Tokiya nem sequer percebera que havia dormido, e acordou com uma bela dor no pescoço. Logo após levantar-se e alongar o corpo para se livrar das dores, viu a porta que dava acesso a área restrita se abrir e o doutor Terashima sair por ela. Ao avistar o Sr. Ichinose, o doutor foi cumprimentá-lo e Tokiya foi ao encontro deles.

Assim que eles se cumprimentaram, Tokiya olhou interrogativamente para o doutor, que entendeu imediatamente.

— Como você suspeitou — O doutor olhou para Tokiya — A lesão dele sofreu uma luxação. Por isso, como vocês já sabem, ele vai ficar alguns dias aqui em observação. Ele não tem restrições quanto às visitas, pelo contrário, acho que quanto melhor psicologicamente ele estiver, mais rápido vai se curar.

Normalmente, Tokiya suspiraria aliviado ao ouvir isso, mas depois de sonhar com tudo que passara na infância e adolescência, sua expressão era neutra.

— Obrigado mais uma vez, doutor.

— Não precisa agradecer.

Eles apertaram as mãos, o doutor cumprimentou seu pai e saiu. Assim que o doutor sumiu de vista, Hideki segurou o braço de seu filho com força e o puxou para um corredor onde não havia ninguém.

Soltando-o bruscamente, ele olhou acusadoramente para Tokiya.

— Cada dia que passa você me decepciona mais.

— Não foi culpa minha... — Tentou justificar, mas o homem mais velho interrompeu-o.

— Eu não quero ouvir suas desculpas esfarrapadas. Depois de tudo o que seu irmão sofreu por sua causa, o mínimo que você tinha que fazer era cuidar dele, já que estudam juntos! Mas nem pra isso você presta! Você é uma decepção, Tokiya!

O filho soltou-se bruscamente, olhando com ódio para o pai.

— Eu não sou babá dele! Ele já é bem grandinho, sabe o que pode e o que não pode fazer!

Hideki o olhou com presunção.

— Você não tem mais utilidade aqui. Pode ir se quiser. Eu aviso Hayato.

Sem dizer mais nada e sem olhar para o pai, Tokiya saiu.

oOo

Na Academia Saotome, Otoya acordou na manhã seguinte como se nem tivesse dormido. Seu corpo e mente estavam cansados depois do que acontecera na noite anterior.

Deu uma olhada na cama de Tokiya, ela permanecia arrumada.

— Ele não voltou... – Disse com amargura.

Olhou no relógio, dez para as sete. Precisava levantar, mas sentia-se deprimido demais para isso. Não queria encarar Tokiya depois do vexame que passara. Mas decidiu que uma hora ou outra precisaria encará-lo, então levantou e se trocou. Ao sair no corredor que levava ao refeitório, encontrou com Haruka.

— Bom dia, Ittoki-kun. – Cumprimentou a moça.

— Bom dia...

— O que houve? Você parece meio deprimido. – Indagou preocupada ao ver as grandes olheiras debaixo dos seus olhos.

— Não é nada. – Ele riu, pra disfarçar o constrangimento. – Não precisa se preocupar. Está indo tomar café?

— Estou.

— Ótimo, vamos juntos então.

oOo

Masato acordou na cama de Ren, sozinho. O loiro já estava tomando banho.

— “Será que ele ainda está bravo?” – Pensou, lembrando-se da briga que tiveram na noite anterior. Pouco tempo depois, Ren saiu, já vestido com o uniforme. Masato olhou-o atentamente, tentando decifrar seu humor.

Ao vê-lo acordado, o Jinguji sorriu, aquecendo o coração do azulado.

— Bom dia. – Sentou-se na cama, inclinando-se e o beijando carinhosamente.

— Bom dia... – Respondeu Masato, ao se separarem. – Não está mais bravo?

Não se conteve. Ren não respondeu de imediato, se levantando e estendendo a toalha molhada na varanda. O peito de Masato apertou e sua expressão murchou.

— Não pense mais nisso. – Respondeu o loiro, sem olhá-lo e o Hijirikawa teve certeza de que eles ainda não estavam bem.

oOo

Na mesa do café da manhã, o clima não era nada amistoso quando Cecil chegou.

— Bom dia, minna.

Os amigos ficaram indignados.

— 'Bom dia'? — Imitou Syo.

— Eu falei que ele tinha esquecido de nós. — Continuou Masato.

— Calma, gente. — Pediu Ren.

Só então Cecil percebeu o motivo de todos parecerem estar bravos com ele: na noite anterior, ele fora eleito para tentar descobrir porque Otoya estava triste. Ele descobrira, mas depois que o ruivo saiu ele ficou conversando com Hayato e esqueceu que os amigos iam ficar esperando por ele.

— Ahh... Foi mal, gente, eu esqueci mesmo...

Disse com sua maior cara de pau. Todos na mesa, exceto Natsuki, que parecia não ligar para isso, olharam mortalmente para ele.

— Que grande cara de pau! — Camus se levantou. Todos os outros fizeram o mesmo.

— Ei gente, calma aí. — Cecil ergueu as mãos.

— Calma aí, o caramba! — Ranmaru deu um passo em direção de Cecil que recuou um. — Eu acho que você tem que aprender a não nos fazer mais de palhaços.

Quando Cecil insinuou que ia fugir, todos os outros o rodearam e Reiji lhe deu uma chave de pescoço por trás.

— Pessoal, não precisam ser tão agressivos...

Pediu Cecil. A chave de pescoço não era suficiente para machucá-lo, apenas para prendê-lo. Ele levou uma mão ao braço que prendia seu pescoço, mas Syo seguro-o e fez com que ele soltasse. Ai segurou o outro braço.

Nessa hora, Otoya chegou à mesa junto de Haruka, e os dois estranharam toda aquela agitação. Ele deu uma olhada rápida ao redor, e ao não encontrar Tokiya, metade dele ficou feliz, a outra, extremamente decepcionada. Voltou sua atenção para a cena à frente.

— O que vocês estão fazendo? — Perguntou o ruivo e todos deram um pulo de susto ao ouvir sua voz. Ai e Syo largaram os braços de Cecil depressa.

— Otoya! — exclamou Masato.

— Graças a Deus! – Agradeceu Cecil.

Otoya olhou interrogativamente para o braço de Reiji em volta do pescoço de Cecil e o moreno fez o mesmo.

— Opa! — Exclamou, percebendo o que estava fazendo na frente de Otoya. Imediatamente afrouxou o braço e fingiu que o estava abraçando por trás, dando seu melhor sorriso falso.

— Nós só... — Tentou explicar.

Syo continuou.

— ...Estamos demonstrando o quanto gostamos do Cecil, só isso. Hahaha

Todos à volta concordaram com a resposta ridícula que os dois inventaram. Mas Otoya apenas levantou uma sobrancelha, desconfiado dos amigos. Mas como não conseguia pensar em um motivo para estarem bravos com Cecil, decidiu esquecer o assunto.

— Trocou de par, Reiji? — Perguntou Otoya, já que todos sabiam que ele tinha um caso não assumido com Ranmaru.

Imediatamente o moreno percebeu que ainda o abraçava e soltou-o bruscamente, quase fazendo-o cair para trás. Ele deu um sorriso sem graça para Otoya, que ainda achava que eles estavam muito estranhos naquela manhã.

— Vamos tomar nosso café! — exclamou, rindo alto, atitude que os outros acharam extremamente desnecessária.

Assim, todos se sentaram.

— Então, sobre ontem... — Começou Cecil. Percebendo o que ele iria falar, os demais o interromperam imediatamente.

— NÃO! — Gritaram em uníssono.

Natsuki, que sentava ao seu lado, tampou sua boca. Syo lhe serviu um pedaço de pão.

— Aqui Cecil, você precisa comer.

Quando Natsuki retirou sua mão, o loiro enfiou o pedaço de pão inteiro na sua boca, fazendo-o se engasgar.

— O que vocês têm? — Reclamou Otoya, que não estava entendendo nada daquilo.

— Como nós dissemos, só estamos demonstrando o carinho que sentimos por Cecil. — Disse Reiji.

— Vocês estão tão gays hoje. — Comentou o ruivo.

— Nós somos gays. — Disse Ranmaru calmamente.

— Fale por você mesmo. — Reclamou Camus.

— Concordo com o Camus. — Ressaltou Cecil. Ao receber um olhar mortal de todos, ele voltou a comer seu pão, olhando para baixo e fingindo que não havia falado nada.

Depois dessa discussão, todos ficaram quietos, e Cecil resolveu começar a falar sério.

— Pessoal, nós temos um assunto mais importante para nos preocupar. — Todos o olharam interrogativamente. — Hayato foi hospitalizado.

Todos soltaram uma exclamação de surpresa, esquecendo imediatamente a briga boba que tiveram à pouco.

— Foi por causa da queda de ontem? — Perguntou Natsuki.

— Sim. Parece que ele se machucou.

— Por isso Tokiya saiu ontem e não voltou mais. — Concluiu Otoya. Ele havia pensado que Tokiya não tinha retornado por causa de sua investida, mas estava errado. — Então a ligação que ele recebeu ontem... — Começou o Ittoki, Cecil completou.

— Fui eu. Hayato me pediu para chamá-lo.

Um silêncio aterrador pairou sobre a mesa, e quem o quebrou foi Haruka, se manifestando pela primeira vez naquela manhã.

— Como ele está? — Sua expressão era de preocupação.

Cecil se esquecera completamente que ela era fã de Hayato, e que eles haviam prometido a ela que a apresentariam a ele hoje.

— Nanami, me desculpe... eu não quis...

— Está tudo bem, Aijima-san. Eu iria ficar sabendo uma hora ou outra. — Ela tranquilizou-o.

— Eu não sei como ele está... — Respondeu à pergunta dela. — Tokiya ainda não deu notícias.

Ele suspirou, frustrado.

— Tokiya não tem consideração por nós! Ele sabia que iríamos ficar preocupados e não se preocupou em nos dar notícias! — Reclamou Ranmaru, que já não ia muito com a cara de Tokiya.

— Não vamos julgá-lo. – Pediu Masato. – Nós não sabemos o que aconteceu. Vai que ele ainda não pode nos comunicar.

— Vocês não sabem onde ele está? – Ironizou Eichi, que vinha passando pela mesa. – Que belos amigos vocês são.

Todos se levantaram, tensos.

— E suponhamos que você saiba onde ele está? – Ironizou Camus. Eichi não respondeu, apenas jogou um jornal em cima da mesa e saiu sem dizer mais nada.

Otoya pegou o jornal e na capa havia uma grande foto de Tokiya, à porta do hospital. A manchete dizia: Cantor revelação da Agência Shining é hospitalizado. Leu a matéria em voz alta.

Hayato, o cantor revelação do ano da Agência Shining, foi hospitalizado na noite de ontem, no hospital Tokyo Teishin. O irmão gêmeo, aspirante a cantor, Tokiya Ichinose, declarou antes de deixar o local que Hayato sofreu um mal-estar e seu estado de saúde não é grave, e que sua internação é apenas para observação médica. [...]

— Antes de deixar o local? – Indagou o ruivo, olhando para todos. – Isso quer dizer que ele saiu de lá ontem à noite.

— A pergunta é, onde ele está agora? – Completou Syo.

Otoya segurou firme o jornal, amassando suas bordas. Olhou para o nada, preocupado.

— “Onde você está?”

oOo

Depois das aulas, todos resolveram visitar Hayato no hospital. Ao chegarem, Haruka estava visivelmente nervosa.

— Fique calma, Nanami. Ele vai gostar de você. – Tranquilizou-a Otoya.

Como eles eram muitos, a enfermeira não autorizou a entrada de todos ao mesmo tempo. Os primeiros a entrarem foram Cecil, Haruka e Otoya.

— Oooi! – Cumprimentou Cecil, colocando somente a cabeça dentro do quarto. Hayato se sobressaltou, pois não sabia que receberia visitas.

— Cecil! Que surpresa boa! – Se sentou na cama.

— Não fui só eu que vim. – E entrou no quarto, com Otoya atrás dele.

— Como você está?

— Otoya! Eu estou bem melhor, e você? – A pergunta era porque, no dia anterior, Otoya contara a ele e Cecil sua história.

— Estou bem, não se preocupe. – Ele mantinha sempre o mesmo sorriso acolhedor.

— Nós trouxemos uma pessoa que quer muito te conhecer. – Interrompeu Cecil.

Hayato estranhou.

— Me conhecer? Quem?

Otoya sinalizou para Haruka entrar e assim ela fez, corada dos pés à cabeça.

— Essa é Haruka Nanami, ela é uma fã sua.

O rosto de Hayato se iluminou.

— Muito prazer, Nanami-san.

— O-o pra-zer é m-m-meu... – Ela parecia prestes a desmaiar de emoção. — Por favor, poderia me dar um autógrafo? – Perguntou antes que pudesse se conter, curvando-se para ele. Otoya e Cecil se olharam, rindo.

— É claro!!

A garota retirou algo de sua bolsa juntamente com uma caneta e estendeu à Hayato. Era o seu CD de estreia.

— Você tem o meu CD? – Admirou-se.

— T-tenho... – Ela corou novamente.

Ele pegou a caneta e autografou a capa do CD, entregando à ela em seguida.

— A minha música preferida é Nanairo no Compass. – Declarou ela.

— A minha também... – Ele concordou, mas seu sorriso já não era mais o mesmo e todos perceberam. – Essa música é muito especial pra mim.

E assim os dois ficaram um bom tempo conversando e se conhecendo. Cecil e Otoya se sentaram ao lado da cama, apreciando a conversa sem interrompê-la. Eles sabiam que Haruka estava muito feliz por estar conhecendo seu ídolo, e não queriam estragar esse momento.

Quase uma hora depois que eles haviam entrado, Syo e Reiji entram no quarto.

— Vocês vão ocupar todo o horário de visitas, por acaso? – Perguntou o loiro.

— Opa, desculpe! Nós esquecemos da hora. – Respondeu Otoya, rindo constrangido.

— Syo, Reiji! Vocês também vieram! – Hayato exclamou, feliz pela presença dos amigos.

— Claro que viemos! – Concordou Reiji. – Todos estão aqui pra te ver.

— Até Tokiya? – Perguntou esperançoso.

Todos se olharam, receosos. Com apenas um olhar, Syo entendeu que a bomba cairia pra ele.

— Hã... não. – O olhar decepcionado de Hayato foi praticamente imperceptível. – Aliás, queríamos te perguntar se você sabe onde ele está.

Hayato franziu o cenho.

— Como assim? Ele não voltou pra escola?

— Não. – Quem respondeu foi Cecil. – Ele não aparece por lá desde ontem.

O Ichinose ficou pensativo por um instante.

— Tia Misako me disse uma vez que ele tem o costume de sumir quando está aborrecido com algo, e que ele sempre volta depois de um ou dois dias. Então acho que não tem motivo pra se preocuparem, uma hora ele aparece.

— “A tia dele? Será que Hayato não conhece seu próprio irmão?” – Estranhou Otoya. Então ele se lembrou que Cecil lhe dissera uma vez que eles haviam crescido separados, que Hayato morara com o pai.

— Assim esperamos. – Torceu Cecil.

— Como você está, Hayato? – Indagou Reiji. – O que os médicos disseram?

— Eu estou bem, mas vou ter que ficar aqui em observação até o fim de semana. – Suspirou aborrecido.

— E...?

— E... é só.

— Como assim? Não vai dizer pra gente o que aconteceu?

— Ah! É... bom, foi... foi aquele problema que eu tenho nas pernas, sabe? Quando eu caí ontem, parece que inchou um músculo ou alguma coisa assim.

— E você precisa ficar em observação por 4 dias por causa de um músculo inchado? – Perguntou Syo, desconfiado.

— Gente, — Cecil interveio. – Se o médico disse que precisa de observação, quem somos nós pra questionar, não é?

— Ele tem razão. – Concordou Otoya.

Hayato suspirou aliviado. Ele era péssimo em inventar desculpas.

oOo

O fim de semana chegou e Tokiya não apareceu. No café da manhã de sábado, todos estavam desanimados, quietos, nem pareciam eles. A preocupação de todos era visível.

— Nós temos que procurá-lo. — Sugeriu Reiji. Todos concordaram com a ideia.

Todos menos Masato, que levantou-se bufando, furioso. Todos se assustaram quando ele esbarrou na mesa, fazendo vários copos tilintarem ao baterem nos respectivos pratos, murmurando algo como "isso não é justo". Todos olharam para Ren, esperando uma explicação para esse rompante do amigo.

— Ele tem que ir pra casa hoje. Provavelmente ficou chateado de não poder ajudar. — Explicou simplesmente. Todos levantaram as sobrancelhas, murmurando um grande e sonoro "huuummm". Não eram necessárias mais explicações, pois todos sabiam do que se tratava.

— Quando o encontrarmos, é bom que ele esteja em forma, pois ele vai ter que correr muito se não quiser que eu o esfole. — Ameaçou Ranmaru.

— Qual é o problema dele? — Reclamou Syo. — Será que é muito difícil atender a merda do celular?

Haruka olhava de um para outro, apreensiva. Tokiya não era seu amigo, mas ela também estava muito preocupada com ele.

— Eu tenho certeza que ele deve ter um bom motivo pra sumir assim, sem avisar ninguém. — Ela tentou diminuir um pouco a hostilidade dos amigos.

Ren riu.

— Um bom motivo? O Ichi? Acho difícil.

— Por quê? — Perguntou a garota, confusa.

— Ele é uma pessoa difícil de entender. Mesmo nós, que o conhecemos a muitos anos, temos dificuldade de entender o modo que ele pensa.

— Hum... Desculpe, ainda não entendi.

Quem continuou foi Cecil.

— Ele complica as coisas simples. O que, pra ele, pode ser um bom motivo sumir, pra nós é algo banal e sem sentido. Ele sempre foi assim.

Ela entendeu.

— Será possível que... — Ela deixou a frase pela metade.

— O quê? — Indagou Otoya.

— Eu pensei que, talvez, na cabeça dele, ele ache que ninguém liga pra ele a ponto de se preocupar.

— Hã!? Isso é ridículo! — Exclamou Camus. Todos o olharam torto. — Desculpe. — Abaixou a cabeça.

— Tudo bem.

— O que a Nanami disse faz sentido. — Ponderou Cecil, uma mão em seu queixo. — Pensem: quando foi a última vez que algum de nós o convidou para qualquer coisa?

— Nós sempre o convidamos, ele que rejeita. — Defendeu-se Ai.

— Não digo só de convites para sair, mas também as "festinhas" que organizamos às vezes no quarto de um de nós. — Às vezes, no fim de semana, eles se reuniam todos em um quarto, compravam comida e refrigerante, e viravam a noite brincando e conversando.

— Pensando bem, — Foi a vez de Natsuki se manifestar. — eu nunca o vi nesses encontros... Acho que nenhum de nós nunca o convidou.

Todos acenaram com a cabeça, em concordância.

— Então, se ele sumiu assim, a culpa é nossa? — Perguntou Syo, com remorso.

— Ele sempre se isola de todos, mas nós nunca fizemos nada para que se sentisse confortável entre nós. — Murmurou Reiji.

— Talvez ele pense que não faz diferença ele estar aqui ou não. Ele acha que não sentimos a falta dele. — Completou Otoya. — Ele é tão egoísta!!

— Hã!? Vocês estão aqui ainda?!

Indagou Masato, que acabava de descer do dormitório carregando uma mala de viagem. Seu semblante estava fechado e ele emanava uma aura negra. Todos se encolheram, com medo.

— Vão procurá-lo!! AGORA!!

E deu as costas a eles, rumando em direção à saída. Ren o seguiu.

— Masa! — Chamou-o quando chegaram à porta de entrada. Masato parou, mas não se virou.

— Não se preocupe, vai dar tudo certo.

E o abraçou por trás. Masato sabia que ele não se referia só à busca por Tokiya.

— Obrigado. — Murmurou, se desvencilhando do namorado e saindo sem olhar para trás.

— Que medo! — Disse Syo, quando Ren voltou.

— Mas ele tem razão. — Ranmaru concordou com Masato. — Não adianta ficarmos aqui o dia todo. Vamos nos separar para encontrá-lo mais rápido. Certifiquem-se de que os celulares estão com bateria, se não estiverem, carreguem antes de sair.

— Todos tem o número de todos, certo? — A pergunta de Camus era mais uma confirmação, que não demorou a vir.

— Ótimo! — Syo bateu a palma das mãos. — Eu vou com o Natsuki. Vamos procurar nos hotéis próximos ao hospital.

— Eu vou com o Reiji. — Adiantou Ranmaru.

— Que dúvida. — Murmurou alguém. Ranmaru fingiu que não ouviu.

— Vamos procurar nos hospitais da região e no necrotério.

Os olhos de Otoya arregalaram e, automaticamente, todos olharam para ele com ar assustado.

— No... no... — Os olhos de Otoya de encheram de lágrimas.

— Ran-ran!! — Reiji lhe deu um tapa no ombro.

— Quê?!

— Como pode ser tão insensível?

— Não estou sendo insensível, estou sendo realista. Tokiya está desaparecido a semana toda, onde você acha que é o lugar mais óbvio pra procurar? — Ninguém respondeu. — O fato de sugerir procurarmos no necrotério não quer dizer que eu ache que ele está morto, mas de qualquer forma precisamos ter certeza antes de excluir essa possibilidade, não?

Otoya enxugou as lágrimas.

— Você está certo, me desculpe...

O próximo a falar foi Ren.

— Procurar só ao redor da escola e do hospital pode ser em vão. Se ele não queria voltar, pode ser que tenha ido mais longe.

— Talvez ele tenha ido pra casa!! — Disse Otoya, de repente. — Eu e Haruka vamos lá. — Ele a olhou, esperando a resposta dela.

— Hai! — Respondeu ela prontamente.

— Então Cecil e eu vamos procurar nos hotéis aos arredores de Tokyo. — Disse Ren. Ai e Camus se olharam.

— Então nós vamos procurar nos hospitais ao redor de Tokyo. — Terminou Ai.

— Ok! — Ren levantou-se. — Todos já temos pares e destinos, mãos à obra!

Ele estendeu uma mão sobre a mesa. Otoya levantou-se e colocou a mão sobre a dele, sendo imitado por Cecil, Haruka, Syo, Reiji e Natsuki. Então eles olharam para os três restantes.

— Nem pensar! — Decretou Ranmaru.

— Não faço isso nem que me matem. — Concordou Camus.

— Como vocês são bregas. — Ai já estava levantando e dando as costas a eles.

— Que isso, gente! — Reiji tinha uma grande gota em sua cabeça. — Não é tão ruim assim.

Mas eles já tinham ido.

— Deixa eles pra lá. — Syo fez um gesto vago com a mão. — Starish no 3!

— Ei! — Reclamou Reiji.

— Faz de conta que você é do Starish. — Riu Natsuki.

— 3! 2! 1!

— STARISH!! — Gritaram todos ao mesmo tempo.

oOo

Otoya e Haruka foram primeiro até a sala do diretor, pois nenhum deles sabia onde Tokiya morava. Depois de poucos minutos esperando, eles foram autorizados a entrar.

Otoya já havia estado naquela sala uma vez, quando foi fazer sua matrícula. A experiência não havia sido muito agradável, pois, apesar de o diretor estar usando óculos escuros o tempo todo, ele podia sentir que o homem o encarava fixamente. Nesse dia, ele continuava com os mesmos óculos perturbadores.

— O que posso fazer por vocês? – Perguntou ele.

— Nós precisamos de um favor, se o senhor puder nos ajudar.

— Sentem-se. – Na frente de sua mesa, haviam duas cadeiras com almofadas e apoio para os braços. Eram extremamente confortáveis.

O diretor olhava fixamente para Otoya, assim como na primeira vez que se conheceram, e isso o deixou tão incomodado quanto da primeira vez.

— Pode falar. – Ele apoiou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Otoya não conseguiu sustentar o olhar firme do outro e desviou os olhos para a mesa.

— Nós precisamos do endereço de Tokiya Ichinose, por favor, senhor.

Haruka percebeu que havia sido completamente ignorada pelo homem, que sequer movia sua cabeça, e resolveu ficar quieta e deixar a conversa para Otoya.

— Vocês sabem que eu não posso passar esse tipo de informação, é confidencial.

— Nós imploramos, senhor! – Otoya abaixou a cabeça, se curvando. – Tokiya está desaparecido a semana toda, estamos muito preocupados com ele.

— E você acha que ele pode ter ido para casa?

— Sim, senhor. – Ele tentou não pensar no necrotério sugerido por Ranmaru.

— O que você é dele?

Otoya estranhou a pergunta.

— Ele é meu amigo, senhor.

— Eu ouvi dizer o contrário.

O rapaz corou.

— Na verdade, nós fomos rivais no colégio, mas eu nunca o odiei de fato. Apesar de ele não ir com a minha cara, eu me considero amigo dele, e me preocupo muito com ele. – Ele levantou a cabeça, e encarou o diretor, determinado a não desviar mais o olhar.

O diretor riu.

— É muito reconfortante ouvir isso. – Nenhum dos dois entendeu. – Desde que Tokiya entrou nessa escola, todos que dividem o quarto com ele reclamam muito de sua arrogância. Quando você chegou, sei que pediu pra trocar de quarto, Ringo me contou. Mas não deixamos porque tínhamos esperança de que algum dia aparecesse alguém que soubesse lidar com ele. Parece que esse alguém finalmente apareceu.

Otoya o olhou surpreso. O diretor estava lhe dizendo que se preocupava com Tokiya, mesmo que o Ichinose fosse muito problemático.

Enquanto o Ittoki pensava, o diretor mexia em seu computador. Pegou um pedaço de papel e anotou algo, entregando-o à Haruka.

— O endereço dele.

— Muito obrigado! – Os dois agradeceram e saíram.

O diretor ficou mais algum tempo olhando para a porta fechada.

— Kotomi, esse que é o seu filho? – Perguntou em voz alta, sem, obviamente, receber alguma resposta.

oOo

Algumas horas de viagem depois, Reiji e Ranmaru chegaram ao necrotério.

— Esse lugar me dá arrepios. – Reclamou o Kotobuki. Ranmaru fingiu que não ouviu e entrou no local.

A pequena recepção continha apenas uma mesa, um armário com um filtro de água e dois sofás de 4 lugares cada. A recepcionista os olhou com curiosidade.

— Bom dia.

— Bom dia. – Quem respondeu foi Ranmaru. — Estamos procurando uma pessoa que está desaparecida.

— Um momento. — Ela procurou algo no computador. — Temos 3 corpos não identificados. Querem dar uma olhada?

— Queremos. – Respondeu Ranmaru.

Reiji engoliu em seco.

— Hum... Ranmaru...

— Que foi? – Ranmaru estranhou o fato de Reiji chamá-lo pelo nome, e não pelo apelido que lhe dera. Ao se virar, viu que Reiji estava muito pálido. – Ei, você está bem?

— Eu acho que eu não quero entrar aí...

O maior foi até o bebedouro localizado no canto da recepção e pegou um copo de água.

— Aqui. – Reiji segurou o copo sem firmeza. – Sente aqui e me espere, está bem? Eu já volto.

Reiji encarou o copo de água, fazendo um pedido silencioso.

— “Por favor, que Tokiya não esteja aqui...”

Intermináveis vinte minutos depois, Ranmaru voltou com a recepcionista. A água intocada havia sido colocada em cima da mesa. Ao vê-lo, Reiji se levantou, ansioso. Ranmaru não esperou pela pergunta.

— Ele não está aqui.

A tensão de Reiji transbordou por seus olhos quando ele abraçou o maior, que corou com o olhar curioso da recepcionista sobre os dois. Mas o moreno não se importou.

— Graças a Deus...

oOo

Logo depois que todos saíram, Ren, Cecil Syo, Natsuki, Ai e Camus concordaram que não precisavam se deslocar até os hotéis e hospitais, pois podiam pegar os números de telefone na internet. Dirigiram-se então para os quartos, local onde passariam o dia ligando para os locais destinados a cada um. Cada grupo ficou em um quarto diferente, pois sabiam que um ia atrapalhar o outro se ficassem no mesmo quarto.

Syo e Natsuki foram para o seu quarto. Ligaram o notebook e buscaram a lista telefônica, procurando os hotéis que ficavam próximos à escola e o hospital. Com a lista na tela, cada um pegou seu celular e começou a ligar.

As horas passaram rapidamente, e com elas, a esperança de encontrar Tokiya ficava cada vez menor.

— E se Ranmaru tiver razão? – Perguntou Syo, com medo. Natsuki o olhou sem entender. – Se ele estiver morto?

Syo estranhou a última palavra que saiu de sua boca. A ideia de Tokiya estar morto parecia, pela primeira vez, fazer sentido para ele.

— Syo-chan... – Natsuki aproximou-se, preocupado com o amigo.

— Qual outra explicação teria para esse desaparecimento? Se Ren e Cecil não nos disseram nada ainda, é porque também não o encontraram.

— Fique calmo, Syo-chan... Ainda temos tantos lugares para procurar, e talvez Otoya esteja certo. Ele pode ter voltado para casa.

Syo estava sentado na beira de sua cama e Natsuki se abaixou na sua frente, tocando sua face.

— Não vamos desistir até que o encontremos, está bem? — Seus grandes olhos verdes pareciam atravessá-lo, tão calmos que tiraram sua inquietude.

— Ok... – Natsuki permaneceu no mesmo local, com a mão em seu rosto, e sua expressão era como se quisesse lhe dizer algo.

— Natsuki?

— Syo-chan, eu... queria dizer...

Mas o que quer que ele fosse dizer, foi interrompido pelo som de mensagem do WhatsApp do celular de Syo. O menor se levantou imediatamente, constatando que a mensagem era de Ranmaru, no grupo que haviam criado para eles.

Ranmaru
Estamos saindo do IML, Tokiya não está aqui. 10:06

Os dois suspiraram aliviados, sorrindo um para o outro.

— Viu, eu disse! Ele está por aí, em algum lugar, são e salvo.

— Você tinha razão. Desculpe por surtar. – O amigo apenas sorriu para ele, voltando para sua mesa. – O que você ia me dizer antes?

— Não era nada importante. – Mas dessa vez não havia sorriso em seu rosto.

oOo

Ren e Cecil se acomodaram no quarto que era de Ren e Masato e começaram o trabalho imediatamente. Pesquisaram na lista telefônica os hotéis mais afastados da cidade e, conforme Ren ia anotando o número num papel, Cecil ligava para o local. Quando a frustração começava a aparecer e, junto com ela, o estresse, eles trocavam, então Cecil anotava os números e Ren fazia a ligação.

A hora do almoço chegou e foi embora, e os dois permaneceram ali. Cansados e visivelmente aborrecidos, eles se recusavam a sair daquele quarto enquanto não tivessem algum sucesso, mas, próximo à hora do lanche da tarde, eles tiveram que reconhecer que a fome os vencera.

Enquanto Cecil descia para buscar lanches para os dois, Ren aproveitou para ligar para Masato. Franziu o cenho quando ele não atendeu, tentando novamente em seguida. Seu coração batia forte em expectativa. A cada toque não atendido, sua decepção aumentava. Estava morrendo de saudades de seu namorado, mesmo que estivessem separados a apenas algumas horas. Queria ouvir sua voz.

Ainda com o celular na mão, Ren se surpreende quando ele toca. Era Masato retornando a ligação.

— Alô? — Atendeu de imediato.

Oi.

— Oi... O peito de Ren se iluminou ao ouvir sua voz.

Como vão as coisas por aí? Alguma novidade de Tokiya? – Ele sussurrava, como se não quisesse que alguém o ouvisse.

— Ainda não. Ranmaru e Reiji foram ao necrotério, mas confirmaram que ele não está lá.

Que bom...

E aí, como foi?

Horrível. Meu pai está realmente furioso. – Sua voz era dura.

Por que você está sussurrando? – Ele já desconfiava da resposta.

Porque eu tenho que me esconder pra poder falar com você. – Ren podia imaginar com clareza a carranca que ele devia estar fazendo agora.

— Você esteve tão aborrecido a semana toda. Não gosto de te ver assim.

Ah... É que toda essa história com Tokiya na mesma semana que eu tive que vir pra casa... – Fez uma breve pausa, como se não soubesse o que dizer em seguida. – Você sabe o quanto eu odeio ter que voltar.

Eu sei. Fiquei com medo que estivesse bravo comigo, sabe, por causa da nossa briga.

Masato riu.

De onde você tirou isso? Essa briga foi há séculos, eu nem lembrava mais dela. Além disso, você mesmo disse que estava tudo bem em não contar pro meu pai dessa vez.

Ren se sentiu extremamente aliviado.

— Eu estou me sentindo tão bobo agora...

Você é bobo. – Pelo seu tom de voz, Ren pode ter certeza que ele estava sorrindo. Ele podia imaginar cada detalhe do rosto de seu namorado naquele momento.

­— Seu sorriso é lindo, Masato.

Masato hesitou um instante, como se pensasse com cautela o que iria dizer em seguida.

Seria mais lindo ainda se você estivesse aqui. ­— Sua voz agora era grave, o mesmo timbre que ele usava quando estavam na cama. Ele o estava provocando. Ren resolveu entrar no jogo.

— Ah, Masato... Se eu estivesse aí, você não estaria sorrindo, estaria gemendo.

O silêncio do outro lado da linha indicava que Ren conseguira surpreendê-lo.

Masato, onde você está? – Era a voz do Sr. Hijirikawa.

Meu pai! Preciso desligar. – Masato tinha a voz urgente.

Eu te amo! – Disse antes que ele pudesse desligar, mas era tarde demais.

Assim que ele desligou, Cecil voltou com os lanches. Ao ver o celular na mão de Ren e sua cara de decepção, podia imaginar o que aconteceu enquanto ele esteve fora.

— Como Masato está?

— Chateado, aborrecido, mal-humorado.

— “Assim como você.” – Pensou o moreno. — Vocês brigaram?

— Hoje não. Ele tem estado assim a semana toda, desde que o pai dele pediu pra ele voltar.

— Ele odeia voltar, não é?

— Odeia. Mas dessa vez parece que foi bem pior. Eu acabei contando que nós dormimos no mesmo quarto.

— Ele não sabia??

— Não... Aparentemente, Masato não teve coragem de contar pra ele. – Deu a primeira mordida no seu sanduíche com força, e Cecil ficou com dó do pão.

— O que deixou você aborrecido e fez vocês brigarem. Estou certo?

— Você já pensou em ser psicólogo?

Cecil riu.

— Posso considerar, caso a minha carreira como cantor não dê certo.

— Às vezes eu sinto como se não pudesse aguentar mais essa situação, sabe? Eu quero tanto poder assumir nossa relação, mesmo que eu tenha que sair do Starish pra isso, mas ele não parece disposto a fazer qualquer sacrifício por nós. Se ele não consegue nem contar pro pai dele, como ele espera que nossa relação tenha algum futuro? Será que ele pensa que nós vamos poder namorar escondidos pra sempre?

— Eu não vejo porque não.

Ren o fuzilou com o olhar.

— De que lado você está?

— Do lado da razão. Não é óbvio pra você qual é o medo dele? Se ele contar pro pai dele, ele pode proibi-lo até de se tornar um ídolo. Isso significa afastá-los para sempre. Masato não quer te perder, ele te ama. E você sabe que ele não consegue ir contra o pai, ele teve uma criação muito rígida pra fazer isso.

— Vocês já andaram conversando sobre isso, não é?

— Já. Tudo isso que eu falei foi o que ele me disse. Ele me disse também que você não o entende, já que sempre foi um pássaro fora da gaiola, livre pra voar pra onde quiser.

Ren concordou que essa descrição combinava muito com ele.

— Então o que eu tenho que fazer é...?

Cecil levantou e deu um soco leve no topo de sua cabeça.

— Parar de colocar pressão em cima dele. Quanto mais você fizer isso, mais vocês vão brigar.

— Mas se eu não colocar pressão, ele nunca vai assumir o que tem comigo.

— E isso é realmente um problema pra você? Você não acha muito melhor poder ficar com ele, mesmo que seja escondido, do que se arriscar a perdê-lo, talvez pra sempre?

Ren não pode dizer com certeza o que ele achava melhor.

oOo

Assim que saíram da sala do diretor, Otoya e Haruka seguiram imediatamente para a casa de Tokiya. No meio da viagem, o celular de Otoya apitou. Era uma mensagem.

Ranmaru
Estamos saindo do IML, Tokiya não está aqui. 10:06

Seu coração bateu aliviado, e Haruka também sorriu aliviada quando ele contou a ela.

Quando o táxi estacionou na frente da pequena casa de dois andares, o jardim bem cuidado chamou a atenção deles, isso mostrava que a pessoa que morava ali era muito caprichosa.

— “Será que foi aqui que Tokiya cresceu?” – Se perguntou o Ittoki. Ao descer do táxi, sua mão se juntou ao peito. Ele hesitou, sentiu como se ele estivesse invadindo um lugar pessoal do Ichinose, um lugar que sabia que Tokiya não queria que ele estivesse. Então sentiu um calor na mão que permanecia ao lado de seu corpo e, ao olhar, viu a pequena mão de Haruka segurando a sua. Ele a olhou, e ela sorriu encorajadoramente para ele.

— Vai dar tudo certo, Ittoki-kun. – Ele lhe devolveu o sorriso.

Ele tocou a campainha e seu coração bateu rápido. Estava prestes a conhecer a família de Tokiya, ele nunca ouviu o Ichinose falar deles para ninguém. Não demorou e uma mulher perto dos seus 45 anos atendeu a porta.

— Pois não? – Perguntou educadamente.

Otoya a olhou extremamente impressionado. “Essa é a mãe dele?”, se perguntou incrédulo, pois Tokiya não tinha absolutamente nada daquela mulher. Só podia supor que ele puxara o pai.

— Desculpe incomodar, — Começou Haruka, pois Otoya parecia ter congelado. – mas é aqui que Tokiya Ichinose mora?

— É sim, quem são vocês?

Haruka olhou de relance para Otoya, mas ele parecia absorto em seus pensamentos. Ela gostaria muito que ele a ajudasse.

— Sou Haruka Nanami e ele é Otoya Ittoki. Nós somos colegas de classe dele. Nós gostaríamos de saber se ele está aqui.

— Desculpe, ele não está. Vocês estão vindo da escola? Ele deve estar lá.

Como Otoya não reagiu, Haruka lhe deu uma cotovelada nas costelas.

— Ai! – Ele olhou indignado para ela, e ela olhou torto para ele, apontando discretamente para a mulher. Ele pareceu voltar à realidade. – Desculpe, será que nós podemos conversar a respeito dele?

O sorriso que a mulher ostentava até então se esvaiu.

— Aconteceu alguma coisa?

— Ele está desaparecido.

Ela arregalou os olhos, levando a mão à boca. Imediatamente, abriu mais a porta, sinalizando para eles entrarem e assim eles fizeram. Depois de retirarem os sapatos, dirigiram-se para a sala.

— Sou Misako Aiba. – Ela se apresentou. O ruivo estranhou o sobrenome diferente.

— Hum, a senhora é a mãe dele?

— Não, sou a tia dele. – Ela abaixou o olhar. – A minha irmã morreu quando Tokiya e Hayato tinham 5 anos.

Os dois se espantaram com a notícia.

— Desculpe, nós não sabíamos.

— Não tem problema. – Ela apontou o sofá e todos se sentaram. — O que houve com Tokiya?

Otoya lhe contou toda a história, de como Hayato fora parar no hospital e Tokiya sumira de repente. Uma luz de compreensão brilhou nos olhos de Misako.

— Hum... entendo. – Ela ficou pensativa por um momento. – Vocês aceitam uma bebida? Chá, café?

Os dois se olharam sem entender, então Otoya deu de ombros.

— Chá, por favor. – A garota pediu o mesmo.

Quando a senhora Aiba voltou, Otoya continuou.

— A senhora não parece muito preocupada.

— Ah, sim. É que esse tipo de sumiço dele é normal. – Ela sentou-se no sofá ao terminar de servi-los. – Tokiya sempre foi muito sensível com relação ao irmão, sempre que acontece alguma coisa com ele ou quando eles brigam, Tokiya some. Quando criança, ele costumava voltar no fim da tarde, mas quando ficou maior de idade, começou a dormir fora, sumir por vários dias.

— Mas... – Começou o ruivo. – por quê? Por que ele faz isso? Se está chateado com algo, não é muito mais fácil conversar com alguém?

A tia suspirou.

— Ele não contou nada a vocês, não é?

Os dois se olharam confusos.

— Quando ele e Hayato tinham 5 anos, toda a família sofreu um acidente de carro. A mãe deles morreu nesse acidente e Hayato...

— Ficou com sequela nas pernas. – Terminou o ruivo.

— Exatamente. Mas Tokiya e o pai dele não sofreram ferimentos graves. Só que... – Lágrimas vieram aos seus olhos. – Quando Tokiya voltou pra casa, o pai o rejeitou.

— Como assim?

— Eu não sei porque, nem consigo entender o pensamento dele, mas de alguma forma o pai dele acha que Tokiya teve culpa pelo acidente. Então ele o desprezou a ponto de Tokiya pedir pra morar comigo por não aguentar mais dividir a casa com ele.

As primeiras lágrimas rolaram pela face dela. Otoya estava chocado, nunca imaginava que Tokiya tivesse esse tipo de trauma. Ele sentia o peito apertado, sentia pena de Tokiya ter que passar por isso com apenas 5 anos.

— O resultado disso foi que Tokiya nunca mais conseguiu confiar em ninguém. – Misako enxugou as lágrimas. – Nem em mim. Desde aquele dia, ele se tornou arredio, fechado e mal-humorado. Claro que ele já era um pouco carrancudo antes disso, mas piorou muito depois.

Otoya olhou de relance para Haruka, ela também tinha lágrimas nos olhos.

— Então, Tokiya foge por achar que não pode confiar seus problemas a ninguém?

— Sim. Fugir é o meio que ele encontrou de superar as suas dores.

— A senhora sabe pra onde ele vai quando foge?

— Não... ele nunca me disse. Mas acredito que seja um local que ele conheça, um local que ele se sinta confortável e protegido.

Um lampejo cruzou a mente do Ittoki, e de repente, de alguma maneira, ele soube onde Tokiya estava.

— Muito obrigada por essas informações, senhora Aiba. E nos desculpe tomar o seu tempo, nós já vamos indo.

— Não foi nada. E, se vocês puderem não contar pra ele que eu disse essas coisas, eu ficaria muito agradecida.

— Não se preocupe, ele não vai saber. Obrigado pelo chá.

Os dois se curvaram e saíram. Quando chegaram na rua, Otoya olhou as mensagens no celular.

Cecil
Aqui nada por enquanto 10:19

Syo
O mesmo 10:21

Otoya
Eu já sei onde ele está. Procurem nos hotéis mais baratos em Yokohama. 11:18

Reiji
YOKOHAMA???? Isso é muito longe! 11:18

Ren
Muito bem, Ikki. 11:19

Ai
Como você descobriu? 11:19

Haruka o olhou com curiosidade quando ele guardou o celular e não respondeu os outros.

— Então nós vamos pra Yokohama?

— Não. Você vai voltar pra escola.

Ela se indignou.

— Hã?? Por que?

— Acredite em mim, você não vai querer ir pro lugar onde ele está. Não é lugar pra moças como você.

Ela resolveu confiar nele.

— Hum... Está bem então. – Ela chamou um táxi e quando embarcou disse. – Tome cuidado, Ittoki-kun.

— Eu vou me cuidar. – E assim ela partiu. – Está na hora de voltar pra casa.