Dolovan Breus
4 Hans
Notas iniciais
HANS
Praguejou em alemão. O corte não era tão superficial, afinal. Pressionou o pedaço de tecido contra o ferimento, numa tentativa de estancar o sangramento. Em vão. Arfou, e apoiou-se na parede. Deteve os olhos no relógio de parede. Faltavam dez minutos. Cambaleou até a mesa de controle, e limpou o sangue que escorria do lábio inferior. A visão estava levemente turva, mas conseguiu identificar a alavanca azul marinha.
– Hans... Hans falando... Alguém na escuta? Câmbio...
– Hans? – sentiu um peso a menos no coração ao ouvir a voz feminina do outro lado. – Mamma na escuta.
– Esqueceu o câmbio – ele não pôde evitar um sorriso ao imaginar a morena revirando os olhos. – Mamma, cortei o meu antebraço esquerdo. Não está nada bonito. Vão demorar para chegar?
– Somos pontuais, Hans. – ela respondeu. – Vamos chegar em exatamente sete minutos. Uma hora errada e Dolovan nos mataria todos – se os soldados russos não matassem primeiro. Está sangrando muito?
Hans olhou para a própria mão e conteve um gemido.
– Está sim.
Mamma suspirou.
– Queria poder dizer que vamos tentar chegar mais cedo. Mas não vamos. Aguenta firme. Suponho que tenha tido sucesso.
– Sim. – Hans sorriu. – Pelo menos isso. Dolovan está com você?
– Não. Está na base da Coreia. É claro que não ia querer se expor a esse frio. Fala sério, russos são uns pinguins. Cinco minutos. Dá para aguentar?
– Dá. – desligou a escuta. Sentou-se no chão e apoiou a cabeça na parede. Achava estranho que a Ômega não tivesse tentado impedi-lo. Talvez estivessem esperando que sua equipe estivesse concentrada ali para atacar. Talvez não. De qualquer maneira, ele teria de ser cauteloso. Dolovan não era o tipo de pessoa que aceitava erros. Ocorreu-lhe um pensamento. A partir do momento em que os outros chegassem, ele não poderia entrar em alas secretas sozinho. Tinha exatos quatro minutos e cinquenta e seis segundos. Teria de ir direto ao ponto. Levantou-se com esforço e caminhou a passos largos e rápidos até uma portinhola de metal, trancada por senha eletrônica. Teclou a sequência numérica e empurrou a porta. O cheiro de limpeza lhe deu náuseas, mas ele não podia se dar ao luxo de parar por causa disso. Era algo que não teria a oportunidade de fazer outra vez. Nas paredes estavam pregados diversos pôsteres científicos e papéis, documentos. Haviam três balcões de madeira. Sobre um deles, haviam diferentes tipos de pistola aprimoradas por cientistas russos. Em outra, havia uma caneca vazia e um livro em italiano. Na terceira, haviam pipetas e tubos de ensaios, cujo conteúdo era um líquido alaranjado. Havia uma mesa central, abarrotada de papeis, livros. O computador estava ligado. Ele se aproximou. Na tela havia um mapa-múndi, com diversos pontos piscando em vermelho. Ergueu uma sobrancelha. Alpes, uma ilha ao sul do Pacífico, Irã, Sibéria, Crimeia, Nova Zelândia, Sri Lanka e muitos outros. Fotografou o mapa com o celular e ia se sentar quando ouviu um ruído. Ergueu-se, alerta. Relanceou o relógio. Ainda faltavam dois minutos. Ergueu uma sobrancelha e olhou ao redor. O armário. Aproximou-se e tocou a maçaneta com a mão ferida, a outra pronta sobre a arma. Abriu rapidamente, e uma pessoa caiu no chão. O garoto deveria ter por volta de quinze anos, estava amordaçado e amarrado.
– Quem é você? – Hans perguntou. O garoto lançou-lhe um olhar sarcástico. Claro, estava amordaçado. Um minuto. Hans calculou que seria melhor interroga-lo em outro lugar. Desamarrou as suas pernas para que pudesse andar e fê-lo deixar o compartimento secreto, a arma na sua nuca. Fechou a porta atrás de si ao sair. Tirou-lhe a mordaça. – Pronto. Responda.
– Silver Pascal, senhor. Ou cara. Sei lá. – Pascal chacoalhou os ombros e piscou.
– O que está fazendo aqui e por que estava amarrado?
– Eu estava tentando acessar os mapas secretos do governo russo, quando um sujeito barbudo me viu lá dentro me amarrou e me jogou no armário. Então o alarme de invasão começou a tocar e ele me deixou lá. E foi embora.
– Mapas secretos do governo russo? Por quê?
– Informação confidencial. – Pascal sorriu. – Sempre me imaginei falando isso.
Hans pressionou a arma com mais força na nuca, e o garoto enrijeceu.
– Muito bem. Pesquisas secretas do governo britânico.
– Não foi muito bem treinado. – Hans revirou os olhos. – Logo vi, pelo sotaque.
– O sotaque é australiano, não inglês. Sou de Sidney, cara.
– Não me provoque – Hans disse, devagar. Ouviu os passos se aproximando. Haviam chego. Mamma empurrou a porta da base de controle com força.
– Disse que éramos pontuais. Quem é a criatura? – ela balançou os cachos escuros, afastando-os dos olhos. Pascal e Hans observaram-na encantados por um instante. Então Hans acordou.
– Um agente do governo britânico. – respondeu. Mamma deu de ombros.
– A sua mão?
Hans largou a estendeu, sem tirar a arma da nuca de Pascal. Mamma fez uma careta.
– Que nojo. Sales vai cuidar disso. A propósito – ela se voltou para Pascal – Sou Mamma Gothel.
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