Double

8 Capitulo 7


Os dedos quentes do sol cobriam a sua face adormecida, a sua respiração ritmada fazia a velha colcha oscilar como o mar calmo em dias de verão. Algo trepara para cima da cama e agora percorria o seu corpo, Katherine foi despertando devagar, tal como a bela adormecida que acabara de ser beijada pelo belo príncipe que a salvará de uma morte certa e a levará a ter um final feliz no encerrar da história.

Algo pontiagudo golpeava as suas pernas por cima da colcha, uma sensação de terror percorreu-lhe as veias, do nada levantou-se para poder fugir, mas logo se acalmou quando reparou num pequeno gato preto de olhos amarelos que ronronava em cima das suas pernas. Os pequenos pontos amarelos, olhavam para ela com sabedoria, como se compreendesse tudo o que ela pensasse, como se sentisse tudo o que ela sentia. Katherine, sempre gostou destes animais misteriosos, porque apesar de serem independentes e meios selvagens, um gato sente sempre quando o seu dono está em baixo. Eles não são nada animais sem amor para dar, são sim animais que não precisam de se prender ao seu dono para obter mais carinho ou comida, porque um gato é gracioso da maneira que ele é. Desde que era pequena, Katherinne sempre quis ter um gato, mas a mãe era alérgica ao pêlo e então nunca viu o ser desejo satisfeito.

— Olá amiguinho, o que fazes aqui?— Com um sorriso descontraído passo a mão pelas suas costas cobertas pelo pêlo macio, o ronronar torna-se mais insistente e satisfeito. – Obrigada por teres vindo até aqui, conseguiste fazer-me sorrir… és o meu herói!

Devagar deslizei os pés até ao chão, onde calço uns velhos chinelos usados, que parecem os da minha avó. Lá fora toda a gente já está acordada, desde as cinco da manhã que trabalham nos campos como se não houvesse amanhã. Para eles tudo o que importa é o tempo de trabalho, não querem saber da vida moderna, pouca coisa desenvolvida existe aqui, voltei para a Pré-contemporaneidade. É como se o tempo tivesse voltado atrás .

Apos tomar um banho rápido, desci até á cozinha onde uma mulher vestida de preto se encontrava ajoelhada em frente de um altar apetrechado por pequenos santos muito velhos, alguns estavam tão pretos que pareciam ter sobrevivido a algum incêndio, á sua volta existem velas que se derretem minuto após minuto.

Os meus olhos fecharam-se quando o cheiro a cera derretida me entrara pelo nariz dentro. A mulher levantou-se, fiz tão pouco barulho ao descer as escadas que achei estranho ela ter dado pela minha presença.

— Bom dia moça, amanhã tente acordar mais cedo! – A voz da mulher é forte, parece que está a falar para uma criança mal comportada que fez asneiras – vai vestir aquela roupa para ires trabalhar…

— Trabalhar? — Pergunto atónita, mas mais irritada fiquei quando vi a camisola encardida e as calças de ganga gasta que me queriam obrigar a vestir. Só pode estar doida! – Vou trabalhar no quê com essa roupa?

— Ora menina, no que for preciso!

Com intenção de me obrigar a passar á sua frente as mãos pequenas dela tocaram no meu ombro, um choque elétrico atacou o meu braço, como é que isto aconteceu? Os olhos delas ficaram fitos em mim, o que se estava a passar?

— O que aconteceu? – Questionei – Porque me olha assim?

— Não é nada – Respondeu fugindo de mim..

O dia está quente, não é que este ano o verão tenha sido fantástico, nada disso… na verdade estes meses tem sido alternados por chuva torrencial e dias tórridos que nos deixam desidratados só de sair de casa. Hoje é um desses dias, será que aqui não respiram?

O suor percorre a minha testa, há uma hora e meia que estou para aqui a fazer o que me mandaram: Limpar um estábulo! Não é que ache um trabalho que me envergonhe, mas para nunca foi o meu sonho…

— Cansada? – Vá admito ele é muito charmoso e bonito, mas a sua personalidade deixa muito a desejar. Criatura irritante.

Indelicado como sempre, Diego está á minha frente vestido com uma camisa preta que lhe assenta que nem uma luva, tem um sorriso maldoso nos lábios, parece que a minha imagem lhe dá uma satisfação incrível. Como é que homens destes são verdadeiros canalhas?

— Acho que devias tomar um banho! Este cheiro vai ficar agarrado ao seu cabelo para toda a eternidade ahahah!

Não respondo, a melhor resposta a dar aos ignorantes é o silêncio. Desejo por tudo que se vá embora, que pare de olhar para mim com aqueles olhos grandes. Sinto-me uma peça de um museu que está ali para ser comtemplada e apreciada.

— Como é que foi a sua noite? Aconteceu alguma coisa de anormal?

— Porque está tão preocupado? – Questiono sem muito interesse na resposta. – Que coisas anormais poderiam acontecer nesta terra de ninguém?

— Assassina ou não, toda a gente merece uma boa noite de descanso! Se é que a consegui ter…

Porque é que os homens são tão idiotas? Juro que só me apetece atirar-lhe com um monte de esterco para cima, e pensando bem não é uma má ideia…

Limpei o meu casaco e baixei-me para apanhar o ancinho que estava enfiado na palha suja com que enchera o carrinho de mão, sem muito trabalho deixo uma grande quantidade saltar do ancinho, indo parar diretamente ao chão. Fiquei paralisada, sem qualquer tipo de raciocínio lógico no meu consciente, onde é que ele foi? Como é que desapareceu assim?

Do nada uma mão agarra o meu braço, quando me voltou dou um salto assustada e acabo por tropeçar na porcaria dos cavalos.

— Para a próxima deveria ter mais cuidado Katherinne, é sempre assim tão desajeitada? Volto a repetir é melhor ir tomar um banho, urgentemente!

Não sei o que se passa por aí, mas aqui está tudo muito confuso, tenho saudades tuas Ana, quem me dera que pudesses estar aqui, por favor acredita em mim… .

Beijinhos, Kat.