Double

3 Capitulo 2


Na igreja detalhadamente enfeitada, todos aguardavam impacientes a chegada da noiva. Dizem que dá sorte a mulher vestida de branco chegar atrasada á cerimónia do seu casamento, pode-se dizer que neste caso o casal está a ser bafejado por uma grande quantidade de sorte.

Charles, perdera a conta ás vezes que pegara no telemóvel para ver as horas. Já ligaram várias vezes para a sua noiva, mas a chamada dá sempre fora de área, o que deixa Charles e os convidados mais próximos um pouco preocupados com a noiva desaparecida.

Elizabete, a mãe de Charles, sobe as pequenas escadas que dão para o altar, onde o filho não para de andar de um lado para o outro de mãos cruzadas atrás das costas. A face vincada pelas rugas abriu-se num radioso sorriso, demonstrando a Charles que não tinha motivos para tantas preocupações.

— Ela finalmente chegou! – Guinchou a sua mãe com uma alegria exagerada.

Charles soltou um profundo suspiro, os seus ombros que até então estavam que nem uma pedra rija, descaíram quando as palavras da mãe soaram como uma música radiosa para os seus ouvidos.

Os violinistas contratados meses antes fizeram notar a sua presença á medida que cada nota se ia espalhando pelo ar, formando uma melodia cerimonial melancólica. Dá mesmo a impressão, de que aqueles instrumentos são tão pesados que as pessoas que o tacam já se sentem exaustas.

Katherinne aparecera á porta da igreja de braço dado com o seu pai, Dora entrara antes da filha juntamente com Ana que beijara a face da melhor amiga antes de se apressar a chegar ao seu lugar.

Aos olhos de Charles, a imagem de Katherinne não correspondia em quase nada com a mulher por quem se apaixonara. Aquela rapariga vestida de branco dava a imagem duma pessoa débil e doente. A sua face pálida não conseguia esconder as rugas que assombravam o belo rosto de Katherinne naquele momento, parecia estar muito preocupada e por mais que quisesse disfarçar era impossível para ele não notar.

Katherinne procurou-o com o olhar, ele correspondeu com um sorriso extremoso.

— Calma. – Vocalizou Charles sem fazer qualquer som.

Á medida que Katherine desfilava até ao seu noivo, os convidados um pouco cansados de tanta espera levantaram-se devagar. A noiva endireitou as costas e sorriu para todos, por dentro Katherinne sentia-se débil, era como andar sobre vidros pontiagudos que lhe trespassam a pele mas ela não se pode queixar tem de continuar a andar para poder alcançar aquilo que sempre quis.

Desde que Charles a pedira em casamento, rezava todas as noites para ter um dia feliz, mas pelos vistos Deus esteve demasiado ocupado para ouvir as suas preces. Desde aquela fotografia que o dia do seu casamento se tem resumido a uma data de acontecimentos bizarros sem qualquer tipo de explicação, parece mesmo que alguém traçou um plano macabro propositadamente para aquele dia.

A cerimónia decorrera sem qualquer tipo de percalço, Katherinne respirou fundo quando o padre deu a bênção, estava tudo a correr conforme o planeado.

— Finalmente estamos casados! – Sorriu Katherinne quando Charles se aproximou para a beijar nos lábios.

— Vou fazer-te muito feliz! – Prometeu Charles num sussurro quente.

Aquelas palavras acariciaram o coração de Katherinne que acreditou sem questionar, era tudo o que queria. No entanto, como em tudo na vida, promessas muitas vezes não passam de palavras que o vento leva...

Muitas fotografias se tiraram, os convidados empanturraram-se com o banquete oferecido, todos estavam espantados e emocionados. Tal como Katherinne desejara, a festa do seu casamento estava a dar que falar pela positiva.

Vagarosamente os raios de sol, foram apanhados pelas mãos frias de mais uma pálida noite. Ritmadamente os pares dançavam a valsa de uma forma encantadora. Pelas mesas os cochichos de conversas diversas impregnavam o ar de uma música calorosa, do nada todo o salão fora engolido pela boca sedenta da escuridão.

As pessoas ficaram apreensivas mas não deram grande importância, pois julgaram tratar-se de um mero corte de energia que não tardaria a ser reparado.

O pai de Katherinne, queria fazer de tudo para deixar a sua filha descansada, a palidez voltara-lhe ao rosto, ela termia por todos os lados, parecia uma criança pequena com medo do escuro.

As mãos enrugadas do velho Albert tentavam forçar a porta a abrir-se, estavam trancados lá dentro, quando todos o percebessem o pânico iria-se instalar e o dia mais especial da sua querida filha iria resumir-se a um grande fiasco.

Assustados, todos os convidados pegaram nos seus telemóveis para poderem fazer alguma luz que os deixasse ver, mas por estranho que possa parecer, nenhum ligava.

— Oiçam todos! – Falou alguém. – Temos de manter a calma, isto não passa de um corte de energia, por favor tentem pegar nas velas que tem em cima das vossas mesas e acendam-nas para podermos ver alguma coisa.

Katherinne, sentira um movimento ao seu lado, suspirou fundo quando imaginou tratar-se de alguém que a viera acalmar, provavelmente Ana andaria aflita atrás da sua melhor amiga. Delicadamente uma mãos macia deslizou pelo seu braço nu, tem a certeza de que se trata de uma mulher. O escuro não deixava ver nada, a mão fê-la agarrar algo, um cabo de madeira talvez. Momentos depois, uma brisa fria voltara a envolver o corpo da noiva indicando que se encontrava de novo só.

A luz voltou de repente, Katherinne respirou de alívio, mas logo sentiu o coração a querer sair-lhe pela boca.

— CHARLES! – Berrou Elizabete correu para o corpo estendido no chão, não se importava com o sangue ainda quente que manchava a tijoleira branca do salão e que lhe manchava o vestido.

Rapidamente, todos os convidados voltaram os seus olhos acusadores para Katherinne e para as provas incontestáveis que a noiva manchada de pingas vermelhas segurava na sua mão trémula.

— Assassina! – Acusou Elizabete.

— AAAAAHHHHH! – Um berro estridente soou do fundo da sua alma, com força atirou a faca para o chão. – CHARLES! NNNNÃÃÃÃOOOO!