Don't Stop Dream
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Notas iniciais
Em Londres tínhamos o costume de jantar assim que anoitecia, mas aqui no Brasil as coisas são diferentes, já eram 19:00 horas e a comida ainda não estava pronta. Papai disse que iria cozinhar e eu nem me manifestei para poder ajuda-lo, não estava nem um pouco a fim de esquentar a barriga no fogão. Decidi ir para o quarto e tomar um banho.
Louis já havia arrumado as suas coisas para a viagem de amanhã, por algum motivo ele queria voltar o mais depressa possível. Entrei no banheiro e tomei um banho. Coloquei uma roupa leve e enquanto penteava meus cabelos parei em frente ao espelho e me analisei: Pele branca, cabelos médios cor de mel, olhos que até hoje não consegui decifrar a cor, era uma mistura de castanho claro, mas a luz do sol eles pareciam um verde brilhante, minha avó costuma chamar essa cor de “Amy”, pois nunca vira alguém com uma cor parecida, mas eu sim e ela também, minha mãe. Eu não era muito alta, mas também não podia me considerar pequena. De alguma forma, não estava satisfeita com o meu corpo.
_ MEDUSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!– gritou Louis da sala.
Sim, o que ele acabou de me chamar era Medusa. Ganhei esse apelido a um tempo atrás quando eu e minha amiga, Danielle , estávamos no jardim do colégio e resolvemos fazer “dreds” no cabelo. Dani aprendeu na internet um jeito muito estranho de faze-los e meu irmão apareceu lá sem ser convidado e chamou sua gangue de amigos e juntos chegaram a conclusão que eu estava parecendo a medusa. Daí surgiu o apelido.
_ O que você quer pirranho? – respondi furiosa, ainda não me acostumei com esse apelido.
_ O jantar está na mesa. – respondeu ele.
_ Já estou indo. Espero que você não tenha feito uma de suas brincadeiras sem graça novamente. – respondi saindo do quarto.
_ Eu estava com ele todo o tempo, pode ficar tranquila Amy. – falou meu pai assim que cheguei à copa/cozinha.
Achei estranho ouvir a voz do meu pai, acho que hoje foi a primeira vez que ele falou.
_ Obrigada pai – respondi dando um beijo em sua bochecha.
Noite passada, Louis comprou um ratinho de estimação em uma loja de animais aqui perto, colocou o nome dele de Perebas em homenagem ao rato do Rony de Harry Potter. Bom, na hora do jantar quando fui dar um gole no meu suco adivinhem o que eu achei? Um rato no suco de laranja! Minha reação não foi das boas, quase matei o pobre do rato, mas depois quase matei, propositalmente, o meu irmão pela brincadeira sem graça que ele fez.
_ Crianças, tenho um assunto para tratar com vocês. – disse meu pai, interrompendo o silencio.
_ Aconteceu alguma coisa? – perguntei.
_ Sim, bom, seu avô, ele está doente – ele fez uma pausa – ele passou mal a alguns dias, estava pensando a melhor forma de contar isso a vocês. – respondeu ele com um ar de tristeza.
_ É muito grave? – respondeu Louis, atordoado. Ele adorava o vovô, quando era mais novo costumava o chamar de pai. – Por que não contou isso antes? Temos que vê-lo!
_ O estado dele agora é instável – disse meu pai, tentando acalmar Louis que estava explodindo de ódio — Meu filho, me desculpe, eu realmente não sabia como contar a vocês, e também, eu estava resolvendo algumas coisas.
_ Que coisas? – perguntei.
_ Vou voltar para Londres, os médicos disseram que seu avô vai ficar alguns meses internado. Sua avó não vai dar conta de tudo sozinha, afinal, ela nem quer sair de perto dele. – respondeu ele um pouco sem jeito – e também – continuou – as pesquisas aqui no Brasil não tiveram bons resultados, o conselho disse que aquela amostra de alga que eu enviei em 2009 não era o suficiente e depois daquilo eu não encontrei mais nada — ele parecia constrangido em falar sobre isso.
_ O conselho nunca acreditou nas suas teorias, não sei por que ainda se importa com isso. Aquele tipo de alga nunca foi encontrado em nenhum lugar, eles deviam dar mais importância — disse, tentando faze-lo se sentir melhor.
_ Pare com isso Amélia – gritou Louis – você sabe muito bem assim como eu que ele é um perdedor, aquilo era apenas M A T O! – ele estava realmente explodindo de raiva – George é um maluco, se ele pelo menos estive trabalhando o vovô poderia estar viajando pelo mundo, ele podia estar feliz realizando os sonhos dele, mas esse lunático que chamamos de pai está muito preocupado com umas algas estranhas que do nada apareceram que nem se importou com ele! – ele chorava, o que o fez ficar muito vermelho por conta de ser muito branco.
_ Louis, pare... – antes que eu pudesse continuar Louis saiu e foi na direção do quarto, batendo a porta com tudo.
_ Ele esta certo – falou meu pai, triste.
_ Eu vou falar com ele – respondi.
Não quis falar nada para confortá-lo, eu não tinha que falar nada, estaria mentindo se falasse. Concordava com tudo que Louis havia despejado sobre ele na mesa de jantar, mas nunca tive a mesma coragem que ele de disser tudo aquilo. A cada dia, eu me impressionava mais com o meu irmão.
Deixei a comida quase intocada na mesa e fui na direção do quarto.
_ Louis, abre a porta – disse calmamente – sou eu, Amy, sua Medusa.
_ A porta esta aberta Amy – falou ele com uma voz falhada.
Abri a porta e o vi. Estava deitado na cama de casal que dividíamos, o travesseiro estava de baixo do seu rosto, encharcado por suas lágrimas. Louis estava vermelho de tanto chorar, parecia o mesmo garoto de 5 anos que chorava descontroladamente por que perdera um dente. Na época eu ri que nem uma louca, ele fez o maior escândalo falando pra todo mundo que iria ficar desdentado, mas hoje, eu tinha a imensa vontade de o abraçar e falar que o dente ira crescer de novo, mas no caso, falar que o vovô ia ficar bem.
_ Se veio defender ele mais uma vez, pode saindo – disse ele, me olhando e segurando para não chorar mais – você não devia ter defendido ele, você sabe que ele é o errado da historia – nesse momento, o choro desabou novamente.
_ Louuu – disse me sentando na cama e o abraçando – eu sei que não devia, mas ele é nosso pai, temos que respeita-lo, nós nunca jogamos esses tipos de coisa na cara dele assim, não esperava aquela reação de você – fiz uma pausa, ele me olhava prestando atenção em cada palavra que eu dizia – mesmo que não concorde, acho que devia conversar e pedir desculpas a ele.
_ Eu sei, vovô diria a mesma coisa, não é? – ele riu.
_ Verdade. – ri também, tentando anima-lo.
_ Acha que ele vai ficar bem? – perguntou ele, esperançoso.
_ É claro que vai, lembra aquela vez que ele teimou em consertar o telhado e caiu? – Perguntei, tinha certeza que esse episódio daria a Louis uma grande esperança.
_ O velho é tão durão que nem no hospital foi parar. – ele respondeu, rindo novamente.
_ Ele ainda disse que ele quis cair, para mostrar pra gente que ele era “duro na queda”– ri lembrando do acontecido. O meu avô era realmente uma figura.
_ Irmã – chamou ele interrompendo o riso.
_ Oi Lou – respondi.
_ Você se parece com a mamãe, eu não passei muito tempo com ela, mas você tem o jeito dela e é bonita igual a ela. – disse ele me olhando com um olhar que ninguém nunca me olhou, um olhar de admiração – tenho orgulho de ser seu irmão.
_ Obrigada Lou, eu te amo – agradeci, acariciando o seu rosto.
Aos poucos ele foi dormindo, a choradeira o fez dormir profundamente. Não sai mais do quarto naquela noite, não achava que meu pai precisava mais de atenção do que Louis. Troquei de roupa e me lembrei de que ainda não tinha arrumado minha mala, agora mais do que nunca, tínhamos que voltar para Londres. Arrumei minha mala e me certifiquei de que não estava faltando nada. Deixei-as ao lado da bagagem de Louis quando vi uma coisa; havia um papel no bolso lateral de uma de suas malas, aquilo me chamou muita atenção, então peguei o papel e li o que estava escrito.
Era mais uma das cartas de Louis para o vovô, ele mandou cartas para ele durante toda as férias, todas as semanas, essa, era a ultima carta. Havia uma foto que eu tinha tirado hoje, era Louis correndo na praia. Junto se lia o seguinte:
Oi vovô, essa é a ultima carta sobre as minhas férias, e essa eu vou te entregar pessoalmente. Hoje o papai foi fazer mais pesquisas e fomos para um lugar chamado Angra dos Reis, enganei minha irmã falando que o nome da cidade era Angra dos Magos, ele ia chegar na escola contando sobre suas férias e ia se arrasar falando sobre um lugar que não existia. Eu sei que o senhor não vai gostar do que eu vou disser, mas achei desnecessário “zoar” com a minha irmã hoje, ela passou o dia todo ao meu lado por que o papai estava bastante ocupado. Estou ansioso para ir para Londres, não se esqueça que prometeu que iríamos pescar, eu vou pescar o maior peixe mais uma vez , você sabe que eu sou o melhor. Te amo, estou com saudades. Louis.”
Nesse momento percebi por que Louis estava tão ansioso para ir embora, ele queria voltar para Londres e ficar com o vovô. Os dois eram companheiros de brincadeiras, eram inseparáveis, ele o considerava mais que um avô, ele era seu melhor amigo. Deitei e decidi não pensar mais nos problemas, afinal, amanhã eu voltaria para a minha vida corrida de sempre.
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