Dont Blink
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Jade saiu mais cedo do trabalho naquele dia.
De acordo com Megan, ela já tinha assustado a todos o bastante e deveria descansar por isso ela a deixou sair antes do por do sol.
Ela cruzava a rua despreocupada, fumando um cigarro e tentando entender o que aquela visão queria dizer. Ela sabia que iria haver um incêndio e que uma criança iria morrer, mas o que ela podia fazer? Não iria simplesmente avisar aos bombeiros que ia acontecer um incêndio. A chamariam de louca ou podiam pensar que ela era quem iria provocar o incêndio, e aí ela seria presa.
Sacudiu a cabeça, descartando a ideia. Já tinha problemas demais, não havia necessidade de ser presa por isso.
Dobrou a esquina e quase gritou de susto quando uma forma escura bloqueou seu caminho, a impedindo de passar.
–Com licença? – Ela pediu, tentando contornar o homem pelo canto da parede, mas o mesmo colocou o braço, impedindo que ela passasse.
Jade gelou. Achou que iria ser assaltada, assassinada, estuprada. Milhares de coisas flutuaram em sua imaginação e ela quase não encontrou forças para levantar seu olhar e encarar o homem com hostilidade, como sempre fazia quase se sentia ameaçada. O choque a dominou quando ela o reconheceu.
Era o homem que a estava encarando do lado de fora da vitrine da loja. Bem antes de ela ter a visão e tudo virar uma confusão de gritos, dor e fumaça.
–Não é normal. – O homem disse simplesmente, como se estivessem conversando desde sempre.
Suas palavras fizeram Jade acordar do transe de pensamentos que tinha caído assim que se recordou do homem. Ela pigarreou e sacudiu a cabeça levemente, quebrando o contato visual. Tinha medo de ter outra visão olhando para aqueles olhos misteriosos.
–O que não é normal? – Ela perguntou com uma voz ríspida, olhando distraidamente para a água de esgoto que escorria lentamente pela calçada, empoçando no meio-fio.
–Ter visões. – Ele disse e Jade podia sentir o sorriso sarcástico em seu tom de voz.
Ela arfou. Como ele poderia saber sobre isso? Nem sua irmã sabia sobre as visões. Nem sua amiga, nem ninguém. Ninguém! Como esse homem poderia saber?
Respirou fundo, tentando manter a calma e soar indiferente e até um pouco cômica. Se ela não tivesse visões realmente, supostamente iria achar que este desconhecido maluco.
–Eu não sei do que está falando. – Sua voz saiu áspera e ela mordeu o lábio frustrada.
Tentou contornar o homem pelo outro lado, mas o mesmo deu um passo para o lado, impedindo-a de passar. Jade finalmente encontrou os olhos cinza do homem e dessa vez ficou aliviada por não ter caído agoniada no chão, vendo coisas que não deveria.
–É claro que sabe sobre o que estou falando. – Ele sorriu de canto de boca, insinuante. – Você teve uma visão lá na loja.
–Eu sou epilética. – Ela disse a mentira que dizia a todos. – Tive uma convulsão.
O homem riu, para a surpresa de Jade. Ninguém nunca rira dela quando dizia isso por que todos compravam suas mentiras, mas esse homem era diferente. Ele parecia vê-la – realmente vê-la – com seus olhos cinza.
–Acha que sou idiota?! – O homem agarrou seu pulso com rapidez, a assustando e fazendo-a abafar um grito. O toque dele era estranhamente gelado. A sensação congelava sua pele mesmo por cima do casaco que usava, alcançava seus ossos e subia pelo seu braço, a fazendo arregalar os grandes olhos azuis na direção do homem. – Uma convulsão não é daquele jeito! Como explica isso? – Ele sacudiu a mão de Jade na frente de seu rosto. A mesma estava arranhada profundamente, precisando de curativos.
–Pessoas se machucam em convulsões. – A voz dela era vacilante, com medo que sentia daquele homem. Quem era ele e o que sabia?
–Besteira! – Ele soltou sua mão, dando um passo para trás. O homem suspirou e olhou ao redor, checando se tinha chamado atenção de alguém e, ao ver que todos passavam e não se importavam com o que estava acontecendo, ele sorriu. – Jade, Jade... Eu posso te ajudar com isso. Você nunca mais iria ter que se preocupar com isso.
Jade piscou surpresa. Como ele sabia seu nome? Ela não tinha dito seu nome para ele e nem diria mesmo se ele tivesse perguntado. Ela deu um passo para trás, aumento a distancia que tinha do desconhecido.
–Eu não me lembro de ter dito meu nome... – Ela estudou o rosto do homem, que sorriu de lado novamente, se divertindo com o medo que se apoderava da mulher.
–Eu apenas sei. – Ele disse ainda sorrindo. – Você tem cara de Jade, sabia?!
Ela bufou, contornando o homem e dando alguns passos pelo caminho que deveria estar indo, mas parou. Tinha que dizer poucas e boas para ele. Ela se virou com violência, vendo o homem a olhando ainda divertido.
–Esqueça sobre minha existência. – Ela disse ríspida, mexendo a mão com violência no ar frio do fim de tarde e fazendo seus cortes arderem. – Esqueça que meu nome é Jade e, principalmente, não me procure novamente e nem me siga, ou eu chamo a polícia.
E sem mais nenhuma palavra, ela deu as costas novamente e correu pela calçada. Seu apartamento ficava próximo – virando a esquina – ela não precisava se preocupar tanto.
Antes de virar a esquina, Jade olhou para trás, esperando ver aquele homem parado no mesmo lugar, seguindo-a ou indo na outra direção, mas a calçada estava vazia, como se ninguém nunca tivesse pisado naquele chão senão ela.
Sacudindo a cabeça ela entrou no saguão de seu prédio, indo até o elevador velho e se encostando ao fundo da caixa metálica, cansada.
Tentava entender por que sua vida não podia ser normal como a de todos ao seu redor. Como a de sua irmã. Fechou os olhos, arranhando a cutícula do dedo do meio com a unha do polegar e acabando por ferir ainda mais a mão, fazendo o sangue escorrer e a mão arder.
–Droga! – Sussurrou, praguejando sua falta de atenção ao que a porta do elevador se abriu em seu andar.
Tirou rapidamente as chaves da porta do bolso e abriu a porta de seu apartamento, se surpreendendo ao ver duas pessoas no sofá. Uma delas era Jasmine e a outra era Dean, “o estranho”.
–Jade? – Jasmine desgrudou os olhos da televisão e olhou para a porta, onde a irmã estava parada, olhando para a mão que agora já estava coberta com o sangue escuro. – Você está bem?
–Sim. – Jade encontrou o olhar da irmã, que a encarava preocupada. – O que eu a avisei sobre trazer garotos pra casa enquanto eu não estava?
Ela não estava realmente chateada com aquilo, na verdade, nem se importava, mas foi legal ver a irmã e o rapaz corarem, constrangidos com a insinuação dela.
–Dean é apenas um amigo, como você sabe. – Jasmine disse firme, a fitando irritada.
Jade apenas fez um gesto de desleixo com a mão cortada, fazendo o sangue respigar no soalho.
–Droga! – Ela repetiu o xingamento, correndo pra cozinha, sendo seguida pelos outros dois.
Ela abriu a torneira da pia, metendo a mão embaixo do jato d’água fria, lavando o sangue e fazendo os outros cortes arderem com o contado com a água. Jasmine entrou na cozinha como um tufão, sendo seguida por Dean, que olhava para tudo um pouco assustado.
–Você teve outra convulsão? – Perguntou a irmã, cruzando os braços e a fitando com firmeza, esperando uma resposta.
–Sim. – Jade respondeu indiferente. – Não é nenhuma novidade.
–Você tem que procurar um médico. Isso não pode continuar.
–Nós não vamos conversar sobre isso de novo Jasmine. – Ela falou mais alto, pegando toalhas de papel e enxugando as mãos com cuidado para não ferir os cortes.
–Do que você tem medo? – A voz de Jasmine era um guincho.
–Eu não tenho medo de nada! – Se virou para a irmã, desejando acabar com aquela conversa. – É por isso que eu não vou a um maldito médico. Eu não tenho medo de nada!
Era mentira, obviamente. Jade temia uma única coisa em sua vida: Suas visões. Mas ela não podia contar isso para Jasmine, principalmente na frente de Dean.
Jasmine analisou a irmã por alguns instantes, logo depois abrindo um sorriso sarcástico e soltando o ar com deboche, fazendo um som de desprezo que com certeza não se enquadrava ao comportamento doce da garota.
–Você está mentindo. – E saiu da cozinha, esbarrando em Dean como se ele não estivesse ali.
Jade escutou os passos pesados de Jasmine seguirem para a sala e logo depois a porta da frente bater com violência. Suspirou se perguntando quantos mais problemas iriam lhe aparecer. Já eram tantos e agora esse.
Ela estava tão absorta em seus próprios pensamentos que até esqueceu-se do garoto parado em sua cozinha, totalmente sem reação, e pulou alarmada quando ele pigarreou.
–Ela não deveria estar se importando tanto com a sua saúde. – Ele disse distraído. – Você já é bem grandinha para saber se virar sozinha.
–Bem observado. – Jade disse sem humor, enquanto descartava as toalhas de papel agora molhadas, dentro do cesto de lixo.
-Sabe – O garoto recomeçou, pensativo. Parecia estar relutante em falar algo e isso irritou ainda mais Jade. – Eu nunca tive uma convulsão. Como é?
Ela gelou. O que iria responder ao garoto? Ninguém nunca a perguntara sobre isso por que ela sempre mudava de assunto, mas agora estava tão irritada com Jasmine que nem se lembrava da presença dele em sua cozinha, quanto mais mudar de assunto.
Ela engoliu em seco.
-Eu não sei. – Foi a primeira coisa que veio em sua mente e, quando o olhar questionador de Dean caiu sobre ela e sua boca começou a se mover para outra pergunta, ela tratou de falar mais. – Eu nunca me lembro de nada.
Dean sorriu, para surpresa de Jade. Era um sorriso carinhoso e acolhedor, contrastando com a estranheza que a outra via em seu ser. Ela franziu o cenho, em dúvida se deveria continuar sendo rude com ele, ou deveria o dar uma chance.
-Entendo. – Ele disse em um tom que o deixou muito mais velho do que os seus dezenove anos. – E você cortou as mãos enquanto estava convulsionando?
Jade hesitou em responder. Ela viu sarcasmo nos olhos do outro. O mesmo sarcasmo que ela viu nos olhos do homem que a abordou na rua. Um arrepio cruzou sua espinha quando ela se lembrou da intensidade do olhar do homem. E foi aí que ela percebeu o que achava estranho em Dean.
Ele a olhava com intensidade, como se quisesse ver sua alma, desvendar suas mentiras, descobrir suas verdades. Jade engoliu em seco, com o pensamento de alguém sabendo de toda a verdade sobre suas “convulsões”.
-Sim. – Sua voz foi um mero guincho. Ela limpou a garganta. – Sim, isso sempre acontece.
Dean sorriu debochado e meneou a cabeça. Jade sentiu uma antipatia repentina pelo amigo de sua irmã e amarrou a cara.
-Entendo. – Dean continuou com seu sorriso debochado. – Tenho que ir agora, Jade. Foi um prazer conhece-la.
E saiu da cozinha a passos lentos.
Jade ficou parada, sem saber o que fazer. O que aquele homem sabia sobre suas visões? O que ele sabia sobre ela em geral?
Ela não sabia, mas aquelas perguntas seriam respondidas muito antes do que ela esperava.
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