Double

1 prólogo


Notas iniciais
Deixem o vosso comentário a seguir a cada capitulo!

Londres 1520

Consegui ouvir o seu choro no meio daquela dor que me dominava o corpo.

A Minha mãe costumava dizer que eu iria ser queimada viva, como se fosse uma bruxa, para que todos pudessem ver a minha vergonha em público. Mas acredito que nenhuma dor se compara a esta, parece que me estão a cortar por dentro, algo estranho vai saindo enquanto eu faço força e mais força, quando dou por mim, lá está aquela criança inocente nos braços da parteira.

— Deixe-me levá-la mulher! — Ordenou o meu pai, May olhou para mim com os seus olhos tristes.

— Levá-la para onde? — questionei sem forças para me levantar.

— Para longe, já desgraças-te a nossa família Magarette! A tua mãe não pode sair à rua com a vergonha...

— Não... Papá! Não!

Ele não deu ouvidos ás minha suplicas e levou-a para longe de mim.

May aproxima-se, olha-me como quem olha uma mulher que acabou de passar pela maior luta da sua vida e tudo o que lhe resta é a pena, os cabelos grisalhos da parteira saiem por entre a touca que trás na cabeça, mas ela não quer saber, apenas se debate com as lágrimas cristalinas que escorrem pela sua face sem pedir permissão.

— Porque choras?

— Menina Maggie, lamento muito mas o seu pai mandou-me fazer uma coisa horrível. — Do bolso da sua saia retirou uma adaga, a luz mórbida dos candelabros mostram como está afiada.

— Em quem vais usar essa lamina May? — Uma sensação ruim percorreu o meu estômago dando-me uma vontade insana de vomitar.

— O seu pai ordenou que cortasse a sua garganta, para que a sua família não passasse mais vergonhas. Para ele a sua vida já não vale nada!

— E o meu destino será a morte? — Fiquei horrorizada.

— A menina já não se pode casar com ninguém nesta terra, todos os homens casadouros sabem da sua gravidez e por isso ninguém a vai querer como esposa, o seu pai decidiu que o melhor seria dar cabo de si, assim ninguém falaria mais. — As lágrimas escorriam com desespero pela cara dela — Claro está o trabalho sujo teria de ficar para mim! Ele ameaçou a minha família disse que os condenaria a todos!

May dirigiu-se a uma das gavetas do armário, de lá retirou um pequeno frascos que continha um liquido avermelhado, voltou-se na minha direcção e sentou-se do meu lado.

— Tome, isto vai ajudar! Não quero estragar a vida de alguém tão jovem...

— Vais envenenar-me? A minha filha, o que vai fazer o meu pai com ela?

— Afogá-la. — Respondeu sem hesitar — Depois vai correr ao padre dizer que a menina morreu durante o parto, é o final perfeito. Beba menina, vai ver que depois tudo vai parecer mentira!

Não tinha outra alternativa, estava tão cansada do parto que não me conseguia mexer era impossível fugir. Levei o liquido aos lábios e o bebi num trago, quando terminei de engolir a lamina cortou a minha garganta e tudo ficou negro.