Dona De Mim
10 Capítulo 10
Acordei no sábado atordoada. Olhei em volta e lembre-me da noite anterior. Tão simples e boa. Sem saber ao certo por que sentia um vazio, como se estivesse faltando algo. Como se tudo aquilo não fosse o que meu corpo e alma realmente queriam. Faltava calor.
Levantei e procurei por Vitor. Como não encontrei, resolvi tomar um banho.
Assim que saí do banheiro e entrei no quarto, deparei-me com ele, lindo, segurando uma bandeja de café da manhã.
– Pra você gatinha. Venha comer.
Pulei na cama, toda feliz! Amo café da manhã!
A companhia dele é tão boa. Tão fácil. Rimos e comemos. Contamos nossas vidas. Mas meus dois maiores segredos não consegui tirar da garganta: a morte do meu primeiro namorado e a humilhação que Cadú me fez passar.
Começamos a nos encontrar esporadicamente. Ter Vitor por perto me fazia bem. Quando tudo estava muito errado, ele me levava para o estúdio e dançávamos por horas. Tudo com ele era calmo. Era simplesmente fácil tê-lo perto.
Logo estávamos namorando.
Uns 06 meses depois, eu fui obrigada a ir para a tal filial em Americana. Henrique não teve escolha: as coisas não estavam indo bem e eu teria que firmar a parceria com minha ex-empresa.
– Preciso que venha comigo. Quero que conheça minha família, Vini. — Pedi para ele, com medo de dizer não.
– Tudo bem amor, minha vida não é complicada, eu irei contigo. — Respondeu com um imenso sorriso e seu olhos azuis alegres.
No sábado, chegamos a Sumaré, minha cidade. Eu queria ficar num hotel, mas mamãe fez questão de receber-nos em casa. Achei estranho, pois nunca haviam deixado namorados dormirem em casa, mas agora tenho 27 anos.
– Até que enfim hein filha, você veio nos ver. Sempre fomos nós que fomos até você! – Meu pai me agarrou num abraço de urso. Era tão bom estar em casa.
– Oh, minha menina. Você está cada vez mais linda! É bom ter você em casa também! – Eu disse que ela era vidente...
– Mãe, pai, este é o Vitor, meu namorado.
Ambos o cumprimentaram e foram muito simpáticos. Fiquei bem feliz com a recepção.
– Onde está o mané... Ahhhhhhhhhhhh!!!! – Foi só falar e fui levada ao ar e cai nos braços do meu irmão. Ah, eu amo esse moleque!
– Maninha, como você está? — Disse Júnior com seu sorriso imenso e lindo.
– Ual, Juninho, você está musculoso. – Falei, apertando seus braços. Todos riram.
– Hum... Pra pra poder pegar as gatinhas né Maninha. Ei, você deve ser o cara dela. Mano, obrigada por cuidar dela pra gente. – Meu irmão pôs-me no chão e pegou a mão de Vini em cumprimento.
– Imagina cara, ela é uma criatura fácil de cuidar. – O olhou pra mim com carinho.
No fim da tarde tinha jogo do São Paulo, meu time do coração. Sentei na sala com meu Pai para ver o jogo, regados a cervejas e amendoins. Tão bom voltar aos velhos tempos.
– Ah, então é por isso que você nunca saía comigo às quartas-feiras, sábados no fim da tarde e alguns domingos? Por que nunca me disse que curte futebol mocinha? – Vini disse rindo. Ele não é o tipo de cara que curte esporte, então acho que nunca comentamos sobre isso. E se tinha jogo do meu Tricolor, ah meu querido, pode me esquecer mesmo! Não saio de casa!
– Não sei. Acho que porque você não curte muito. – Dei de ombros.
– O Senhor também é São Paulino? – Perguntou para meu pai.
– Não. Aqui em casa é uma verdadeira democracia. Eu sou Santista e meu filho Palmeirense. Mas todos nós amamos futebol, então sempre assistimos juntos.
– E sua mãe?
– Mamãe é do contra! – Eu disse, rindo. – Ela sempre torce para o time contrário.
– Ei, estão falando de mim? Fiz bolinho de chuva e vou levar de volta!!! – Oh Minha Nossa Senhora das Filhas Carentes, muito obrigada! Não podia estar tudo mais perfeito!
Para variar, eu sofri feito uma besta o jogo inteiro e meu lindo time empatou. Fiquei uma meia hora emburrada. Eu sou assim, o que posso fazer.
Quando anoiteceu, quis levar Vini conhecer as redondezas.
– Vamos dar uma volta e paramos para comer algo. – Estávamos com meu carro. Preferi vir com ele de São Paulo para termos mais liberdade. Andei pela cidade que é pequena e mostrei alguns lugares.
Jantamos em uma temakeria.
– Onde você costumava ir para dançar? — Ele pergunta, relembrando algumas de nossas conversas.
– Ah, havia um clube na cidade onde trabalhava que eu gostava muito.
– Vamos lá? Estou morrendo de vontade de dançar mocinha! Vamos! — Ele pediu todo animado.
Nossa, por essa eu não esperava. Let’s Go Bar... Depois de tanto tempo. Tantas lembranças daquele bar.
Chegamos ao bar por volta de 23:30h e já estava cheio. Parece que as mesmas pessoas ainda trabalham aqui. Foi bom revê-los.
– Nossa, você devia vir muito aqui. Você conhece todo mundo! — Comenta Vitor.
– Ah, eu vinha sempre mesmo. Eu e as meninas batíamos cartão.
– Vamos beber alguma coisa.
Encostamo-nos no bar e logo Pati veio.
– Eu não acredito! Depois de tanto tempo Bia! – Ela me deu um longo abraço por cima do balcão.
– Nossa Pati, senti saudade desse lugar! Este é Vitor, meu namorado.
– Ual! Prazer! Tem irmãos?
Ambos começamos a rir e então eu ouvi gritos histéricos atrás de mim. Oh Deus, será que eu tinha tanta sorte assim?
– Ah, não. Esta é sua primeira bebida? Pode pedir uma tequila mocinha! — Gritou uma voz amada e conhecida.
Quando virei, lá estavam elas. Lindas. Mulheres. Diferentes. Quanta saudade. Pulei até elas num grande abraço e com os olhos marejados.
– Ah, Bia, qual é! Sem choro! Minha maquiagem não é tão boa assim. – Madú, continuava mandona.
– Meninas, este é Vitor, meu namorado. Vini, esta é Jú e Madú, minhas amigas que sempre falei.
– Prazer meninas.
– Poxa vida... tá com a corda toda hein Bia. – Disse Jú, medindo Vini da cabeça aos pés.
Arrumamos uma mesa alta com banquetas e ficamos todos juntos. Vini é sempre muito fácil de se apegar, e logo todos já estávamos nos divertindo muito.
– Vem garota! Vamos dançar!
Vini agarrou-me e fomos para a pista de dança. Claro que arrasamos. Somos super sincronizados e amamos dançar. Uma música com uma batida black começou, e as pessoas fizeram uma roda em volta de nós. Começamos vários passos. Estava supersolta quando comecei a sentir um calor incontrolável. Minha boca ficou seca e minha pulsação disparou. Vini me puxou para um passo, virou-me e colocou-me de costas pra ele. Oh não. Parado, olhando em meus olhos, lá estava ele. Meu malfeitor, meu sol, meu maior sofrimento. Eu errei os passos e quase caí. Vini me segurou e fiz sinal para sairmos da pista.
Será que havia sido uma ilusão? Só podia ser. Eu devo estar louca.
– Minha garota, você está bem? — Perguntou preocupado, estudando meu rosto.
– Preciso de água. — Disse sem ar.
– Tudo bem, amor, eu vou buscar.
– Vou ao banheiro, Vini, e te encontro na volta.
Fui cambaleando, sem entender o que vi. No banheiro, joguei água no meu pescoço. Estava fervendo. Quando acalmei, saí. No corredor, as meninas me encontraram.
– Ah, não, você já o viu. – Madú disse, com olhar preocupado.
– Já... – Minha voz saiu engasgada.
– Venha, volte para seu namorado deus grego e esquece esse idiota! – Jú disse agarrando um dos meus braços e Madú agarrou o outro. Quando nos viramos para irmos até a mesa, ele parou em minha frente.
– Você vai ignorar-me para sempre? – Ele estava ainda mais lindo. Maduro, com a barba por fazer. Cara de homem. Por que ele ainda me afeta assim?
– Sim, Carlos Eduardo, é isso mesmo que pretendo fazer. – Com uma cara bem feia, soltei-me dos braços das meninas.
– Você vai ser idiota pra sempre, Bia? – Ele jogou os braços, em sinal de frustração. – Foi você que fugiu de mim, sumiu.
– Eu só não fui idiota em acreditar em contos de fada com você. E você provou-me que eu estava certa com sua atitude infantil. – Fui sair dele, dando a volta, mas ele me agarrou pela cintura. Oh Deus. Aquele calor. Aquelas ondas indo direto para minhas partes baixas. Tudo de novo. Então uma mão masculina conhecida me puxou.
– Ei, cara, qual é a sua? Quem é você? – Era Vini, agarrou-me por trás e encarou Cadú.
– Eu quem pergunto, que é VOCÊ? – Disse Cadú, fazendo cara de superior. Tão arrogante.
– Sou o namorado dela, imbecil. – Ele me virou de frente para ele. – Vamos embora, garota? Você parece abalada. – Ele afagava meu rosto, analisando-me.
– Por favor, amor, vamos. – Eu disse, e o agarrei na cintura. Arrisquei um olhar para trás e vi Cadú com o rosto retorcido. Parecia raiva. Não sei.
Eu achei que nunca mais o veria. Achei que ele não lembrasse mais da minha cara. Achei que estava tudo acabado.
Por que tinha que ser assim?
Eu não quero sofrer tudo de novo... Não quero...
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