Dona De Mim
21 Capítulo 21
Saí correndo de seu apartamento e eu não sei como estava em pé. Meu corpo convulsionava em uma onda de nervosismo. Ver ele aplicar aquele golpe naquela mulher foi assustador. Mas eu não tenho o direito de brigar com ele! Eu mesma disse para ele procurar alguém e espantar seus demônios.
Respirei fundo, entrei no carro e fui até o hotel. Eu não sabia o que pensar. Eu só quis vir embora e vê-lo. Arrumar tudo e ficarmos juntos de novo. Eu não o avisei que viria. E se ele não me procurar? Oh Deus. Sozinha de novo. Tomei um banho e pedi um chocolate quente. Sentada na imensa cama, relembrei toda a minha vida. Lembrei-me de Natan e o relacionamento louco que tínhamos. Lembrei-me de Rodolfo e tudo de bom que ele havia me feito. A nossa noite ao nascer do sol. Os nomes que eu e Natan havíamos escolhido para nossos filhos. Tantas coisas boas. Comecei a chorar, mas um choro cheio de saudade. Em algumas lembranças eu ria sozinha. Eu nunca havia parado para pensar em tudo depois que Rodolfo foi embora. A dor que sentia era tão grande que eu não conseguia pensar. Decidi que eu também tinha que espantar os meus próprios demônios para ser feliz e era isso que iria fazer. Mandei uma mensagem de texto para Cadú pedindo que viesse ao meu encontro somente no domingo às 20h. Dormi uma noite tranquila e cheia de sonhos bons de lembranças do passado.
No dia seguinte acordei e senti um cheiro forte de perfume no quarto. Um perfume conhecido. Era o perfume de Natan. O cheiro me envolveu e meu coração ficou cheio de paz e tranquilidade. Era quase uma demonstração de carinho e que ele estava bem. Pelo menos foi assim que senti. Isso me deu mais forças para o que eu havia decidido fazer neste dia.
Saí do hotel e fui por um caminho que há muito anos não fazia. Era o caminho para a chácara onde Natan vivia com os pais. Parei na entrada tomando coragem para descer do carro. Logo Dona Judite apareceu.
– Oh meu Deus, minha menina! Quanto tempo! – Seus olhos e encheram de água e ela me deu um abraço apertado. Eu comecei a chorar.
– Perdão por ter me afastado. Perdão por nunca vir te ver. Era demais para mim, perdão.
– Minha filha, você acha que eu e Ernesto não sabemos que foi tudo pesado demais pra você? Entre, vou fazer um bolo.
Quando entrei na casa, Seu Ernesto veio em minha direção.
– Minha filha, estamos esperando essa visita há tanto tempo. – Seus olhos transbordavam carinho. Eu o abracei.
– Perdão pela demora.
Passei toda a parte da manhã com eles, vendo fotos, relembrando momentos e contando da minha vida. Foi como tirar um grande peso do meu coração. Saí de lá leve e muito feliz. Mas eu ainda tinha algo a fazer.
Peguei minha caminhonete companheira e fui para outro destino.
Cheguei em frente à casa de Rodolfo. Eu não sabia como iria reagir quando o visse. Meu coração estava disparado de nervosismo. Desci e fui até a entrada. Sua mãe atendeu a porta.
– Bianca, quanto tempo! Você está linda! – Ela me abraçou e me beijou na bochecha.
– Oi Tia Julia. É muito bom ver a senhora também. – Eu estava envergonhada.
– Pequena, você veio ver o Rodolfo não é. Ele não vive mais aqui meu amor.
Ufa... será que fui salva?
– Aonde ele está morando Tia Ju? Eu realmente queria conversar com ele.
– Ele mora no prédio azul. Vá até lá. Ele vai gostar de te ver.
Despedi-me dela e fui até o prédio. Eu sabia que ele havia voltado para o Brasil, mas não sabia mais nada de sua vida. Cheguei até o porteiro e passei o número do apartamento que a Tia havia me passado. Ele interfonou e falou meu nome.
– Moça, entre aqui na portaria, o moço quer saber que Bianca é.
Entrei e peguei o telefone.
– Não vai me deixar subir Loirão? – Tentei brincar como nos velhos tempos, mas minha voz ainda saiu estranha.
– Encrenca? Estou descendo!
Em alguns minutos eu o vi. Ele estava ainda mais lindo, com cara de homem, de terno e agora usava óculos sexy. Ual. Ele correu até mim, pegou-me no colo e me girou. Eu gargalhei em seus braços e senti uma felicidade imensa irradiar de mim. Era meu melhor amigo no mundo, ali, na minha frente!
– Ei, me coloca no chão!
Ele me desceu e eu o abracei.
– Senti tanto sua falta cara.
– E eu senti a sua Dona Encrenca. Deixe-me olhar você. – Ele pegou meu rosto entre as mãos. – Ual, você está uma gata mulher! — Encontrei aqueles olhos verdes e senti todo o meu amor por ele. Também pude comparar com o que sinto por Cadú e são amores completamente diferentes. Meu coração estava em paz novamente. Totalmente preenchido.
– Perdoe-me por não querer falar com você Rodolfo. Você é meu melhor amigo no mundo e eu estava desolada em ter você tão longe.
– Minha linda, eu sei disso e nunca fiquei bravo contigo. Estava triste por não te ter por perto. Você me completa. Você é minha melhor amiga no mundo também.
Suas palavras me deram um grande alívio. Eu tinha medo de seus sentimentos por mim.
– Vamos subir que quero apresentar duas pessoas para você.
Ele me puxou pela mão e pude ver a aliança em seu dedo. Ergui sua mão e o encarei sorrindo amplamente! Meu amigo casado! Beijei sua aliança.
– Perdoe-me por não estar presente...
– Pode parando! Eu casei só no civil. Agora que você voltou, eu posso finalmente ter minha madrinha.
Chegamos ao seu andar e entramos no apartamento. Uma moça alta, de longos cabelos castanhos e lisos e olhos da mesma cor, veio ao nosso encontro. Ela é linda.
– Então essa é a famosa “Dona Encrenca”? – Ela sorria pra mim. Acho que ele contou toda a história. Eu sorri para ela e fui ao seu encontro.
– Meu nome é Bianca, moça bonita. E o seu é?
– Joice! – Nos abraçamos e senti que gostei dela na hora. Logo ouvi umas risadinhas e olhei para o corredor. Uma baixinha, de cabelos castanhos cacheados e compridos veio andando em nossa direção, cambaleando.
Ela veio até mim e apontou o dedinho.
– Bibi! Bibi! – Agarrou minha perna e sorriu. Eu a peguei no colo.
– Quem é essa gatinha?
– Encrenda, essa é a Dona Encrenquinha, também conhecida como Bianca. Ela está com dois aninhos.
Eu não pude acreditar. Olhei para Rodolfo e seus olhos estavam cheios d’água. Joice o abraçou e fez que “sim” com a cabeça.
Olhei aqueles imensos olhos verdes e não pude conter o choro.
A pequena pegou meu rosto com as mãozinhas e secou minhas lágrimas. – Tia Bibi.
– Oi minha estrelinha. Você é tão linda. — Olhei para minha nova comadre. — Joice, ela é linda!
– Sim, ela é. Quando ela nasceu com os cachos do pai e minha cor de cabelo, na hora pensamos em você. Eu já havia visto suas fotos e sabia de todo carinho de Rodolfo por você. Não havia nome mais perfeito.
– Eu não sei o que dizer.
– Não diga nada. Ela se parece muito com a gente, mas muitas vezes ela é tão atrevida quanto a futura madrinha. – Disse Rodolfo, vindo até mim com Joice e ambos me abraçando.
– Oh Meu Deus, é muito mais do que mereço.
Não resisti e passei o resto do dia com eles.
Quando voltei ao hotel eu era outra mulher. Uma mulher sem demônios, sem traumas. Só amor.
Só havia uma parte do meu coração que ainda precisava ser resolvida.
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