Dona De Mim
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Já fazia duas semanas que estava em São Paulo e estava incomodada. Nos primeiros dias, Cadú estava sempre mantendo contato, brincando, trocando mensagens. Porém, de uns dias para cá ele estava distanciando-se. Deve ser coisa da minha cabeça, afinal mulheres adoram inventar besteiras, mas ainda assim não estava feliz. Mas é que nosso último final de semana, fazendo todas as coisas BDSM que ele estava me ensinando havia sido tão perfeito, que agora perder contato era bem ruim.
Fiz todos os meus acertos principais e somente a faculdade ainda precisaria de 10 dias para acertar minha transferência. Como era segunda-feira, decidi ir na quinta-feira para Sumaré ver meu namorado e curtir o final de semana. Na terça-feira seguinte voltaria para arrumar as coisas.
Tentei falar com ele algumas vezes na terça-feira e quarta-feira, mas foi em vão. Sempre em reunião e nunca atendia ao celular. Resolvi não contar a ninguém sobre minha visita e um frio tomou minha barriga por medo do que me aguardaria.
Na quinta-feira saí de São Paulo logo cedo e fui direto para Americana ver Cadú antes de passar por Sumaré ver minha família. Por volta de 8h subi o elevador de seu prédio.
Toquei a campainha e logo Cadú veio me atender. Ele já ia xingar quando viu que era eu.
– Bia... Mas... Como? O que? – Sem me dar chance de resposta ele me agarrou e me levou para dentro. Sem se preocupar em fechar a porta me jogou no sofá e me consumiu num beijo cheio de saudade. Meu coração dava pulos imensos de alegria em ver que ele sentia minha falta. Quando já não podíamos mais respirar, ele deixou meus lábios e apoiou a testa na minha.
– Bom dia. – Eu disse recuperando o ar. – Acho que você gostou da visita.
– Você não faz ideia de como. Se não tivesse uma reunião em meia hora, eu te levaria pro quarto e passaria o dia lá contigo.
Meu corpo estava em chamas e me senti em casa, com eu sol. Ele estava estranho. Seu olhar estava profundo e lembrava-me o dominador de nossos jogos.
– Bia, eu quero que você fique aqui e não saia entendeu? – Ele disse olhando sério pra mim. Sim, era meu Dom em ação. Mas eu não quero isso fora do quarto!
Saí debaixo dele e fui arrumando minha roupa.
– Ei, mandão! Eu tenho família! Vá trabalhar que vou passar o dia com eles. Vejo você mais tarde. – Com cara de irritação.
Ele respirou fundo, acho que tentando buscar paciência. Caminhou até mim, seu olhar não mudou.
– Tudo bem. Eu quero você aqui às 18h pra mim. – Ele olhava no fundo dos meus olhos e senti medo naquele momento. Não gosto do rumo da conversa. Isso não é saudável. Espero que seja só saudade.
– Olha rapaz, eu virei até você ás 19h. E pare de falar assim comigo!
Peguei minha bolsa que havia caído no chão e fui em direção à porta. Ele me alcançou, me abraçou por trás e cochichou em meu ouvido: — Você é minha Bia, só minha.
Eu me soltei dele e fui embora.
Espero que as horas do dia façam ele se acalmar e voltar a ser meu Cadú.
Fui ver meus pais e meu irmão e como sempre foi incrível! Minha mãe preparou um grande almoço e meu pai e meu irmão vieram almoçar conosco em seus intervalos no trabalho. Mamãe fez um pudim de leite condensado divino, um dos meus preferidos. Eu estava nervosa e acabei com todo o doce da travessa.
– Filha, você brigou com o Carlos Eduardo? – Minha mãe foi direta e reta. Affff.
– Não. – Minha boca estava cheia ainda.
– Então por que você devorou esse doce todo? Você só vira essa Magali quando está ansiosa ou nervosa. – Droga. Mães conhecem a gente bem demais. Chega a ser constrangedor.
– É, eu estou nervosa. Mas vai passar mãe.
Deixei a travessa na pia e fui para meu antigo quarto. Como não consegui me acalmar, fui para o quarto no Júnior e joguei videogame toda a tarde. Coisas de criança sempre me relaxam.
Quando foi 19h eu estava subindo novamente aquele elevador. Não tive o pique de sempre para me arrumar, então fui com uma calça jeans, uma blusinha de seda laranja, uma sandália bege e um rabo de cavalo. Pouca maquiagem. Por cima, uma jaqueta jeans que tirei quando entrei no elevador. Eu estava quente, mas era de nervoso.
Eu nem precisei apertar a campainha, Cadú estava me esperando na porta, de braços cruzados e cara feia. Oh Deus, eu vim de São Paulo pra cá enfrentar o Senhor Azedo. Porém, quando ele me viu, seu rosto mudou e novamente vi o que não queria: o Dom.
– Gosto quando me obedece e é pontual, minha linda. – Um sorriso apareceu em seus lábios, mas era sarcástico. Minha vontade era virar e ir embora, mas seria muita covardia. Não sou covarde.
– Eu sempre sou pontual Carlos Eduardo. Posso entrar? – Meu tom foi áspero.
Ele abriu caminho e adentrei o apartamento. A mesa estava posta com vários tipos de queijo e vinho. Eu estava com fome e instintivamente fui até a mesa e me estiquei para pegar um pedaço de queijo, mas ele veio por trás e deu um tapa na minha mão. Virei na hora e o olhei de cara feia. O que ele pensa que está fazendo? Respondendo minha pergunta subliminar ele disse: — Você só vai comer quando eu mandar Bia.
Meu sangue ferveu.
– Você sabe que não gosto disso Cadú. Pode parar. Isso é só quando jogamos no quarto. – Eu estava quase gritando.
– Hum, então você quer brincar? – Perguntou, inclinando a cabeça e com um sorriso cheio de luxúria.
Bem, essa ideia era muito convidativa e eu estava mesmo morrendo de saudade dele. Resolvi entrar no jogo e aproveitar o momento. Joguei minha jaqueta no sofá, coloquei as mãos para trás, abaixei a cabeça e respondi baixinho: — Sim, senhor.
Ele pegou meu punho e me arrastou para o quarto com mais força que o necessário. Quando entramos assustei, pois já estava tudo pronto como quarto de jogos. Ele estava me esperando com intuito de jogar. Senti raiva, pois e se eu não quisesse jogar? E se eu quisesse só fazer amor?
– Bia. – Ele chamou. – Tire sua roupa e fique só de calcinha.
Eu não gostei do seu tom. Estava diferente das outras vezes. Bom, vamos ao voto de confiança, afinal eu pedi para brincar. Fiz o que ele me pediu.
– Agora vá até o lado direito da cama onde tem um pequeno tapete preto e ajoelhe-se.
Como assim? Ah, isso está muito estranho. Está me lembrando de coisas sobre submissas que li e não estou gostando. Lembrei-me de algumas partes de livros e ri sozinha. Bom, se ele quer brincar, vou mostrar que também posso surpreender. Fui até lá e fiz mais que ajoelhar: sentei nos meus calcanhares, abri bem as pernas, espalmei as mãos nas coxas e abaixei a cabeça. Pronto, posição de submissa.
Ele ficou mudo por alguns segundos, depois ouvi respirar profundamente. Ele veio até mim e puxou meu cabelo para trás para que eu olhasse em seus olhos. Pareciam vulcões.
– Então você sabe brincar não é? Está brincando comigo Bia? Ou fez isso, pois sabia que havia feito besteira e quer se desculpar?
Cerrei minhas sobrancelhas com cara feia pra ele! O que eu fiz de errado? Ele está louco! Fui tentar falar e levei um imenso tapa na cara. O que está acontecendo?
– Ah, Dona Bia... Você achou que ia ficar quinze dias afastada de mim, chegar de surpresa e tudo iria ficar bem? Não é assim que as coisas funcionam meu bem. Levante e apoie as mãos na cama!
Eu ainda estava agachada, mas agora com as mãos no rosto. Não pude evitar e lágrimas começaram a escorrer em eu rosto. Eu não quero ser humilhada. Ainda mais por ele, e pela segunda vez.
– Bianca. Eu falei com você.
Quando levantei o olhar ele estava parado há alguns metros de mim, somente de calça de pijama e braços cruzados, se achando um rei. Um filme passou pela minha cabeça e me lembrei de como era meu vazio antes de encontrar Cadú. Pelo menos era um local seguro e sem dor, sem sentimentos, sem nada. Eu estava me entregando de novo, e estava me machucando. Eu não posso ser o que ele quer. Ali, diante de mim, estava vendo meu sol me queimar. Levantei devagar e ele veio em minha direção.
– O que você pensa que está fazendo? – Ele estava nervoso, bravo.
Olhei no fundo dos seus olhos procurando meu amado, mas naquele momento não achei.
– Tequila, meu querido. Tequila. – Abaixei a cabeça e fui em direção às minhas roupas.
Ele levou alguns segundos pra absorver que eu estava usando a palavra de segurança.
– Não... – Saiu sufocado de sua garganta. – Mas nós nem começamos.
Eu não consegui responder. Meu rosto ainda ardia e eu sabia que ficaria roxo. Ele estava estático, me observando. Vesti-me e sai do quarto, indo pegar minha bolsa. Ele veio atrás de mim gritando: — O que você tá fazendo Bia? Onde você tá indo?
Eu não consegui responder novamente. As lágrimas voltaram a rolar pelo meu rosto. Quando fui em direção à porta ele gritou: — Eu não mandei você sair daquele quarto, porra!
Foi a gota d’água. Eu me virei de frente pra ele e fui até quase nossos narizes se encostarem.
– Eu não sou sua submissa e nunca vou ser. Você já me humilhou uma vez e foi o suficiente. NUNCA mais grite comigo ou bata em mim seu cretino. – Eu falei tudo isso baixo, olhando fundo nos teus olhos.
Eu saí do apartamento e fui para o carro. Eu estava desolada. Desmontei sobre o volante o comecei a chorar como nunca antes.
*Oh Meu Deus, será que eu não mereço ser feliz? Sempre acontece algo péssimo quando eu realmente me apaixono! Por que Deus? Por quê?!*
Eu gritava e socava o volante quando a porta abriu abruptamente. Grandes braços me agarraram e me puxara para fora.
– Pelo amor de Deus Bia, não vá embora assim. Perdoe-me. – Era Cadú, agora sentado no chão do estacionamento comigo em seu colo. Meu choro aumentou mais ainda e eu estava descontrolada, tremendo. Eu me enrolei igual a uma bola no seu colo e cobri o rosto com as mãos. Ele foi até a caminhonete, pegou as chaves e a trancou. Em seguida, pegou-me nos braços e fomos de volta ao apartamento.
Eu não podia olhar para ele. Ele havia me colocado no sofá e sumido. Eu estava fraca e sem forças para reclamar ou ir embora. Cerca de dez minutos depois ele voltou e me levou para o quarto. Quando entrei, o quarto já estava normal. Pude ouvir um barulho de água e percebi que ele enchia a banheira. Ele tirou minha roupa delicadamente, plantando pequenos beijos em minha boca, rosto, pescoço, costas. Lágrimas rolavam pelo meu rosto ainda e sem controle, mas eu já não emitia nenhum som ou mexia. Foi como se sete anos de desespero e dor voltassem como um caminhão passando sobre mim. Ele me levou no colo até a banheira e me colocou na água quente. Tirou sua calça e entrou atrás de mim. Em nenhum momento tentou algo, apenas me ensaboou, acalentou e cuidou. Infelizmente eu não estava ali. Minha alma não estava ali...
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