Dona
7 Respirações descompassadas
Notas iniciais
JOSÉ ALFREDO: Marta, eu não estava esperando esse convite! Nem pensei que ia aceitar minha filha tão rápido assim. Fiquei muito feliz, de verdade. Vamos sim. Durma bem. Vou tomar meu café e seguirei para a Império, alguém tem que trabalhar!
MARIA MARTA: Nem vem que estou me dando muito bem com a filial daqui. Bom dia.
O dia amanhece na Cidade da Paz. A Imperatriz estava lendo seu livro quando a filha começa a dar sinais de que vai acordar. A luz estava fraca, por isso abriu os olhos sem esforço.
— Bon jour! Já acordada, Imperatriz?
— Acho que nem dormi, filha. Falei com seu pai ontem a noite.
— Jura?! O que falaram? – a filha sempre achou que a mãe deveria procurar o pai para ouvir o que ele tinha a falar sobre o que ocorreu naquela tarde
— Nada demais. A não ser que ele e a filha vêm passar o natal com a gente.
— Não acredito, mãe!!! Você é incrível! A nossa família vai estar completa! Me deu até fome, vamos tomar café?
— Vamos! – a mãe riu, desligou seu abajur, e levantou
— Mas, pera aí, mãe... Você ta com segundas intenções, né?!
— Claro que não, Clara. Nem com primeiras! Já falei pra você que vou pedir o divórcio, para que ele siga a vida dele, e eu, a minha. Não pretendo voltar para o Brasil, filha. Já te falei não sei quantas vezes! – no fundo, a mulher só não queria que a filha alimentasse falsas esperanças, assim como ela.
— Ta bom, mãe... Ta bom! Quando vocês assinarem esse divórcio, me avisa.
Uma semana depois, 23/12/2015
Todos estão animados com a chegado do natal. O que não esperam é que o Comendador também participe da celebração junto com os seus. A família já se sente em casa no apartamento da matriarca no exterior. A sala está cheia: os gêmeos brincando no chão, Clara desenhando na mesa e de vez em quando dando alguns palpites na conversa dos casais que estão sentados no sofá; Lucas e Du de um lado, Pedro e Amanda do outro. Todos sob o olhar claro da Imperatriz, que vem chegando.
— Todos prontos?
— Sim! – em uníssono, a família responde, e então, vão em direção à porta.
Visitam o museu Patek Philippe, e só voltam no anoitecer.
Todos, exceto Marta, já estão dormindo, quando toca a campainha. A aristocrata corre para a porta, respira fundo, e a abre. Estar frente a frente com o marido de novo não foi fácil. Aliás, aquele encontro não foi fácil nem pra ela, nem pra ele, e, muito menos para Cristina. Maria Marta estava deslumbrante, sempre se vestiu muito bem, principalmente no inverno. Com os cabelos um pouco mais compridos, e com o mesmo sorriso de sempre.
— Marta. – ele se aproxima da mulher, e, sem jeito, a abraça
— Zé. – Marta hesita de primeira, mas acaba se entregando ao abraço. – Então essa é a famosa Cristina. Tudo bem, querida? Vamos entrando. Vem, eu não mordo não! – Marta não conseguia esconder a felicidade que era poder receber o marido em sua casa.
— Olá, D. Marta. – envergonhada, a menina cumprimenta a Imperatriz
— Me chame de Marta, por favor. – com um sorriso, a mulher procura se aproximar da mais nova enteada – Zé, ninguém sabe que você veio, além de Clara. E outra, eu disse que o apartamento era pequeno. Por hoje, vocês terão que dormir em um colchão no meu quarto, depois a gente ver como faz.
— Por mim, tudo bem. Não quero incomodar. – Cristina nunca esteve tão constrangida. Estava maravilhada com tudo: com o voo, já que era a primeira vez que andava de avião; com a cidade; com a neve; e, principalmente, com a mulher de seu pai: já tinha visto inúmeras fotos da madrasta por aí, mas nunca imaginou que fosse tão bonita assim pessoalmente. E perfumada! Estava esperando uma mulher poderosa, cheia de empregados, e ignorante. Marta foi muito gentil e dócil, apesar de exalar um poder sem igual.
— Imagina, Cristina... Olhe, não tenha medo de Marta não, ta?! Essa quatrocentona cheia de sobrenomes se faz de durona, mas no fundo é uma boa pessoa.
— Melhor ter os meus nobres sobrenomes, do que esse do seu pai. Me diga, não ficaria mais bonito Cristina de Mendonça e Albuquerque do que Cristina Medeiros? Claro que sim. Agrega valor! – Cristina riu se lembrando do que os irmãos lhe contaram uma vez: os pais sempre brigavam muito, viviam trocando farpas, mas no fundo, se amavam.
— Não dê ouvidos pra ela, Cristina.
— Olha, don... Quer dizer, Marta, ele tava todo ansioso para te ver de novo – se sentindo mais a vontade, Cristina fez questão de alfinetar o pai – E ainda ficou carregando vários adjetivos para você durante o caminho.
— Que mentira, Cristina! Eu só tava lhe contando como era Marta, para você não se assustar
— Quem se assusta comigo, Zé? – Marta gargalha – Eu sou Maria Marta Medeiros de Mendonça e Albuquerque, esqueceu?
— Jamais!
— Então pronto! Agora vamos dormir?
— Vamos que estou muito cansada! Não consegui dormir no voo, estava muito nervosa.
Seguiram para o quarto de Marta, um quarto grande, do jeito que ela gosta. Quando José Alfredo entrou no compartimento, rápido lembrou de tudo que viveram juntos no quarto da mulher no apartamento do Rio de Janeiro. Ambos os quartos eram muito parecidos! Podia passar o tempo que fosse, uma coisa que não mudaria em Marta era seus gostos. A morena já arrumara o quarto para acomodar o Comendador e sua filha.
Cristina rápido dormiu, estava, de fato, exausta. Marta não conseguiria dormir tão cedo: o amor da sua vida estava ali, no seu quarto, no chão, na cidade onde se conheceram. Se fosse um tempo atrás, eles, sem dúvida, estariam se amando, como sempre se amaram. Aliás, nunca se amavam como sempre. Toda noite era única, inesquecível. Do outro lado do quarto, no chão, José Alfredo estava com o mesmo pensamento. Como conseguir lidar com a mulher da sua vida no mesmo quarto que ele, sem poder fazer nada? De uma coisa os dois tinham certeza: precisavam conversar. Não dava mais para fingir que nada acontecera, nem que não sentiam nada um pelo outro. Apesar da neve lá fora, Marta estava com calor, e então, foi beber um copo de água. Alfredo, que viu a mulher saindo do quarto, a seguiu.
— Ai, cangaceiro desgraçado, não tinha outra pessoa pra dar um susto?
— Foi engraçada a sua reação, Marta! – se divertindo, José Alfredo também pegou um copo e o estendeu para Marta, a mulher o serviu, e foi andando em direção a sala. Não queria ficar a sós com o marido, muito menos muito perto.
— Precisamos conversar, Marta.
— Eu sei, mas não precisa ser agora.
— Você só ta adiando, nunca foi assim. Por quê?
— Porque sim, Zé! Boa noite. – irritada, a morena seguiu em direção a seu quarto, quando sentiu uma mão em seu braço. Zé a puxou.
— Para, Marta!!! What the hell!?!?
— Me solta, Zé! – o homem imediatamente a soltou
— Mas sente aqui, vamos conversar. – Marta sentou no sofá, sendo seguida por José Alfredo.
— O que você achou da Cristina?
— Jura que ta interrompendo minha noite de sono pra isso?! Por favor, né, Comendador.
— Não, não é pra isso. – se arrastou no sofá até chegar bem próximo dela.
Respirações descompassadas.
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