Voltamos para nosso departamento que ficava em outro prédio e dessa vez eu não me preocupei em vestir calças. Eu estava atordoada demais. Meu corpo parecia glacial agora que estava longe de todo aquele calor em forma de homem. Na verdade, eu estava bastante decepcionada por um homem que devia ser o mais feio do mundo ser simplesmente o mais gato. Não é justo! Não é justo!

Na parte da tarde, tratei dos detalhes das vistorias com Armando, deixando tudo perfeito para quinta-feira, que seria o primeiro dia da realização do projeto.

– Bia, tem certeza que não quer que fale com Henrique? É absurdo você ficar andando por aí a mercê daquele ogro! – Coitadinho, meu nanico preferido estava realmente preocupado. Ele era mais que um chefe, era um parceiro e amigo muito chegado e querido.

– Relaxa, nanico! Vai ficar tudo bem. Você sabe que adoro um desafio e posso muito bem ser insuportável. Eu quero que ele desista do projeto e retire nossa queixa. Será como um tapa na cara do orgulho dele.

– Meu Deus, menina, como você é... maquiavélica? Cruel? Nem sei como lhe descrever, sabia?

– Sou assim somente com quem merece. Odeio gente orgulhosa, que acha que não há ninguém no mundo acima dele.

– Ok. Tudo bem. É que... – Ele coçou a cabeça, olhando para baixo como se quisesse dizer algo mas estava com medo. Ele tinha mesmo medo de mim.

– Desembucha homem!

– VOCÊ VAI SE APAIXONAR POR ELE!

– Rá, rá, rá, rá, rá, rá, rá, rá, rá, rá,! – Joguei-me para trás, gargalhando. Ele ficou vermelho como um pimentão.

– Não ria Bia. Eu te conheço. Você nunca gostou de ninguém, ainda mais depois que... que tudo aquilo aconteceu. Você é forte e não cai em cantadinhas baratas, mas esse cara é foda. Eu já o vi persuadindo fêmeas e lhe conhecendo, eu sei que ele ser um desafio vai lhe encantar.

Com a mão na barriga dolorida de tanto rir, eu o olhei com carinho e dei o sorriso mais acalentador que pude.

– Meu querido, fique tranquilo. Eu prometo que se achar que estou numa enrascada, eu pulo fora. Prometo! – E cruzei os dedos e beijei duas vezes, como um juramento de crianças da 3ª série do fundamental.

A quarta-feira passou rápida e calma. Com muito trabalho e muita orientação aos dois técnicos que iriam comigo na vistoria do dia seguinte.

Eu já tinha tudo planejado. Eu não queria passar a impressão errada, então resolvi ir com o mesmo uniforme dos técnicos que eu usava quando precisava ir para a rua: camisa preta de mangas curtas, bordada com o logo da empresa, calça jeans masculina e reta, e sapatão industrial. Pelo menos assim, aquele idiota não ficaria se achando e entenderia que não vou dar a menor bola pra ele. Pelo menos eu ia tentar não dar! Ele poderia ser ao menos feio, pra ajudar minha tarefa.

No dia seguinte, cheguei no horário combinado para que Cadú nos encontrasse em nosso prédio. Claro, o bonitão estava atrasado. Eu realmente não estava tão nervosa como pensei que estaria. Juntei-me à turma de meninos que estava papeando e me senti super feliz em parecer só mais um. Era tão bom estar com eles! Por um momento ri sozinha, imaginando a íngua do Cadú chegando de terno para a vistoria e xingando em todos os idiomas a cada sótão empoeirado que entrasse, ou ferramenta suja que encostasse em sua roupa cara e imaculada.

De repente, um barulho que eu amo fez com que todos parássemos de conversar e virássemos para ver: era um som delicioso de moto esportiva. Ah, isso fazia meu coração saltar! Ai, cara, era a Ducati vermelha mais linda que eu já tinha visto! O piloto estacionou e começou a descer da moto. Mesmo de capacete, eu o senti me encarando eu fiquei secretamente feliz: será que poderia dar uma volta com ele? O homem ,então, começou a tirar o capacete.

– Ah, qual é! – Eu não me segurei e acabei soltando mais alto do que queria, jogando as mãos como que em frustração, quando vi quem era. É, era o Cadú. Cacete! Que ódio! Até nisso o cara arrasou! É claro que ele não podia ser legal, seria perfeito demais.

Os meninos olharam para mim e caíram na gargalhada. Ele também. Ele veio em minha direção e, como se tivessem medo, todos os meninos deram dois passos atrás, deixando-me sozinha e estática.

– Olá minha linda. Adorei o modelito. Sei o que está tentando, mas essa camisa deixou seus seios lindos. — Que atrevido! Meus olhos ficaram arregalados e minha boca caiu aberta com em um desenho animado. Logo percebi a cara de idiota que devia estar e fechei o senho, mordendo a boca do lado de dentro, como sempre faço pra controlar minha língua.

– Pare de fazer bico e morder a boca, vai se machucar. – Com um sorriso idiota na cara, ele afagou minha bochecha do lado em que eu estava mordendo.

Dois segundos depois, meu subconsciente se tocou do que estava acontecendo e me ajudou a fazer uma cara bem feia pra ele.

– Bom dia, Carlos Eduardo. Você está atrasado. Eu vou continuar com nosso trabalho juntos com duas condições: Primeiro, você tem que parar de ser um idiota e falar dos meus seios ou qualquer parte do meu corpo. Segundo, NUNCA MAIS ME TOQUE. – As três últimas palavras faladas bem devagar e olhando dentro dos seus olhos. Olhos lindos. Quentes. Pare, sua idiota!

Ele veio até o meu ouvido e sussurrou.

– Isso até você implorar que eu o faça. E você vai, linda.

Ai como ele é besta! Só consegui dar um “hãn” e erguer os ombros com desdém. Percebi que ele ficou de boca aberta com minha atuação, mas graças a Deus ele não sabia que era só uma atuação. Eu estava derretendo por dentro, com todo aquele calor dele cozinhando-me e acordando novamente partes minha que deviam estar quietinhas.

Dentro do carro foi mais difícil. A dupla de técnicos foi nos bancos da frente e nós nos sentamos atrás. Apesar de ser um Gol, o espaço parecia pequeno e quente demais. Forcei-me a ir o caminho todo olhando para fora da janela.

A vistoria no cliente foi feita sem problemas. Era a residência de uma senhorinha muito fofa, que nos atendeu com café e bolo. Com um delicioso sotaque mineiro, no fim da vistoria ela nos deus marmitinhas de bolo para levarmos. Cadú saiu-se muito melhor do que eu esperava. Também, ele estava totalmente ao contrário do que pensei. Ele usava calça jeans que agarrava no quadril e coxas, e olha, o homem tinha uma bunda grande e perfeita, e coxas da mesma forma. Estava com uma camiseta preta bem básica e não agarrada, mas certinha, de forma que pude reparar em seu corpo: nada de barriga, grandes braços e costas largas. De tirar o fôlego. Eu juro que ele me pegou avaliando seu traseiro uma vez, mas nada comentou.

– Ah minha filha, você é uma graça. Tem um jeito de mulher forte, mas vejo uma menina adorável em seus olhos. – Disse a senhora quando entregava minha marmita.

– Muito obrigada Dona Joana. Acho que a senhora tem razão. – E uma sombra de tristeza atingiu meu rosto.

– Você, meu filho, cuide dessa menina! Prometa-me que não deixará ninguém machucá-la! Nunca! – Ela disse isso para o Cadú com uma cara muito brava.

– Dona Joana, por favor. Nós somos apenas duas pessoas que trabalham na mesma empresa e foram obrigadas a fazer este serviço juntos. – Eu logo disse, em explicação.

– Ah, minha querida. Isso é só por enquanto. – Olhando, pra mim, ela sorriu como se fosse um aviso.

– Senhora. – Cadú disse, chamando a nossa atenção. – Essa linda moça sabe como ninguém cuidar de si mesma, mas eu prometo que se for necessária minha ajuda, eu estarei lá.

– Obrigada meu filho!

Saímos da casa dela em silêncio e eu estava tentando entender o que aconteceu. Por que ela disse aquilo? A velhinha estava doida, certeza. Fiquei ao menos feliz em ver que ele podia ser delicado e dar a resposta que ela queria ouvir.

Voltamos para a empresa e eu não o esperei. Fui para minha sala que estava vazia. Um milagre. Logo ele entrou também.

– Ei, pode ir embora! O Armando não está aqui. – Disse, ríspida.

– Acalme-se tá. Eu vim falar com você.

Ixi... meu estômago gelou.

– O que você quer?

Com um sorriso gigante nos lábios, ele respondeu.

– Eu quero te jogar nessa mesa e transar com você até ficar desfalecida de tanto gozar. Mas como eu sei que levaria uma joelhada nas minhas bolas, eu quero realmente conversar contigo.

Nesse momento, eu já estava de olhos arregalados e boca aberta. Abusado! Sem vergonha! Cretino! Minha barriga ficou em chamas e senti que estava molhada. Merda, eu amo sexo, mas não sou tão fácil assim normalmente. Desde que aprendi em um livro que tenho uma deusa interior, com certeza posso dizer que a minha estava a ponto de agarrá-lo. Respirei fundo, gritando para que meu subconsciente chato acordasse e me ajudasse.

– Tudo bem, homem irritante, fale. — Disse, endireitando-me na cadeira e cruzando os braços.

– Bianca, nós teremos que trabalhar juntos mais algumas vezes e “bom dia”, “obrigado” e outras formas de tratamento terão que serem utilizadas para não nos matarmos. Poderia ao menos tentar ser um pouco mais gentil?

– Eu prometo, mas você vai me prometer que vai parar de falar besteiras?

– Só falar?

– Sim.

– Eu prometo, já que pensar será permitido.

Ai, aquela cara de quem queria me agarrar.

– Combinado, agora o senhor poderia deixar-me trabalhar?

– Até a semana que vem, linda.

Enquanto ele ia até a porta eu me permiti admirar a linda vista da sua bunda novamente. Cara, dá para apoiar com copo de café naquela curvatura. Ele então virou, rindo, com as mãos no bolso e cabeça inclinada.

– Você realmente gostou da minha bunda, não é, menina? Bem, a sua é realmente um espetáculo! Você também deve ter passado várias vezes na fila da bunda antes de nascer, linda.

Um buraco! Por favor, onde há um buraco para eu enfiar minha cabeça agora? Eu devia estar muito vermelha de vergonha! Ele balançou a cabeça, divertindo-se, e foi embora.
Cara, ele acaba comigo. Eu nunca tenho vergonha de nada e por que tenho vergonha dele? Hum, então ele gostou da minha bunda. Minha pequena deusa estava contorcendo-se em frente a um espelho, olhando nossa bunda com cara de interrogação.

Eu sou muito boa em fazer-me entender que caras lindos jamais olhariam para mim, e não foi difícil colocar a imagem do Cadú de lado pelo resto da semana. Muitos anos de prática.

Quando chegou a outra quinta-feira, eu não fui tão ridícula em repetir o modelito eu-não-quero-você-e-nem-chamar-sua-atenção. Fui apenas com minha roupa de sempre: calça jeans, uma camisetinha e tênis.

Encostei minha moto e ao mesmo tempo ele chegou e encostou a dele do lado. Ainda sentados nelas, tiramos nossos capacetes.

– Bela máquina. Bom dia. – Tentei dizer o mais natural possível.

– Hum... Começamos melhor desta vez. Bom dia Bia. Posso te chamar assim?

– Pode. Carlos Eduardo também dá muito trabalho pra falar inteiro, Cadú.

Ambos rimos e fomos em direção aos meninos que já nos esperavam. Desta vez, Jason estava junto.

– Hey, garota! Hum, essa é a calça jeans que deixa sua bunda mais linda e empinada. Parabéns! – Fazendo um movimento de quem cheira o ar ele completou – Você está usando perfume? O meu perfume?

– Jason, bom dia pra você. – Com a cara de quem estava totalmente entediada – Sim, esta é a calça que deixa minha bunda melhor , sim, estou com o perfume que você gosta e não, eu não vou transar contigo, então, cai fora!

Eu sabia que Jason era um grande amigo também e respeitava-me. Suas brincadeiras eram normais e de todo dia. Com uma gargalhada imensa, ele veio, segurou minha cabeça embaixo do braço e mais uma vez bagunçou meu cabelo.

– Vocês dois podem para de ser infantis! Eu quero acabar logo com isso.

Ambos olhamos para Cadú quando ele falou, com uma cara muito emburrada.
Sem querer brigar com o Senhor Azedo, eu dei um beliscão em Jason por vingança e corri para dentro do carro. Cadú entrou logo atrás.

Com o carro em movimento, ele ainda estava azedo. Ai, que cara mais chato! Ele continuando assim seria mais fácil mantê-lo longe, mesmo com todo aquele calor. Ah, e que calor. Parecia que eu ia derreter. Ele devia ter alguma disfunção biológica para ser tão quente.

A vistoria correu normal, mas com Cadú mudo. Eu ajudei os meninos, brinquei e tentei até brincar com ele, mas sem resposta.
Quando voltamos para a empresa, Cadú, sem despedir-se, foi para sua moto e foi embora. Como não tinha nada para fazer eu também fui para a minha e dirigi até em casa.

Chegando, fui direto tomar um banho frio pra conseguir relaxar. Sentei na cama e comecei a ler um e-book antes do jantar, mas não consegui me concentrar. Como ele podia ser tão bipolar? Uma hora é todo educado e simpático e no segundo seguinte era uma azia tremenda! Eu não vou ficar me perguntando se fiz alguma coisa, porque não fiz e... Será? Será que ele ficou bravo com Jason? Impossível! “Pare de ser idiota, ele não gosta de você. Ele só ficava te provocando quando dizia aquelas coisas para quando você aceitasse transar com ele, ele rir na sua cara e te deixar feito uma idiota”. É, meu subconsciente pode ser muito mau comigo.

No dia seguinte, era sexta-feira e eu estava animada. Quem não gosta de sexta-feira? E eu adoro dançar, então final de semana é quando eu realmente me solto na pista.

Era por volta de 16h e eu estava terminando minhas combinações com as meninas para a noite, quando meu ramal tocou. Deve ser a Ju para combinar o horário.

– Oi gata! Tudo certo? – Atendi com aquela voz de menina relaxada e super empolgada.

– Nossa, mesmo falando como uma menininha sua voz ainda é sexy. – Do outro lado uma voz masculinha me respondeu. Primeiro eu gelei e depois fervi, como se estivesse dentro de um caldeirão de água quente. Cara, como eu podia sentir aquele calor pelo telefone? Eu devia estar louca.

– Ãhn, desculpe, mas posso saber quem é? Pois não dei a homem nenhum a liberdade de falar assim comigo. – Como seu eu não soubesse...

– Minha linda, me desculpe. Como você tá? – Ah... a voz dele parecia deliciosamente perigosa.

– Estou bem senhor Carlos. Em que posso lhe ser útil? – Sarcástica.

– Hum, você não ia me chamar de Cadú?

– Acho que você ultrapassou os limites, o que rompe com a liberdade do uso de apelidos.

– Ixi, então estou encrencado.

– Por que?

– Porque eu ia ultrapassar ainda mais... eu... ia... você tem algo marcado para hoje?

– Já são 16h senhor, e acho que não nos cabe uma reunião agora.

– Bia, eu quis dizer a noite.

– Ãhn... é... – O que? Ele está me convidando para sair?! Meu Deus! – Sim, eu tenho sim. Na verdade eu achei que era uma amiga ligando para os últimos acertos.

– Posso saber aonde vai? – O Senhor Azedo voltou.

– Não, você não é meu pai.

– Hum... ok. A gente se fala. Beijos. – E desligou. Na minha cara.

– Maldito! – Eu gritei, olhando para o telefone e o bati contra o gancho. Quem ele pensa que é? E o que ele quer comigo? Ele acha que vou cair no papo dele pra ele me fazer de idiota e mostrar pra todo mundo. Ah, mas não vou mesmo!

Levantei na mesma hora e fui pra casa.

Terminei as combinações com as meninas, o que foi melhorando meu humor. Quando eram 20h e eu fui para o meu banho de beleza, eu já estava radiante! Íamos para o meu clube preferido, o Let’s Go Bar. Era lindo e tocava todo o tipo de música, o que me facilitava em dançar até não aguentar mais.

Quando fui pro quarto, parei em frente ao espelho de corpo inteiro. Olhei para a menina refletida: alta e de ossos largos demais. Grandes seios, grande bunda. Tudo grande demais. Olhos castanhos sem graça e cabelo rebelde. Ficava bem óbvio que Cadú só queria tirar uma com a minha cara. Ele ia me humilhar para todos verem. Uma nuvem negra apareceu em cima da minha cabeça, faltou-me ar nos pulmões e meus olhos encheram-se d’água. Eu realmente não gosto de mim.

Toc, Toc, Toc.

– Tô entrando amor! Vim ver se queria minha blusa, aquela que você gostou, emprestada e... — Minha entrou no meu quarto falando, mas parou quando viu meu rosto. — Filha? Ah, não meu amor! Vem, eu vou te arrumar! – Eu sempre esqueço que minha mãe é meio vidente. Ela pegou-me pela mão e, super empolgada, começou a me ajudar a me arrumar. Ah, ela tem dom para isso! E ela é muito divertida, não tem como ficar triste perto dela.

Quando o relógio atingiu as 22h, e as meninas estavam para chegar, eu estava pronta. Uma saia jeans preta, uma blusinha preta com renda e muito brilho, de alças da largura de dois dedos, um grande decote na frente e outro nas costas que caia em camadas de tecido. Sapato de salto alto num tom grafite, de camurça. Meu cabelo, de algum jeito que só minha mãe consegue, estava sexy, com os cachos nos seus devidos lugares. De maquiagem eu era entendida, então fiz um olho preto esfumado lindo. Coloquei um batom vermelho e... Ual. Eu realmente parecia bem.

As meninas chegaram e eu corri para o carro.

– Bia do céu, você tá querendo dar hoje, é? — Perguntou Juliana, virando no banco da frente para me olhar.

– Eu hein, Juliana! Uma mulher não pode usar um batom vermelho quando quer?

– Foi sua mãe quem te arrumou né? – Madú comentou, com olhar de mágoa pelo retrovisor, do banco do motorista. – Isso é sacanagem! Você já é gostosa pra caralho e a tia ainda abusa na mão. É injusto. – Terminou a frase com beicinho.

– Hei, bonita, posso pedir pra ela arrumar nós três amanhã. O que acha? E olhe pra frente quando dirige!

A Madú é linda. Com uma pele morena e grandes olhos verdes. Mas é tão brava quanto eu. Já a Juliana é uma palhaça. Não tinha tristeza ou preguiça com ela. Ela é alta, com rosto fino, cabelos cacheados bem escuros e olhos da mesma cor.

Elas são demais. Minhas melhores amigas e parceiras. Juntas, somos quase imbatíveis. E para mim era lucro andar com meninas lindas, pois sempre sobrava um gatinho pra mim. Eu amo muito minha independência, então não sou de casos longos. Algumas ficadas aqui e ali. Quando valia a pena, passava uma noite, mas sem esperar nada em troca. As meninas diziam que eu assustava os homens com meu jeito, mas eu acho que era apenas uma questão deles tomarem consciência da mina-estranha que tinham pego para não quererem ligar do dia seguinte.

O clube estava bom, não cheio demais, mas com o suficiente de pessoas para ficar divertido.

– Bora lá, batizar a noite! Rodada de tequila! – A Ju sempre começava nossas noites com tequila. Era quase uma tradição.

Nós dançamos muito, demos muita risada, e eu já havia bebido vários drinks de vodka. Ah, eu amo vodka!

Por volta da 01h da madrugada, começou a formar uma grande roda no meio da pista de dança. No centro, uma cadeira giratória e apoiada nela, uma amiga nossa que trabalhava no clube, a Patrícia. Oh, Deus, ela estava de tequilera. Isso não era bom.

A Pati começou a agitar a galera jorrando doses de tequila em suas bocas com uma espécie de extintor cheio da bebida e com um tipo de revolver na ponta. Ela parou na minha frente e eu abri o bocão para receber o líquido, mas ela me arrastou pelo braço.

Pronto, encrenca!

– Não, Pati! Eu não! – Eu tentei gritar na hora.

– Vem, Bia! Vem!

Ela me jogou na cadeira e eu ri. Ela apoiou minha cabeça no encosto, de forma que ficasse jogada para trás.

– Abra a boca!

E eu fiz. E ela jorrou a tequila. Hum, bom. Desceu queimando. Eu fechei os olhos e endireitei-me.
Ela começou a chacoalhar a minha cabeça, fazendo grandes círculos.
Wow... Abri os olhos e vi muitos borrões de corpos, e luzes coloridas passando muito rápido. Fechei de novo. Quando ela parou, eu descansei um pouco a cabeça, inclinada para baixo. Fui abrindo os olhos devagar e erguendo-a. Encontrei olhos mel olhando para mim com um rosto divertido e preocupado ao mesmo tempo. Mas muito rápido, a Pati me puxou para trás, abriu minha boca e jogou mais tequila.


As pessoas em volta riam e gritavam por mais. Uma voz feminina que eu conhecia bem gritou do meio da galera.

– Vai Pati! Ela aguenta um bombardeio!


Encarei a Madú com uma cara muito feia que não adiantou. A Pati virou-me rápido de frente pra ela.

– Preparada?

Ah, eu adoro um desafio. E adoro tequila.

– Lógico!

– Abra a boca!

Primeiro jato. A galera começa a contagem em voz alta: Um!

Segundo... Terceiro... Quarto... Quando chegou no nono, eu já estava amortecida.


– Dez!

De uma vez, ela começou a girar a cadeira. E girar. E girar. Como eu já tinha feito isso antes, eu sabia como amenizar: fechei os olhos, pendi a cabeça para frente e segurei nos braços da cadeira.

Quando ela parou, eu esperei um pouco até que meu cérebro parasse de rodar também. Abri os olhos devagar e vi um par de tênis e calça jeans, que com certeza eram masculinos, parados em minha frente. Na mesma hora, um calor imenso me atingiu, secando a garganta.

– Vem, deixa eu te ajudar. – Cadú, estendeu a mão, com olhar preocupado. Quem ele pensa que é?!

– Não. Sai da minha frente.

Eu levantei meio cambaleando e ele tentou me apoiar. Desviei o ombro e fui em direção às meninas, com muitos aplausos e brincadeiras da galera que assistiu à cena da cadeira.

– Eu disse que você era forte! — Gritou Madú no instante que me viu.

– É, mas eu preciso de uma garrafa de água urgente. – Urgh, meu estômago estava reclamando.

– Ai, que peninha dela. Eu vou buscar. – Toda irônica, Ju começou a pegar o dinheiro na bolsa, quando alguém passou a mão em minha cintura por trás e estendeu uma garrafa de água geladinha para mim.
Pelo calor, eu sabia quem era.

Os olhos das meninas arregalaram-se como os de um personagem de desenho japonês.

– Ei, eu já disse pra não tocar em mim! – Eu comecei a tentar sair do abraço, mas ele era forte demais e eu estava atordoada.

– Vamos linda, beba. Depois prometo lhe soltar.

Eu precisava de verdade daquela água, então agarrei a garrafa. Fui bebendo devagar até ter bebido quase tudo.

– Pronto. Agora pode tirar as patas de mim.

Ele se afastou, erguendo as mãos ao lado da cabeça, em posição de defesa.

– Posso saber o nome do deus? – Af, Madú estava babando já.

– Não seja idiota, o deus estava agarrando a Bia! — Apontou Jú.

Eu baixei a cabeça, cansada do blá blá blá, e soltei um suspiro.

– Bom, fiquem aí os três dialogando, que eu vou dançar.

Comecei a me afastar, mas ele me parou.

– Eu vim até aqui pra te ver já que você não me deu escolha, sua ignorante. – Nossa, ele é mandão até falando baixo. Me ver? Como assim me ver? Senti um arrepio que tratei de ignorar.

– Azar o seu. — Disse ríspida, tirando meu braço de seu aperto.

Fui para a pista de dança, onde haviam alguns conhecidos e me soltei. Eu estada totalmente embalada quando uma das minhas preferidas começou a tocar – Come As You Are — Nirvana.
Virei de frente para o bar e ele estava encostado. Lindo. Sexy. Bebendo. Comendo-me com os olhos. A boca entreaberta. Ele era ainda mais lindo com essa roupa despojada: jeans, camiseta pólo vermelha, boné branco e tênis.
A música começou a envolver-me, e eu rebolei. E dancei. Sensual como nunca. Ele despertava algo mim. Talvez a tal deusa interior doida não seja só uma ilusão boba de um livro. Eu o encarava e provocava. E ele prendia a respiração. E eu fui dançando. Descendo. Subindo. Girando os quadris, com as mãos nos cabelos e totalmente sem ar. Excitada. Virei de costas e desci até o chão. Quando subi, senti um imenso calor. Ele virou-me de frente. Dessa vez a bebida ajudou e eu me derreti naquele mel do seu olhar. Ele estafa ofegante. Enfiou a mão no meu cabelo e puxou-me para um beijo forte. Cheio de desejo. Fomos nos encaixando. Ele desceu os braços em minhas costas e eu o envolvi no pescoço, tirando seu boné que estava atrapalhando. Não sei quanto tempo durou. Mas foi perfeito. Quando paramos, abri os olhos devagar e ele demorou mais. Apoiou a testa na minha, arfando.

– Eu. Preciso. De. Você.

Olhei em seus olhos e ele parecia verdadeiro. Por que? Não podia ser.

– Não. – Eu disse baixo. Quase engasgado.

– Não faz isso, Bia. Deixe toda essa merda de lado só por hoje. – Sua voz saiu torcida. Seus olhos implorando.

Oh Meu Deus. Eu vou cair nessa? Eu vou?

Eu vou...

– O que você quer Cadú?

– Você.

Sem me dar tempo para processar, ele me arrastou pelo braço até as meninas.

– Ual, Madú, eu não disse que ele queria ela! — Disse Jú rindo.

– Droga. – Quando olhei, Madú fazia beicinho. Ah, Madú...

– Nós estamos indo embora. Aqui está o meu cartão para terem certeza que não estou a sequestrando. – Ele foi firme e urgente nas palavras, entregando o cartão para Jú. Eu não sabia o que dizer. Estava feito uma estátua. Sentia minhas sobrancelhas franzidas. Eu ainda tentava entender: Por que eu...

Ele me levou até seu carro, e partimos.

Paramos em frente a um prédio grande e bonito. Nunca havia reparado nele.

– Você ainda pode desistir. Eu sei que estou assustando você. – Ele disse, com a cabeça baixa.

– Eu... Eu realmente acho melhor eu ir embora. – Parecia que meu subconsciente havia acabado de sair do coma alcoólico – Por que você está fazendo isso Cadú? Por que está fazendo isso comigo? Pra me humilhar? – Minha voz saiu chorosa, implorando explicação.

– Como assim Bianca? O que você quer... Você acha que é uma armação? É isso?

– É só o que pode ser. — Estava com os olhos fechado, em negação.

– Pois então, agora você não vai embora. E eu vou provar que não é nada disso.

Ele entrou na garagem subterrânea e estacionou. Eu congelei no banco do passageiro. O que eu estou fazendo aqui?