Dolovan Breus
17 Elsa
Notas iniciais
Suas pálpebras pesavam e insistiam em tentar cair e introduzi-la ao mundo dos sonhos. Mas nem por isso ela se deixava dormir, sentada na cadeira de madeira com o rosto apoiado nas mãos ao sopé da cama desde que a sua entrada no recinto fora permitida. De tempos em tempos, uma enfermeira surgia para verificar o estado de Jack e oferecer à caçadora algo para comer. Ela vestia um suéter exageradamente largo com a estampa de um floco de neve e calças jeans, e o cabelo castanho-escuro estava preso – desajeitadamente – em um rabo de cavalo alto. A janela estava levemente aberta, e a brisa fazia com que o cortinado branco balançasse. Para manter-se acordada nos momentos em que isso mais lhe custava, ela fazia surgirem pequenas esculturas de gelo, e então fazia com que desaparecessem. A maioria delas retratava Jack. Sal apenas ficara na sala nos primeiros instantes, olhando o rosto dele com olhar ferido e distante. Então se retirara e estivera trancada no próprio quarto, sem falar com ninguém.
Elsa estava fazendo uma das esculturas, que dessa vez representava a própria irmã. Estava concentrada demais para perceber o que acontecia ao seu redor.
– Sempre gostei dessas coisas que você faz – a estátua caiu no chão e se espatifou quando ela ergueu o olhar, sobressaltada. Jack sorriu de canto, e ela imaginou como ele conseguiria manter o senso de humor em uma situação daquelas. Encarou-o, surpresa. Era a primeira vez que acordava. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, então ele o rompeu. – O que aconteceu exatamente?
– Hans. Ele o atingiu e depois eu o matei. – Elsa disse, impassível. Jack assentiu lentamente.
– Conseguiu salvar a sua irmã?
Ela assentiu, lembrando-se por um instante de que parte dela sentia-se aliviada ao saber que a irmã mais nova estava longe do poder de Dolovan Breus. Jack riu, e ela lhe lançou um olhar questionador.
– Não é nada. É só que... Acho engraçado você ficar sentada aí, feito uma morta-viva, quando acabou de recuperar a sua irmã.
– O que quer dizer? – ela perguntou, parte incomodada pelo “sentada feito uma morta-viva”. Ele sorriu serenamente.
– Quero dizer que devia passar um tempo com ela, Elsa. Ela deve estar assustada por causa de tudo isso, e você é sua irmã mais velha. Não que eu não me sinta importante com o fato de você ter ficado aí esse tempo todo.
Ela comprimiu os lábios ao perceber que ele estava certo. Estava tão abalada pelo estado de Jack que se esquecera de que a própria irmã estava assustada e sozinha – às vésperas do próprio casamento. Kristoff ainda estava tentando arrumar uma licença de trabalho para vê-la, e, enquanto não a conseguisse, Anna continuaria sozinha. Ela se levantou.
– Seu desejo é uma ordem – brincou, perguntando-se de onde surgira aquilo. Ele sorriu. Ela se voltou e caminhou até a porta.
– Elsa! – ele chamou, antes que ela saísse. Ela se voltou. – Por favor, não pense que sou um panaca total por causa daquilo com a Sal... Eu fui mesmo um idiota. Pode... Dizer isso a ela?
– Posso – ela respondeu. Então deixou o local. O cheiro de hospitais sempre lhe dera náuseas. Aquele não era exceção. Estava no meio do caminho quando se lembrou de que os próprios tênis haviam ficado no quarto de Jack. Deu de ombros. Sandy e Noel estavam na sala de espera do hospital, e levantaram-se quando ela se aproximou.
– Como ele está? – Sandy perguntou, em tom preocupado.
– Acordou agora. Está muito melhor. – Elsa sorriu, sem muita convicção. – Quero ver a minha irmã... E a Sal.
– As duas estão no hotel. Eu posso te levar até lá, se quiser – Noel se ofereceu, e ela agradeceu com um aceno de cabeça. Os dois deixaram Sandy na sala de espera e foram para o carro. Paco conseguira uma caminhonete azul para que eles usassem durante o tempo em que estivessem ali, onde fariam os próximos planos e esperariam – se isso fosse acontecer – a recuperação de Frost. Ela apoiou a cabeça na janela, olhando o movimento – que era pouco – na rua. Dublin. Era uma das poucas cidades importantes às quais ela nunca havia ido como caçadora. Ao que parecia, não era exatamente um ímã de vampiros. Imaginou como seria a própria vida se ela morasse ali. Bem diferente.
– No que tanto pensa, senhorita Elsa? – Noel rompeu o silêncio, sem desviar o olhar da rua à sua frente. Ela se voltou para ele, lentamente.
– Não sei. Tem muita coisa para se pensar. – disse, e não estava mentindo. Ele assentiu, em concordância. Após algum tempo pensando, Elsa disse: — A sua neta já está melhor?
Ele suspirou.
– Ela faleceu ontem.
Elsa ficou por alguns instantes sem saber o que dizer. Nos momentos em que se sentia triste e desolada, ela sempre, de alguma maneira, se dava conta de que outras pessoas também poderiam estar se sentindo mal. Olhou as feições cansadas do senhor por um instante, e pensou consigo mesma em como ele era resistente. Tinha idade, perdera uma neta, e nunca ouvira um protesto ou reclamação vinda de sua boca.
– Eu sinto muito – disse, por fim. – Não só por ela ter... Falecido. Mas porque o senhor teve de arriscar a própria vida enquanto isso...
– Às vezes, há coisas mais importantes. Minha neta perdeu a vida, senhorita Elsa – ele disse, em tom sereno – Mas se não detivermos Breus, muitas outras meninas também perderão.
Ela o observou com admiração, e então ele estacionou diante de um prédio azul de três andares. Uma plaqueta de madeira dizia: “Hotel Joan D´Arc”. Ela desceu do carro e o viu se afastando, então o seu olhar se deteve na plaqueta por um instante. Não parecia ser coincidência. Ela. Diante de uma placa e de um hotel cujo nome fora dado em homenagem a uma guerreira que dera a vida por uma boa causa. Estremeceu, e entrou. Dirigiu-se rapidamente ao quarto onde a irmã estava, e bateu na porta algumas vezes. Anna demorou apenas alguns minutos para abrir, e deu um sorriso fraco ao ver a irmã.
– Elsa. – disse. A mais velha retribuiu o sorriso e entrou, ouvindo a porta sendo fechada atrás de si. – Quer algo para comer ou...?
– Não – Elsa a cortou – Eu estou aqui para ficar com você. Então é você quem pede as coisas.
– Oh. Obrigada, eu acho. – Anna piscou, e sentou-se. Após alguns instantes fitando os próprios pés, ela rompeu o silêncio. – Isso é tudo tão... Louco. Você deixou os Estados Unidos para matar um vampiro que lhe trazia nostalgia. E agora acabou de sair do hospital onde esse vampiro está, e no momento está lutando ao seu lado para deter um outro vampiro louco. E eu vou me casar.
Ela balançou a cabeça negativamente, como se fosse um sonho cujo fim ela cobiçava. Elsa assentiu, em concordância.
– Você vai se casar. Isso é... Minha irmã mais nova. Você era tão pequena, e eu pedia... Pedia a eles que deixassem eu embala-la para dormir. E agora vai se casar...
– Está parecendo uma senhora, Elsa – Anna riu.
– E não é a pior parte, você ter crescido – Elsa continuou, e sorriu – Você é a mais nova, e conseguiu um noivo antes de mim! É um absurdo!
Anna riu outra vez e revirou os olhos.
– Eu sempre fui a mais... – ela estreitou os olhos – Fabulosa.
Ambas riram, e Elsa sentiu saudades dos tempos em que o seu maior problema era o fato de Anna não querer macarrão para a janta outra vez. Suspirou, nostálgica.
– Para com isso – repreendeu Anna, com um sorriso. – Está parecendo uma senhora outra vez. Obrigada por vir, Elsa. Estou bem melhor...
Ela ia continuar quando o telefone tocou. Ela caminhou até a mesa e o atendeu.
– Kristoff? – sorriu ao atender. Elsa sentiu que estava invadindo um momento privado, e deixou o quarto com um aceno de cabeça. Então caminhou até o de Sal. Trancado. Bateu na porta.
– Sal, é a Elsa. Deixe-me entrar.
Ninguém respondeu. Elsa repetiu, novamente sem obter resposta. Suspirou e tocou a porta. Ao contato de seu dedo indicador, a madeira se congelou e o gelo se espatifou no chão. Ela entrou e fez o gelo se reconstruir atrás de si, voltando a ser madeira. Sal estava sentada no parapeito da janela, voltada para fora. O cabelo loiro estava solto, e ela vestia uma regata branca e jeans. Era estranho vê-la de um jeito tão... Normal. Descontraído. Sentou-se na cama da vampira, tirando os sapatos.
– O que está fazendo aqui? – Sal não se voltou, e a sua voz era impassível.
– Vim te consolar. Olha como sou legal. – Elsa brincou. A vampira não riu. – Mas agora falando sério. Frost pediu que eu te dissesse algumas coisas.
Ela se voltou rapidamente.
– Quer dizer que ele conseguiu acordar? – disse rapidamente.
– Sim – Elsa assentiu. Sal se recompôs e saltou do parapeito, indo sentar-se no tapete felpudo do chão.
– O que ele pediu que me dissesse?
– Que você estava certa. E que ele é um panaca por ter feito tudo aquilo com a equipe... Com você.
Silêncio. Elsa havia dito algo de errado?
– É isso? – Sal perguntou, sem olhar para a caçadora. Elsa pensou por um instante e suspirou.
– Sal, ele gosta muito de você. Não tem a menor ideia. E ele faria de tudo para que você o perdoasse. Está sentindo-se muito mal agora, e só não sabe como dizer isso. Ele nunca foi muito bom com palavras.
– Como você pode saber? – a vampira finalmente olhou para Elsa. – Você o conhece há muito pouco tempo.
Elsa comprimiu os lábios.
– Já se conheciam. Já aconteceu algo entre vocês. – Sal adivinhou – E ele não contou a nenhum de nós.
– Ele não queria que pensassem que me achava importante para a equipe por causa de algo que aconteceu... No passado. E apenas no passado. – Elsa disse, com o olhar distante.
– Quer dizer que não considera tentar outra vez? – Sal ergueu uma sobrancelha. Elsa suspirou e deixou-se cair na cama.
– Eu não vou mentir. Gosto muito desse idiota, mas... Depois de tudo que aconteceu... Não sei se conseguiria fazer outra vez. Ele é um irmão para mim... E só. – era a primeira vez que Elsa dizia os próprios pensamentos em voz alta, e sentiu um alívio tremendo. Sal assentiu lentamente. – Mas você... Você o ama de verdade. E por mais que não pareça, sei que ele também te ama. Só não sabe... Mostrar isso a você. Ajude-o.
– Como?
– Deixe a si mesma que seja amada. E ame.
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