Na segunda-feira acordei antes do relógio e fui tomar um banho. Estava com frio na barriga em voltar pra empresa, mesmo sabendo que o Cadú ficava em outro prédio.
Acabei chegando muito cedo e fui para minha sala. Para passar o tempo, peguei um cappuccino na lanchonete e voltei a ler o e-book que havia começado.
O livro era bom demais, e a personagem me fazia rir sempre. Em um desses momentos fui tirada de meus devaneios pelo telefone.

– Bianca, bom dia. — Atendi automaticamente.

– Só se for pra você. Recebeu minhas flores?

Grrrrrrrr. Imbecil mandão!

– Recebi. Obrigada.

– Ah, agora você agradece? Poderia ao menos ter mandado uma mensagem de agradecimento.

– Pra que? Olha, parou a palhaçada tá. Passa uma borracha em tudo o que aconteceu e vamos voltar ao trabalho. Aliás, eu não irei mais acompanhar as vistorias.

– Se você não for eu não vou.

– O problema é seu e não meu. Tenha um bom dia.

Desliguei o telefone, mas tremia. Eu não podia estar envolvida por ele. Era errado. Em todos os sentidos.

– Bom dia menina! Tão cedo em plena segunda? – Armando entrou, e veio dar um beijo no rosto.

– É nanico. Hoje pulei da cama.

– Será que tem algo ou alguém lhe incomodando? – Eu conhecia aquele olhar...

– Nã... Não.

– Bia, ele já espalhou pra todo mundo que te comeu. Tirou foto sua dormindo na cama dele nua e mandou pra geral.

Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia!

Minha garganta trancou e senti uma mistura de mágoa e ódio. Como ele pode? Como? Eu amava trabalhar naquele lugar. Agora todos os meninos perderiam o respeito por mim. O que eu vou fazer...

– Ei, erga essa cabeça. Não seja assim, você é forte! Vai ligar para o que o os outros dizem?

Eu o olhei e outros meninos começaram a chegar. Todos falaram bom dia, mas todos mais distantes, me encarando. Eu quase podia ver minha foto nua em suas mentes. Uma mulher gorda e nua. Eu queria morrer.

Peguei minha mochila e sai correndo. Sentei na moto e fui em direção do prédio administrativo. Eu sabia o que fazer. Eu não teria coragem de olhar para os meus amigos novamente.

Fui direto para a sala do RH onde tinha um amigo muito querido também.

– Boneca, o que foi? – Lúcio veio em minha direção e conduziu-me até sua mesa.

– Vai dizer que você é o único homem dessa empresa que não viu?

O rosto dele ficou vermelho e ele encarou as mãos.

– Sim, eu recebi Bia. E achei horrível o que ele fez. Não tem desculpas.

– Eu sei. Eu trabalho com homens Lú. Não posso mais ficar perto deles com tudo isso. Eu vim aqui pedir demissão.

– Não! O Armando já sabe disso Bia? Não faça isso.

– Ele não sabe, mas vai entender. Por favor Lu, não aguento mais humilhação.

– Ok. Mas vamos ter que levá-la ao Henrique para que ele assine.

– Tudo bem. Pode fazer que eu mesma levo.

Lucio fez a carta e entregou-me. Eu saí da sala e fui ao banheiro. Ler a carta e saber que estava deixando algo que eu gostava tanto foi à gota d’água. Eu chorei. Chorei muito. Como nunca antes. Depois de algum tempo, lavei o rosto e fui em direção à sala de Henrique. A porta estava aberta.

– Pode entrar minha querida. Está tudo bem com você? Olha, se for sobre o que o Cadú fez, eu já o repreendi até financeiramente.

– Eu só vim trazer minha carta de demissão para o senhor assinar. – E coloquei a carta sobre sua mesa.

– Eu não vou assinar! Você não vai sair da empresa assim. É injusto! Você é uma das minhas melhores. Não posso perder você assim. Achei que fosse mais forte que isso, minha querida.

– Henrique, eu trabalho só com homens e tinha o respeito deles. Agora, como eu vou conseguir manter isso? Ao olhar nos olhos deles, sinto-me nua. Completamente. Não posso encará-los. Perdi meus amigos.

– Não, você não perdeu. – Reconheci a voz do nanico na hora. Olhei para a porta e vi Jason e Márcio com ele.

Morri por dentro de tanta vergonha e me encolhi, abraçando meu corpo e tentando esconder-me.

– O que vocês estão fazendo aqui? – Minha voz saiu baixa e tremida.

– Impedindo que você faça uma asneira, lindeza. – Jason veio, abraçou-me e bagunçou meu cabelo. – Aliás, olha, aquela sua calça que eu amo faz pouco jus ao seu traseiro. Você é gostosa garota!

Seu humor me fez rir e tirou parte da tensão que estava em meus ombros.

Márcio veio do outro lado e enganchou seu braço no meu.

– Garota, não queremos te perder. Não faça isso com a gente.

– Menina, — disse Armando – sabemos como tudo vai ficar difícil agora. Mas nós vamos lhe ajudar. Tenha um pouco de fé em nós.

– Tenha um pouco de fé neles! – Disse Henrique, todo contente com a chegada dos meninos para ajudá-lo.

– Boys, eu não posso. Isso é algo que está além dos meus limites. Não consigo. – E explodi em lágrimas. Não pude segurar. Jason me abraçou – Oh garota. Queremos lhe ajudar.

– Por favor, Henrique, assine. – Eu implorei.

E ele assinou. Eu não estava em condições de dirigir, então Jason levou minha moto e os outros me levaram para casa.

Eu nunca me senti tão pequena, insignificante, feia e sozinha como hoje. Nunca. Nunca. E sabem o que é pior? Sim, eu estou perdidamente apaixonada por ele. E isso fez tudo doer ainda mais.