Don't Stop Dream
3 Uma bolada na cabeça pode nos reservar grandes surpresas.
Notas iniciais
Acordei em um pulo, os acontecimentos de ontem me deram energia para acordar, tinha a sensação de que as coisas mudariam.
Estamos no aeroporto. Papai realmente resolveu as coisas pelas nossas costas, não precisamos fazer nada essa manhã, apenas entregar a chave do apartamento para o sindico. Louis e papai estavam conversando em alguns bancos longe de mim, resolvi ficar distante para dar a oportunidade para meu irmão pedir desculpas pelo show de ontem. O café do aeroporto do RJ não era tão ruim. Estava observando um grupo de homens muito bem vestidos quando o nosso vôo foi chamado. A caminho do avião, esbarrei em Louis.
_Pediu desculpas pirralho? – perguntei dando ênfase ao pirralho.
_ Pedi, Medusa, e ele foi bem compreensivo, acho que essa história de “Outro Mundo” vai acabar – disse ele, risonho.
Papai sentou em uma poltrona distante da nossa, o que foi bom por que deu a mim e a Louis a oportunidade de falarmos o que quiser, mas parece que meu irmão tem uma anemia muito séria por que o que ele mais faz quando está parado é dormir.
Adoro ler, estava lendo “Academia de Vampiros” mas em uma tarde, durante essas férias, meu pai sentou ao meu lado e começou a falar comigo sobre o livro.
_ Pai, isso é uma ficção, vampiros não existem, mas é uma história boa – falei para ele, tentado ser realista.
_ Como pode ter tanta certeza, minha filha? – disse ele, rindo, como se já tivesse visto um vampiro antes – você não viajou muito, nem viveu muito. Ainda tem muita coisa para aprender.
_ Pai, se existe vampiros, eu não quero me deparar com um por ai – falei , tentando não chama-lo de DEBIMENTAL.
_ Talvez haja vampiros bons, como o Edward de Crepúsculo – disse ele saindo da sala e me deixando completamente sem entender nada.
Meu pai já leu todos os livros de ficção que fala de aventuras que você possa imaginar, acho que é de lá que ele tira todas aquelas ideias malucas. Por algum motivo, depois daquela conversa, não li mais o livro. Agora sem nada para fazer, não tenho outra escolha, comecei a ler e com o tempo, adormeci. A viagem para Londres era muito demorada, por isso acordei algumas vezes para comer, mas parece que o espírito do Louis me dominou, dormi a maior parte do tempo.
Geralmente quando voltávamos das férias, encontrávamos vovó e vovô no aeroporto nos esperando com placas escritas: “Amélia você é muito gostosa” “Louis você é um viadinho” “ Queridinhos da vovó, estamos aqui” “Você quebrou o meu vaso caro antes de viajar, Louis, estou aqui com o meu tamanco para te esfolar”. Todas elas eram feitas pela minha avó, Eloise, ela tinha muita criatividade, para não dizer ao contrario, e também um ótimo senso de humor. Hoje, eles não estavam lá, senti falta da gritaria que assustava todos no aeroporto quando chegávamos, os dois faziam danças estranhas e pulavam de alegria só para deixar eu e Louis desconfortáveis. Eu costumava odiar aquilo, mas hoje, estou sentindo falta.
Seguimos para o bairro de classe media onde meus avós moravam, o táxi estacionou bem enfrente a casa e por um momento eu tive uma lembrança: Mamãe e eu estávamos sentadas no jardim. Louis era apenas um bebe, acho que ele tinha só 1 ano, eu tinha 6. Mamãe segurava Louis no colo e eu brincava com ele. Me lembro que naquele dia, eu estava admirando a beleza de minha mãe; olhos “cor de Amy”, cabelos loiros, e a pele levemente bronzeada, ela era realmente linda. Papai e vovô brincavam de futebol do outro lado do jardim, eles sempre tiveram uma boa relação. Vovó trazia biscoitos para nós. Era um dia feliz.
Entramos em casa e arrumamos nossas coisas no quarto que eu e Louis dividíamos quando ficávamos aqui. Combinamos que não iríamos desfazer as malas, afinal, daqui a dois dias estaríamos indo para WC. Aonde o papai ficaria, nós ainda não sabemos. Ele deixou a mala na sala e foi em direção a porta. Vamos visitar o vovô no hospital. O Volkswagen estava na garagem, vovô adorava aquele carro. Entramos no carro em silencio e seguimos para o hospital. No caminho, Louis falou.
_ Com esse silencio todo está parecendo até que ele morreu – disse ele, com um ar triste.
_ Ele não morreu Lou, nem vai morrer, só estamos sem vontade de falar – respondi.
_ Ta bom – ele deu de ombros.
Chegando no hospital, não encontramos ninguém conhecido então meu pai foi falar com a recepcionista.
_ Boa tarde, eu estou a procura de Paul Halle – disse ele.
_ Um instante, vou verificar – respondeu a recepcionista com cara de cavalo.
Esperamos por alguns minutos, ela liberou nossa entrada e nos informou onde o vovô estava. Louis foi o caminho inteiro imitando um relincho, debochando da cara da recepcionista. Quando chegamos, batemos na porta e quando ela foi aberta tivemos que tampar os ouvidos.
_ QUERIDINHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOS!– gritou minha avó — Louis, como você cresceu! Amélia, isso que eu estou vendo ai são peitos?! – debochou ela.
_ Oi pra você também vovó – disse tentando não ceder ao deboche
_ Ah meu amores, estava com muita saudade de vocês – disse abraçando eu e Louis – Paul está louco para vê-los.
_ Vovô! – gritou Louis, que em meio segundo já tinha desaparecido dentro do quarto.
_ Como vai George, fico impressionada por ter realmente vindo – ela cumprimento meu pai com certo ar de autoridade, como se ela não gostasse dele ou algo do tipo.
_ Não tinha mais nada para fazer no Brasil, Eloise, acho que vou ficar um bom tempo por aqui – respondeu ele calmamente, mas parecia que estava constrangido.
Parece que eles perceberam que eu estava estranhando aquele dialogo e logo vovó me chamou para entrar. Papai veio atrás de mim.
Louis estava sentado em cima da cama e gesticulava coisas com as mãos, o vovô ria. Parece que ele estava com dificuldade para respirar, pois avia um daqueles aparelhos respiratórios em seu nariz.
_ Amélia! – disse ele esticando as mãos.
_ Oi vovô, o senhor está melhor? – perguntei, segurando a mão dele e sentando ao lado de Louis na cama.
_ Eu sou um homem de ferro, Amy, é claro que estou melhor – respondeu ele batendo no peito, se sentindo orgulhoso.
_ Que bom vovô, espero que saia daqui logo – disse sorrindo
_ Vou sair Amy, pode deixar – disse ele retribuindo ao meu sorriso.
Contamos aos nossos avôs sobre nossas férias e meu pai sobre as coisas estranhas que encontrou, o que era quase nada. Nosso tempo esgotou e tivemos que ir embora.
Chegando em casa, percebi que Louis estava muito mais contente, acho que ver o vovô bem o fez tirar os pensamentos ruins da cabeça. Estava com saudade da Danielle, então , subi para o meu quarto, peguei meu celular e liguei pra ela:
_ Alô – atendeu ela, sonolenta.
_ Francamente Danielle, são oito horas da noite você já esta dormindo? – falei , parece que ela não tinha visto quem era antes de atender. Que tipo de melhor amiga fala “alô” no telefone quando vai te atender?!.
_ Amy? Amélia Halle Cowell é você? – disse ela, em um tom muito feliz e bem acordado.
_ Claro que sou eu né Dani, apagou meu numero do seu celular? – perguntei.
_ Não, só não tinha visto. E sim, estava dormindo. Mas por que você não me ligou nessas férias? Eu fiquei esperando a sua ligação – disse ela indignada.
_ Estava esperando você me ligar ué – dei de ombros.
_ Que seja, quero te ver e te contar sobre minhas aventuras em Londres nessas férias — disse ela contente.
_ Tudo bem, amanhã, no parque? – Perguntei.
_ Feito. – respondeu ela.
Nos despedimos e desligamos o celular.
Desci a procura de comida, arranjei uns biscoitos e um suco. Louis estava jogando vídeo game e Perebas parecia inquieto no sofá. Fui até a varanda e vi meu pai sentado em uma das cadeiras lendo mais um de seus livros, era o meu livro preferido “ A Maldição do Tigre”. Era só o que me faltava, agora ele vai dizer por ai que existem dois homens que foram amaldiçoados e vagam por ai como tigres. Resolvi não ficar na varanda para fugir de qualquer assunto que ele queira puxar comigo sobre o livro. Subi para o meu quarto e comi meu lanche, depois tomei um banho e me deitei.
Sonhei com um mundo em que tudo era fantasia. Acordei atordoada. Não aconteceu absolutamente nada no sonho, era só um lugar sombrio com coisas fantasmagóricas pelo ar, como os Dementadores de Harry Potter. Eu não gostei nada desse sonho.
Olhei para o relógio e já eram 13 hrs, como posso ter dormido tanto e sonhado tão pouco? Tomei um banho e coloquei uma roupa simples, jeans e uma camisa de manga comprida dos Ramones, tênis e um gorro, bom era o meu estilo hoje. Passei pela cozinha dizendo apenas um “Oi” e “Tchau”, não deu nem tempo de meu pai me questionar que dormi demais e não almocei. Comeria alguma coisa na rua. Vovó não estava lá, ela deve querer ficar mesmo 24 hrs com o meu avô no hospital. O Parque não era tão longe de casa, por isso fui a pé. Marquei com Dani, 13:00, já eram 13:50 e ela não estava lá, sentei em um banco e esperei. Ao som de Imagine Dragons eu esperava a minha melhor amiga que sempre se atrasava.
De repente sinto uma dor imensa na cabeça, alguma coisa muito pesada me acertou, inclinei para frente e pus a mão na cabeça, olhei para o lado, uma bola!
_ Me desculpa, me desculpa mesmo, eu te machuquei? – uma voz masculina vinha logo atrás de mim, colocou a mão sobre a minha e se ajoelhou na minha frente.
Quando eu levantei o que vi foi hipnotizante. Um homem, pele branca, cabelos negros molhados de suor, mesmo com o pouco de frio que estava fazendo em Londres; os braços eram cheios de músculos e estavam expostos por uma regata preta, mas o que mais me impressionou foram os olhos dele, eram maravilhosos, um azul-cobalto perfeito. Eu estava tão em transe que não percebi que ele estava esperando que eu o respondesse.
_ Ou, me responde, eu te machuquei? – perguntava ele preocupado.
_ Nã.. é... Não... Está tudo bem – respondi, totalmente sem jeito.
_ Me desculpe, não tive a intenção, estava jogando bola ali com os meus irmãos. – respondeu ele tentando se explicar.
_ Não se preocupe esta tudo bem, ta doendo um pouco mais vai passar – respondi, ainda fazendo careta por causa da dor.
_ Me desculpe mais uma vez – repetiu ele.
_ Pode voltar para o seu jogo – disse me endireitando no banco, tentando parar de fazer caretas por causa da dor, ele se levantou e ficou parado na minha frente – alias, você tem um chute poderoso — disse, sorrindo.
_ Obri... – algo o interrompeu.
_ Hummm... Interessante Amy, eu me atraso um pouco e você já arruma um homem desses para de distrair? E que homem heim! – disse Danielle o analisando e fazendo aquela cara de aprovação.
_Eu só acertei uma bola na cabeça dela – disse ele sem jeito – bom, me desculpa mais uma vez. – ele estendeu a mão e eu a segurei. Pode ser doideira, mas um choque percorreu meu corpo, eu não conseguia parar de olhar para aquele par de olhos azuis hipnotizantes.
Nós soltamos nossas mãos e ele deu um “bom, tchau” para Danielle e saiu totalmente sem jeito. Eu o acompanhei com os olhos até que minha infeliz amiga me acordou.
_ Alôo! Terra chamando Amélia – disse ela estalando os dedos na frente nos meus olhos.
_ Oi Dani – disse, me voltando para ela.
_ Que gato heim – disse ela debochadamente.
_ É, um gato! – falei dando outra espiada, ele brincava com três crianças. Uma delas era uma menina, aparentava ter cinco anos, era linda, cabelos pretos e olhos claros, mas nada comparado com os olhos do galã que acabara de acertar uma bola na minha cabeça. Os outros eram dois meninos, gêmeos, todos com o mesmo estilo de visual que a menina. Eles estavam se preparando para ir embora e antes que eu pudesse virar o rosto, o cara que me acertou olhou para a minha direção e me pegou olhando para ele, um sorriso de canto de boca surgiu em seu rosto e ele fez um aceno com a cabeça e se foi. Me voltei para Danielle, estava na cara que ela iria me zoar com esse cara por muito tempo por conta do fato de como eu estava o observado.
_Olha nem vem, Ok? – falei antes que ela pudesse falar qualquer coisa – ele é um pouco estranho ta? Só estava observando o jeito dele.
_ Uhum, sei, gostou do jeito né? – zombou ela.
_ Para cara, você não tinha que me contar sobre as suas aventuras? – falei, mudando de assunto.
Um sorriso se abriu em seu rosto e ela começou a contar tudo, estava tão empolgada que até esqueceu de me zoar. Me contou que foi para o uma cidade pequena no sul da Inglaterra, para a casa de seus avós, e encontrou o seu antigo amor de infância, e bem, vocês já devem imaginar o que aconteceu. ACONTECEU! Ele a levou para um jantar romântico e depois os dois dormiram juntos, e o que Danielle fez no dia seguinte? Deixou ele com apenas um bilhete que dizia “Você é bom de cama, mas da próxima vez, tire a meia, é tão sem magia homem de cueca e meia”. Danielle era assim, uma caixinha de surpresas. Quando ela me perguntou sobre as minhas férias, disse a ela que não fiz absolutamente nada, o que realmente aconteceu.
Passamos a tarde toda no parque e a noite, fomos para uma lanchonete. Voltamos para a casa sedo, amanhã estaríamos indo para WC para mais um ano letivo.
Cheguei em casa e nem me dei o esforço de procurar Louis ou meu pai, fui direto para o quarto, tomei um banho e deitei. Queria continuar lendo o meu livro, mas aqueles olhos azul-cobalto não me saiam da cabeça. Lembrei da história “A maldição do tigre” meu livro preferido, que meu pai estava lendo. Os olhos do Dhiren eram iguais aos do menino do parque. Eles eram parecidos, tirando a pele branca, podia dizer que os dois eram irmãos. Me dei conta que não sabia o nome dele e por algum motivo queria vê-lo de novo.
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