— Então... – disse ao sentar do lado de Sam na areia – Me conte como foi seu ano, no geral...

— É... – ela olhou para o céu e arfou – Digamos que eu tenha começado o ano, literalmente, separando brigas do meu pai e minha madrasta, por culpa da falta de responsabilidade dele, o que acabou contribuindo com a minha dependência em Matemática. – deu uma pequena pausa – Depois, passei o resto do ano com notas não muito boas, troquei de turno quando estava a ponto de reprovar, mas graças a Deus, dei a volta por cima e me superei. E nesse meio tempo, namorei durante quatro meses com meu melhor amigo à distância, e terminei com ele há algumas semanas... E agora estou aqui narrando tudo isso a você. – deu uma risada

— Nossa! Não sabia dessas coisas! Você me parece tão forte e bem, mesmo com tudo isso... – ele respondeu incrédulo

— “Este é o problema da dor... Ela precisa ser sentida...”

— Augustus Waters... – ele riu – Mesmo que A Culpa é das Estrelas seja um livro do tipo “mela-cueca”, recomendo para todas as pessoas do mundo ler uma vez na vida, antes de morrerem.

— É verdade... Esse livro me ajudou a superar muita coisa, nesse ano que passou. – pôs a mão no pescoço – Mas, e quanto ao seu ano? Conte-me como foi...

— Comecei no desespero de conseguir uma vaga na UFRJ pelo SISU, mas só me aceitaram no meio do ano. O lado bom é que tirei seis meses para descansar. Ou melhor... – ele pausou – Tentar descansar.

— E por que não conseguiu?

— Minha mãe e o ex-marido assinaram o divórcio, uns dois meses antes do meu aniversário. Foi um pouco complicado, porque eles já estavam separados, ela já estava se relacionando com meu pai, novamente, mas o ex não aceitava de jeito algum. Por muitas vezes tive que ir com meus irmãos pra casa da minha tia ou da minha avó, porque não tinha condições de ficar naquele clima. Porém, acabei por arrumar um emprego, e como já tinha um dinheiro na poupança, decidi comprar meu carro e ajudar na reforma do apartamento que meus pais compraram. E nesse meio tempo, terminei um namoro de quase quatro anos.

— Caramba! E eu que achava que estava difícil pra mim... Mas por que terminaram?

— Ela era uma pessoa muito bacana, e no começo, eu era realmente apaixonado. Porém, com o passar do tempo, ela foi se mostrando uma pessoa possessiva, manipuladora, e a essência foi ficando para trás. Tentei por muitas vezes, fazer com que as coisas melhorassem, mas era impossível. Chegava ao ponto de eu não poder levar meu priminho para tomar sorvete na praia, porque ela achava que eu estava saindo com outras garotas! Daí, cheguei ao meu limite e decidi por um fim em tudo...

— Realmente, é uma situação bem complicada de lidar. Que bom que você está numa boa agora...

— Me sinto livre. Acredita que é a primeira vez, depois de muito tempo, que venho aqui?

— Jura?! Eu já não devo vir aqui há mais ou menos nove anos...

— Juro. E sabe? Tô adorando ficar aqui contigo, é sério.

— Eu também. – ela sorriu corada – Uma pena a gente ter de voltar pra casa...

— É verdade... Mas enquanto não dá a nossa hora de ir, por que não aproveitamos?! – ele sorriu

— Desenvolva a sua tese...

— Passamos por muita barra esse ano, esquentamos nossas cabeças com muita coisa que não valia à pena. Acho que merecemos esquecer que existem horas ou que há quem nos espere voltar pra casa, concorda?

— Acho justo... – ela mirou o céu – Por muitas vezes achei que não fosse sobreviver a esse ano.

— Mas você está aqui agora. Ou melhor, nós estamos aqui... É o que realmente importa. – disse Miguel, acariciando a bochecha de Sam

— É você tem razão... – ela sorriu – O que podemos fazer agora?

— Hum... Você ainda é bailarina, sim?

— Sim! Tenho uma apresentação daqui a uma semana.

— Eu adoraria te ver dançar... – ele sorriu

— Você pode ir... Tenho alguns convites sobrando e...

— Você poderia me mostrar seu número aqui...

— Aqui? – ela arqueou uma sobrancelha

— Sim, ué?! Não agüentarei de curiosidade até o dia de sua apresentação... – ele riu

— Mas eu nem estou com minhas sapatilhas! E estamos numa praia!

— Como uma boa bailarina que se preze... Não há necessidade de sapatilhas, sim?

— Ah, droga! Ok, você venceu. Mas só estou fazendo isso porque não te vejo há sete anos. Não se sinta convencido! – ela fez uma careta

— Meio difícil...

— Deixa de ser palhaço, garoto! – ela riu – Pega meu celular aí... É a primeira música da lista.

— Não quero ler suas mensagens, oras...

— Ai, meu Deus... Não tem nada aí... O máximo que deve ter é alguma amiga minha atrás de mim, querendo saber do meu sumiço...

— Dito e feito... – ele aponta para o visor que não para de alertar novas mensagens

— Deixa isso pra lá... Depois me entendo com elas. Coloca na música, ou você fica sem dança. – ela fez uma careta

— Ok princesa, seu desejo é uma ordem... “Canção de mim mesma”? – ele arqueou uma sobrancelha – Segunda vez que John Green é mencionado essa noite.

— Sim... Não quis por o título original, porque sei lá... Tenho manias esquisitas, como Margo Roth Spielgman.

— Realmente, você é tão doida como ela... Até na parte de sumir...

— Nisso não, por que não aguentaria viver numa cidade de papel. E nunca fugi de casa.

— Mas sumiu durante sete anos...

— Da sua vista, não no geral...

— Você venceu. Melhor eu dar o play, antes que você desista e taque esse telefone na minha cabeça

— Ainda bem que você ainda lê meus pensamentos... – ela riu

E assim se seguiu. Quando os primeiros acordes da música soaram, Sam parecia estar nas nuvens. Havia uma leveza desigual nos seus passos, um ar de mistério e doçura, que deixava Miguel abobado e encantado. Naquele momento, o rapaz teve a certeza de que Sam era digna do seu posto de princesa. Uma bela princesa.

Notas finais
Sei que o capítulo 3 foi curto demais, em vista dos outros, mas foi algo proposital. Se juntasse ao 4, ficaria muito grande, e perderia a essência que quis representar. Então preferi por dividí-los em duas partes. Espero que gostem e deem suas opiniões. Não é como as outras fanfictions baseadas em casais da ficção, mas essa história foi escrita com muito carinho e dedicação, talvez seja a que mais me marcou nesses anos todos em que escrevo. Beijos, e até o próximo capítulo