Doki Doki
4 Capítulo 4
Voltei para o meu dormitório e nem me incomodei em tomar banho nem comer. Tirei minha roupa molhada e me joguei embaixo das cobertas da minha cama. A mesma cama em que eu e Rin quase fizemos. Rin...
Será que eu ouvi errado? Não, ouvi claro e alto. Estava sem palavras para o que acabei de ver. Como Rin é filho de um demônio? Como não notei antes? Por que me apaixonei por ele? Por que não o odiava? Porque, mesmo depois de descobrir isso, ainda o amo? Por que ele nunca me contou nada?
Me virei para a parede e comecei a bater nela de raiva. Não me importava com a dor que me causava, pelo contrário, eu a apreciava. Minha cabeça parecia que iria explodir de tantas perguntas. Estava desapontado e chocado, com certeza, nunca falou nada para mim, e agora? Cada batida de meu coração doía. Me encontrava irritado, muito irritado com Rin, mas não o odiava.
Detonado, fiquei deitado em minha cama ignorando as perguntas de Shima e Koneko que logo foram parando porque decidi que era melhor fingir que estava dormindo.
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Depois de uma noite inteira cheia de pensamentos desmotivadores, minha vontade de ir à aula era nula. Fiquei deitado na cama por mais um tempo depois que Shima e Koneko foram para nossa classe. Quando achei que já estava na hora de fazer algo produtivo pelo dia, me levantei e fui até o nosso refrigerador. Achei um cup-noodle aberto de Shima e dando de ombros, peguei e me sentei à mesa para comer o resto. Não me importava com o gosto, só tinha que comer algo. Quando terminei de comer e pus o pote no lixo, notei que o meu celular estava vibrando sem parar no bolso da minha calça molhada. Peguei-o e nele haviam seis mensagens não lidas. Cinco de Yukio e uma de Shima, avisando que Rin não tinha ido na aula e perguntando se eu sabia o que acontecera. Hesitei antes de abrir as mensagens de Yukio, mas mesmo assim, as abri.
Yukio (ontem, 22:15) : Suguro-san. Sei que pode não paracer, porém, Rin odeia Satan tanto quanto você. Dê essa chance a ele, mesmo ele sendo um demônio.
Yukio (ontem, 22:50) : Rin sumiu, você tem alguma ideia de onde ele pode ter ido?
Yukio (hoje, 9:30) : Rin não apareceu ainda.
Yukio (hoje, 10:20) : Não vir na aula não vai lhe ajudar.
Yukio (hoje, 10:25) : Por favor, ajude a achar meu irmão.
Joguei meu celular na cama com força. O que esse idiota pretende fazer? Sumir e deixar seu irmão preocupado? Apertei meus dedos contra a ponte do nariz como se isso ajudasse a me acalmar. Onde será que esse idiota se meteu?
Não sei como, mas algo me dizia que eu sabia onde ele estava.
Conseguia até imaginar. Rin, sentado sozinho, em um tronco de árvore velho, deixando as lágrimas caírem enquanto se encolhia em si mesmo. Só de pensar nisso meu peito doía, ainda mais sabendo que eu era o culpado disso.
Tinha que pensar, e rápido, no que fazer. Ir atrás dele e resolver de vez todas as nossas diferenças, ou ficar na cama e fingir ser o coitado de tudo isso, mesmo sendo ele o que não me contou nada. Rin, ou não Rin, eis a questão.
Foi então que, eu me botei em seu lugar. O que eu faria se eu fosse um demônio e o amor de minha vida dissesse que odeia tudo ligado a Satan? Vi como eu havia sido muito cruel com ele e não via a hora de ir me desculpar com todo o meu coração.
Botei uma calça jeans limpa e um moletom, e antes de sair, deixei um bilhete avisando Shima e Koneko que eu ia ficar um tempo fora. Peguei o meu casaco antes de sair e fechei a porta com um auto BANG.
Não estava chovendo quando saí, mas as nuvens ainda circulavam no céu e a temperatura baixou muito. Sabia o caminho com a palma da minha mão para o tronco onde eu revelei meus sentimentos para ele. Muitas das árvores estavam queimadas ou quebradas, e era por isso que eu sabia que Rin havia realmente vindo para cá.
Cheguei mais perto do tronco e vi um corpo deitado no tronco, com rabo e orelhas compridas. Meu coração batia forte pois sabia de quem era o corpo. Seu corpo cheio de cortes, provavelmente causados pelos galhos das árvores. Meu coração caiu. Corri com cautela para perto de Rin e percebi que seus olhos fechados estavam vermelhos e suas sobrancelhas franzidas. Botei minha mão na frente de seu nariz para ver se estava respirando e assim que senti sua respiração quente em meus dedos, deixei sair um suspiro doloroso que nem sabia que estava segurando. Meus olhos se encheram de lágrimas mas mesmo assim tentei acordá-lo.
Para o meu desespero, ele não acordou. Ótimo, tenho um corpo semi-morto que não acorda na minha frente. Tirei meu casaco e botei em suas costas com delicadeza para esconder seu rabo e o peguei no colo. Ele... ele era realmente pesado. Quase deixei-o cair duas vezes a caminho do meu dormitório.
Finalmente, quando chegamos em meu dormitório e notei que estava vazio, o ajeitei em minha cama. Consegui descansar meus braços (eles pareciam que iam cair. Nossa, como alguém tão magro como ele pode ser TÃO pesado?!), mas logo em seguida achei melhor limpar todos os cortes de seu corpo antes que infeccionassem.
Peguei todo o material que eu iria precisar para limpar as feridas, porém, quando me sentei ao lado da cama, todos os seus cortes haviam sumido. Arregalei os olhos quando me lembrei que demônios se regeneravam, e que Rin era um deles. Sentei um pouco para trás, deixando um espaço entre nós, só por precaução, mas meus olhos nunca o deixavam. Achei estranho como Rin não acordou por um segundo mesmo quando estava sendo carregado no colo por mim. Também achei estranho que essa situação poderia ser mais inconfortável do que está sendo. Cheguei mais perto de Rin, e hesitei antes de beijá-lo rapidamente. Sorri para mim mesmo e voltei para a minha posição anterior de vigiar-Rin-a-todo-o-custo. Só que agora estava sorrindo levemente e meu rosto estava corado.
Devo ter apagado por algum tempo, porque lembro de ter acordado com um grito que me fez pular de onde eu estava sentado e encarar dois grandes olhos azuis e assustados.
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