Double
5 Capitulo 4
Naquele momento, o vento uivou tão forte e tão alto que apanhava de surpresa quando parava: as persianas velhas das casas paravam de ranger por alguns segundos mas quando retornava vinha com maior força, derrubando tudo o que encontrasse no seu caminho.
O seu aspeto é medonho, é baixo e anafado, veste roupas andrajosas que libertam um cheiro nauseabundo, pouca coisa pode fazer em relação ao seu cabelo mal cortado e a sua postura é austera. O frio da noite dá enfase ao fumo liberto pelo cigarro que leva repetidas vezes á boca.
É um beco escuro, onde só os gatos vadios se aventuram á procura da mais degradada comida para lhes saciar uma fome galopante. É certamente o local perfeito se para manterem segredos obscuros.
O som dos tacões a desfilarem pela calçada anunciam a sua presença. Como sempre que aqui se encontram, ela veste um casaco de couro preto, combinando-o com as jeans e sapatos da mesma cor, é uma mulher de beleza fatal e ela sabe como a usar, os seus lábios vermelho vivo fazem sobressair os seus cabelos pretos.
Os dedos agitados do vento passam pela rua apertada deixando como rasto uma brisa gelado, o homem encostado á parede aconchega-se com o seu casaco e atira o cigarro para o chão acabando por o desfazer em mil partículas quando o pisa com a sua bota de solas rasgadas.
— Vamos finalmente tratar de negócios? – Questionou o homem com uma voz rouca.
— Claro! – Sorriu ela. Não era um sorriso franco e delicado que adoça o coração só de olharmos para ele, o seu gesticular era tão insensível que fizera tremer a própria noite.
Lentamente foi-se aproximando do velho homem, ele podia ter simplesmente afastado o gesto ou quem sabe ter fugido, mas o seu corpo não se mexia! A morte é algo que nenhum ser vivo pode fugir, nesta noite gelada o pobre homem conheceu o sabor do beijo das sombras e a ela dei a sua alma.
Saciada limpou os lábios e atirou o corpo para o chão.
Dois homens apareceram do nada, pegaram no cadáver gelado pelos sovacos e arrastaram-no até ao carro parado no início da rua. Minutos mais tarde, selaram o corpo numa caixa de madeira cheia de pedras e atiraram-na ao rio que a engoliu sem demora.
Devagar despiu o vestido que embrenhava á seis dias, vestiu umas calças de ganga e uma camisola simples que a mulher policia lhe atirara.
— O que faço com isto? – Questionou na mulher fardada que pegou aquele trapo do chão.
— Queime-o. – Respondeu sem hesitar .
— Se é o que queres… vamos!
Katherinne não se queixou da brutalidade com que a mulher a puxara pelos corredores da prisão, deixou-se guiar como uma criança pequena que tinha medo de tudo. Ao fundo do corredor, o mesmo inspetor que a interrogara esperava-as. Ele sorriu de forma Cortez para a mulher policia, Katherinne sentiu as suas mãos a tremerem, podia jurar que estes dois tinham um caso.
— Bom dia Diego! – A voz dela era macia, dava a ideia de ser uma pessoa muito doce que aguardava ser correspondida por um grande amor – Já lê as notícias de hoje?
— Acabei de acordar, mal tive tempo para tomar café, não me diga que uma noiva voltou a assassinar o seu marido! – Ironizou com maldade.
— Nada disso, acho que vamos ter muito trabalho para os próximos tempos… e dos grandes… — Sussurrou ela numa tentativa idiota de que Katherine não os ouvisse.
— Pronta para ser julgada menina Katherinne? Desculpe a demora, mas o juiz só a pode ver hoje… sabe como é… — Os olhos verdes do agente sorriram para katherinne, coisa que a mulher policia não gostou, deixando-a irritada.
— A minha mãe veio ver-me? – Foi tudo o que perguntou. Diego desviara a cara, desprezando os olhos suplicantes de Katherinne.
Quando chegou ao tribunal, o coração de katherinne começou a bater de forma acelerada, haviam jornalistas por todo o lado, Diego tapou a sua cabeça com o casaco de cabedal que usava sempre, Katherinne, viu-se rapidamente levada para o interior. Ninguém estava lá para a ver, nem mesmo Ana ou a sua mãe. Não conseguiu evitar, as lágrimas que não demoraram a cair.
— Não chores… não devias ter cometido um erro tão grave, se não o tivesses morto a esta hora não estarias aqui… — Explicou Diego com uma acusação implícita naquelas palavras – mais valia teres deixado o rapaz no altar!
— Mas eu não o matei, já lhe disse! Eu sei que não acredita no que lhe digo, por isso não precisa de falar comigo, acho melhor manter-se calado!
— Mais uma vez a negar o inevitável! – Bocejou o inspetor de olhos semicerrados sobre a cara penosa de Katherinne.
Entraram na sala de audiência quando o juiz chamou, todas as pessoas olharam para ela como uma criminosa sem escrúpulos que merece ser julgada em praça pública. Esperançosa, procurou no meio daqueles rostos desconhecidos pela cara calma da sua mãe ou da sua melhor amiga, mas nem uma nem outra estavam ali para a acalmar, Katherinne entendeu com pesar que aquele era o seu fado, todos aqueles em quem confiara tinham-na deixado num momento tão difícil e agora era só ela!
O julgamento decorreu calmamente, estasiada a noiva repetiu várias vezes o que se sucedera no dia do seu matrimónio, o Juiz torcia o nariz a cada frase que ela repetia não acreditando numa única palavra, uma a uma testemunhas que estiveram presentes no local do crime apontaram palavras insanas a Katherinne, descrevendo de forma vil a forma como a rapariga estava na hora do seu casamento.
— Estava pálida, parecia que a obrigaram a casar-se! – Declarou sem medir as palavras uma mulher de tenra idade que Katherinne a penas tinha visto no seu casamento – Charles não merecia, era um menino tão bom… sempre achei que era um melhor partido para a minha filha, mas ele escolheu-a… e vejam só o que aconteceu!
Todas as testemunhas tinham versões parecidas, poucas eram as que tentavam não julgar e dizer a verdade sem colocar os próprios pareceres.
— Não me acredito que Katherinne tivesse coragem para matar o Charles, eles eram um casal modelo, cheio de amor para dar um ao outro… sim, durante a boda ela estava com um ar preocupado, mas é natural todas as noivas estão nervosas no dia mais feliz da vida delas…
Horas mais tarde, o juiz decretou que iria adiar o veredito final até se ter provas concretas contra a noiva, enquanto isso Katherinne, pode ver as suas preses ouvidas quando, o homem gordo sentado no meio dos jurados (que ela julgou ser o seu advogado), explicou que tinham pagado uma choruda fiança para que a menina pudesse aguardar por um novo julgamento fora do ar poluído da prisão.
O vento frio bafejou-lhe a face, sentado sozinha num banco solitário perto da receção do tribunal. Katherinne poderia pensar em fugir, mas as mãos presas não lhe davam muito espaço de manobra. Enquanto esperava que Diego voltasse para levá-la para a sua casa, a rapariga sentiu um calafrio quando viu uma silhueta a olhar para si ao fundo do corredor. Não conseguia ver a cara devido ao grande chapéu que tapava o rosto, poderia dizer que era a visão terrestre da morte, porque aquela pessoa estava completamente vestida de negro. Quem será? Pensou ela.
— Vamos? – Ouviu.
— Sim. – Respondeu ainda a olhar para aquela pessoa e depois voltou-se para Diego – Vou finalmente poder voltar para casa – Quando voltou para encarar de novo aquela pessoa, ela tinha simplesmente desaparecido!
— Não é bem isso! – Negou com uma cara trocista .
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