Dona De Mim
1 Capítulo 1
*Acooooooooooooooooooooooooorda menina! Acooooooooooooooooooooooooorda menina! Acooooooooooooooooooooooooorda menina! Acooooooooooooooooooooooooorda menina!*
Com um pulo, levantei da cama procurando freneticamente pelo meu celular que gritava ao ponto de irritar o mais glacial guarda da realeza britânica. Deus, meu irmão mexeu no meu toque de despertador de novo? Vinganças sempre são bem vindas nessas situações. Até porque, eu e meu irmão Júnior nos damos muito bem e esse tipo de peça é bem comum de pregarmos um no outro. Confesso que se o visse nesse exato momento, quebraria seu pescoço, mas a raiva durará só 05 minutos.
Ainda atordoada, estiquei-me até o banheiro. Oh, o espelho... Por que teimam em ter espelhos em casa? Eu já não sou grande coisa e ver minha cara pálida, com olheiras enormes e cabelos parecendo um ninho de passarinho era realmente desnecessário todos os dias pela manhã.
– Bia, cadê você filha? — Minha mãe chama alto do meio da escada — Anda! Eu sei que está em cima da hora.
– Mãe, por Deus, pare de gritar a essa hora! Meu cérebro ainda não acordou.
Então ela apareceu com tudo na porta do banheiro. Mães... Elas não têm senso de espaço pessoal.
– Por que você é tão irritada logo pela manhã menina? Vamos!
– Mãe, eu não estou atrasada e não sou mal-humorada de manhã. O Tato colocou um toque idiota de despertador no meu celular e acordei no susto. Agora posso terminar por aqui?
Não muito tempo depois, eu já estava a caminho do trabalho na minha magrela. Ah, eu adorava ter a minha pequena moto CG 150cc. Era como um traço que mostrava liberdade e independência, coisas que aprecio muito. E outra, com ela eu chegava muito mais rápido ao trabalho na cidade vizinha, Americana, do que se enfrentasse o trânsito com carro ou ônibus.
Meu trabalho não é o melhor do mundo, mas eu era apaixonada pela equipe! Nunca dei-me muito bem com grupinho de meninas, fazendo fofoquinhas e intrigas. Então, ter no dia a dia uma molecada insana me fazendo rir, melhorava muito meu humor. Fazíamos parte da área técnica de uma empresa de telecomunicações e eu cuidava da parte administrativa do departamento. Na verdade, eu chicoteava a área comercial quando faziam absurdos e ajudava meu Gerente Armando em suas tarefas de metas e etc.
– Ei, meninos, bom dia... — Falei num tom de voz rouco e baixo.
– Bom dia Bia! Tá de T.P.M? Sua cara não está das melhores. — Um do meninos logo tratou de zoar.
– Ainda não é a fase do mês de vocês me encherem de chocolate, mas acordei com pé esquerdo, portanto, cuidado Márcio. – Respondi com um sorrisinho irônico no final.
– Puta que pariu, a bicha chegou chegando! – Morrendo de rir, Jason veio até mim e bagunçou todo meu cabelo. Cara, se ele não fosse tão alto, eu teria grudado meu chiclete no cabelo dele!
Na verdade, esse bom humor masculino me salvava de todas as minhas crises existenciais femininas. Eles gostavam de mim como parte da turma e eu não tinha que me preocupar se era sexy, magra ou bonita – eu não sou nenhuma dessas três coisas.
Passamos a manhã de segunda-feira tranquilamente. E como sou uma leitora compulsiva, quando o trabalho estava calmo eu me enfiava nos meus livros de romance adulto. Adoro a mistura de romance bobo e jovem com cenas picantes. Estava super entretida quando o meu pequeno, descontrolado e amado chefe entrou na sala, vermelho feito um pimentão.
– Armando, o que foi? Você vai explodir!
– Não, eu não vou. E você quem vai me ajudar Dona Bia. Levanta essa bunda agora da cadeira que eu preciso de sua ajuda!
Ai cara, meu livro estava tão legal. Normalmente quando o Armando chegava assim, eu levava ao menos uma hora para acalmá-lo.
Caminhamos pelos corredores da empresa até chegarmos a uma pequena sala.
– Nanico do céu, você vai me falar o que aconteceu?
– Bia, escuta só. O Departamento Comercial está nos acusando de recebimento ilícito de dinheiro.
– Como assim?
– Segundo eles, nós estamos negociando instalações de serviços proibidas juntamente com nossos técnicos e recebendo bem por isso.
– Ah, que bacana, agora somos uma quadrilha. — Disse erguendo os braços e encostando na cadeira.
– Não brinque menina! Seu nome e o meu estão em jogo! Eu fui citado por ser o gerente do departamento e receber porcentagem. Mas você minha querida, foi colocada como chefe do bando pelo Cadú. Ele está tentando provar que você, por manter uma ótima relação com nosso grupo, é quem alicia os técnicos, dá as coordenadas e liga para negociar com o cliente.
Ah não! Como assim? Eu era uma mera escrava-mãe-melhor amiga daquela turma toda! Mas tinha que ser ele. Ai como eu odeio esse cara mesmo sem nunca tê-lo visto! Ele sempre dava um jeito de ir contra mim em tudo. O Cadú era o gerente da área comercial, e é claro, me odiava. Para me proteger, Armando nunca me levava às reuniões e, segundo ele, nosso Gerente-Geral Henrique entendia a situação.
– Bom, vamos por partes meu querido: o que teremos que fazer para responder às acusações? – Ual, quando eu queria, eu era tão profissional.
– Bom, por enquanto foram acusações somente internas. Acho que se fizermos um relatório e apresentarmos ao Henrique ele se contentará.
– Vamos fazer mais que isso. Nós faremos um Plano de Ação contra instalações ilegais e proporemos ao cretino do Cadú para acompanhar nossas investigações internas. Nós faremos fotos e tudo mais e apresentaremos quinzenalmente. Quero ver se ele será homem o suficiente pra enfrentar essa.
– Menina, quando você quer, você é muito cruel. Amo isso em você! Acordo fechado! Só temos um problema, nossa reunião com Henrique será amanhã às 16h.
– E como você é uma pessoa com TOC, eu terei que fazer tudo sozinha. Santo Deus, por que eu trabalho pra você?
– Porque você me ama! Agora vamos! Levante esse traseiro e vá trabalhar! Pode ir pra casa para trabalhar melhor e amanhã venha deslumbrante. Quero apresentar a nossa mulher da técnica para esse bando de marmanjos que não sabem usar o que têm dentro das calças.
É claro que passei mil horas trabalhando sem ter tempo pra comer mais que umas duas barras de cereal e tomar água. Mas a minha raiva por aquele cretino era como um gerador de energia. Quando acabei, estava mais que orgulhosa. Eu sou muito boa em escrever, mas melhor ainda em argumentar.
No dia seguinte acabei acordando antes do despertador. Uma hora antes na verdade. Tomei um belo banho e parti para a produção. Normalmente eu ia trabalhar de calça jeans, t-shirt e tênis. Era estranho me produzir assim, logo cedo. Como eu ia de moto direto para o prédio do escritório central, resolvi usar minha roupa de chuva – calça muito larga e jaquetão — para poder andar na moto sem pagar calcinha, já que estava com uma saia lápis grafite com um zíper em cada lado que abria até coxa para poder sentar na moto, uma camisa de seda pérola e sapato de salto. Meu cabelo não tem muito que fazer: ele é enrolado em grandes cachos castanhos até a cintura e repicado, e eu teria que enrolá-lo para não virar um fuá-pós-vento. Ah, mas em maquiagem eu sou craque! Fiz uma bela maquiagem para esconder as imperfeições, mas leve o bastante para o dia e resolvi colocar um belo batom vinho, pois sei que faz os homens boquiabertos.
Com minha pasta de couro dentro da mochila, parti para minha pequena audiência administrativa. Não posso negar que meu estômago começou a doer. Ele sempre faz isso quando estou nervosa e ansiosa. Mas o pior ainda estava por vir.
Quando cheguei ao prédio que não era grande, mas era espalhafatoso, todo azulado com vidros espelhados, já avistei meu nanico preferido parado em frente. A cara dele ao me ver de moto era digna de uma foto! Certeza que ele achou que eu estava a maltrapilha de todos os dias. Havia outros homens em volta, mas não prestei muita atenção e fui estacionar. Ah, eu ando muito bem de moto e era um prazer ver seres do sexo oposto vendo o quão elegante eu era.
Parei há alguns metros de distância, desci da moto e prendi minha mochila assim que retirei a pasta. Tirei o capacete e balancei os cabelos pra que ficassem da melhor forma possível, caindo pelas minhas costas. Quando tirei a jaqueta e começou a dar para ver minha vestimenta real, juro que ouvi alguém soltar o ar em alívio – Armando. Olhei e dei-lhe um sorrisinho de lado, travesso, que ele entendia bem. Cara, ele é um grande amigo! Nesse momento um grande carro importado branco – um SUV qualquer – encostou do meu lado e eu fiquei um pouco irritada com a proximidade. Ele estava atrapalhando minha labuta em tirar a roupa! Desci a calça de chuva e quando tirava o primeiro pé ouvi um — Nossa... – meio engasgado, vindo de uma voz masculina. Olhei por instinto para cima e encontrei um grande par de olhos mel arregalados, num rosto masculino divino, e uma boca grande entreaberta. Minhas pernas ficaram como se não houvessem ossos e como eu estava com a mão no tornozelo direito pra tirar a calça, eu comecei a desequilibrar. Santo Deus! Quanta falta de jeito! No mesmo instante senti grandes mãos me puxarem pelos ombros até que eu estava ereta, corpo colado no corpo, e nossos olhos se encontraram novamente. Ele era tão quente. Chegava a ser incômodo o calor que saia dele. Ainda mais lindo analisado face a face. Um rosto largo, com queixo quadrado e boca grande. Olhos muito, muito atrevidos. Cabelos lisos, mas ligeiramente armadinhos e jogados de lado. Um deus.
– Moça, acho que você precisa de ajuda, mas essa saia toda aberta realmente me tira a concentração – Abaixou o rosto, olhando para os zíperes da saia.
– Nã, não. Muito obrigada senhor. Apenas assustei-me com sua chegada inoportuna e perto demais. Se puder me soltar, termino meu serviço. – Cara, eu juro que tentei ser totalmente fria com aquele olhar sexy e quente como inferno, mas não sei se consegui.
– Eu faço questão. — Ele então soltou meu ombros e desceu suas mãos bem próximas às minhas pernas, mas sem me tocar. Somente próximo o suficiente para me arrepiar os pelos. Pegou tornozelo por tornozelo e terminou de tirar minha calça. Uma pegada forte que me fez esquecer de respirar.
Subiu ágil e elegantemente, dobrando minha roupa e estendendo-a para mim.
– Pronto minha linda. Agora, por favor, feche essa saia ou não respondo por mim ou os homens ali na roda. – Com um meio sorriso no rosto, apontando para os homens próximos a nós.
Deus, eu havia me esquecido deles! Quando me atrevi a olhar para Armando, ele estava roxo. Ai, eu devo estar encrencada. E se um deles for o maldito Cadú? Droga.
Arrumei minhas coisas rapidamente, com o maldito cara sexy ainda me esperando, apoiado no carro e com as mãos nos bolsos. Ai, ele é lindo!
Quando ia passando por ele, ele me puxou.
– Posso saber seu nome?
– Não, você não pode. Eu preciso trabalhar, com licença.- Saí correndo o mais rápido que pude.
Quando eu ia começar a me desculpar com o nanico, fui interrompida.
– Acho que não preciso mais perguntar seu nome. – Eu reconheci a voz, mas dessa vez seu tom era mais frio.
– Eu já disse para não chegar perto dela Cadú. Vamos entrar minha querida, e resolver esse absurdo.
Oh, não. Como podia o homem mais gostoso do universo ser meu pior pesadelo atual? Cara, eu tenho muito azar.
Caminhamos em grupo até a sala de Henrique. Sentamos em volta da grande mesa oval de reuniões e eu podia jurar que sentia seus olhos em mim, apesar de fazer de tudo para não falar nem olhar na direção dele.
A reunião desenrolou-se e Henrique falou das acusações. Eu devo ter ficado em vários tons raivosos de vermelho, pois o nanico em vários momentos apertou meu braço sobre a mesa, me acalmando e olhando com seus olhos azuis por cima dos óculos, pedindo paciência.
Quando foi nossa vez, apresentei todo o projeto e fui me empolgando ao ver o rosto de Henrique iluminando-se e o de Cadú enfurecendo-se.
– Por fim, para que tudo seja registrado com testemunha válida, sugiro que o Sr. Acusador Carlos Eduardo acompanhe algumas das vistorias.
– Isso é um absurdo! Eu não vou ficar andando com técnico nenhum pra desbaratinar quadrilha fajuta nenhuma!
Eu curvei-me sobre a mesa, apoiando as mãos e olhando diretamente para ele.
– Ora, ora, meu caro senhor Carlos. O senhor quem fez a denúncia e agora duvida de nossa linda e bem arquitetada quadrilha? Ah, isso é quase uma ofensa. – Estiquei-me e cruzei os baços sobre os seios com o sorriso irônico que só eu sei dar.
Ele levantou-se calma e graciosamente, andou em volta da mesa e parou a poucos centímetros de mim. Eu achei, por dentro, que ia desmoronar. Mas anos de rejeição e convivência masculina, ensinaram-me a ser forte e uma ótima atriz.
– Ora, ora, senhorita desastre, eu aceito, – cerrando os olhos, ele continuou – desde que você esteja me acompanhando.
– Fechado! – Eu disse sem pensar muito e estendendo a mão para fechar o acordo. Ai, o que eu estava pensando? Ele é o cara mais gostoso que já vi, e me atrai como um ímã. Ai, isso vai dar merda.
Quando ele apertou minha mão, senti como se ele enviasse ondas de calor para partes do meu corpo que não deveriam estar acordadas em meio a uma reunião de trabalho. Não sei se foi apenas impressão, mas ele demorou mais que o habitual para me soltar.
– Ok, ok. Agora chega desse jogo de poder! – Armando se levantou e veio para meu lado. – Por que você é assim menina? Toma decisões no calor do momento! Deveria ter me consultado!
– E o que você faria? Deixe-o nanico. Ele não aguentará um dia sequer na rua com os meninos. Eu estou acostumada já, mas ele é muito almofadinha pra isso.
– Assim espero.
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