— Fracassamos. — Ouço uma voz feminina vinda de um cômodo ao fim do corredor.

Eu caminho lentamente, apoiando-me na parede úmida e fria, onde em alguns pontos havia quadros de madeira com fotografias um tanto manchadas. A água que escorre do quarto em que eu estava vai diretamente para o corredor, e segue seu,caminho para o lado mais baixo, até encontrar um pequeno ralo, por onde desce.
O corredor é tão mal iluminado quanto o quarto. Uma lâmpada igual a do quarto se encontra no teto, que pinga água sem parar. Um pouco mais a frente, há outra lâmpada, mas esta estava desligada, ou o mais provável, queimada.
O cheiro de mofo já não é tão forte, mas os dos outros musgos continuam. É um cheiro suave, mas que incomoda.
O frio também não é tão intenso, e o estalido do pingar dá arrepios.

No teto há muitos sigilos desenhados, alguns deles eu reconheci, como a Armadilha do diabo, e a Forca de Garph. Eu aprendi muita coisa durante minhas pesquisas sobre minha origem.
Em alguns momentos pensei que eu poderia ser um semi-deus, um bestante, ou muitas lendas que conheci, e Drake sempre esteve junto a mim. Mas desta vez, tenho certas dúvidas.

Normalmente, Drake viria até e perguntaria como eu estava me sentindo, e faria milhares de perguntas assim que acordei. Mas diferente disso, ele simplesmente ficou aonde estava e falou coisas que não me lembro no momento. Seu olhar também não se voltou a mim, foi o tempo todo olhando para a porta, ou para um medalhão em sua mão... Um medalhão.

Eu continuo andando pelo corredor, até que chego no último cômodo, uma sala, onde está localizado um sofá em "L" e um outro de dois lugares, ambos pretos. Em frente aos sofás está uma mesa de vidro semelhante a do meu apartamento, e sobre ela três edições diferentes de jornais se encontram. Um deles, e o que mais me chamou atenção está escrito:

Garoto de 9 anos é encontrado morto em Capela

Na parede direita onde o sofá em "L" é menor, está sentado um jovem de aproximadamente 17 anos; cabelos loiros, olhos azuis, camisa branca, e outra vermelha por cima, vestindo calça jeans e All-Stars verdes. Em seu pescoço envolve-se um fone de ouvido roxo. O cara é um arco-íris.
Seu jeito borsal ao me vê já mostra seu jeito, me dando empatia na hora.
Na curva está um outro jovem, entretanto mais velho, por volta dos 23 anos. Tem aparência mais normal, vestindo camisa vermelha polo, jeans e sapatos comuns. De pele parda, cabelos curtos e barba.
Um pouco mais adiante está uma jovem loira, de olhos verdes e aparência totalmente normal. Um pouco mais a frente Drake — também normal -, depois um homem por volta dos 30 anos, de estatura atlética, e também normal.
Mas por que eu repito normal tantas vezes? É porque além do garoto arco-íris, há uma jovem, de aproximadamente 24 anos, de cabelos pretos longos, e raspados ao lado. Seus olhos são delimitados por duas fortes linhas curvas pretas, a qual nos cantos possui um desenho feito a delineador.
Seu rosto é magro, e não há sinal de qualquer outro tipo de maquiagem.
Suas roupas são todas pretas, sendo a camisa branca e uma jaqueta de couro, e sua calça de collant. Ao todo é uma aparência bem esquisita.
Pelo seu aspecto de durona, acredito que dela seja a voz que ouvi ao entrar.

— Olha, ele acordou. — Fala o garoto arco-íris. Nesse momento todos os olhares se voltam para mim.

— Andrew, como se sente? — O homem de quase 30 anos vem até mim, eu recuo e permaneço olhando para todos na sala.

— Drew, está tudo bem. São meus, seus, sei lá. Nossos aliados. Estamos juntos nessa guerra. — Drake sorri para mim, desta vez finalmente parece ser meu amigo. Um sorriso doce e quase ingênuo, que marca seu rosto extremamente pálido, e seus cabelos negros.

— Guerra? Aliados? Ainda não compreendo isso. — Olho novamente para a pequena mesa de vidro, e em outra edição do noticiário, vejo o destaque:
Corpo de jovem é encontrado
Logo mais abaixo, em pequenas letras consigo ler: Dois adolescentes desaparecidos. E na breve introdução está: Drake Simons, de 16 anos, e Andrew Mullark, de 15, estão desaparecidos à uma semana. Ambos moram em Firehane, e não há notícias sobre seus paradeiros. Continue lendo na página 5...

— Afinal, o que houve comigo? — Pergunto, querendo saber sobre meu "apago" durante esses sete dias.

— Não sabemos ao certo. Damon disse que você estava mal, e ele teve que lhe ajudar. Mas isso meio que lhe deixou desacordado. Foi tão forte que até Damon se feriu. — O homem tornou a falar. A palavra "desacordado" não me foi muito certa. — É melhor que continue na cama, em repouso. Você ainda está fraco. Deixe-me...

Ele se abaixa para abrir minha camisa, e empurro sua mão brutalmente, me afastando. Escuto a garota estranha bufar.
Sinto uma forte dor no estômago, e ao colocar minha mão sobre ele, sinto algo em alto relevo, uma textura diferente. Então abro minha camisa e vejo que estou enfaixado, e que o tecido branco está um pouco sujo de vermelho e amarelo. Estou sangrando?!
O homem percebe minha reação e fala:

— Eu o enfaixei. Você chegou bastante ferido. Como falei, foi tão forte que até mesmo Damon não saiu ileso. Você está tão doente que ele não pode lhe curar, ninguém pode, nós queremos lhe ajudar. E não se preocupe, a ferida está cicatrizando. As manchas são delas, mas.você não está sangrando ou tendo secreção, eu ainda não troquei a faixa, por isso está assim.

— E quem são vocês? — Pergunto, mas me assusto ao ouvir uma.voz grossa e suave vindo de trás de mim; Fierne.

— Eles são doutrinários, assim como você. Bem, exceto esse cara bonitão que estava falando com você, seu nome é Semadriel, ele é um anjo, e Drake é claro, um humano normal.

Drake revira os olhos, esse normal com certeza não o agradou, mas tento ignorar esse fato e voltar ao meu conceito de ingênuo sobre ele.

— Estes são Tailor, Reen, Sarah e essa doçura... — Fierne aponta para a garota estranha. — Carol. Não se preocupe, vocês terão bastante tempo para se conhecer.

— Eu quero ir embora. — Falo, sentando-me no sofá.

— Você não pode. Acho que Damon já lhe falou isso, e eu também. Você está doente, queremos lhe ajudar, e estamos a beira de uma guerra, a última guerra, e ela que vai acabar com essa coisa toda.

— Não me importa! Essa guerra é de vocês, não minha. — Eu a entrar em euforia, minha cabeça a dar voltas. O calor começa a surgir, e sinto agonia.

— Esta errado, Mullark. Essa guerra é nossa, desde o momento em que fomos transformados em doutrinários. — Tailor, o garoto arco-íris fala.

— Isto é mais que uma guerra, é proteção. Segundo o que Derick me disse, esse lugar é impenetrável. Eles estão nos protegendo. — Reen completa a frase de Tailor.

— Se os párias nos quer, por que nos proteger?- Indago, olhando diretamente para Fierne.

— De Aaron. Drake me contou que Damon falou sobre ele. Em duas semanas, foram três doutrinários encontrados mortos. Em um deles, um anjo morreu.

Morreu? Anjos morrem?

— Os párias não são nossos inimigos, não é com eles que nos preocupamos. No momento, você deve descansar. Semadriel cuidará de seus ferimentos. Precisamos de você, Andrew. Você é uma peça fundamental para tudo isso. Precisamos de vivo.

Eu olho para baixo, minha respiração é feita bela boca, me encontro ofegante. Meus olhos ficam vermelhos. Estou desorientado. Então me lembro do homem, da morte, em meu sonho. Tudo aquilo, aqueles sentimentos, principalmente de estar sendo enganado. Eu sinto que há algo de errado nessa história.

— E quando começamos? — Olho fixamente em seus olhos.

— Faltam alguns dias para que os véus se abram. Em não mais que um mês, estarão livres.

— Então vamos começar agora.

— Não podemos, existem anjos regatando doutrinários lá fora. Eles — Fierne aponta para os que estão sentados no sofá — ainda não estão prontos, precisam treinar seus poderes. E você também. Mas quem vai lhe treinar é Derick. E além de todos esses fatos, você está doente.

— NÃO ME IMPORTA! — Grito irado, levantando-me.

— Andrew, pare. Esta tudo bem! — Drake tenta se aproximar, mas interfiro.

— NÃO, NÃO ESTÁ! Desde os meus 12 anos convivo com essa coisa estranha! Depois eu fico doente, aí aparece um ser que eu acreditava ser mitológico, UM ANJO! Depois eu acordo nesse lugar, onde estou a uma semana! Não está nada bem! Há algumas horas eu estava morto! Como eu poderia voltar? Eu o vi. Eu vi a morte! E mais, como vocês saberiam que eu voltaria? Como?! Nada disso faz sentido. Então não venha me dizer que tudo está bem, porque não está!

— Hey garoto, vai com calma aí! — Carol se levanta e se põe em minha frente, na tentativa de intimidar. — Você tem a sua vidinha de garoto rico. Tudo o que você quiser, você tem. Estuda na melhor escola, veste as melhores roupas... — Ela puxa de leve a gola de minha camisa. — A única dor forte que sente é a morte de sua mãe. Você se excluí, não tem amigos porque não quer. Você não é o bicho de sete cabeças que pensa que é, então não seja um melodramático chorão e mimado, porque diferente de você, eu sim fui obrigada a fugir, porque eu matei meus pais, mesmo sem querer, porque essa coisa é uma droga, então vai com calma aí, garoto!

Ela matou os pais?
De tudo o que ela falou, o que de fato fica é esse detalhe tão sério, mas que ela fala de tal forma, como se fosse algo desprezível, ou não tivesse remorso algum de ter feito isso.
Mas em algo está certa, eu não posso mais continuar assim.

— Você tem razão... — Eu olho para ela, e depois para todos na sala, recuando um pouco. — Eu tenho as melhores roupas, estudo na melhor escola. Posso ter tudo o que quiser, exceto aquilo que o dinheiro não compra como a volta da minha mãe a vida, ou então que ao menos uma vez na vida meu pai não me olhasse como uma abominação, e que ele um dia pudesse sentir orgulho de mim, da minha existência. Mas tudo o que consigo fazer e assustar as pessoas, não porque eu quero, não porque eu faça algo, mas porque elas simplesmente sentem medo de mim de alguma forma, eles sentem algo ruim em mim. Você falou sobre seus pais, agora eu falo sobre minha mãe, sobre meu melhor amigo de infância, um tio, outro amigo, a secretária do meu pai. Todos morreram por estar perto de mim. Eu consigo matar, mesmo sem querer. Pessoas morrem ao meu lado, muitas já morreram. Eu não controlo isso, eu não me isolo porque eu quero, mas porque preciso.

Há um momento de silêncio, que é quebrado pela babaquice do garoto arco-íris:
— Fazem bem em sentir medo, vocês são estranhos.

— Olha aqui garoto. Você nunca sofreu em sua vida, sempre teve uma vida perfeita, pais perfeitos, namoradas perfeitas, você não sabe o que é dor, então diga algo mais sobre mim, ou Andrew e eu corto sua garganta. — Ela tira um canivete do bolso e avança um pouco, apenas para querer intimidar.

— Não liguem para esse babaca, ele é inútil. — Fala Reen, guardando seu celular.

— Olha quem diz, o nerd que tem medo de falar com garotas e que beijou o Fresno. — Retruca Tailor, o garoto arco-íris.

— Além de ser um tremendo idiota ainda é preconceituoso. — Comento, sentindo nojo dessa situação.

— Ah, fala sério. Não foi pelo beijo, foi a situação. Vocês não conhecem uma coisa chamada internet?

— Existem pessoas que tem o que fazer, não são simplesmente levadas pela popularidade, ou pela dor. — Ela olha para Tailor , depois para mim.

— Já chega! Essa discussão não vai chegar a lugar algum. Vocês são uma equipe, devem aprender a conviver um com os outros. — Semadriel fala, deixando um pouco seu tom brando.

— Três doutrinários, como já disse, morreram, Aro, um dos nossos melhores guerreiros também se foi. Agora, e aqui, é somente vocês quatro, Semadriel, Pebler, e eu. Temos que proteger um aos outros. Nossos companheiros estão em caçada. Quando digo que uma guerra está por vir, não é uma metáfora. Estamos enfrentando dois inimigos ao mesmo tempo. Temos que proteger itens muito valiosos, e acabar com esse rito. Temos que destruir a Doutrina da Escuridão, e para precisamos estar juntos...

Seu telefone toca, interrompendo seu quase empenhador discurso. Ele parece ler uma mensagem, que mostra a Semadriel. Com temor e apreensão, ele olha para todos nós, e diz:

— Parece que seu pedido se realizou, Andrew. Amanhã iremos a um local, onde provavelmente haverá uma luta. Todos, exceto Andrew treinou seus poderes, vamos testa-los. Essa é nossa primeira batalha. Preparem-se.

≈ ≈ ≈

Eu acordo no meio da noite, entre alguns pesadelos, todos com aquele homem, a morte.

Mas ele estava diferente, parecia cansado. Seus olhos eram rodeados por olheras muito escuras, se destacando em meio a pele mais que pálida.
Sua pele estava mais jovem e menos severa, mas ainda sim demonstrava o cansaço. Notando isso, lembro de ter perguntado a ele "Está cansado de ceifar?". Eu aguardei a resposta, mas ele simplesmente permanecia de cabeça baixa, então perguntei: "Você se sente bem?". Foi uma pergunta um tanto idiota, a morte não pode morrer, e porque eu me preocuparia com isso, afinal, ele é a morte, o mesmo que leva pessoas boas e más deste mundo, para algum lugar no universo.

Eu esperei novamente, mas ele nada respondeu.
Sentei ao seu lado, num banco preto. Tudo era escuridão, e apenas havia luz onde estávamos. Não havia nada para nenhuma das direções, somente a mais profunda e obcecante escuridão.
Seu rosto, sua forma, a luz, tudo passou a escurecer e se transformar em escuridão. Eu estava ali, sozinho, em meio ao nada. A cada passo que eu dava, o eco ia longe, e parecia ser infinito. Mas então eu caí, e o vi novamente, mas em um lugar diferente, um lugar onde havia luz, onde havia um sol.
Eu estava em meio a um extenso e interminável campo de flores, das mais variadas, e ele estava lá também, a alguns metros de mim.
Ele foi se aproximando de mim, e falou de forma branda, mas com voz de trovão:
— Cada uma delas possuem sentimentos. Muitas, incapazes de suportar todos, e acabam tornando-se outras flores.

No momento em que ele falou isso eu entendi a mensagem, e me senti triste, embora estivesse em um belo lugar, e com um homem tão acolhedor. Aquelas flores representam muito, representam cada vida que se foi.

— Aqui elas não murcham? — Perguntei, passando levemente o dedo sobre uma orquídea roxa, e vendo alguns momentos da vida da mulher a qual a flor pertencia.

— Não. Aqui elas são eternas, são belas para toda eternidade. Aqui elas encontram seu lar. — Então ele me entregou uma rosa vermelha, mas uma rosa diferente, ela brilhava, chamava muita atenção. Ao olhar para as pétalas percebo que algo está grafado, um nome, o nome de minha mãe. O susto, unido a minha tristeza me fez soltar a flor, que murchou e se destruiu em um raio de luz. Não fui capaz de suportar aquilo, de vê-la sumir outra vez, de vê-la partir, e grito, grito como nunca antes.
Então acordei em meu novo quarto, a qual divido com Andrew numa cama ao outro lado. Ele está dormindo.

Com os olho ainda em lágrimas, me levanto, saio do quarto, caminho pelo corredor com cheiro de mofo, agora iluminado por candelabros, e vou até a cozinha buscar um pouco de água, na volta, passo em frente à uma porta e escuto a voz de Fierne. Com curiosidade após ouvir meu nome, encosto o ouvido na porta.

— É melhor ele não ir, ainda.esta muito ferido, não podemos arrisca-lo assim. Afinal, ele é importante, não é? — Dessa vez quem fala é Semadriel.

— Do que adianta guarda-lo para depois, se não conseguirmos escapar dessa. — Fala uma voz desconhecida, mas que julgo ser de Pebler, o anjo que ainda não conheço.

— Ele está preparado. Ele precisa ir, esse é um teste. Se ele conseguir destruir Aaron agora, será ótimo, mas de qualquer forma, ele precisa ir. Só assim saberemos se ele está apto a acabar com a doutrina.

— Derick estará chegando com os gêmeos no local, já não é o suficiente? — Semadriel insiste.

— Você sabe que não poderei estar. Estou convicto que ele está pronto, ao menos que seja para testa-lo, nós iremos. Estou certo disso, e essa é a minha decisão. — Fierne abre uma gaveta, com certeza tira algo, e a fecha. — Entregue isso a ele amanhã.

— Nós precisamos dele, tanto amanhã, quanto na doutrina, no dia em que os véus se abrirem. Ele é a nossa esperança. Ele é nosso segredo.

Notas finais
Bem, primeiramente quero agradecer a você que chegou até aqui, isso significa que você está gostando da história, ou ao mínimo achou interessante. Então... OBRIGADO! Agora eu tenho algumas coisas para falar, primeiro quero começar sobre a ideia. No princípio, Doutrina da Escuridão seria um rito feito pelos párias com a posição da igreja, daí vem o nome doutrina, mas por falta de lógica eu não a escrevi, até que criei um fundamento como estão vendo. A minha primeira história foi Guerra Celestial: Caídos. Bem, eu havia a engavetado e não tinha planos para ela, até que surgiu Doutrina da Escuridão. Então sim, Doutrina da Escuridão é a porta para volta da saga Guerra Celestial, que provavelmente terá três histórias, então posso dizer que isso é uma boa coisa, não? Bem, outra coisa que quero falar é que: atualmente estou me dedicando à uma história que está firmada em uma editora, e uma continuação, devido isso, não tenho muuuuito tempo para escrever Doutrina da Escuridão, sendo assim, não tenho previsões de futuros capítulos, mais farei o mais rápido que puder. E para finalizar, peço que me ajudem comentando o que acharam, isso ajuda muito no trabalho, em saber o que o leitor gosta, ou não. Por fim, muito obrigado a todos que estão lendo essa história, e a todos que leram até aqui, esse último parágrafo. Eu agradeço muito... Valeu... Thanks... Obrigado ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.