Dona De Mim
7 Capítulo 7
Em casa, deixei minhas coisas na sala e fui para a cozinha fazer um bolo de chocolate. Toda vez que me sentia péssima, algo doce surgia em minha mente para que eu fizesse e comesse em poucos minutos.
– Filha, você está fazendo um bolo? O que aconteceu? – Ah, minha mãe vidente...
– Eu fui obrigada a pedir demissão hoje mãe.
– Mas o que aconteceu? Como assim?
– Ah, mãe, por favor. Não quero falar sobre isso. Quero terminar esse bolo imenso e comê-lo ainda quente. Depois, bem cheia, deitar na minha cama e chorar até dormir.
– Ok, você faz o bolo, mas nós iremos fazer um imenso café da tarde em família. Sei que você adora esse tipo de coisa.
E assim fizemos. Mamãe assou pães de queijo e fez café e suco. Eu caprichei no meu bolo. Papai chegou com pães e frios e Tato só trouxe o estômago mesmo.
Sentar juntos na mesa era sempre algo bom e reconfortante.
Porém, por volta das 18:30h a campainha tocou.
– Eu atendo! – Tato correu até a porta. Às vezes ele parecia ter a metade dos seu 22 anos.
– Boa noite. Sou Henrique, a senhorita Bianca está?
Minha deusinha deixou um pedaço de pão cair da boca aberta.
Ainda bem que minha mãe reagiu por mim.
– Senhor Henrique, entre! Venha tomar um café da tarde conosco.
Ele entrou, cumprimentou a todos e sentou-se.
– Bianca, eu tenho uma proposta. As coisas que aconteceram hoje, na verdade, foram muito boas para mim.
– Como assim?
– Eu estou em fase final de abertura de uma empresa de instalações. Eu realmente estava precisando de alguém para gerir o negócio, e essa sua saída da empresa abriu-me uma porta.
– Você está louco! Nem formada eu sou Henrique!
– Sim, isso é um problema. Vamos por partes. Primeiramente você terá que mudar-se para São Paulo, onde será a matriz. Terá que terminar sua faculdade. Mas mesmo assim, você já entra na gerência de instalações.
– Oh Meu Deus. – Era muita informação. Era muito maior do que jamais pensei. Será que eu teria capacidade para isso? Mas seria tão bom estar longe de Cadú.
– Pai, mãe, tudo bem para vocês eu aceitar?
– Você está louca filha? É a oportunidade dos seus sonhos! – Os olhos de meu pai brilhavam.
– Tudo bem, eu aceito. Quando me mudo?
– Amanhã mesmo estarei providenciando tudo e você já vai para São Paulo, mas ficará em um hotel. Eu também ficarei. Iremos juntos conhecer a empresa, procurar um apartamento para você e deixar alinhadas as suas funções.
Deus estava sendo bom demais comigo. Era tudo o que precisava, tudo o que sempre sonhei. Poder morar sozinha, terminar minha faculdade e ser independente. Parecia um sonho.
Todos terminamos nosso café e depois Henrique foi embora, mas já estava no patamar de amigo da família.
Minha mãe ajudou-me superempolgada a fazer as malas para uma semana, já que estamos em Maio e o tempo é meio louco essa época.
Para uma noite que achei que seria péssima, fui dormir com o coração saltitando de ansiedade. Por um momento pensei em Cadú, em seu corpo, seus lábios. Mas consegui colocá-lo de lado e dormir.
No dia seguinte, acordei muito cedo e as 08h estava no Aeroporto de Viracopos em Campinas, aguardando Henrique para nosso voo.
– Filha, cuide-se! Se precisar de algo, São Paulo é aqui do lado. Eu corro para lá te salvar. – Meu pai deu-me um abraço e foi embora trabalhar.
Eu aguardava, ansiosa, quando um calor imenso começou a invadir-me. Oh, não. Por favor. Por favor. Fechei os olhos e abaixei a cabeça. Rezando para que meu corpo estivesse reagindo a qualquer coisa que não fosse “Ele”.
– Você está fugindo de mim, linda? – Era minha voz masculina preferida. Eu não consegui responder. Senti seu cheiro amadeirado invadir meus sentidos.
Ele deu a volta em mim e parou em minha frente. Ergueu meu queixo.
– Abra os olhos. Olhe pra mim. – Sua voz estava calma. Eu podia estar louca, mas senti algo de diferente em seu tom.
Eu o olhei, e vi um rosto dolorido. Com feições que aparentavam dor e confusão.
– O que você quer? Por favor, me deixe em paz. – Eu estava implorando, com os olhos cheios d’água.
– Não vá embora. Pra onde você vai? Não faça isso. — Ele disse segurando meus ombros.
– Você já arruinou minha vida uma vez, não faça isso de novo. — Disse, dando um passo para trás em pânico.
– Mas você fez tudo errado! — Ele começou, jogando os braços no ar. — Eu... eu achei que você iria reagir, ficar brava, me xingar. Fiz por vingança, por você ter ido embora naquela noite. Jamais imaginei que iria demitir-se e sumir. – Seu rosto estava contorcido.
– Não importa. Está feito. Vá embora. — Minha voz estava embargada, presa com o nó em minha garganta.
– Não, Bia, por favor. — Ele segurou meu rosto entre suas mãos e o que vi em seus olhos me fez querer chorar.
– Hey! – Ouvi Henrique gritar. – Saia já de perto dela seu imbecil! Não basta o estrago que já fez?
Ele aproximou-se e empurrou Cadú, ficando entre nós dois. Eu só consegui virar o rosto e senti lágrimas escorrerem em minhas bochechas. Eu nunca chorava e estava chorando demais esses dias.
– Henrique, por favor. Eu não sabia que tudo acabaria assim. Ela sempre foi tão firme. Achei que ficaria brava e daria um soco na minha cara, mas jamais pensei que sairia da empresa. — Cadú tentou convencer Henrique, mas não deu muito certo.
– Seu idiota, ela trabalha com homens que até então eram seus amigos e a respeitavam. Como você acha que ela conseguiria encará-los se a cada vez que olhasse para eles, tivesse sua imagem nua passando por suas mentes?
– Eu não pensei nisso. Desculpe-me Bianca. – Ele estendeu a mão para chegar até mim, mas Henrique o parou. Eu o olhei e encontrei seu olhar mel, quente. Acenei com a cabeça para Henrique, mostrando que estava tudo bem. Henrique saiu da minha frente, e ele agarrou-me num abraço, beijou meu cabelo e afagou meu braço. Eu aproveitei os segundos que se passaram.
– Não vá. — Ele disse com a bochecha em minha cabeça.
– Eu tenho que ir. Eu ainda preciso viver Cadú.
– Então eu vou esperar por você.
– Não, meu querido, sei que não vai. Cuide-se.
Fiquei na ponta dos pés de dei-lhe um pequeno e quente beijo. Molhado. Antes que não resistisse mais, afastei-me.
– Vamos, Henrique. — Peguei minhas malas e saí de perto. Tremendo. Usando todas as minhas forças para não voltar e pular em seus braços.
Alguns minutos depois estávamos no avião. Primeira classe. Era algo para eu estar encantada, mas eu sentia um imenso vazio. Ver aquele homem novamente despedaçou meu coração. Mas eu sabia que seu arrependimento era apenas por eu ter perdido meu emprego e estar deixando minha vida para trás. Ele não me ama. Jamais amaria. Mas era bom ver que debaixo de todo aquele gelo, havia um coração.
Senti um imenso alívio ao chegar em São Paulo. Olhar aquela cidade imensa, onde ninguém me conhecia era reconfortante.
Era um recomeço. Na verdade um começo. Começo da minha vida. Começo do meu destino. E eu ia agarrar a oportunidade com unhas e dentes.
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