Double
2 Capitulo 1
Notas iniciais
A noite desceu á terra cobrindo tudo com o seu manto negro, as estrelas adornavam os seus cabelos para deleite do mais comum humano. Ela acabara de se deitar na sua cama tão confortável como um monte de penas brancas. Terá de dormir bastante para acordar resplandecente pela manhã. Espera-lhe um dia agitado, cheio de movimento, pessoas, carinho, festa e muitas outras coisas que se deseja para um dia de casamento feliz.
As cortinas da janela esvoaçam ao sabor do vento calmo que despertara de propósito para lhe vir beijar a pele suave e cheirosa, tudo aponta para uma ultima noite de solteira feliz e calma. Mas então, na mesinha de cabeceira ao seu lado, um vibrar insistente destruiu o silêncio desta noite.
Os grandes olhos azuis despertaram irritados com tal falta de respeito, perante uma noiva que necessita dum sono de beleza reparador. Com rapidez fez sair a sua mão de debaixo dos cobertores, para agarrar no seu mais recente Iphone 5 e olhou com um ar matador para o ecrã que lhe avisava a chegada duma mensagem de texto.
Quando clicou em abrir, nunca julgou ver aquilo que estava á frente dos seus olhos, pensou que era uma piada de mau gosto, mas depois atirou o telemóvel para longe de si...
Bruscamente os seus pés deslizaram para o chão, depois de andar de um lado para o outro repetidas vezes, voltou a pegar pequeno no aparelho eletrónico para ter a certeza que tinha visto bem.
Ali, á sua frente, encontrava-se uma fotografia dum casal a beijar-se, poderia ser uma foto banal de algum casal que estava a namorar, poderia ser um beijo apaixonado dum filme qualquer, mas a verdade é que o homem que tinha colados os seus lábios aos de uma mulher qualquer era sem dúvida alguma, aquele com o qual iria dar o nó no dia seguinte.
— Não pode ser verdade! – Grita ela para o telemóvel – O Charles não me iria fazer uma coisa destas... tenho a certeza que não! Isto não passa de uma montagem... é para ver como me saiu tenho a certeza!
Agilmente desliza as suas unhas pintadas de branco pelo marcador no ecrã, poderia jurar que o conseguiria fazer de olhos fechados ela sabe aquele número de cor. Os bips da chamada começaram segundos depois, parecia que demoravam uma eternidade, por mais que quisesse não poderia fazer com que o seu noivo lhe atendesse logo a chamada. Mas as suas preces foram ouvidas, uma voz ensoda do outro lado falou de forma entrecortada mas com o carinho habitual de um noivo apaixonado.
— O que se passa princesa? Estás nervosa por amanhã?
— Estás em casa? – Questionou ela roendo as unhas acabas de ser pintadas.
— Claro, amor!
Sem mencionar palavra, carrega no tecla para desligar a chamada. Procura na mensagem que recebera pelo contato, mas quando voltara a carregar na mensagem era impossível abrir, estranhamento o ecrã ficou vermelho e desligara-se para não mais voltar a ligar.
Um calafrio percorreu-lhe o corpo, quando voltou o seu rosto para a janela, viu um vulto olhando para sim, sem dúvida seria uma mulher pelos cabelos longos que embrenhava, vestia roupas escuras. Katherinne aproximou-se pé ante pé para que aquela mulher não desse por ela mas não foi eficaz, a sua presença foi notada mas algo estranho aconteceu num abrir e fechar de olhos aquela criatura desapareceu.
Estaria a sonhar?! Era melhor voltar para a cama o quanto antes.
A madrugada chegara cedo, a noite ainda não acabara o seu desfile e ela já tinha acordado. Antes de chegar á igreja vestida de branco com véu e grinalda teria um longo processo cheio de rigorosos momentos estudados com afinco á mais de um ano para garantir que este dia fique na memória dos noivos e de todos os presentes.
— Bom dia! – Grita Ana, a sua melhor amiga que chegara muito cedo para ajuda-la neste dia tão especial – Dormiste bem?
— Nem por isso! – Responde ela.
— Ei noiva exagerada, nervos antecipados nunca fizeram bem a ninguém... Anda levanta-te tens muito para fazer. O teu noivo está acordar também, não tarda e ele estará a ir para a igreja para te esperar com o maior sorriso nos lábios. A tua verdadeira vida vai começar agora!
— Estou a precisar de tomar um banho! – É a única palavra que profere antes de sair da cama.
A água quente acariciava o seu corpo nu, nos últimos tempos Katherinne tem pensado mais no chuveiro do que cantado, vai dar um grande passo hoje. Depois de dizer o sim, a sua vida vai mudar para sempre, finalmente vai concretizar aquilo que havia expirado durante toda a sua vida. Enquanto as pequenas gotas quentes lhe molhavam o cabelo, a mente de Katherinne fora assaltada por momentos passados onde desenhara ao pormenor tudo o que se iria passar no seu dia de casamento. Escrevera tudo o que desejava num pequeno bloco que guardava e guarda debaixo do colchão da cama de solteira onde nunca mais irá dormir. Porém a imagem, daquela madrugada não a deixava sossegada, fora sem dúvida a pior piada de mau gosto que recebera até então.
Quando saiu da casa-de-banho, Katherinne viu a sua querida mãe ainda embrulhada no seu roupão velho, trazia num tabuleiro alguma comida para aconchegar o estômago contorcido da sua filha.
— Não consigo comer. – Queixa-se a noiva sentindo um nó na garganta.
— Tenta comer um pouco que seja, eu e a Ana já voltamos cá para te ajudar a vestir...
— Onde vão? – Pergunta ela curiosa.
— Tomar o pequeno-almoço! – Responde Ana, com uma cara séria como se a resposta não fosse óbvia.
— Podia ir lá a baixo comer também! – Reparou Katherinne.
— Fogo! Só te queixas! Come mas é... — Manda a sua melhor amiga – És uma autêntica diva quando tens fome!
As duas riem-se daquela frase tão conhecida dos Spots publicitários.
A pequena mão dela termia por completo quando pegou na chávena de chá quente, se não a tivesse pousado rapidamente teria vertido todo o liquido quente sobre si mesma.
— Entre! – Mandou quando ouvi umas breves batidas na porta do seu quarto.
É um rapaz novo, o seu sorriso encantador hipnotizou-a por algum tempo, era como se o remédio para o seu nervosismo tivesse sido trazido por um deslumbrante desconhecido.
— Katherinne ... — Leu ele num pequeno bloco que retirara do bolço das calças – Mandaram-me entregar-lhe esta caixa.
Rapidamente, uma caixa rosada foi pousada perto de Katherinne, era um embrulho bonito, parecia mesmo que a pessoa que o enviara sabia que a pessoa que o iria receber gostava de coisas tão carinhosas como aquela cor de menina. Os olhos esboçaram um sorriso sentido, estava mesmo a precisar de um mimo, não poderia esquecer de agradecer á pessoa que a fizera sentir-se melhor num momento tão importante como este.
— Obrigada! – O rapaz nem ouvira as palavras dela, pois quando Katherinne voltara a sua cabeça para o sítio onde ele estava á pouco ele já tinha desaparecido.
As suas mãos desabrocharam o bonito laço que prendia a tampa, excitada retirou-a rapidamente, esperava um belo presente que pudesse usar no casamento, mas ali á sua frente tinha tudo menos um presente que a quisesse acalmar.
Sem ter noção dera um murro na caixa que voou para longe dela de encontro ao chão, todo o conteúdo espalhara-se pelo quarto, Pétalas de rosa branca cobriam o tapete caro, mas a rosa branca com pingas de sangue fresco estava mesmo ali em frente dos seus olhos caída sobre a mesa de madeira onde costumava escrever.
Uma pequena pinga vermelha, soltou do rosto pálido da pequena rosa para o tampo da mesa onde rapidamente se converteu numa poça minúscula, Katherinne não entendia o motivo de uma piada tão má, principalmente num dia tão importante como este. Sem duvida que se tratava de uma pessoa sem nada de mais interessante para fazer na vida. Estava com medo do que poderia acontecer se a sua mãe visse aquilo, era muito provável que mandasse chamar todos os seus amigos mais próximos para saber quem foi a pessoa mesquinha que tivera a ousadia de mandar esta prende envenenada á sua filha, ou no pior dos casos iria chamar a polícia e aí não haveria casamento para ninguém. A mente nublada da noiva em parafuso pegou rapidamente todas as pétalas do chão, com cuidado pegou na rosa e então reparou num pequeno cartão que lhe acenava em frente dos olhos. Katherine fintou-o, mas a curiosidade é mais forte que o medo que a corrompe por dentro, o dedos esguios tocaram no papel, estava com receio que saísse dali algum bicho pronto a comê-la, mas naquele pedaço de cartão só estava escrito a letras vermelhas "Tens mesmo a certeza? Felicidades ...".
— Sim, tenho mesmo a certeza! – berrou ela.
— Katherine? – questionou a mãe a atitude exagerada da filha – Sentes-te bem?
Aquelas pétalas brancas foram atiradas janela abaixo, num sorriso fingido acenou um sim frouxo que não conseguiu descansar a alma da sua mãe.
— Tens a certeza? – Questionou a mãe.
— Claro que tenho mãe, porque não haveria de ter? eu não tenho motivos para estar mal... está tudo a correr lindamente!
— Não sei não!
— O cabeleireiro chegou! – Cantarola Ana á medida que entra no quarto acompanhada por um homem de meia idade com cabelo branco apanhado num pucho.
O seu andar fazia lembrar um pavão que se exibe para a sua fémea, as suas roupas enfeitadas parecem as luzes duma arvore de natal e a cara está tão maquilhada que para o olhar menos desatento pode confundir os observadores em relação á sexualidade do homem.
— Vamos menina, sente-se ali! – A voz é delicada em tom afeminado. Katherinne respirou fundo, sentou-se na cadeira e esperou que este homem fosse mais competente do que parecia.
Após produtos e produtos capilares, o penteado foi ganhando forma, caracóis perfeitos caiam pelas mexas do cabelos preto de Katherinne, ela ficou aliviada quando viu o resultado, pelo menos uma coisa estava a correr bem.
Ana correu para o guarda-fatos onde estava guardado o magnifico vestido de noiva que Katherinne comprara á alguns dias, era lindo, tudo o que sempre desejou vestir resume-se a um única vestido de noiva que viu por acaso numa loja no centro da cidade. A sua rapariga de cabelo curto, voltou carregando com o vestido protegido por uma capa preta, quando puxou o fecho Ana e a mãe de Katherinne, sentiram borboletas a voarem no seu estômago. Estavam tão empolgadas que nem conseguiam conter os guinchos histéricos á medida que a imagem do vestido ia ficando mais visível. Com cuidado Ana, destapou o vestido, para deleite de todos era maravilhoso.
— Vá veste! – Manda Dora não querendo mais esperar para ver a filha como a noiva mais bonita do mundo. – Vais ser um arraso, querida filha este vestido foi feito para ti.
Katherinne estava a começar a acalmar-se, devagar foi entrando dentro do vestido, com a ajuda de Ana e de Dora o tecido foi-se ajustando ao seu corpo, formando a imagem viva de uma princesa.
— ó meu deus! – Queixou-se Dora com as mãos á frente da Boca – O vestido está roto!
— É só um pequeno rasgão na manga! – Relativiza Ana – Podemos dar uns pontos.
— Rápido Ana! – Incentiva Dora andando de um lado para o outro sem saber o que pensar. Katherinne, está pálida a olhar para o vestido, o seu olhar está paralisado é como se entendesse que aquilo é um sinal de azar para o seu casamento. Dora, nunca fora de acreditar em bruxarias, azar ou coisas desse género mas desta vez deve admitir que sente um pouco de medo. – Não te preocupes filha, é só um pequena linha solta, dá para arranjar.
— Mãe, achas que o meu casamento está azarado?
— Azarado? – O riso da mãe é um pouco nervoso – Claro que não filha é apenas um mal que pode ser reparado filha.
— Mas mãe...
— Mas nada Vamos reparar isso antes que chegue a hora da missa!
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