A cada quilômetro percorrido, Sam se dispersava ainda mais em seus pensamentos. Fazendo um balanço daquela noite, seria considerada louca por sair com um “quase” desconhecido. Entretanto, pensando melhor, chegou à conclusão de que seria louca se recusasse o convite de seu amigo. Desde que havia terminado seu último relacionamento, a menina se fechou em seu mundinho particular. Passava horas e horas lendo, escrevendo, contando carneiros, ouvindo música... Não que estivesse em depressão, mas não queria se abrir a novas possibilidades, o que era um erro um tanto grave. Apesar disso, resolveu deixar seus devaneios de lado, e aceitou ao convite de Miguel.

— Aconteceu alguma coisa?! Você está tão quieta... – o rapaz perguntava um tanto desconfortável

— Não, não aconteceu nada. É que gosto de pensar na vida, enquanto estou olhando para o lado de fora da janela de um carro. – ela sorriu baixo

— Às vezes costumo fazer isso também. Mas, me desculpe a curiosidade... O que tanto pensa?

— Na vida por si só, Esse ano que passou foi bastante conturbado, mais do que 2011, em todos os sentidos. Seja nas relações pessoais, escolares e particulares...

— Acho que para todo mundo foi... – o rapaz respondia, enquanto desligava o carro – É... Chegamos. Espero que goste daqui. É um dos meus lugares preferidos da cidade

— O Pontal me traz boas lembranças... – ela sorriu, distraída – Se importa se deixar minhas sandálias no seu carro? Acho que se eu ficar mais 1 minuto de salto, perco os pés de tanta dor!

— Nem precisava me perguntar... Não sou mulher, mas imagino o quão doloroso deva ser, principalmente quando se dança por quase duas horas, sem descalçar os pés... – ele riu

— Só existe algo pior que o salto alto... E são as sapatilhas de ponta.

— Vejo pelos seus calos... Deve doer muito, sim?

— Quando comecei, sofria. Passava dias tendo que ser carregada ou em cima da cama. Mas hoje em dia, nem sinto mais nada.

— Você é corajosa...

— Tudo pelo amor à dança. Podemos ir?

— Sim, podemos.

— Mas antes... – virou-se para pegar o saco de doces – Só para prevenir, né? – ela riu

— Oh, mas é claro... – ele riu

E seguiram os dois, em direção à areia fria e deserta. Sam no fundo estava feliz por estar ali, apesar de soar estranho, ir para uma praia deserta com uma pessoa mais velha, numa madrugada de verão. Mas preferia por não pensar nisso. Miguel sentia a mesma coisa, porém (por mais que não quisesse) enxergava Sam muito além que uma amiga. Porém pensava em deixar as coisas fluírem normalmente. O que tivesse de ser, seria.