Dont Blink
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Jade acorda de supetão.
Tinha sido uma noite difícil, um pesadelo estranho ou talvez... Será que havia sido mais uma daquelas visões sem sentido?
Ela balançou a cabeça e olhou para o rádio relógio no criado mudo ao lado da cama. 06:50. Hora de levantar.
Ela sentou na cama rapidamente, cambaleando na direção do corredor e se trancando no banheiro.
Os últimos tempos não estavam fáceis. Tanto economicamente quanto espiritualmente. Jade trabalhava como vendedora em uma loja de roupas no centro da cidade. Ganhava um salário razoável – dava pra se viver –, mas não era isso que ela queria ser. Na verdade, nem ela sabia o que queria ser, mas com certeza vendedora de roupas não estava na lista. Mas era tudo o que ela podia conseguir, visto pela sua vida atormentada por conta de todas as visões que ela tinha.
Jade não se considerava paranormal ou coisa assim – ela nem acreditava em fantasmas ou coisas do tipo –, mas ela pode ver coisas que ainda não aconteceram desde que ela se entende por gente. Normalmente suas visões mostram coisas ruins, como mortes e essas coisas, mas ultimamente tudo está acontecendo como sonhos ruins, em que ela não entende nada do que está acontecendo.
–Bom dia Jade! – Jasmine, sua irmã mais nova que morava com ela no pequeno apartamento alugado no subúrbio, a cumprimentou animadamente assim que Jade adentrou a cozinha se arrastando sobre os tênis.
–Dia! – Ela disse preguiçosamente, mal olhando para a irmã e indo direto para a cafeteira, pegando uma caneca no balcão da pia e se servindo do café quente que a irmã tinha feito.
–Chegou uma carta pra você. – Jasmine levantou o envelope de papel branco. A irmã se virou, arqueando a sobrancelha questionadora para a outra. – Eu não sei de quem é. Não tem remetente.
Jade estranhou, mas pegou o envelope da mão de Jasmine displicentemente. Ela pousou a caneca de café sobre a mesa e rasgou o papel não antes de observar seu nome escrito na frente do envelope, numa letra muito bem desenhada e livre de imperfeições.
Ela franziu o cenho para aquilo. Quem escreveria daquele jeito tão perfeito? Certamente era seu ex-namorado, um médico clínico que tinha TOC e lavava as mãos de dez em dez minutos. Como era mesmo o nome dele? ... Jack! Acho que era isso. Jade pensava consigo mesma enquanto retirava a folha branca de dentro do envelope de mesma cor.
Não estranhou quando viu que a caligrafia era a mesma do envelope, mas não pode evitar que um arrepio cruzasse sua espinha quando começou a ler o que estava ali escrito.
Ele derramará seu sangue e usurpará a única coisa que ainda tens. Ele será sua única salvação. Confiarás nele?
Ass: L.
Jade arfou. Aquilo não passava de uma carta sem sentido, provavelmente feita para assustá-la por algum ex-namorado ou as crianças do bairro. Ou até sua amiga Megan. É aquilo é a cara da Megan.
Mas por que a tinha assustado tanto?
–Jade! – Jasmine quase gritou, acordando Jade de seu transe. – Você ouviu o que eu disse?
Confusa e um pouco constrangida com a velocidade dos acontecimentos ao seu redor, ela apenas sacudiu a cabeça lentamente.
–Não, desculpe! – Jade disse com a voz baixa, olhando para a irmã ainda atordoada. – Eu estava... Distraída.
–Eu disse que o Dean chegou. – Jasmine disse, franzindo o cenho pra irmã enquanto pegava sua bolsa estilo carteiro que estava pendurada na cadeira onde estava sentada. – Te vejo mais tarde.
Antes que Jade pudesse falar qualquer coisa, Jasmine correu para fora da cozinha e do apartamento. Ela por um segundo chegou a se perguntar quem era Dean, mas logo lembrou. Era um dos novos amigos de faculdade de Jasmine, classificado secretamente por Jade como “o esquisito”.
Não que ele fosse propriamente dito esquisito. Ele era um cara normal. Vestia camisetas largas e calças jeans claras, combinando com casacos caqui e coturnos de combate. Encontram-se montes de caras assim. Mas tinha alguma coisa nele que Jade não gostava e nem ela mesma podia dizer o que era.
Sacudindo a cabeça, ela voltou para o quarto, pegou sua bolsa-carteiro e meteu a carta que tinha recebido dentro. Se fosse acusar Megan dessa brincadeira sem graça, teria a prova.
Saiu do apartamento, trancou a porta e foi direto para a rua.
***
Alec andava pela cidade, despreocupado. O cigarro numa mão, a longneck Heineken na outra enquanto olhava as pessoas por quem passava na calçada.
Humanos eram tão interessantes em sua concepção. Sempre atrasados para coisas corriqueiras, sempre correndo. Ele quase podia sentir as emoções que explodiam ao seu redor. Amor, ódio, paixão, raiva... Era tantas que ele sentia sua pele formigar.
–A pele formigar... – Ele repetiu, parando abruptamente para sentir aquela sensação mais atentamente.
Alec conhecia aquela sensação. Ele sabia o que significava e precisava reagir rapidamente, ou talvez fosse tarde demais.
Ele se virou para o caminho de onde tinha vindo passando rapidamente por uma lixeira e soltando a longneck e o cigarro lá dentro, sem nem se preocupar em apaga-lo. Os humanos não vão se importar em apagar um incêndio, ele pensou enquanto atravessava a rua e pulava dentro de seu Ford Mustang 1969, preto.
Ele podia sentir a ânsia borbulhando dentro de si. Quase podia ver sua pele tremeluzir em expectativa. Ele tinha que chegar lá, agora. Imediatamente.
Enquanto Alec furava sinais e dirigia na contramão para chegar onde deveria estar, um único nome gritava em sua mente. O nome de quem ele deveria encontrar.
J... Ja... Jade!
***
Jade entrou no prédio de dois andares onde funcionava a loja onde trabalhava. A maioria dos funcionários já estava trabalhando em organizar as araras de roupas para os clientes, que estariam cruzando pela loja em cerca de uma hora.
–Hey Jade! – Sophie, uma das vendedoras gritou para ela, acenando.
Sophie era uma jovem pequena e esguia, que tinha um longo cabelo loiro prateado que batia em seu traseiro. Costumavam chama-la de Barbie ou Susie, por conta de seu rostinho de boneca e aparecia angelical. Era uma garota legal e lembrava Jade de sua irmã, Jasmine, com toda sua euforia e simpatia.
–Sophie! – Jade parou no meio de seu caminho rumo ao primeiro andar. – Megan já chegou?
–Sim. – A garota respondeu com um sorriso quente. – Ela está na sala dela.
–Obrigada! – Jade sorriu fraco. – Preciso tirar uma história a limpo com ela.
–Boa sorte! – Sophie gritou às costas de Jade, que já corria na direção das escadas para o segundo andar.
Jade subiu as escadas quase correndo, de alguma forma animada para falar com sua amiga, se é que ela podia chamar Megan assim.
Megan era ex-vizinha de Jade e Jasmine e, assim que abriu a loja, uma das primeiras pessoas que contratou foi Jade. Na época, ela ainda morava no interior e era uma garota sonhadora, apesar de todo o desequilíbrio mental causado pelas visões que lhe abatiam. Jade imaginou que trabalhar em uma cidade grande poderia de alguma forma facilitar a engrenar em uma faculdade ou algo parecido, mas esse sonho foi ficando cada vez mais fundo no baú que era a vida de Jade.
Não que o que ganhasse não fosse suficiente para pagar uma faculdade. Ela recebia secretamente um dos salários mais altos da loja, mas Jade não tinha sanidade mental suficiente para sustentar o emprego e se formar. Ela não tinha sanidade mental nem para fazer amigos decentes, deixando assim Megan numa coisa mais próxima do que um amigo poderia ser.
Jade chocou os nós dos dedos indicador e médio na madeira da porta três vezes e ouviu uma voz feminina gritar um “pode entrar” antes de ela devidamente rodar a maçaneta e adentrar o escritório da mulher.
Megan estava debruçada na mesa sobre uma grande pilha de papeis. A caneta na mão e os lábios sibilando palavras e números sem som algum mostrava que ela estava trabalhando desde muito tempo. Talvez a visita de Jade a ajudasse a tirar uns cinco minutos de descanso.
–Hey Jade! – Megan sorriu abertamente, mostrando a gengiva na parte superior de sua mandíbula e fazendo o piercing que ela tinha embaixo do lábio inferior reluzir à fraca luz do sol que entrava pelo vidro translúcido da janela.
–Hey Meg! – Jade fechou a porta atrás de si e se jogou na cadeira confortável afrente da colega. – Tendo muito trabalho?
–Quem falar em trabalho está morto. – Megan suspirou, puxando as mechas arrebitadas e coloridas de seu cabelo curto estilo “Joãozinho”. – Mas a que devo a honra de sua visita em minha humilde sala de trabalho?
Jade quase havia esquecido sobre a carta e deu um pulo em sua cadeira, remexendo em sua bolsa e retirando o envelope branco, agora meio amassado por conta da falta de cuidado da parte dela. Ela jogou o envelope no colo de Megan, que piscou quando foi pega de guarda baixa, mas logo pegou o envelope nas mãos, o analisando.
–Da próxima vez que quiser me assustar, diga que eu vou ser morta ou sequestrada. – Jade procurou em sua bolsa o maço de cigarros, que estava tão amassado quanto o envelope, e prendeu um entre os lábios finos, procurando o isqueiro que estava jogado nos confins da bolsa.
Megan puxou a folha de papel de dentro do envelope e leu cuidadosamente, se tremelicando toda ao que um arrepio cruzou sua espinha, arrepiando os pelos finos do braço e até os pelos descoloridos da nuca, a fazendo ter a impressão de que havia alguém atrás de si.
Jade cruzou as pernas com um dos tornozelos apoiados sobre a mesa da chefa/amiga, displicentemente, enquanto tragava o cigarro e soltava a fumaça cancerígena no ar da sala fechada. Megan soltou o papel sobre a mesa junto ao envelope e se jogou contra o encosto da cadeira.
–Não fui eu quem te mandou isso. – Ela disse cansada, fitando a amiga preocupada. Sabia que Jade era um pouco desregulada, principalmente por causa de seus problemas de saúde.
Quando ela entrava em crise... Megan não gostava nem lembrar. A amiga já teve várias crises na sua frente do que dizia ser epilepsia, mas a amiga ainda tinha suas dúvidas. Não que Jade vivesse de mentiras – Megan achava que não –, mas ela era uma mulher vivida, que assistia documentários – seu estilo de filme favorito, depois do terror e da comédia romântica – e que gostava de conversar sobre todos os assuntos. Sabia que epiléticos não se arranhavam com as próprias unhas quando estavam em crise e nem falavam palavras incoerentes. Na verdade, epiléticos não falavam nada durante uma crise, apenas se debatiam incontrolavelmente e, algumas vezes, molhavam as calças.
–Não? – Jade a olhou questionadora, como se tivesse levado um choque de informação, logo depois bufando e abaixando o olhar para a mesa. – Ah, esquece!
–Você está piorando, não está? – Megan perguntou de repente, se debruçando sobre a mesa e apoiando os cotovelos sobre a mesma.
Jade encarou a mulher, mas não pode sustentar o olhar por muito tempo. Megan estava malditamente certa. Ela estava piorando. Dia após dia, sua sanidade estava se esvaindo como sal refinado na água.
–Você deveria buscar um médico. – Megan continuou, quando percebeu que a outra não iria dar nenhuma resposta. – Um neurologista. Ou até uma benzedeira, se nada der certo. – Se jogou de volta sobre o encosto da cadeira, fazendo um gesto desleixado com as mãos indicando desistência.
–Uma benzedeira? – Jade quase deixou o cigarro cair de seu bico quando gritou incrédula para a amiga. – Você está brincando?
–Não. – A outra falou convicta. – Sabe, estamos no século vinte e um, mas não é por isso que as magias antigas deixaram de existir, só foram esquecidas com o tempo. Você pode estar com algum tipo de encosto ou uma macumba braba. É melhor dar logo um fim nisso antes que dê um fim em você.
A outra sacudiu a cabeça, achando graça e ao mesmo achando que a amiga era quem estava precisando de um médico. Essas coisas não existiam! Eram estórias contadas pelas vovós para fazer seus netinhos obedecerem a elas e aos pais, tornando-os submissos ao medo e transformando o mundo como é hoje. Os mais espertos e que sabiam que aquilo era mentira, batiam; e os que acreditavam piamente naqueles contos, apanhavam. Era a lei da vida.
–Eu só preciso de um Xanax, uma garrafa de vodka e uma boa noite de sexo com um cara gostoso. Só isso! – Jade disse com seu tom desleixado, fazendo a amiga cruzar os braços e rir de seu comentário.
–Acho que nós duas precisamos disso. – Megan relaxou, mas o assunto ainda estava no fundo de sua mente. Nunca iria esquecer sobre a saúde de sua amiga. – E também de seis meses de férias.
–Eu não sei qual é o pior: Passar o dia inteiro em pé, paparicando gente chata e indecisa, ou passar o dia inteiro fazendo contas, lendo relatórios e assinando papeladas de compra. – Ela mexeu a mão que segurava o cigarro, fazendo uma pequena cortina de fumaça na sua frente.
–Eu também não sei. – Megan observava a amiga metodicamente e não pôde deixar de perceber os anéis escurecidos embaixo de seus olhos azuis como o oceano. Não pôde também deixar de perceber o quão triste eles pareciam.
Tudo o que Megan queria era que a amiga se abrisse com ela e pudesse curar essa tristeza junto com ela.
***
Jade saiu do banheiro já vestida com a farda da loja, que consistia em uma camiseta polo azul-bebê, com o logotipo da loja bordado no lado esquerdo do peito.
A loja já tinha aberto as portas para os clientes cinco minutos atrás e só agora ela estava tomando seu posto de atendente. Mas ela não estava nem um pouco preocupada. Havia se atrasado por conta da própria dona da loja, e mesmo se não fosse por isso, Megan nunca demitiria Jade por atrasos, desde que não fossem constantes.
Assim que entrou no grande salão onde se dispunha a loja, foi atacada por uma mulher gorda, baixinha e cheia de sacolas. Parecia apressada e pronta para bater com aquelas sacolas qualquer um que a importunasse.
–Moça – A mulher a chamou, mesmo estando parada bem em frente da outra. – Onde fica a sessão infantil?
–Logo ali, senhora. – Jade apontou para um dos corredores onde tinha uma enorme placa pendurada no teto por cabos de aço que tinha em grandes letras vermelhas a palavra “infantil”.
–Oh, sim! Obrigada! – E saiu quase correndo sobre os tamancos.
Jade suspirou, procurando Sophie com os olhos e a encontrado não muito longe, na sessão masculina, ajudando um homem e um garoto em alguma compra. Rodou os olhos pela loja novamente, agora a procura de clientes, não encontrando nenhum.
Ainda era começo do dia, os clientes só iriam começar a aparecer mesmo depois do almoço.
Viu uma sombra pela vitrine da loja e quando levou seus olhos para lá encontrou um homem. Ele tinha cabelos muito negros na altura da base do pescoço, vestia uma camisa de botões com as mangas arregaçadas acima do cotovelo e a olhava fixamente.
Antes que pudesse ficar constrangida com olhar do desconhecido, seu instinto hostil respondeu mais rápido e ela fixou seus olhos nos do homem, que eram acinzentados, ela pôde ver mesmo daquela distancia, que tinham uma força enorme.
De repente ela teve a sensação de que estivesse dentro da água, sua cabeça deu um pulo como se alguém tivesse puxado e soltado seu cérebro rapidamente e seus ouvidos começaram a zunir.
Não, agora não! Por favor! Ela pensou, já reconhecendo a sensação. Sua cabeça deu mais um pulo e ela não pôde evitar levar as mãos a lateral do rosto, tentando conter a pressão que estava sentindo. Uma sensação de queimação subiu em seu corpo, dos pés até sua cabeça, e ela gritou, chamando a atenção de todos a sua volta.
Imagens distorcidas de alguém brilhante apareciam à sua frente, mesclando com a imagem de Sophie, que a segurava pelos braços, evitando que levasse as mãos até o rosto e se arranhasse como nas outras vezes.
–Queimando... Matar... Queimar... – Ela sibilou, enquanto escutava gritos e sons ensurdecedores, como explosões. – Morrendo... Crianças... Não!
Ela soltou mais um grito agoniado, enquanto conseguia alcançar suas próprias mãos e cravava suas unhas, abrindo arranhões sangrentos.
–Salvem... Morrendo... Sozinho... – Ela sibilava chorando enquanto a queimação em seu corpo se tornava insuportável e as imagens ficavam cada vez mais nítidas.
Crianças e mulheres correndo, abandonando um prédio cheio de brinquedos. Jade podia até sentir o cheiro da fumaça e dos objetos plásticos entrando em combustão. Um choro em especial a chamou a atenção e a imagem mudou. Havia uma criança – um menino – agachada num canto, abraçando a si e a um urso de pelúcia, chorando e esperando pela ajuda que nunca viria. Todos já tinham corrido para fora e não se ouvia as características sirenes dos bombeiros.
Ele morreria ali, sozinho, queimado.
De repente, as fumaças se desfizeram dos olhos de Jade (Ironicamente) como fumaça e tudo o que ela pode ver na frente dela foram os longos cabelos loiros de Sophie.
–Vai ficar tudo bem. – Ela ouviu a voz feminina sussurrando próximo a ela e percebeu que estava deitada no chão, com a cabeça apoiada no colo de Megan, que a balançava e repetia que ia ficar tudo bem como um mantra para a sanidade de ambas.
Talvez fosse.
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