Domínio dos Pesadelos

1 O chamado na escuridão


"13 de março de 1995 — Após as 03:40 da manhã

Doze dias. Já fazem doze dias que tenho o mesmo sonho, ou melhor, pesadelo. Doze dias que acordo e não consigo mais manter meu sono, pelas lembranças do que me vêem a mente. Não consigo parar de lembrar, não quero fazê-lo, mas o faço.

O que era aquilo? Aquele altar, aquela caixa, aquela... coisa?! Quando me lembro, ainda sinto meus olhos lacrimejando e o terror que aquilo emanava. Nunca senti nada como aquilo na vida. Nem em meus momentos de maiores desespero, nem quando ouvi a criminosos dizerem como eles esquartejaram suas vítimas, nem quando me deparava com corpos em estado de putrefação avançada, irreconhecíveis. Nem de todas as coisas horríveis que já vi aos humanos fazerem... Não, aquilo não era humano.

Devo me acalmar. Pensar. Sou um homem racional. Não posso me deixar levar pelos anseios. Meu corpo sente dor. Talvez seja isso, o resultado da dor.

Quero uma xícara de café. Forte. Não quero voltar a dormir. Não agora.

...

13 de março — 05:20 da manhã

O sol ainda não apareceu. Começo a me lembrar de mais detalhes do sonho. Não faz sentido permanecer tremendo por algo que não ocorreu. É apenas um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Mas não interessa. Não é real.

Mas mesmo assim, tenho de me lembrar. Falarei com o psicólogo sobre isso. Não posso me permitir de fraquejar por causa de alguma noite ruim. Não no meu trabalho.

Tento me lembrar dos detalhes. Não são muito claros, agora que me acordei, mas ainda me lembro de alguns deles. Havia escuridão, muito escuridão. Mas de alguma forma, no centro daquela sala, algo brilhava. Não um brilho natural, não.

Não havia nada de natural naquele brilho.

No centro daquela escuridão, havia algo que parecia com um altar de pedra, grande, esculpido em um único bloco. Encravado nele, diversos símbolos, que não eram possíveis de decifrar. Sobre ele, havia uma espécie de urna, cuja tampa era algo parecido com uma estátua. Aquilo estava virado para mim. E me olhava, com olhos enegrecidos pela escuridão. Ao meu redor, só havia silêncio. O chão parecia estar inundado. Apesar da escuridão, conseguia ver que estava em uma sala. As paredes, com um estilo ciclopiano, me lembrava dos estilos rústicos dos trabalhos dos nativos, preservados nas ruínas.

Não me sinto a vontade, eu sinto como se algo me olhasse. Mas não há nada. Aos meus pés, sinto como se cobras rastejassem na escuridão. Meus músculos não reajem, e minha garganta se encontra seca. Aqueles olhos continuam a me olhar. Me fazem querer não estar ali... Quero fugir.

Mas não posso. Meu corpo não se move... Minhas mãos estão paralisadas, e nem meus olhos são capazes de se mover, e parar de fitar. Como se eu estivesse preso ao meu corpo, e ele não fosse mais meu. Minha perna se move, sem eu ter qualquer ação sobre ela.

O silêncio a minha volta é mais opressor do que todo o resto. O ambiente parece vivo, mas uma forma de vida assustadora, opressiva. Mas quieto. Outro passo. Meu corpo não me obedece, mas obedece a vontade daquilo a minha frente. Aquela urna, ela me chamava.

Mas não era um chamado, não, era um aviso, mas um aviso que ela queria que eu quebrasse. Sentia como se eu tivesse adentrado um lugar esquecido, proibido, impassível... e que por profanar aquele lugar, aquilo me chamava

Sinto o pulsar de meu coração. Como se nos meus próprios olhos ainda estivesse lá. Naquela escuridão.

Chega. Não pensarei mais sobre isso. Falarei com o psicólogo. É evidente que a pressão do trabalho está me causando isso. Tentarei dormir um pouco novamente.

...

De novo. E de novo. O mesmo sonho. Cada vez minhas mãos se aproximam mais da urna. O ar se torna mais pesado e sufocante.

Quando minhas mãos finalmente conseguem tocá-la, o silêncio é quebrado.

Um som inumano, o aviso de que ali se encontrava algo profano. O aviso de que deveria me afastar.

Não consigo mais ter sono. Não há mais paz em meus sonhos, apenas o pesadelo da escuridão e do proibido."