Dorgas e Dominós
14 Capítulo 14 - Sonho
Notas iniciais
Querido diário, hoje tive um sonho muito bacana.
Tava eu, meus amigos e meu namorado da voz rouca no museu de arte felina, conversando, só que aí eu fui ver as pinturas e os gatos estavam de cabeça pra baixo e VIVOS. Todo mundo tava de cabeça pra baixo também e eu quase caí pra trás, mas enfim, conheci uma das artistas, ela era gostosa pra caralho e começou a me dar dicas de como fazer arte felina.
Mas aí o pessoal de trás ficou bolando cenas de teatro com bonecas e eu fiquei meio hesitante. A boneca tava envolvida em um triângulo amoroso e eu achei isso foda.
No final, eu me senti muito pleno, porque estava em um lugar legal com os meus amigo e tudo estava claro e limpo e divertido.
Olá, meu nome é Susana Vidas-Mortas. Eu tenho 16 anos, duas namoradas (Loreta Liu e Rosângela Calza), cabelo tingido de rosa, olhos de cor púrpura e nesse moemnto estou fugindo para um lugar onde estarei segura e longe do preconceito, da transfobia e da homofobia.
O carro que a Rosângela estava dirigindo emperrou e a gente decidiu vender metade do nome dela pra comprar mais gasolina, então agora a Rosângela é só Ngela, mesmo.
Durante o caminho, apareceu um carro prateado do nada e dentro dele tinha uma moça branca de cabelos negros e três garotas homofóbicas que ficaram xingando a gente. Uma das garotas era morena e usava tranças no cabelo, a outra era gorda e usava um crop top e a última tinha cabelo curto, óculos e pupilas desiguais.
Elas ficaram ofendidas pelo fato de sermos umas gostosas e então gritaram e fizeram gestos obcenos para nós, mas ficou tudo bem porque a Loreta abriu a janela do carro e mandou todo mundo tomar no meio cu com aquela voz grave e andrógina dela que eu amo tanto, aí geral calou a boca e as minas decidiram ficar cantando "Boss Ass Bitch" e serem ridículas com outras pessoas.
Infelizmente, essa não seria a única vez que teríamos que lidas com aquelas meninas.
Mas enfim, ficamos correndo com o carro roubado pelas ruas do Rio do Janeiro e foi muito sexy. Somos lesbian chic, minha amiga, a gente é foda, mesmo!
Essa história acaba com eu morando no porão da Ngela sem a avó dela saber disso, mas fodasse a avó da Ngela, a homosexualidade é o futuro do Brasil. Só preciso tomar cuidado extra pra não ser descoberta, porque se os meus pais descobrirem aonde eu tô, aí fudeu para geral.
"Susie, você devia fazer prova pra nossa escola." Disseram as minhas namoradas.
Agora que não estou mais morando na casa dos meus pais eu meio que preciso de um lugar para estudar, então fiquei tipo "verdade" e comecei a pensar num plano. Vou me esconder e frequentar o colégio Maria do Incenso, mas não posso ser pega de jeito nenhum. Talvez identidades falsas e um pouco da magia negra da Ngela resolvam as coisas para mim.
De repente, percebi uma coisa muito importante... eu quero ser egirl, e não patricinha. Acho que vou no shopping depois para comprar roupas novas.
Acho que vou criar uma conta nova no tiktok também, isso seria foda. Quero dizer, o meu primo já me segue na conta antiga e eu realmente não quero que ele entre em contato comigo, então vou ter que criar uma conta novo se quiser continuar postando vídeos no aplicativo.
Loreta vem me visitar as vezes, quando pode. Nós jogamos Multi-Cartas Arregata juntas quando a avó da Ngela está dormindo.
Tava eu e meus inúmeros namorados no clube Gravidez Automobilística, mais conhecido como o do seu Benedito, stalkeando o nosso querido Urubu Urubinho na Internet.
O Hanrique tinha trazido o laptop dele pra isso. Felizmente, o Hanrique não era nosso namorado, ele era apenas um fofoqueiro duas caras e aproveitador e não, eu não tenho nenhum rancor guardado dele...
"O Uruba tem conta no facebook mas parece que ela é só pra postar fancams do seu Benedito."
"Por que esse filho da puta tá tão obcecado com ele?" Perguntou Markalo.
"Verdade, ele nem é tão especial assim." Continuou Zonas, disfarçando a sua crush. "É só um cara de uma sex-shop que vende porcaria pras crianças."
"E também, ele deve ter uns 70 anos."
"Acho que ele tem 40."
"Fodasse, meus bacanas." Disse Xanuim. "Isso não é importante agora, precisamos só encontrar o máximo de informação possível sobre esse garoto. Quem é ele, quem são os seus pais, por que ele está fazendo essas coisas..."
Enquanto isso, Renrique, o irmão gêmeo do mal do Hanrique, estava pintando as unhas do Markalo de preto. Os dois irmãos juntos pareciam personagens de Sailor Moon pois estavam sempre vestindo roupinhas de marinheiro. Se eles não fossem tão babacas eu iria até querer apertar as bochecha deles.
"Galera, acho que o Urubu tem um tumblr, acabei de achar umas fotos dele aqui."
Fomos todos ver a página no celular do Zonas e lá estava o nosso ex-amigo Urubinho fazendo poses de Jojo e postando aesthetic de yandere no seu blog. Muito a cara dele, aquele muleke gyaru traidor.
"Rapazes." Disse seu Benedito, de repente. "Estou muito feliz que vocês resolveram o negócio e trouxeram as minhas camisinhas de volta... que tal um lanche?" Ele estava segurando várias caixas de McRonalds na mão.
"AÊ, AGORA SIM!" Gritaram Xanuim e Jacinto, os problemáticos.
"Mas e o Uruba?"
"A gente cuida do Uruba depois, vamos comer!"
"É Fernando, saco vazio não fica em pé."
O pessoa então foi lá encher o bucho e eu enfiei uma porrada de batatas fritas na boca quando, de repente, alguém chegou pra mim, tipo: "Fernando, o seu celular tá tocando!" e eu fiquei tipo: "Ah, ok, beleza."
Atendi o celular e era a minha tia, a Dona Morte, 100% putassa.
"Você viu o seu primo?"
"Prima."
"FODASSE EU NÃO QUERO SABER VOCÊ VIU AQUELA DESGRAÇA?"
"Não."
"Ele fugiu de casa ontem." Falou a senhora. "Aquele filho egoísta."
Fiquei me sentindo mal por dentro.
"Eu não faço idéia da onde ela está, tia..."
"É claro que não." Terminou ela, com raiva.
Desliguei o telefone e enfiei mais batata na cara. Não aguento a minha tia sendo transfóbica.
Geral comeu até morrer e eu fiquei me sentido redondo, o que foi legal, mas aí comecei a lembrar de um sonho que tinha tido.
Nele eu tava andando na rua e a Moe me seguia, mesmo depois de ela ter se transformado em Deus. No sonho, ela tava muito putassa, também, e tinham vários gatos.
"Tá tudo bem?" Perguntou Markalo. Ele estava segurando o seu famoso cano de aço com uma das mãos. "Você quer que eu ataque alguém?"
"Não, tá tudo tranquilo." Respondi. "É só a minha prima que fugiu de casa."
"Você faz alguma idéia de onde ela poderia estar?"
"Creio que não."
"Bem..." Disse ele. "Qualquer coisa eu e meu cano estamos aqui para ajudar."
"Beleza."
Não sabia mais o que fazer. Stalkear o Urubinho ou procurar pela minha prima? Parecia que nada valia a pena...
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