Don't
3 Don't Fuck With Love
Notas iniciais
A turnê estava no final. Suor, gritos, músicas, palcos, amor, desmaios, trending topics, vevo certified. Tudo valeu a pena, pois por mais que eu estivesse cansado pra caramba, eu conseguia sentir o amor dos meus fãs e via que minha carreira estava alavancando de uma forma totalmente satisfatória. Não imaginava que meu sucesso seria assim em tão pouco tempo.
É claro que, com isso, a mídia começou a prestar ainda mais atenção em mim. Não levou muito tempo até que os repórteres descobrirem do meu caso com Katherine, e a internet explodiu. Fãs tristes, fãs que “shippavam” a gente (sempre achei que a internet fosse algo muito próximo a um país. E agora, minha suposição está totalmente certa, já que até idioma próprio ela tem), e revistas falando sobre a gente.
Foi quando chegou o antepenúltimo show, que deveria ser uma um do smelhores dias de minha vida, e um dos mais tristes, por se tratar do fina da minha turnê.
Infelizmente, o lado “um dos mais tristes” evoluiu para “um dos piores”.
Estava chegando no hotel depois de uma entrevista a uma TV local. Eu havia ligado para Katherine no caminho, mas ela não atendeu, então vai ter que ser no fator surpresa mesmo. Chego perto da porta, quando ouço uns barulhos estranhos. Ela está aberta. Giro a maçaneta, e me arrependo profundamente disso.
A visão da porta dá diretamente para as costas do sofá, que dá diretamente para as costa de Katherine, que claramente está apenas de sutiã, que dá diretamente para as costas de um cara, que claramente está sem camisa, que dá diretamente para um beijo (admito, quente) entre os dois. Fico sem entender por cinco segundos, até sentir um aperto no peito. Juro até que ouvi um crac!, como se algum vidro tivesse quebrado. Mas não julgo ser necessário contar onomatopéias para falar que meu coração, naquele momento, meu coração foi totalmente quebrado, estilhaçado e pisado.
Felizmente, a porta não fez barulho, então eu consigo sair sem fazer barulho. Por mais incrivel que pareça, consigo ficar totalmente em silêncio até chegar ao meu quarto. Fecho a porta, a tranco, pego a primeira garrafa de álcool que vejo na geladeira, me certificando primeiro que não é gim, abro-a e vou para a cama. Viro a garrafa, faço o mesmo processo algumas ou muitas vezes.
Acredito ter ouvido a porta ser batido enquanto pego faço meu circuito, mas não dou importância. Bebo até acabar o álcool no mini cooper do quarto, bebo até os refrigerantes (me lembro que eles tem um pequeníssimo teor de álcool), e resolvo deitar de vez.
Acabo com todo o álcool, mas o gim fica intacto.
***
Acordo, e a campainha está tocando. Fico na cama por uns 20 minutos, tendo uma leve esperança de que a ressaca vai passar num passe de mágica, mas ela não passa. A campainha, que não parou até agora, só piora a dor de cabeça, então, com todas as poucas forças que meu corpo reservou inutilmente para levantar as garrafas intactas de gim, levanto da cama, e vou até a porta.
–Puta que pariu, essa porra de campainha só piora ressaca. Nunca teve uma ressaca? — Digo, antes mesmo de olhar para quem estava na porta. Vejo meu empresário.
Ferrou.
Ele me olha de cima a baixo, e solta um suspira.
–Seu ensaio para o show de hoje deveria ter começado a uma hora, e você levanta só agora, com ressaca ainda por isso. Desculpe-me, quem tem o direito de ficar irritado? Dica: não é você.
Minha vontade é de mandar ele para certo lugar, mas acho que já extrapolei demais os limites. Ele coloca a mão no bolso do casaco e tira um saquinho de papel. Nele, está escrito “kit anti-ressaca” e provavelmente foi comprado por 15 libras esterlinas em uma farmácia de esquina.
–Você tem 50 minutos para tomar alguma coisa desse kit, se trocar, tomar um banho e ir para o ensaio. Se não, o show de hoje estará cancelado e seu filme vai estar totalmente queimado com a mídia e com os fãs. — Ele diz ele claramente irritado e bravo como nunca o vi. — Não perca sua carreira por qualquer que seja o motivo que o levou a ficar bêbado, Jake.
Gosto do fato de como meu empresário ainda me trata como um ser humano de verdade.
Tomo os remédios e sei-lá-o-que do kit e melhoro um pouco. Tomo o banho e me troco. Coloco um boné do hotel (por que cargas d’água um hotel dá um boné?) na cara e saio em direçao á limousine. Vários papparazi tentam me fotografar, mas permaneço de cabeça baixa. Não vai ser agora que eles vão me pegar para entrar no elenco de The Walking Dead.
Quando chego no local do ensaio, todos olham para mim. Tento ficar um pouco hostil, então não falo e nem me aproximo de ninguém, principalmente de Katherine.
Quando chega a hora de ensaiarmos o dueto, estou morto e não consigo parar de pensar na noite anterior. Sem perceber, ficamos quase meia hora treinando apenas uma nota que eu estava totalmente sem vontade de alcançar.
–Para. PARA! — Disse Katherine, quando me empolgo um pouquinho e chego perto da nota. — Jake, o que é isso? Você está horrível! Sumiu ontem a noite a gora me aparece com res…
–Ah, eu que desapareci, não é? — Rosno. Tudo em mim que estava morto agora voltou á vida. A rainha passa em minhas veias como substâncias químicas.. — Não fui eu que não atendi os seus telefonemas. Imagina. Não sou eu que sumo do nada.
–Você está assim por que eu não atendi seus telefonemas? Jacob, eu também tenho responsabilidades!
Antes que me dê conta de mim mesmo, estou com os braços levantados, ela está se encolhendo, de olhos arregalado:
–SUA RESPONSABILIDADE É TRANSAR COM UM CARA QUALQUER E ME CHIFRAR? PUTA QUE PARIU, NÃO ACREDITO MESMO QUE VOCÊ CONSEGUI SER UMA PIRANHA DESSE JEITO!
Todos estão parados, boquiabertos. O meu empresário nos olha apreensivos, mas não faz nada.
–Eu nunca fiz nada! — Ela se defende. Como eu podia amar aquela mulher? Ela recarregava a arma dela de mentiras. Recarregava, mirava e atirava.
–Não, imagina! Só só estava beijando um cara, os dois sem camisas, no seu quarto! Se isso não é transar, é o que? Ele é um ginecologista que faz pontas como dentista, é isso?
Ela abre a boca para começar a falar, mas a corto.
–Não quero saber. — E saio do estúdio. As lágrimas voltando.
***
Para um cara que saiu da ressaca agora, até que o show foi muito bom. Afinal, até que meu dueto com Katherine ficou bom. Só tive que fingir que nada tinha acontecido por 5 minutos.
Consigo resistir ao gim, e vou para a cama sóbrio. Ouço uma batida na porta, e a abro. Katherine está lá, e entra sem ser convidada. Senta na minha cama e me olha com firmeza.
–Precisamos conversar.
–Por que fez isso comigo?
Antes que termine a frase, ela levanta, me abraça e começa a chorar. Mas não consigo acreditar. Se duvidar, ela nem sabe o que eu estava falando.
–Teria doído você me respeitar?
Ela não responde.
–Eu...
–Não. — Me solto dela. — Pensei que isso fosse recíproco. Eu não queria ser mais um nome na sua lista de transas. Independente do que você sentia por ele e por mim, foi errado ir para a cama com ele.
Estamos chorando.
–Nem parecia que estávamos em turnê. — Ela diz, soluçando um pouco e baixinho. — Estávamos juntos, e os shows se tornaram algo a mais, sabe? Nunca procurei um compromisso ou algo assim. Foi algo a mais do que isso, mas me diverti, e era o que que eu procurava, na verdade.
–Se divertiu bastante comigo e com ele.
–Adorei o tempo que fiquei com você. Você é a melhor pessoa com quem eu já passei meu tempo. Mas não consigo te amar. — Ela está de costas. Só consigo ouvir o soluço baixinho, e ver algumas lágrimas caindo no carpete.
–Isso não justifica muita coisa. Por que nunca me falou antes? — Ela começou a chorar mais. — Nunca lhe passou na cabeça que eu poderia cair de cabeça nisso? Você se aproveitou da minha inocência, filha da puta.
Choramos por um tempo, até que ela vai em direção a porta. Quando está prestes a fechá-la, eu a chamo:
–Ei. — Ela abre a porta novamente, me olhando espantada. Seus olhos estão extremamente inchados. Provavelmente, metade do inchaço é fruto do rímel borrado. — Não fode com meu amor.
Por mais que ela estivesse chorando, consigo sentir o frio coração dela daqui.
***
Os shows passam, a turnê acaba e a mídia descobre que o namoro acabou. Tentam descobrir o motivo, mas nos dois resolvemos (por meio de nossos assessores) não contar nada. Falamos que continuamos como amigos, mas não sei se isso pode virar verdade algum dia.
Como a turnê foi bem lucrativa e me deu bastante visibilidade, já temos bastante projetos para o próximo ano. Vou descansar três meses, e depois vou voltar a trabalhar no novo álbum e em uma parceria com um artista bem conhecido. Vou manter minha cabeça ocupada.
Um dia, acho uma meia dela no meu quarto. É estranho que um objeto, por mais nojento que seja, nos faz lembrar de pessoas.
Pego meu caderno e uma caneta. Me amaldiçoo por não ter escrito as sensações naquele momento, e me ponho a escrever. O buraco que ainda tem vestígios dentro de mim só poderá ser calado com um desabafo, mas preciso fazer d jeito certo.
Começo pedindo novamente para que ela não foda com meu amor.
Não mesmo.
Não.
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