Doutrina da Escuridão
2 II - Liberdade ou Morte
Eu quero ficar, eu preciso ficar.
Meus pensamentos são instantâneos ao sentir uma forte pressão, e um impulso movendo-me para cima.
Aqui é melhor, estou livre.
Estou seguro, estou confortável, me deixe ficar, a morte é melhor que a vida.
Sinto um toque em minha testa, o que me soa a peso e dor.
Não me leve embora, deixe-me descansar em paz.
Estou em paz, em paz. Eu estou em paz, paz...
A forte pressão então me agarra, e parece não querer me soltar. Com força, eu pareço cair, encolher.
Sinto-me sufocar, minha respiração encontra-se quase nula, o desespero vem com força, trazendo memórias de um passado jamais acontecido, ou então é mais uma visão, mais uma revelação.
Não por favor! Me deixe aqui! Não me leve, não me leve! Por que me quer fora daqui? Eu não tenho culpa, eu nunca quis ser essa abominação. Eu não posso ir, eu não quero ir. Me deixe ficar, por favor!
Então vejo um homem, de aparência madura e trajes finos, vestido de preto. Seus cabelos castanhos e olhos claros, a pele pálida e a expressão, ele se parece tanto comigo.
Mas ele está parado, ele não me vê sofrendo? Por que ele não me ajuda, só me assiste morrer, ou viver?
Por que essa força me passa uma sensação sombria, que tudo é pior do que dizem ser. Parece que eu estou ligado a aquele homem, porque eu não consigo parar de olhar para ele, não por não estar me ajudando, mas porque seu olhar me fita de tal forma, de uma forma tão acolhedora.
Sinto meu coração pulsar mais rápido, e aí me dou conta, ele não estava pulsando. Eu estava morto, agora estou vivo. Então eu sei quem é ele. Ele é a morte, ele me quer para junto de si, mas ele não quer me levar, mas sinto que ele tem pena de mim, mas ao mesmo tempo quer que eu esteja junto a ele. Não como mais um dos seus, mas de uma forma diferente. Será que ele sabe o quanto dói? Será que ele sente? Será que ele só leva para livrar as pessoas da dor, do sofrimento? Mas isso parece ser mais forte, de alguma forma, de algum jeito eu sinto alguma coisa por ele, talvez amor. Sendo assim, eu amo a morte, e preciso dela, pois alguém ou algo jamais me foi tão acolhedor.
Essa coisa de vida e morte, é tudo tão complicado. Os bons sofrem enquanto o mal continua impune, até quando isso continuará? Quando teremos justiça?
Mas ele parece não poder ficar mais. Sua expressão muda dramaticamente, parece entrar em desespero, ele parece querer ficar tanto quanto eu. Ele estende seu braço, ele quer que eu vá até ele, mas eu não consigo, eu não consigo controlar meu corpo, a única coisa que ainda faço é sufocar cada vez mais, entrando em desespero.
Então ele começa sumir, a se infiltrar cada vez mais na vasta escuridão, mas sua expressão está diferente novamente, ele se sente feliz, seu sorriso mostra isso, e ao mesmo tempo emocionado, o que desta vez é mostrado por seus olhos avermelhados aos cantos.
Talvez ele esteja feliz por eu estar voltando a vida, ou então por ter me visto, por alguma razão essa tese me soa melhor, mais admirável.
O inevitável acontece, suas roupas, seu rosto, sua pele, sua expressão, tudo se torna escuridão, e nem mesmo sua silhueta. Ele sumiu, não deixando algum vestígio sequer de sua presença no local, somente as minhas lembranças.
A pressão me puxa ainda mais, e com força me empurra para baixo. Nesse momento, eu finalmente sinto meu corpo, sinto meus movimentos, sinto tomar o controle novamente, e na força feroz falta de ar, abro meus olhos, encontrando um forte clarão que parece queimar meus olhos, seguido de um forte impulso em meu peito, que me obriga a erguer-me para cima, tossindo, e entrando novamente em contato com o ar. E ao mundo real, ao mundo vivo. Eu deixei a morte, e estava começando a me arrepender disso. Mas eu não decidi, por que ninguém me deu opção de escolha? Por que ninguém me deixa escolher o melhor para mim? Por que todos acham que sabem mais, e ainda maior, por que acham que possuem o direito de me controlar?
Mas isso agora é um fato, estou de volta, estou respirando, estou vivo.
≈ ≈ ≈
Aro corre rapidamente pelas estreitas e curtas ruas da periferia. Em suas costas está o pequeno Raphael, de apenas nove anos de idade, recém completos.
Ele quer voar, mas não pode, ele está ferido, muito ferido. Correr já é um grande esforço físico, voar seria ainda mais, tendo a possibilidade de cair, e mostrar-se a humanos, além de fazer o garoto que carregar ter um trágico fim.
Ao amanhecer com certeza o desaparecimento do garoto estará em todos os telejornais, e se houver tempo, nos noticiários também.
Mas foi necessário, contar aos pais dele não era melhor, mesmo que provasse com suas asas, eles iriam querer distância, e não aceitariam.
A distância seria dolorosa, mas ele voltaria para casa assim que tudo isso acabar, enquanto isso cartas serão enviadas, junto a fotos de auto-destruição para comprovar que ele está bem.
Mas para que tudo isso acontecesse, ele precisa ser forte, ele precisa lutar, e fazer o necessário para salvar aquele pequeno e inocente garoto.
O encontro com Aaron não foi um dos melhores, afinal ele fez isso com Aro. Mas, o motivo dele ir buscar pessoalmente o garoto é desconhecido.
Uma breve luta aconteceu, e como é de se esperar, Aaron foi melhor, e Aro não teve outra opção além de fugir.
Ele tenta se.comunicar com seus companheiros através de seu celular, mas Aaron está interferindo na frequência de sinal, basta a ele apenas ser forte e fugir.
Aro olha para trás e vê a silhueta de Aaron caminhando ao fim da viela revestida em pedras, por estar perto de um porto.
Em uma opção desesperada, ele corre para uma multidão que está caminhando pela rua, por sorte hoje é dia de um dos tradicionais festivais locais, o Happen Day (Dia do acontecido), que leva uma.multidão a caminhar pelas ruas durante horas, passando por todos os cemitérios da cidade e deixando flores e velas em cada túmulo.
Ele corre entre as pessoas, em sentido contrário. Não importa aonde ele entre, ou qualquer lugar onde se esconda, Aaron o encontrará. Não há outra opção além de correr.
Aro está se cansando, e entrando em desespero. A dor aumenta.cada vez mais, porém ele não pode parar, ele não pode desistir, ele precisa encontrar o único lugar seguro daquela cidade: uma igreja.
Entrar numa igreja não é proibido para anjos e demônios, mas quando estão dentro de uma, ou qualquer outro lugar sagrado seus poderes não podem ser executados, deixando-os como humanos, sem habilidades sobrenaturais.
Ele e o garoto — ainda de pijamas — em suas costas chegam ao fim da multidão. Ele entra em uma outra viela, ao longe avista uma capela, ela é o seu destino, que é cortado por um forte e doloroso impulso que o joga contra a parede de uma casa.
Como defesa, Aro abre suas asas, atingindo Aaron e arremessando-o um pouco para o início da rua.
Por sorte Raphael não se machucou, pois caiu sobre sacos de lixo pretos.
Aro o carrega nos braços, e corre, dando um impulso para bater suas enormes asas brancas, que respondem, mas falham a poucos segundos, obrigando Aro a correr novamente.
Então ele finalmente chega à capela, quebra o cadeado, a maçaneta, e entra pelas portas de madeira.
— Você escolheu muito bem o local. — Diz Aaron, entrando na capela, e observando seus detalhes.
— Ao menos existe um lugar do mundo, onde há um pouco de justiça. Sem poderes, sem maior vantagem. — Aro fala, colocando-se a frente de Raphael — que está sentado em uma cadeira no púlpito. Em seguida, ele tira uma adaga prateada e reluzente de dentro de seu bolso.
— Então esse é seu plano? Você deveria saber que não são meus poderes que me deixam unicamente forte, mas eu também sou muito habilidoso, e fisicamente forte. — Aaron senta-se em um dos bancos de madeira, e volta seu, olhar para a agrande escultura de gesso de Cristo pregado na cruz, pendurada no centro da parede, onde fica o púlpito. — Bem, eu serei rápido, e direto. Entregue-me o pegaminho, e você é o garoto saem vivos, afinal, ele não é o escolhido, eu sinto isso. — Ele olha para Raphael, que está encolhido de medo.
— Eu não estou com o pergaminho, e nunca direi onde está.— Aro apoia-se na mesa em frente às cadeiras. A dor está aumentando, e ele está cada vez mais fraco.
— Você não está em condições de lutar, então poupe-me desse teatro de herói e fale. — Aaron levanta e caminha em direção a Aro, que fica calado.
Aro abre suas asas, e ataca seu inimigo com uma delas, mas Aaron saca uma adaga semelhante a sua e a atinge com força, causando a dor de uma queimadura.
Aro revida e da um impulso de voo, tentando atingir seu adversário com sua adaga, mas este se defende, empurrando-o, e joga sua adaga contra a outra asa de Aro, atravessando-a e o fazendo cair. Agora Aro está de frente à escultura, e Aaron de costas.
— Paciência é uma das poucas virtudes que eu não tenho. E olha que eu não tenho nenhuma. Então me diga onde está, ou você morre. A escolha é sua: diga-me e você é o garoto saem vivos. É liberdade, ou morte. — Aaron agarra Aro pela camisa, que se senta no chão, apoiado pelo braço.
O clima fica mais frio, as fracas luzes dos candelabros deixam o solo sagrado um tanto sombrio. Tudo está em um quase todo silêncio, as vozes da passeata já não são mais ouvidas, e as únicas coisas que expressam sons são as chamas queimando o fino fio de lã, até derreter a vela causando um ruído estridente, e da arfosa respiração de Aro.
Aaron levanta a cabeça de Aro, e olha fixamente em seus olhos, buscando uma resposta. Entre sussurros, ele torna a dizer "Liberdade ou Morte?".
Aro olha para Aaron, com a roupa coberta de sangue, assim como sua boca, que jorra descontroladamente. — Prefiro a morte. — Então solta um leve e.sarcástico sorriso.
Aaron se vira, fecha os olhos e suspira. — Então que seja dessa forma. — Ele vira-se rapidamente, enfia uma adaga no peito de Aro e o arrasta até o ombro.
Aro solta um alto e agudo grito, que faz parte do teto da capela desabar, o chão tremer e vidros se destruírem instantaneamente.
Ele perde a forma e glória, seu corpo torna-se como uma nuvem, e é consumido por uma forte luz vermelha. Ele está morto.
≈ ≈ ≈
— Onde estou? — Levanto da cama rapidamente, causando uma forte e dolorosa tontura, que me faz perder o equilíbrio, e para que não caia, seguro-me na cama em que estava deitado a poucos segundos.
— Está tudo bem, Drew. Estamos seguros. — Fala Drake, sentado num sofá em frente à cama.
Minha visão estabiliza, minha mente parece estar entrando em ordem novamente – se é que em algum dia esteve.
Tento me levantar, mas estou fraco, ou então meu corpo parece estar mais pesado. Sinto dor em minha cabeça, e a sensação de meu tórax estar queimando ainda não sumiu, embora esteja bem fraca.
Estou num lugar estranho, um pouco assustadora.
É um pequeno quarto de cor verde. Água escorre por uma das paredes, e nas demais mostra-se as manchas de infiltração. Há um forte cheiro de mofo, e musgos estão crencendo no teto, que ao seu centro exibe uma lâmpada cilíndrica, posta de forma horizontal, que lampeja fracos raios de luz.
No quarto não há nada além da cama, com cobertas cinzas na qual eu estava deitado, um sofá preto e um pouco rasgado, onde Drake está sentado, e um pequeno criado mudo, que parece ser tão novo, apesar de estar num quarto coberto por enzinas destruidoras.
O chão é revestido em ladrilhos escuros, e uma pequena saída do ar se encontra a cerca de 30 centímetros do chão, lacrado por uma tampa de ferro dourado.
Está tão frio quanto lá fora.
Ouço sons baixos, talvez ruídos. O barulho que parece ser de um motor, embora esteja distante e descendente.
Eu olho para cima, em dúvida. Drake percebe e fala:
— Estamos abaixo do solo.
Eu olho para ele, e com expressão de desentendimento, e sussurro "O quê?".
— Estamos debaixo de uma Avenida, talvez a Parkinson. — Ele sorri. — Acho que estamos a cerca de 20 metros abaixo do limite do solo. Segundo informações, essa casa foi construida à 332 anos. Não parece porque foi reformada, mas ela têm características egípcias. Foi construída com o sistema das grandes pirâmides, mas sabe, não o que podemos ver, mas sim o que está em baixo delas. Essa coisa foi construída pelos anjos, sabe. Bem, foi Firenze que me contou.
— O quê? Quem é Firenze? — Fico mais confuso ainda. Meu amigo sabe de coisas, e conhece "pessoas" daqui.
— Acho que ele se refere a mim, caro Mullark. — Um homem entra no quarto. — E para constar, meu nome é Fierne. — Fierne olha para Drake, que corou.
Fierne é um homem de bela aparência, talvez um pouco diferente da sensação "angelical" que Damon me passou, este porém remedia a algo mais sombrio, e maléfico.
Ele tem pele negra e cabelos caracolados. Alto e forte. Sua boca é meio rosada, e seus olhos são verdes , e a região dos cílios são tão escuros que dão a ele um aspecto maléfico, combinado a sua roupa social preta.
A camisa está um pouco desabotoada, estando um pouco aberta e mostrando um cordão que julgo ser de prata, com um pingente um tanto peculiar.
Fierne senta no sofá, ao lado de Drake, põe sua mão na camisa e tira dois pequenos embrulhos de papel dourado. — Chocolate, você quer? — Ele estende sua mão, mostrando-me o pequeno embrulho, eu recuso. Ele oferece a Drake, que sorri. Por algum motivo suspeito que meu amigo está acostumado com aqueles que desconheço, o que me dá ainda mais certeza quando noto que ele está com roupas diferentes.
— Onde estamos? Onde está Damon? — Pergunto, desconcertado com a situação em que estou.
— Estamos na "base", digamos assim, dos anjos caídos, ou pelo menos o nosso. Nós somos a Ordem Templária, protetores dos Sangue Reais, sejam eles nephilins, ou como é o seu caso, doutrinários. Nos também lutamos pelo equilíbrio da humanidade, juntamente com os Cavaleiros de Lis, ou como são mais conhecidos, Guardiões, e caçadores. E sobre nosso amigo Damon, creio que não o veremos mais. Como o de costume, ele desapareceu. Sempre é assim, ele faz.o que acha que tem fazer, e some. Acho bom que não se acostume a ele, ele não escolheu um lado, embora sempre haja ao nosso. Damon luta pela paz da humanidade, e se precisasse estar ao lado dos demônios para fazer isso, assim ele faria. Ele foi o único que não caiu em consequência da peleja. Ele não escolheu,um lado desde o início. Tenho dúvidas em saber se ele está certo, ou é somente ingenuidade. Mas chega agora está na hora de conversarmos, temos um assunto muito sério.
Eu olho para o criado mudo, ao ver uma luz azul acender. Logo reconheço, o meu celular. Vou até ele é vejo que caiu uma nova mensagem, que me deixa assustado, é do meu pai.
Eu a abro e começo a ler:
Onde você está? Se resolveu fugir, que deixasse uma mensagem. Você está com Drake? A mãe dele está desesperada querendo saber onde vocês estão, já que contei a ela que você também está sumido.
Drake enviou mensagens dizendo que está bem, até gravou uma mensagem de voz, mas dizer onde estão, e o que estão fazendo, nada.
Espero que não estejam fazendo nada de errado, vocês e suas anormalidades.
Se não quiser voltar, ao menos traga Drake bem, não quero culpa sobre minhas costas.
Ah é claro, ele apenas mandou porque Drake está comigo. Mas como a mãe de Drake soube de seu desaparecimento nessas últimas horas? É tão normal ele dormir em casa, assim como eu na dele, então como? Percebo então, uma pequena parte da mensagem que diz:
...já que contei a ela que você também está sumido.
Isso me desespera a curiosidade. Então olho a hora e 09:53 Am, 25 de Novembro.
Nessa hora minha única reação é olhar perplexo.
Como isso pode ser real? Afinal, como tudo isso pode ser real? No que o meu mundo está se transformando? Em uma hora eu tenho poderes, mais tarde descubro a existência de anjos, e que sou uma criatura criada por eles. Tudo isso está cada vez pior. Será que pode ficar ainda mais ruim?
Ao menos uma coisa eu sei, independentemente do que eu ache: Eu dormi durante dez dias.
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