. Saiu de lá e foi para a sala, deixando o vestido usado em cima do sofá.
A tela que havia sido usada para pintar Esme ainda estava ali, ela resolveu então dar uma olhada.
Grantaire havia conseguido retratar Esme perfeitamente. Cada ângulo de seu rosto, cada traço, cada sarda, tudo era igual à menina. Para ela, era como estar em frente à um espelho. Ela se sentiu emocionada. Foi até o quarto onde Grantaire dormia e deitou sobre suas costas, o acordando.
"O que houve?" Perguntou levantando a cabeça, seus cachos negros ainda mais bagunçados que o normal.
"Eu vi a pintura. Está perfeita! Quero que faça mais...se não for incômodo" Falou se levantando de cima dele. Grantaire esfregou os olhos e passou a mão pelos cabelos, piorando sua situação.
" Mas é claro mademoiselle!" Falou se levantando e fazendo uma pequena reverência.
(...)
Quando já havia anoitecido, os dois foram para o Musain, para a reunião diária dos Amis de l'ABC. Grantaire parecia estranhamente alegre, e isso fez Esme suspeitar de algo.
Chegando no café, achou estranho o lugar estar calmo, sem a costumeira música e conversas altas. Ao chegar no andar de cima, viu todos os seus amigos de pé aguardando a sua chegada.
"Hum...o que foi?" Perguntou olhando para todos eles, pareciam estar escondendo alguma coisa, Jehan e Joly cochichavam um para o outro alegremente e Bahorel apenas sorria. Marius e Enjolras então deram um passo à frente.
"Sabe Esme, nós soubemos do seu acidente com seu avô...quer dizer, que ele se recusou a pagar a faculdade que você queria fazer." Disse o líder, que parecia um tanto envergonhado.
Ele olhava para Marius, como se esperasse que este continuasse a conversa de onde ele parou, porém Marius apenas coçou a parte de trás do pescoço, nervoso.
"Ah, por deus! Falem logo!" Disse Courfeyrac impaciente.
"V-você sempre disse que queria ser historiadora então..." Marius falou, gaguejando.
"Então nós juntamos dinheiro e conseguimos uma vaga na Sorbonne para você!" Gritou Bahorel.
Esme estava em completo estado de choque. Ela não podia acreditar que eles havia feito isso por ela. Lágrimas encheram os olhos de Esme, estava em tão completa felicidade que mal conseguia respirar direito e teve que se sentar para não cair.
Todos a olharam com a expectativa de que falasse alguma coisa, porém ela não conseguia.
"Oh...meu deus!" Gritou assim que recuperou as forças. Correu até Marius e o abraçou com toda a força que possuía. Lágrimas começaram a cair, eram tantas que Esme chegava até a soluçar para recuperar o ar. Marius a girou diversas vezes enquanto tentava não chorar também, estava emocionado por ver sua irmãzinha tão feliz.
Após sair do abraço de seu irmão, ela partiu para cima de Enjolras, que tentou, em vão, se esquivar dela, porém não conseguiu. Depois de resistir à menina, envolveu os braços ao seu redor.
Os olhos de Enjolras vasculhavam a sala enquanto ele tentava não os focar em Esme, pois se isso acontecesse, era capaz do líder corar furiosamente com a proximidade. Ele olhou para Combeferre que apenas riu e balançou a cabeça para ele.
"Fizeram isso por mim? Sério?" Perguntou sem acreditar.
"Todos participaram, até Feuilly" Disse Jehan suavemente. Ela se sentiu mal pelo ruivo, ele mal tinha dinheiro para se alimentar direito, trabalhava quase o tempo inteiro e mesmo assim se preocupou com Esme a ponto de ajudar a conseguir uma vaga na universidade para ela.
Esme enxugou as lágrimas com as costas da mão e agradeceu à cada um dos presentes individualmente, para no fim parar de frente para Grantaire.
"Você sabia?" Perguntou. Grantaire deu de ombros.
"Eu contribuí um pouco também, com o máximo que me foi possível" Disse. Esme o abraçou e sussurrou em seu ouvido.
"Obrigada, você é o melhor amigo que existe." Beijou sua bochecha. Grantaire abaixou os olhos com tristeza e deu um pequeno sorriso.
Naquela noite no Musain não houve planejamento de discurso ou manifestação. Foi apenas celebração em homenagem à Esme e sua conquista. Jehan tocou sua flauta e Courfeyrac cantou desafinadamente, causando risos em todos. Esme dançou com Marius, Feuilly, Combeferre e tentou até convencer Enjolras, porém este não aceitou e ficou sentado assistindo, sorrindo um pouco cada vez que seus olhos e os de Esme se encontravam e ela gargalhava.
Grantaire estava encostado em uma parede próxima a porta. Todos pareciam estar se divertindo tanto, todos menos ele. Caminhou discretamente até o fundo da sala com uma garrafa de vinho que pegou do bar e começou a beber do próprio gargalo. Prometeu que ia beber menos, mas não que iria parar completamente, até porque, ele precisava do álcool no momento.
"Melhor amigo...mal ela sabe, mal ela vê." Murmurou sentando-se em uma das mesas mais afastadas do grupo, assistindo Esme rodopiando enquanto dançava, com sua saia girando envolta de si como se fossem as pétalas de uma flor.
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