Dormindo com o Inimigo
10 As mágoas de cada um
Notas iniciais
— Hayato, você acordou!
Fiquei bobo, sem saber o que fazer. Os olhos de Hayato estavam confusos, e eu não tinha certeza se ele me reconhecia.
— Eu preciso chamar o doutor. Otouto, não durma!
Saí correndo pela porta, gritando pelo doutor. Todos no corredor me olharam como se eu fosse louco, e alguns médicos me repreenderam. Não dei bola pra eles.
— Doutor!!!
Gritei quando o vi na sala de espera com minha tia. Ela se manifestou, envergonhada pelo escândalo que eu fazia.
— Tokiya!! Isso é um hospital, você não pode gritar desse jeito!
Mas eu a ignorei e olhei para o médico.
— Doutor, ele acordou!! Hayato acordou!!
— O quê??
Peguei em sua mão e puxei-o até o quarto. Entramos, e meu irmão estava de olhos fechados novamente. Senti o constrangimento de minha tia.
— Tokiya...
— Não... – Olhei para ela, transtornado. – Tia, ele abriu os olhos! Ele abriu!
O doutor repousou uma mão sobre meu ombro.
— Tokiya, você precisa se acalmar. Essas coisas acontecem, você estava muito emocionado por ele ter melhora-
— Não! Eu sei o que eu vi!! – Respondi zangado. Por que não acreditavam em mim?
Tirei a mão de mim rispidamente, e voltei a me aproximar da cama. Peguei em sua mão e com a outra chacoalhei ligeiramente seu ombro.
— Hayato, acorda. – Ele não se mexeu. – Por favor... – Nada. – Droga, eu sei o que eu vi! Abre os olhos, otouto!!
— Tokiya, já chega. – Disse minha tia com a voz firme. – Vamos para o refeitório, você precisa comer.
Derrotado, dei um passo em direção à porta, mas um gemido fraco me fez parar e me virar de imediato para meu irmão.
— Otouto!
Devagar, ele abriu os olhos e deu um sorriso fraco. Meu coração parecia querer sair do peito a cada batida. O doutor e minha tia ficaram surpresos.
— Viram, eu disse. – Desdenhei, rindo da cara de perplexidade deles.
O doutor o examinou rapidamente, pegou em seu pulso e apertou por um momento, em seguida pegou algo que circulava seu pescoço – eu sempre me perguntei para que aquilo servia – e colocou em seus ouvidos. Com a outra ponta, colocou sobre o coração de Hayato. Olhei fascinado para o que ele fazia e ele percebeu, sorrindo.
— Quer ouvir também? – Concordei.
Ele tirou de seus ouvidos e colocou nos meus. Imediatamente, comecei a ouvir algo que parecia a batida de um coração.
Tum-tum, tum-tum
Batia forte e ritmado. Era o coração do meu irmãozinho.
— Incrível! – Devolvi o instrumento a ele, e ele bagunçou meus cabelos. Ele se sentou na beirada da cama e falou com Hayato.
— Meu nome é Takuma Terashima, eu sou médico. Se você entende o que eu digo, pisque os olhos.
Seus olhos piscaram.
— Você reconhece essas pessoas? – Ele olhou para mim e minha tia, e piscou novamente.
— Isso foi um sim? – Perguntei, impaciente.
— Foi. – Confirmou o doutor, sorrindo. – Sente alguma dor? – Dessa vez seus olhos não se mexeram.
O doutor pegou uma caneta e cutucou seu pescoço.
— Sente isso? – Ele piscou. O médico cutucou seu braço. – E isso? – Dessa vez não houve resposta.
— Doutor, o que isso quer dizer? – Minha tia indagou. Seu semblante estava preocupado.
O médico suspirou antes de responder e dessa vez seu sorriso sumiu. Não seriam boas notícias.
— Vamos lá pra fora. – Eles saíram e eu os acompanhei.
— O acidente lesionou sua espinha. Ele perdeu a sensibilidade do corpo.
Não entendi nada do que ele disse, então olhei para minha tia, esperando uma resposta dela.
— Quer dizer que ele não pode mover o corpo.
— Como assim? Ele não pode mais andar? – Me assustei com aquilo. Hayato teria que viver o resto da vida em uma cadeira de rodas? Quem respondeu foi o doutor.
— Por enquanto a única coisa que ele vai conseguir mexer é a cabeça. Mas assim que ele se recuperar dos efeitos do coma, nós vamos iniciar o tratamento da lesão e, mais pra frente, a fisioterapia. Com isso pode ser que ele volte a se movimentar. Com sorte, ele vai poder andar de novo.
“Pode ser” que ele volte a se movimentar? “Pode ser” é um conceito muito amplo. Fechei a cara para o doutor, não gostando da sua resposta.
— Ele consegue falar?
— Suas cordas vocais não se exercitaram por muito tempo. Vai demorar um pouco pra ele poder falar. – O doutor levantou. – Se me derem licença, eu preciso examiná-lo.
oOo
Como o doutor previra, com os exercícios necessários logo a voz de Hayato voltou. Ainda não era a mesma de antes, mas ele já conseguia se comunicar.
Com o tempo, o dia que eu vinha temendo chegara: o dia em que ele perguntou pela mamãe. Mentir ou tentar evitar responder essa pergunta era inútil, pois não poderíamos enganá-lo para sempre, e quanto antes contássemos para ele, melhor.
Não foi uma coisa bonita de ver. Meu irmãozinho, sempre tão alegre e sorridente, obviamente teve a mesma reação que eu. Mas minha tia e eu estávamos lá para confortá-lo.
Mas uma coisa eu omitira dele, a culpa que eu sentia pelo acidente. Obviamente ele não se lembrava do acidente, nem dos dias anteriores, então aproveitei essa brecha para esconder dele esse segredo. Sabia que devia ter contado, desabafado e deixasse que expressasse sua opinião, pois nada garantia que ele me culpasse, mas o medo de ouvir dele o mesmo que meu pai dissera me acovardou.
Logo o nosso aniversário de 8 anos chegou. Seria o primeiro que eu comemoraria desde que o acidente aconteceu. Nos anos anteriores, mesmo quando a minha tia fazia uma festa para mim, eu me trancava no quarto e não saía até todos irem embora. A verdade é que eu sempre quis Hayato junto comigo, e como ele não estava lá eu também não comemorava. Há dois anos eu não comia uma fatia do meu próprio bolo, aquela seria a primeira vez.
Naquele dia eu não fui para a escola. Era uma rara exceção, já que minha tia era muito rigorosa com meus estudos.
Chegamos cedo ao hospital, e Hayato já estava acordado. Entramos no quarto fazendo o máximo de barulho permitido dentro do hospital (que era quase nenhum) e meu irmãozinho ficou muito feliz. Ele ficou encantado com o bolo que minha tia fez.
— Tia!! Esse bolo é lindo! – Ele riu.
— Obrigada. E é gostoso também. Quer provar?
— Siiiiim!!
Cantamos juntos o parabéns.
— Façam um pedido. – Pediu tia Misako, ao acender as velas.
— “Que meu irmão nunca descubra o meu segredo.” – Pedi.
Aquele dia foi um dos mais felizes de que consigo me lembrar. A alegria de meu irmão era contagiante, e em momento algum ele ficou triste ou deprimido por ter que passar esse dia no hospital. Curiosamente, ele não perguntou pelo nosso pai, fato que eu achei estranho. Mas resolvi deixar quieto, não queria estragar a minha alegria.
oOo
Oito anos se passaram. Agora estávamos com quinze anos de idade. Hayato melhorara consideravelmente, depois de muitas cirurgias e fisioterapias, agora ele conseguia mover a parte de cima do corpo. Suas pernas voltavam aos poucos, ele já as movia, mas ainda não conseguia andar sozinho. Eu estava feliz, pela primeira vez em muitos anos. Ver meu irmãozinho melhorar tirava um pouco o peso da culpa dos meus ombros.
Até a escola não estava mais tão chata. Eu estava há algum tempo pensando em me redimir com Otoya por todas as vezes que eu fora grosso com eles nesses anos, mas... bom, eu estava só pensando mesmo. Aquele garoto realmente me irritava, e às vezes parecia fazer isso de propósito.
Hoje era mais um dia normal, estava sentado no meu lugar habitual, perto da escadaria de entrada esperando o sinal tocar para ir a minha sala, jogando no meu celular. Entre uma fase e outra, olhei distraidamente para o portão, e uma cabeleira ruiva chamou minha atenção.
Era Otoya, ele estava descendo de um carro.
Estranhei, pois ele sempre chegava a pé. No banco do motorista havia uma mulher absurdamente parecida com ele, cabelos vermelhos como fogo, um sorriso simples e sincero, olhos brilhantes como se estivesse diante da coisa mais preciosa da sua vida. E talvez estivesse mesmo, pois aquela era sua mãe. Fiquei abismado, observando aquela mulher descer do carro e ajeitar os cabelos de Otoya. Ele sorriu abertamente para ela, um sorriso que eu nunca tinha visto antes.
Dei mais uma espiada no carro. No banco do carona havia um homem, provavelmente o pai. Estranhei novamente, pois nunca ouvira ele falar do pai. Observei melhor o homem e alguma coisa nele não me agradou. Talvez a sua postura aborrecida, como se quisesse que a mulher andasse logo com aquilo, ou a sua expressão.
Sim, definitivamente foi a sua expressão que me desagradou. Era igual a dele. A expressão de nojo que aquele homem tinha era a mesma de meu pai na última vez que o vira, há tantos anos.
Otoya se despediu da mãe, e pude ouvir o homem dizer.
— Tchau, geninho. — E deu uma risada cínica. Otoya fechou a cara.
Estreitei os olhos. Aquele definitivamente não era o pai dele. Quando o ruivo passou por mim, um sorriso mínimo se abriu.
— Bom dia, Ichinose.
Eu apenas acenei com a cabeça. Essa era a forma mais cordial que conseguíamos conviver. Fora isso estávamos brigando ou disputando as melhores notas da turma. Fiquei olhando ele andar rápido para a escola. Meu olhar se prendeu naquele corpo magrelo, ainda em formação.
— "Até que ele é bonitinho." — Pensei. — "Peraí, eu disse bonitinho? Não, apaga isso, pelo amor de Deus! Da onde aquele garoto raquítico é bonito? De que ângulo?"
Chacoalhei a cabeça para me livrar desses devaneios desnecessários.
— “Ele é meu rival. Rival! Concentre-se nisso!"
O sinal tocou.
Na aula de geografia, estávamos ansiosos para receber a prova que fizemos semana passada. Tinha certeza que tinha ido melhor que Otoya, pois o ouvira se lamentando de suas dúvidas ao término da aula naquela dia.
— Otoya Ittoki. — Chamou a professora.
Ele se levantou e foi buscar a sua prova, desanimado por saber que tinha ido mal.
— Meus parabéns, você foi muito bem. — Elogiou ela.
Surpreso, ele olhou a sua nota e...
— EU TIREI 10! — Gritou. Nossos amigos deram vivas.
— Supera essa, Ichinose. — Desafiou baixo ao se sentar atrás de mim.
— "Bom, pelo menos vai ser um empate." — Pensei. — "Eu fui melhor em biologia, então ainda estou na frente."
— Tokiya Ichinose. — Chamou, mas ela não me elogiou quando peguei minha prova.
Voltei para minha carteira e sentei-me, olhando para o papel.
— Não pode ser... — Murmurei em choque.
No papel havia um grande 7,5, contrariando todas as minhas expectativas.
— Ei, Tokiya, — Chamou Syo. — Quanto você tirou? — Mas eu estava em estado de choque.
Ouvi Otoya se levantar na carteira atrás de mim. Ao ver minha nota, ele explodiu em gargalhadas.
— 7,5!! Quem diria que o grande Tokiya Ichinose tem um ponto fraco!!
— Quieto! — Senti o rosto esquentar.
Ren pousou uma mão em meu ombro, solidário.
— Não fique assim, Ichi. Ainda tem história, geometria e inglês para vocês competirem.
De raiva, amassei a prova e joguei-a de qualquer jeito na mochila. Atrás de mim, Otoya ainda ria.
Depois daquele fiasco, as aulas seguintes demoraram séculos pra acabar. Na saída, Otoya estava parado no portão, exatamente onde eu costumava esperar minha tia. Parei ali também, um pouco afastado dele. Ele me olhou. O olhei de volta, mas ele desviou o olhar assim que cruzou com o meu. Podia jurar que ele estava corado.
— Esperando alguém? — Tomei a iniciativa, aquele silêncio era incômodo. Ele me olhou surpreso, eu nunca havia puxado conversa com ele.
— Sim, minha mãe. E você?
— Minha tia. Sua mãe é aquela mulher que veio te trazer?
— Sim! Ela é linda não é? — Disse com um sorriso orgulhoso.
— "Ela é mesmo." — Pensei, mas não falei. — E aquele cara que estava junto, era o seu pai? — Perguntei como quem não quer nada. Novamente, ele fechou a cara.
— Não. É o meu padrasto.
Então ouvimos uma buzina. Minha tia havia chegado.
— Eu preciso ir.
— Sabe, Ichinose, — Otoya chamou. — Você é uma pessoa interessante. Apesar de ser razinza o tempo todo, tem momentos que você até que é agradável. — Ele tinha um irritante sorriso no rosto.
— Do que você está falando? — Debochei. — Eu ainda vou acabar com você em história.
— Hahaha! Você nunca vai conseguir!
E assim eu me virei e fui embora, com um estranho sentimento no peito. Era um calor estranho, como se alguma parte de mim gostasse daquele tipo de relação que eu e Otoya tínhamos. Como se eu gostasse de ter um rival como ele.
"Sim, eu definitivamente gosto de ter um rival. Mas não um rival qualquer, tem que ser ele." Pensei, entrando no carro.
— Que sorriso é esse? — Perguntou tia Misako, divertida.
— Nada. — Enrubesci. Nem sequer havia percebido que estava sorrindo.
oOo
Com o passar dos anos, minha rotina casa/escola/hospital não mudara. A única diferença era que Hayato agora tinha um quarto especial no hospital, só dele, o que facilitava minha tarefa de contrabandear doces e outras guloseimas. Além disso, ele estava recebendo aulas particulares, de modo que ele estudava ao mesmo tempo que eu.
Ele ganhara esse quarto do próprio diretor do hospital, pois ele passara metade da sua vida lá. Era legal, porque lá eu podia levar meus instrumentos e tocar para ele. Eu já havia ensinado ele a tocar violão, coisa que ele já fazia com perfeição. Ele aprendia incrivelmente rápido, contrariando todas as expectativas dos médicos. Durante as aulas descobrimos que a voz dele cantando era extremamente parecida com a minha.
Hoje teríamos mais uma aula. Era surpresa, mas hoje eu levara uma partitura de piano e começaria a ensiná-lo a ler. Entrei feliz, sorrindo, a ansiedade transbordando só de pensar no quanto ele ficaria feliz com a surpresa. Mas ao entrar, congelei onde estava, meu coração falhou várias batidas.
Ele estava lá, sentado ao lado da cama. Meu pai.
Pisquei várias vezes, pensando que aquilo era uma miragem. Ele fechou a cara ao me ver, com a mesma expressão de quando o vira pela última vez.
— Eu já tinha mesmo que ir embora.
Quando ele falou, as lembranças mais dolorosas me vieram à cabeça, a morte de minha mãe, as acusações, os dias desesperadores que se seguiram. Ele se despediu de Hayato, não consegui distinguir suas palavras, e seguiu em direção à porta, para exatamente onde eu estava.
O medo me paralisou, minhas pernas não se moviam, minha voz não saía. Tudo que eu sentia se resumia ao medo que eu sentia daquele homem.
Ele parou à minha frente, me encarando do alto, a expressão fria, olhar avassalador. Eu sentia como se a simples presença dele me esmagasse.
Mesmo nesse estado pude perceber que ele mudara. Os anos pesavam sobre ele, os cabelos, antes azuis por inteiro, agora tinham alguns tons de grisalho. Ele também tinha rugas entre os olhos, como se ficasse com a testa franzida o tempo todo. Disso eu não duvidava.
— Saia da minha frente. — Ordenou.
Mas minhas pernas não se moveram, eu não conseguia parar de encarar aqueles olhos frios, e quando ele entendeu que eu não me moveria, deu um sorriso igualmente frio, como se estivesse satisfeito com a minha reação.
Então ele finalmente saiu.
E eu desabei no chão, de joelhos. Meu rosto suava, meu corpo tremia, meu coração palpitava. Só então eu me dera conta de que todo esse tempo estava segurando a respiração. Depois de muito tempo percebi que Hayato me chamava.
— Tokiya!!! — Olhei para ele. Vi ele pegar alguma coisa na cabeceira e apertar um botão. — O que houve? — Perguntou preocupado. Como eu ia explicar aquilo para ele? Ele não tinha ideia de nada que acontecera nesses anos, nem sabia que eu não morava mais na casa que nascemos.
De repente a porta se abriu e uma enfermeira entrou.
— Chamou? — Perguntou, mas não precisou de resposta ao me ver no chão, tremendo, os olhos vidrados. — Ei, você está bem? — E me ajudou a sentar no sofá. Foi até a cabeceira de Hayato e colocou um pouco de água no copo. Quando o peguei, quase o deixei cair devido à tremedeira em minhas mãos. — O que aconteceu? — Perguntou à Hayato.
— Eu não sei. — Ele respondeu, confuso. Não podia culpá-lo.
A enfermeira abriu uma porta em um dos armários e tirou de lá um aparelho para medir a pressão.
— Não precisa. — Falei. Minha voz saiu rouca, fina. "Que diabos...? Isso não é voz de homem!". Pigarreei. — Não precisa. — Bem melhor. — Foi só um susto, já estou melhor.
Mentira, obviamente, mas precisava acalmar Hayato.
— Tem certeza?
— Tenho. — Então ela saiu do quarto. Olhei para Hayato. — Há quanto tempo ele vem aqui?
— Ele sempre veio, desde que eu acordei... — Respondeu confuso. Fiquei mais atônito ainda, como eu nunca soube disso?
— Por quê?
— Como ele te trata? — Se ele estivesse fazendo com Hayato o mesmo que fizera comigo, ele ia pagar.
— Ele me trata normalmente, como sempre fez... Por quê? — Repetiu a pergunta com mais ênfase dessa vez.
— Por favor, não pergunte. — Pedi, pois não sabia como explicar isso para ele. — Olha o que eu trouxe pra você! — Tirei a partitura da mochila, cortando totalmente o assunto. Mas a reação dele não foi nada do que eu esperava, ele parecia desconfiado das minhas perguntas.
— "Maldito!" — Pensei com amargura. — "Deve estar muito feliz agora, conseguiu acabar com a alegria dele."
oOo
Depois daquele dia eu tinha medo de ir ao hospital e encontrar ele lá.
Passaram-se muitos meses e nunca consegui esquecer aquele dia. Me lembrava como se fosse ontem, o medo apertando minha garganta, a sensação de estar sendo esmagado pela presença imponente de meu pai. Nunca mais queria vê-lo. Mas como diz o ditado, querer não é poder.
Naquele dia, Hayato me ajudaria com os estudos, pois as provas estavam chegando e eu não podia perder para Otoya de jeito nenhum.
Mas ao chegar, tive uma desagradável surpresa, ele estava na recepção, como se meus pensamentos o tivessem atraído. Parecia estar esperando alguém. Ao me ver, se levantou com aquela pose arrogante e superior.
Minha reação foi totalmente diferente da última vez. Ao invés do medo sufocante, senti um grande ódio do homem que me dera a vida. Como ele se atrevia a me fazer recordar de tudo que ele fez, agora que eu já havia superado? Retesei meu corpo, meus punhos se fecharam, pronto para me defender caso ele tentasse fazer alguma coisa. Eu não era mais aquele garotinho assustado, e mostraria isso a ele.
— O que você quer aqui? — Perguntei ríspido. Seus lábios se retorceram em um sorriso tenebroso.
— Eu só vim falar com Hayato. Já estou indo embora. — Algo dentro de mim não gostou do tom de voz que ele usou. Ele passou por mim, em direção à saída.
— O que você veio falar com ele? — Perguntei. Ele se virou, me encarando. Agora estávamos quase da mesma altura.
— Ele me disse uma vez que não se recordava do acidente e dos dias que o antecederam. Eu só vim ajudá-lo a se lembrar.
— Não... — Senti um aperto no peito. — Você não disse a ele que... — Não consegui terminar.
Ele se aproximou de mim, recuei um passo. Sua mão pousou em meu ombro, que tremeu involuntariamente, e sua boca se aproximou do meu ouvido, para ter certeza de que eu entenderia o que ele ia dizer.
— Que a culpa do acidente é sua? Por que você não vai lá e descobre você mesmo?
Não esperei que ele terminasse, corri imediatamente para o quarto dele. Ele estava sentado de cabeça baixa, seus olhos úmidos.
— Hayato....
— É verdade? — Ele me olhou, a mágoa visível em seu rosto. Aquilo me deu a certeza que ele tinha contado tudo. Maldito!
— Ele te contou tudo, não foi? — Não adiantava mais esconder. O dia que eu tanto temia chegara.
— Contou. Me diz, Tokiya, é verdade?! — Uma lágrima escorreu pela sua face, seus olhos imploravam pela verdade.
— É. — Ele soluçou alto.
— Por que você nunca me disse? Por que me escondeu isso!?
— Eu não sabia como dizer... — Tentei me justificar.
— Não sabia como dizer! — Debochou. — Era só chegar e falar!
— Não é tão simples.
— Claro que não! Pra você nada é simples! Você sempre tem que complicar as coisas!
Fiquei quieto, não sabia o que dizer.
— Eu nunca imaginei que chegaria o dia em que tivéssemos segredos entre nós. – Ele continuou. – Eu podia aceitar essa atitude de qualquer um, menos de você.
— Está com raiva de mim? – Ele abaixou os olhos.
— Estou decepcionado... Achei que confiasse em mim.
— Otouto... – Me aproximei e estendi a mão para tocar em seu ombro.
— Não me toque. – Ele se afastou. – Você nem imagina o quanto significa pra mim saber disso, não é?
Não podia acreditar no que estava acontecendo. Meu peito doía.
— E você, imagina o que é pra mim? – Rebati. De repente fiquei muito cansado daquilo, toda a mágoa guardada de repente explodiu. – Você nem sabe o que eu passei todos esses anos enquanto você estava aqui na sua redoma de vidro! Quer saber por que não te contei? Foi justamente por isso! Você sempre foi muito dramático, sabia que ia fazer esse teatrinho ridículo!
— Ridículo?? Ridículo é você! Você acha que é fácil morar num hospital? Suportar as cirurgias, recuperações? Fisioterapia, consulta com psicólogo, você acha que tudo isso é fácil?! Passe por tudo que eu passei e depois venha me chamar de dramático! E tem mais, se eu estou aqui nessa redoma de vidro, a culpa é sua!
Suas palavras me cortaram como navalha.
— “A culpa é minha?” – Pensei. – “Foi você que me disse que queria ir ao parque. Eu pedi a eles por você! Por que todos me culpam? A culpa é sua!” – Mas ele não sabia disso. Se ele não se lembrava dos dias antes do acidente, também não lembrava do que tinha me pedido. E meu pai não podia ter contado a ele porque também não sabia.
Mas antes que eu pudesse dizer isso à ele, uma voz invadiu meus pensamentos. A voz doce de minha mãe, me lembrando de algo que ela havia me dito alguns dias antes do acidente.
— Sabe, Tokiya, como irmão mais velho, você tem que sempre proteger o Hayato. Não importa o que aconteça, você tem que sempre estar lá para ele, porque você é a pessoa mais próxima a ele. É isso que os irmãos mais velhos fazem, eles protegem os mais novos. – E então ela sorriu meiga para mim.
Era isso que ela iria querer que eu fizesse agora. Se eu dissesse a ele o que acabara de pensar, se eu o acusasse assim como faziam comigo, eu não estaria fazendo o meu papel de protegê-lo de tudo. Então tomei a decisão, eu iria esconder isso dele para sempre, já que eu era o único que sabia.
— “Hayato, eu vou te proteger da dor de sentir essa culpa. Eu vou assumir ela pra mim, pra que você não sofra. Mamãe, eu vou cumprir o meu papel de irmão mais velho, e não vou te decepcionar. Mesmo que pra isso eu tenha que me afastar dele.”
— Você tem razão. – Disse, mas antes que pudesse continuar, a porta se abriu.
— Que gritaria é essa aqui? — Era ele.
— Você já não estava indo embora? – Perguntei, mas ele não respondeu.
Meu pai foi até a cama e sentou-se ao lado dele, abraçando-o pelo ombro. Hayato abraçou-o pela cintura, e meu pai não reclamou.
— Ele não pode se exaltar! Você não sabe disso?
— Pai, não brigue com ele... — Pediu Hayato.
— Fique calmo, meu filho. Deite, você precisa descansar.
Fiquei olhando aquela cena. Meu pai ajudando Hayato a se deitar e cobrindo-o. Aquele abraço que ele dera em meu irmão, eu queria ter recebido pelo menos uma vez em todos esses anos. Queria que ele tivesse me dito pra descansar com aquela voz doce e tivesse me colocado pra dormir, exatamente como ele fazia agora. Ciúmes era uma palavra vaga para descrever o que eu sentia naquele momento. Eu tinha inveja do meu irmão. Aquela inveja amarga, negra, que corrompe a alma.
Observei meu pai ajeitar as pernas inválidas de Hayato sob o cobertor, e quando percebi que eu não era mais bem vindo ali, meus olhos arderam e a primeira lágrima caiu. Sem que me vissem, saí dali, preparado para nunca mais voltar.
oOo
Não fui direto para casa e quando voltei, já era noite. Ao entrar, minha tia veio correndo da sala, parecia aflita.
— Tokiya! Graças a Deus! Eu estava preocupada, Hayato ligou e disse que vocês brigaram...
— NÃO FALA O NOME DELE — Explodi.
— Ei, tenha modos! — Ralhou ela. Por um momento esqueci o quanto ela poderia ser assustadora quando eu era mal-educado. — O que aconteceu? Onde você estava?
— Não importa. Desculpe ter gritado. — Segui em direção ao meu quarto.
— Querido...
— Tia, eu não quero mais ouvir falar dele, está bem? Eu nunca mais vou voltar naquele hospital.
Eu sabia que ela não estava entendendo nada, mas não queria ter que explicar naquele momento. Eu estava muito confuso, perdido, magoado, tudo que Hayato dissera não saía da minha cabeça.
Me tranquei no quarto, descontando minha frustração na primeira coisa que vi: um porta-retratos com uma foto minha e de Hayato no nosso primeiro aniversário juntos, depois que ele acordou do coma. Peguei o objeto e atirei-o na parede, o despedaçando. Peguei a foto e rasguei-a em pedaços grandes. Não pensava no que estava fazendo, só queria extravasar aqueles sentimentos ruins, acalmar aquela dor no meu peito.
Do lado de onde estivera a foto agora rasgada, havia uma foto de minha mãe, segurando a nós dois nos braços quando éramos bebês. Peguei a foto e a abracei, me ajoelhando. Me senti novamente aquela criança de cinco anos, que não era capaz de segurar o choro. Em poucos minutos, minha face estava tomada pelas lágrimas que escorriam de meus olhos sem controle.
— Mamãe... Será que o que eu estou fazendo é certo? Me diz o que fazer pra não sentir essa dor desgraçada...
Levantei do chão e deitei-me na cama. Perdi a conta de quanto tempo fiquei lá, abraçando a foto, mas quando finalmente consegui dormir, tinha certeza que já era de madrugada.
Naquela noite não tive sonhos, e ela pareceu passar em um minuto. Quando acordei, minha tia me balançava gentilmente.
— Querido, hora de ir pra escola.
— Hum... Não quero... — Escondi a cabeça debaixo da coberta.
— Nada disso! — Ela retirou-as da minha cabeça. — Você vai levantar agora, tomar banho, tomar café e ir pra escola! E não quero ouvir resmungos.
Eu simplesmente não tinha escolha. Ela era muito rígida quanto a faltar na escola, para meu azar.
Quando levantei, reparei que o porta retrato quebrado não estava mais no chão. Não havia sequer algum vestígio dele. Tia Misako devia ter juntado.
Primeiro fui tomar banho.
— Misericórdia! — Murmurei ao me olhar no espelho. Meus olhos estavam vermelhos, e a pele ao redor estava funda e arroxeada, como se eu tivesse levado um soco de cada lado. Nem o banho ajudou a disfarçar.
Quando desci para tomar café, tia Misako ficou igualmente surpresa com a minha aparência lastimável, mas não disse nada. Estranhamente, ela não perguntou mais o que aconteceu.
Comi em silêncio e fui para a escola. Ao chegar, soube que teria um dia irritante quando cada um dos meus amigos vinha me perguntar se eu tinha brigado assim que me via. Incrivelmente, eu consegui não ser grosso com ninguém, apenas dizia que não tinha dormido bem (o que não era bem uma mentira).
Na hora do almoço, todos saíram e eu fiquei sozinho na sala. Não tinha fome, por isso não almocei.
Me sentia deprimido e sem vontade de fazer coisa alguma. Coloquei os braços sob a carteira e apoiei o queixo neles, olhando para fora.
Mesmo que eu já tivesse pensado em Hayato mil vezes, e mil vezes tivesse dito a mim mesmo que não adiantava ficar remoendo aquilo, não adiantava, meu pensamento sempre voltava ao dia anterior.
Como será que Hayato estava? Será que estava tão mal quanto eu?
"Não importa, ele não precisa de mim. Ele tem o pai dele." — Pensei amargurado.
De repente, senti uma mão pousar gentilmente em meu ombro. Olhei para o lado e Otoya estava ali, com o semblante preocupado. Quando foi que ele entrou? Eu sequer o ouvira.
— Você está bem? — Perguntou.
Afastei a mão dele com um tapa.
— Claro que sim! Por que não estaria?
Mas ao invés de se afastar, como ele sempre fazia, ele se abaixou na minha frente, ficando na minha altura, e estendeu a mão, tocando meu rosto. Moveu o dedo por debaixo do meu olho, como se estivesse secando alguma lágrima que houvesse ali.
E havia.
Quando seu dedo correu meu rosto, pude sentir algo úmido. Eu estava realmente chorando, mas eu nem sequer havia percebido.
Espantado, levei minha própria mão ao local, apenas para ter certeza que aquilo era real. Me senti constrangido.
— Nossa, como eu sou patético... — Ri, com a mão ainda no rosto. — Você vai me zoar o resto da vida agora, não é?
— E por que eu faria isso?
— E por que não faria? — Retruquei.
— Hum... Que tal uma trégua de uns 10 minutos? — Ele murmurou, olhando para fora. Por que diabos ele estava corado?
— Por que está fazendo isso?
— Isso o que?
— Sendo gentil.
Ele ficou pensativo.
— Boa pergunta... Acho que porque eu notei que você não está legal hoje. Nem comemorou com a sua nota maior que a minha no trabalho de física.
Abri a boca para falar mas fechei-a em seguida. Eu definitivamente não ia desabafar com ele! Ele continuou.
— Não precisa me contar o que aconteceu, se não quiser, pode só usar o meu ombro.
Confesso que fiquei tentado. Mas aquilo seria muito embaraçante, então hesitei. Ele se levantou, puxou uma cadeira para mais perto de mim e arqueou o ombro em minha direção.
— Pode usar, não se acanhe. Depois a gente finge que isso não aconteceu.
Algo em seu olhar me dizia que eu podia confiar nele. Sempre ouvira dizer que ele era uma pessoa muito gentil, mas ele nunca me mostrara esse lado.
Ainda hesitante, coloquei uma mão em seu ombro, e apoiei a testa em minha mão. Pude sentir seu cheiro suave e agradável. Em poucos minutos, o fato daquele ombro ser de Otoya já não importava mais, naquele momento percebi que aquele gesto amigável era tudo que eu precisava para desabar de vez.
O silêncio da sala vazia era quebrado apenas por meus soluços, Otoya nada dizia para tentar me consolar ou saber o que tinha acontecido, e eu agradecia por isso.
Em algum momento, ele se mexeu — devia estar desconfortável para ele — mas quando tentei me afastar ele me puxou de volta, dessa vez passando um braço pelo meu ombro. Minha cabeça ficou apoiada em seu pescoço. Ali, fiz uma promessa silenciosa. “Eu prometo que nunca mais vou chorar.” Quando meu choro cessou, ainda continuei ali mais algum tempo, até que as lágrimas em meu rosto secassem completamente.
— Otoya? — Era a primeira vez que o chamava pelo nome. Ele não reclamou.
— Hum?
— Desculpe por molhar o seu ombro. – Me afastei sem olhá-lo nos olhos. — Se você contar isso para alguém, eu acabo com você.
— Eu não vou contar, Tokiya. — Era a primeira vez que ele dizia o meu nome também. Aquilo foi estranho.
Voltamos para nossas carteiras e poucos segundos depois a porta se abriu, e nossos amigos entraram.
— "Ufa, foi por pouco!" — Pensei, escondendo o rosto para disfarçar os olhos vermelhos.
— O que vocês dois estavam fazendo sozinhos aqui? — Perguntou Reiji, com voz desconfiada. Otoya o respondeu.
— Nada. Só vim buscar uma coisa que esqueci. E é melhor sairmos, o Ichinose está com aquele humor.
— Pra variar. — Debochou Ranmaru, e todos saíram.
Como Otoya prometera, ele não contou a ninguém. Pelo menos era o que eu achava, já que nunca ouvi comentários a respeito.
Fiquei em dúvida de como seria encará-lo depois daquele dia, tinha certeza que eu me sentiria sem graça na presença dele. Mas daquele dia em diante eu nunca mais o vira. Ele sumira misteriosamente, sem deixar rastros e sem dizer nada a ninguém. Meus amigos tentaram investigar, achar alguma pista, mas não obtiveram nenhum sucesso. Nunca soubemos o que aconteceu com ele.
oOo
Depois de alguns anos, me formei na escola e nunca mais vi meus amigos. Mas, na formatura, eles me obrigaram a prometer que entraria na Academia de Música Saotome e faria parte da banda deles. Mas nunca cogitei realmente essa possibilidade. Até agora.
Fazia alguns anos que tinha terminado a escola, e agora trabalhava em um centro de atendimento ao cliente. Era uma vida monótona, mas agradável. Há muitos anos não pensava em Hayato. Eu consegui cumprir minhas promessas de nunca mais voltar ao hospital e nunca mais chorar, e isso tinha me ajudado a superar tudo que eu passei. Minha tia também não tocava mais nesse assunto.
Um dia, cheguei do trabalho e havia um panfleto em cima da minha cama. Peguei-o, era da Academia de Música Saotome. Quem colocara isso ali?
— Tia? — Chamei.
— Oi? — Ela gritou da cozinha.
— De onde veio esse panfleto?
Ela havia aparecido na porta, então mostrei o papel a ela.
— Ah, me entregaram na rua. Esse lugar não é aquele que seus amigos da escola te fizeram prometer que entraria?
“- Tokiya, quando você puder, vai entrar na Academia Saotome e entrar na nossa banda, não vai? Promete?”
— É...
Sentei na cama, pensativo. Olhei-o por algum tempo e guardei o papel dentro da gaveta do meu criado mudo. Durante toda a semana aquele papel não saiu da minha cabeça. Em alguns momentos, me pegava pensando em meus amigos. Será que eles já estavam lá? A vontade de revê-los era grande, e pela primeira vez cogitei a possibilidade de seguir carreira como cantor.
Uma noite, já deitado em minha cama, tia Misako bateu na porta.
— Pode entrar.
Ela entrou e se sentou aos meus pés.
— Eu queria muito conversar com você sobre um assunto. — Ela estava com cara de quem aprontara algo.
— O que aconteceu?
— Eu estava limpando seu quarto hoje, e reparei que você guardou o panfleto.
— Ah, aquilo não é nada.
Ela me olhou torto, odiava quando eu não a deixava terminar de falar.
— Desculpe...
— Sabe, eu andei te observando esses dias, e vi você olhando pra esse papel várias vezes. Você tem vontade de se tornar um cantor?
Corei levemente.
— Não tem nada a ver tia, eu estava olhando só por olhar.
— Não foi isso que eu perguntei. — Seu olhar era firme, e eu percebi que ela não sairia dali enquanto não tivesse uma resposta.
Me lembrei da época de escola, cantando no coral com meus amigos. Aqueles tempos eram divertidos. Sim, eu amava cantar, mas...
— Será que eu seria um bom cantor? — Acabei dizendo em voz alta e minha tia sorriu triunfante. Corei mais ainda.
— Claro que você seria, sua voz é linda!
— Mas as pessoas não vão muito com a minha cara, não é?
— Isso é questão de se reeducar, aprender a ser mais gentil com as pessoas. — Abri a boca pra falar, mas ela me interrompeu. — Eu sei que você tem motivos de sobra pra não confiar nas pessoas, mas não acha que está na hora de se dar uma chance? Ou você quer ser atendente o resto da vida?
Não pude responder a isso. Ainda sorrindo, ela bagunçou meus cabelos e saiu. Demorei pra dormir, mas quando o sono finalmente chegou, sonhei que estava no palco me apresentando para uma multidão. Olhando ao redor, todos os meus amigos estavam no palco comigo, cantando como Starish. Otoya também estava lá. Quando acordei, algo queimava em meu peito, e eu soube que sim, eu queria ser um cantor. Eu queria ser adorado e admirado pelas pessoas, queria que todos soubessem que eu também podia ser legal.
Na manhã seguinte, levantei eufórico. Tia Misako estava pondo a mesa.
— TIA! — Cheguei correndo na cozinha e abracei-a.
— Nossa! O que aconteceu?
— Eu quero!
Não precisei dizer mais nada, ela entendeu tudo que eu queria dizer com aquelas duas palavras. Ela acariciou meu rosto.
— Ah, Tokiya! Eu estou tão feliz!
Nas semanas seguintes, pedi a conta do emprego e fiz a matrícula na escola. No primeiro dia de aula, cheguei quase de madrugada, os portões nem estavam abertos ainda. Quando deu a hora, um professor me acompanhou até o meu quarto, que seria dividido com alguém. Essa pessoa já estava tomando café da manhã. Depois de deixar minhas coisas no quarto, desci ao refeitório, olhando a toda volta tentando encontrar rostos conhecidos.
Então eu os vi. Todos juntos em uma única mesa, como costumava ser na escola. Eles não mudaram nada! Meu peito se encheu de ansiedade e me apressei para chegar até eles. Quem me viu primeiro foi Syo, a mão segurando um pedaço de pão parando no meio do caminho, boquiaberto, como se tivesse visto uma assombração. Então todos os outros olharam para a mesma direção, e um a um eles foram me vendo.
— Tokiya!! — Quem gritou foi Reiji. Natsuki se levantou, correu e me deu um abraço um tanto constrangedor.
— Eu não acredito! — Disse ele. — Você cumpriu mesmo a sua promessa.
— Só levou uns 50 anos pra isso. — Ralhou Ranmaru, me dando um tapinha no ombro.
— Eu achei que já íamos ter filhos quando você viesse. — Completou Ai. Uma veia saltou em minha testa.
— Está bem, eu já entendi. Eu demorei pra cumprir a promessa. — Todos riram.
— Pelo visto o seu azedume não mudou nada. — Quem disse foi Ren, me dando um abraço breve.
— Nunca! — Concordei. Era tão bom rever todos. Mas não pude deixar de notar a falta de Otoya. Ele era o que mais falava que queria vir para cá.
— Vem, senta com a gente. — Convidou Masato.
Me sentei. Conversamos sobre o que cada um de nós fez depois que saiu da escola por uns 10 minutos. Em determinado momento, fez-se um silêncio breve, que Cecil usou para perguntar:
— Tokiya, nós estamos curiosos pra saber, por que você não nos disse que tinha um irmão?
O sorriso que ostentava até então morreu em meu rosto. Não sabia se tinha ouvido direito até Reiji dizer.
— E gêmeo ainda!
— Como vocês sabem? — Perguntei baixo. Eles pareceram perceber que eu não gostara nada daquela pergunta, porque seus sorrisos vacilaram.
— Tokiya? — Disse uma voz atrás de mim.
Aquela voz... Não pode ser! Me virei depressa. Hayato estava parado atrás de mim, segurando uma bandeja de comida, que ele depositou na mesa. Olhei-o dos pés à cabeça, para ter certeza que era ele mesmo. Ele estava andando! Sem muleta, sem apoio de ninguém, ele andava com as próprias pernas.
Mas meu fascínio durou pouco tempo, até eu me dar conta da realidade. Foi como se um buraco se abrisse em meu estômago. Eu tinha entrado ali com a intenção de começar uma nova vida, e agora o passado batia na minha porta novamente. Era como se meu destino fosse ser atormentado por isso o resto da vida.
— Você saiu do hospital. — Não que aquela observação fosse necessária. Minha voz saíra mais áspera e seca do que eu pretendia. O princípio de sorriso que Hayato tinha morreu.
— É...
— Hospital? — Alguém perguntou.
— Shhhh!! — Fizeram os outros.
— Pelo visto você não contou a eles. — Disse.
— Pelo visto você também não. — Ele retrucou. Ficou um tempo em silêncio. — Você nunca mais foi me ver... — Ele desviou o olhar, sua postura rígida deixava claro que ele estava nervoso.
— Depois da última vez não me senti muito encorajado a voltar. — Ironizei, com uma sobrancelha erguida.
— Sobre... sobre a última vez... — Ele engoliu em seco. – Eu me lembrei de coisas que eu não sabia...
— Pensei que o seu pai já tinha te contado tudo.
— Nosso pai. – Corrigiu — Só que ele não sabia de tudo, não é?
Não estava gostando daquele tom. Será que ele...
— Ele não sabia de um detalhe importante. Por que você não me disse que fui eu que te falei que queria ir ao maldito parque? — Sua voz aumentou, suas mãos vacilantes seguraram sem firmeza a frente da minha camisa. Seu olhar era de desespero. — Por que deixou que eu te acusasse? Por que nunca me conta as coisas? Por que, Tokiya?!
Retirei suas mãos de mim.
— Porque pra mim não faz a menor diferença quem pediu. A diferença é que eu jamais colocaria a culpa em você como você fez comigo.
— Me... me desculpa... — Ele parecia prestes a chorar. — Me desculpa... nii-san...
— Não me chama assim! — Explodi. Ele ficou chocado. Nossos amigos se levantaram, tensos.
— Por que?
— Porque eu cansei de ser o irmão mais velho que tem que sempre cuidar do irmão mais novo chorão. Sabe porque não te contei? Porque você ia falar "Nossa, como você é insensível. Tá vendo meu estado de saúde e vem me falar uma coisa dessas. Sem consideração."
— Eu não ia...
— Você ia sim! — Cortei-o — Porque você adora se fazer de coitadinho. — Nós falávamos cada vez mais alto.
— Quê?! Coitadinho?? De onde você tirou isso?? Você nem sabe como eu me senti naquele hospital, depois que você foi embora e não voltou mais!
— Errado. Eu sei exatamente como você se sentiu. Foi como se você tivesse sido abandonado, esquecido, traído pelo seu próprio sangue. – Ele arregalou os olhos, atônito. — Dói, não é? — Ele se sentira exatamente como eu.
— Como você...
— Eu sei tudo que aconteceu com você, mas e você, Hayato? Você sabe tudo que aconteceu comigo? Você sabe o que EU passei? Você sequer sabe por que eu preferi morar com a tia Misako?
Ele abriu a boca pra falar, mas fechou-a em seguida. É claro que ele não sabia.
— Por que você é assim? — Sussurrou. — Você nunca me conta nada e depois fica jogando na minha cara que eu não sei das coisas... Você é cruel, Tokiya. Te odeio... quando é assim.
Seus olhos brilhavam com as lágrimas que ameaçavam transbordar.
— Te odeio... — Repetiu mais alto. Me aproximei e segurei seu queixo.
— Não, irmãozinho. EU te odeio.
Ele bateu em minha mão, se soltando, e correu para fora do refeitório. Meus amigos me olhavam boquiabertos. Antes que as perguntas começassem, me limitei a dizer.
— Hayato sofreu um acidente quando era criança. Ele não estudou com a gente porque sempre morou com nosso pai, enquanto eu morei com uma tia. – Não contei que ele morara a vida toda no hospital, se ele quisesse contar, ele mesmo contaria.
— Você sempre acha alguém pra implicar, né? – Quem falou foi Syo. — Primeiro Otoya, agora seu próprio irmão. Você não precisava ter dito que odiava ele.
— Vou pedir pra vocês não se meterem nisso. — Não olhava pra nenhum deles. Minha voz tinha um tom de alerta. — Isso é um problema de família.
— Ele é nosso amigo. — Justificou Reiji. — E você também. — Fiquei em silêncio, olhando para um ponto qualquer no chão.
— Tokiya tem razão. – Disse Ren. – Não é da nossa conta. – E se sentou na mesa, sendo imitado pelos outros, visivelmente contrariados. Me afastei e sentei sozinho em uma mesa, até que alguém apareceu na minha frente.
— Tokiya Ichinose?
Era um homem de cabelos castanhos. Ele me parecia familiar, mas tinha certeza que não o conhecia. Ele estendeu a mão.
— Sou Eichi Otori, você estudou com o meu irmão na escola.
— Eu lembro do seu irmão. – Ele entrou logo depois que Otoya desapareceu.
— Você conhece eles? – Apontou para meus amigos, sentando-se na mesa em seguida.
— Estudamos juntos. – Não estava gostando desse sujeito.
— Parece que vocês brigaram. – Observou. – Eu também não me dou muito bem com eles. Sabe, nós estamos sempre competindo para vermos quem é melhor. Você sabe muito sobre eles?
— Não somos próximos. – Não estava gostando daquelas perguntas. Por que ele iria querer saber sobre eles? Seria pra tentar prejudicá-los? Tinha que ficar de olho nesse cara.
— Hum. Sabe, sempre fiquei pensando, quem você acha que é o elo mais fraco? Eu aposto que é Natsuki.
— Natsuki?? Sem chance! — Ele me olhou pasmo. — Pode dizer o que quiser a ele, ele nunca vai se abalar ou ficar chateado. E nunca retire os óculos dele, a não ser que queira ter a visão do inferno.
Ele pareceu muito interessado.
— Por que? — Ri nasalmente.
— Você vai ter que fazer isso pra descobrir.
Vi uma veia saltar em sua testa. Arrancar informações de mim não era tão fácil quanto ele pensou.
— E os outros?
Pensei um instante.
— Deixa eu ver. Syo odeia ser chamado de baixinho, e se alguém desafiá-lo com certeza ele vai aceitar. Ai não demonstra emoções em situação alguma. Camus é maníaco por doces, ele e Cecil são os únicos héteros ali. Ranmaru e Reiji matavam aula pra se comer no banheiro da escola, e eles pensam que ninguém sabe disso. Masato é de família tradicional, teve uma criação rígida, então tem problemas com infringir as regras. Ren tem problemas em obedecê-las. Hayato é muito fresco, faz cu doce pra tudo, mas NÃO mexa com ele, entendeu?
— Pode deixar, não vou mexer com seu irmão. Sobre os outros, já tive mais informações do que eu conseguiria descobrir em meses sozinho.
O que ele não sabia é que eu não contara nenhuma novidade, nada daquilo era segredo.
— Nós vamos nos dar muito bem. – Seu sorriso era macabro.
— “Sim, com certeza.” – Pensei. – “Ficando perto de você, posso evitar que faça mal e eles.” – E assim virei “amigo” de Eichi. Para evitar que ele pudesse prejudicar meus amigos, estaria disposto a me sacrificar novamente sem que ninguém soubesse.
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