Don't
2 A Lemon and a Bottle of Gin
Notas iniciais
O show foi incrível. Muita gente. Muita gente. Quando subi ao palco, o público já estava agitado com as duas músicas que Katherine tocou, e continuaram assim. Quando comecei a cantar uma das músicas mais lentas e românticas do álbum, vi muita gente chorando. Se despedaçando em lágrimas. Com isso, eu percebi que eu realmente fazia o certo. Eu tocava as pessoas com minha música, e isso era mágico.
Quando o show acabou e eu desci do palco, fui ao Meet & Greet, que apareceu muita gente, e depois abracei cada membro da equipe. Não era por eu gostar de ser simpático, e sim por que eu não seria exatamente nada sem eles. Um cantor não é nada sem sua equipe, e felizmente aprendi isso muito cedo.
Cheguei ao hotel e fui direto ao quarto de Katherine. Conversamos por hora, e eu tentando adiar o momento. Eu gostava muito dela, mas nós iríamos nos separar no dia seguinte. Ela seguiria em sua carreira e eu seguiria em turnê, seria extremamente difícil nos encontrarmos, além de que ela mesma disse que não queria algo sério. “Nossa, mas não existe Facebook, Twitter, Whatsapp, Snapchat e e-mail para essas coisas?”, você pergunta. Bem, para uma pessoa que não tem o compromisso de ser um passarinho cantante o dia inteiro, é mais fácil, bem mais fácil. Tinha até consultado uma amiga, e ela disse que o certo a se fazer (sem querer soar machista nem nada, mas as mulheres são melhores nisso do que eu) seria nos afastarmos.
–Não podemos continuar assim. — Comecei.
–Eu sei. — Ela disse, meio indiferente. Achei isso desconfortável.
E foi assim que tudo o que não existia acabou.
*
Fiquei um pouco triste, mas logo toda a pressão da turnê fez com que a eu a “esquecesse”. Eram mais e mais ensaios e mais ensaios, além de que havia ocorrido uma promoção e eu tinha que ir jantar junto com uma fã que havia sido sorteada. No final, o jantar foi até que agradável. Mas, sério, como que elas conseguem desmaiar tanto?
Mesmo com tudo isso, nas poucas horas de descanso que eu tinha, eu não conseguia parar de pensar nela. Havia até pensando em escrever uma música sobre, mas eu sabia que, se eu fizesse isso, eu só iria me render cada vez mais a esse sentimento que me assolava, e que eu tanto tentava fugir. Ter a cabeça cheia poderia prejudicar meus shows, e isso era a última coisa que eu queria.
Durante três meses eu fiquei assim, até que, após o quarto show, o meu empresário chegou em mim e disse que estavam cogitando a ideia de contratarem Katherine para fazer parte da turnê. Só que permanentemente. Obviamente, eu fiquei hiper animado com a notícia, já que eu poderia vê-la novamente. Liguei para ela para saber se ela já sabia de alguma coisa, e o empresário dela já a havia contatado. Mas chances de isso realmente ocorrer eram boas.
Eu estava louco, pirado, por ela. A cada show, eu via uma pessoa na plateia que achava parecida com ela. Eu estava enlouquecendo, e só ela podia ser meu manicômio.
Romântico, não?
*
O dia chegara. Estava tudo confirmado. Ela viria.
Nos veríamos apenas nos camarim, e rapidamente, pois ela chegaria um pouco atrasada. Comecei a perceber o quanto eu tava nervoso e até um pouco vaidoso, parecendo um adolescente com seu primeiro encontro. Logo percebi que todo o esforço para tentar parecer bonito seria inútil, sendo que só conversaríamos depois do show e eu provavelmente estaria completamente suado e, talvez, um pouco rouco.
O show e o M&G acabaram e logo fui para o hotel, onde a encontrei sentada em uma das mesinhas da recepção. Meus olhos ficaram um pouco marejados e meu coração acelerou consideravelmente, pois parecia que ela estava mais bonita do que da última vez. Ela chegou até mim com um claro sorriso estampado no rosto, e percebi o quanto eu havia corado. Ela olhou para mim com aquele olhar sedutor.
–Quer saber a verdade? Acho que eu nunca estive procurando um amigo, na verdade. — Meu coração acelerou — Apareça no meu quarto com um limão e uma garrafa gim, que tal? — Se aproximou, deu um beijo na minha bochecha, e sussurou — Podemos ficar até de madruga entre os lençóis, que tal?
Obviamente aceitei. Ficar acordado até mais tarde era o menor dos meus problemas no momento.
*
Estava tudo perfeito. Nos víamos quase sempre, ensaiávamos juntos, e finalmente a turnê havia chegado na minha cidade natal. Como eu visitava apenas uma cidade por mês, eu ficava os intervalos dos shows em casa mesmo, pois ia para o Localapenas uma semana antes do show. Agora não, agora eu ficaria quase um mês inteiro em casa, e convidei Katherine para ficar esse mês comigo. Ela rapidamente aceitou a ideia.
Foi reconfortante passar pelo bairro onde eu havia passado praticamente a minha infância inteira. Sempre havia alguém que eu conhecia, um vizinho rabugento ou algum amigo de infância. Sempre ouvi dizer que todos deveriam ter um lugar apenas para si mesmo, e após todas as viagens, eu percebo que isso era a pura verdade. E com Katherine, esse lugar se parecia mais com uma casa ainda.
Após os shows, Katherine resolveu ficar pela cidade mesmo, então, construimos uma rotina. Ensaiávamos de manhã, almoçávamos em algum restaurante do bairro, ensaiavamos de tarde e comíamos pizza e bebíamos.
Em um dia em especial, nos estávamos naquela fase que beira a embriaguez e a lucidez, e ela entrou em um site de letras e colocou para tocar uma música da Aretha Franklin, a cantora favorita dela. Ela tenta cantar Freedom, mas como eu realmente não conheço nenhuma outra música dela, a gente cantou Oh Happy Day mesmo.
–Oh happy day — começo.
–On Thee, my Saviour and my God! — ela continua.
–Oh happy day
–Seu idiota! — Ela finge dar dois soquinhos no meu peito, como nso filmes. Ela se aconchega neles e eu a abraço — Não tem “Oh happy day!” nessa parte!
Beijo ela carinhosamente nos lábios, e depois vamos para cama, por mais que nenhum de nós dois quisesse dormir. Independente da letra ser daquela maneira ou não, aquele era realmente um dia feliz.
*
Infelizmente, o mês acabou. Fui para a próxima cidade, mas ela voou para outra, para fazer uma entrevista em um talk-show. Infelizmente, ela não poderia comparecer nos próximos dois shows pois iria se apresentar em uma premiação importante e precisava de preparar. Por isso, uma banda que tinha acabado de lançar um EP até que famoso foi convidada pra abrir os dois próximos shows.
O show foi muito bom, e os garotos da banda eram super simpáticos, até fiz amizade com eles e acabamos escrevendo uma música juntos, que deixei com a autoria deles. Mas, mesmo assim, não consigo deixar de pensar que o show seria infinitamente melhor se fosse ela cantando comigo.
Enquanto estava no avião, pensei o quanto eu preferia muito mais estar no sofá assistindo algum filme com ela do que toda essa coisa louca de viagens e shows. Eu preferiria uma vida mais calma com ela do que tudo isso. A cada momento, a cada passo que nós tentávamos dar, a coisa ficava mais complicada. Esse não é era o melhor momento para entrar em um relacionamento, mas a culpa não é minha se nós, seres humanos e mortais, somos tão teimosos nesses assuntos.
Espero ansiosamente pelo próximo show. Pela próxima vez que a verei.
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