Dois Rios
5 Cinco
— E... Então? – a menina perguntou, ao final da dança
— Você foi... Incrível. Sério, nunca vi algo tão lindo como isso!
— Obrigada. Estou ensaiando há meses. – ela sorriu, tentando disfarçar o rubor de seu rosto
— Tenho certeza de que será um sucesso. E eu estarei lá pra ver, se me permitir...
— Já disse que pode ir. Tenho convites sobrando. Leve algum amigo, caso queira.
— Meus amigos não são fãs de ballet. Acham coisa de “mulherzinha”.
— Típico dos garotos de hoje em dia. Eles não são os únicos... – disse, sentando-se ao lado do menino novamente, enquanto pegava um chocolate – Quer?
— Vou aceitar um sim... Estou com um pouco de fome.
— Minha dieta do ano inteiro foi pro espaço.
— Acho o contrário... Você está ótima.
— Obrigada, mas preciso manter meu peso. Até porque se engordo muito, não consigo dançar.
— Entendo... Quando nos vimos a última vez, você estava mais cheinha...
— Não fazia dieta naquela época, comia demais. Logo depois, descobri que tinha colesterol alto. Então tive que me cuidar na marra.
— Nossa, mas você era tão pequena pra ter isso...
— Minha mãe também achou. Mas foi só o choque inicial e tal...
— Imagino...
— Mudando totalmente de assunto... O céu daqui da praia está bonito... Muito bonito.
— É verdade...
— Uma pena que esteja esfriando... Amanhã ficarei doente, certeza...
— Toma... Pode ficar com meu paletó. Não estou com frio mesmo... – respondeu o menino, enquanto tirava o paletó
— Não, pode ficar. Eu preciso sentir frio.
— Tá doida? E sua asma? Não adianta dizer que não, porque sei que ainda sofre com isso...
— Sim, inclusive ando com minha bombinha 24 horas por dia. Mas gosto um pouco de sentir frio. Gosto de ter a sensação de que sou uma “pessoa de papel”.
— Aonde você quer chegar com isso?
— Estou pensando no que aconteceu esse ano, de tudo. Desde o primeiro dia até agora. Fui forte em coisas que muito adulto é frágil. E com as coisas mais simples, acabo por ser vulnerável.
— Mas todos nós somos. Você não é a única.
— Hoje mais cedo, fui praticamente arrastada para o casamento dos seus pais. Não por eles, porque você sabe que eu os considero muito. Mas porque eu não saía do quarto há semanas. Não estava pronta para ver “o mundo real” novamente.
— Por causa do seu ex-namorado?
— Tecnicamente sim. Mas ele é o que menos importa, nisso.
— Então qual é o real motivo de você estar assim?
— Porque nunca faço as escolhas certas. Um claro exemplo é nos meus relacionamentos. Vou, me jogo de cabeça, e no final, me estabaco no chão. E aí acabo sofrendo, sempre...
— Sam... Você ainda é nova. A verdade é que você tem medo de se apaixonar de verdade, de encontrar a pessoa ideal. E eu não te julgo por isso, porque também sou assim. Você se joga em coisas erradas, porque tem medo de gostar do que é certo, e no fundo, se amarra nisso.
— Por que não te encontrei há dois anos, hein? – ela perguntou, já com os olhos marejando
— Destino... Ou porque eu estava muito ocupado em ir atrás do que era errado.
— Que merda eu me sentir assim. Tô parecendo uma mulherzinha...
— Mas Sam... Você é uma mulherzinha. Não tão convencional, mas é... Vem cá...
E Sam desandou a chorar no abraço de Miguel. Ele se sentia até um pouco culpado por ter dito aquilo tudo, depois de anos. Mas o que mais doía nele, sem dúvidas, era de ver a amiga naquele estado.
— Hey, Sam. Por favor, não chora. Se você não quiser mais me ver de novo, ou for embora agora, tudo bem, só não chora. Não agüento...
— Você não tem culpa, Miguel. A culpada sou eu, por procurar o errado. Você só me falou o que eu precisava ouvir há anos, e nunca ninguém me falou. Obrigada, de verdade.
— A gente pode ter ficado esses anos sem nos vermos, mas ainda somos amigos, sim?
— Sim, somos. E por favor... – deu um soluço – Não some de novo.
— Prometo que não vou sumir. Não tenho mais “Luízas” na minha vida pra me fazer sumir de todo mundo. – ele riu
— Acredito que Luíza seja o nome da sua ex...
— Sim, é... Mas não vamos falar dela agora. A noite está muito bonita pra mencionarmos isso.
— Sim, está mesmo.
— Posso lhe confessar algo? Mas prometa que não vai me zoar depois.
— Ok, ok... Eu prometo.
— Quando o céu tem muitas estrelas, como hoje, eu costumo fazer pedidos. Não muitos, mas faço.
— Eu riria disso se eu não fizesse o mesmo...
— Jura? E qual foi seu último pedido?
— Um castelo da Barbie, aos dez anos. – ela riu
— Justo...
— E o seu?
— Uma chuteira da Nike nova, top de linha.
— Boa pedida... Mas e hoje, já fez o seu pedido?
— Ainda não, e você?
— Também não. Estava muito ocupada chorando minhas derrotas.
— Sam, Sam... Você não presta.
— Sei que não... Então, por que não faz seu pedido? Depois faço o meu.
— Primeiro as damas.
— Tá... Vejamos... Que eu esteja em paz comigo mesma. E que eu ame pessoas certas, não canalhas. E que meu irmão largue o vício dos videogames.
— Bons pedidos... Eu desejo... Amar. E ser amado da mesma forma. E que não apareçam Luízas na minha vida. Nunca mais.
— Nossa, que romântico. Até emocionei.
— Pra minha infelicidade... As mulheres preferem os canalhas... O que eu posso fazer? – olhou para Sam, deixando-a com extrema vergonha
— Talvez... Encontrar um plano B, pra que elas gostem de você... Ah, vamos, você não é de se jogar... Ah desculpa. Não devia falar isso. – respondeu sem-graça
— Que não sou de se jogar fora? Não se importe com isso... Qual é? Você também não é de se jogar fora... Nem um pouco, aliás...
— Nesse momento estou me sentindo como um pedaço de picanha...
— Um pedaço de picanha?
— Claro, não sou de se jogar fora. Pelo menos foi o que você disse. Ou melhor, você e todos os outros me disseram. – respondeu, com a cabeça baixa
— Talvez eu e esses “outros” dissemos isso, porque estamos falando a verdade, sim?
— E de que adianta eles dizerem isso, e no final, eu ficar pra escanteio. Ou cair igual um patinho na lábia dos canalhas?
— Porque os homens são assim, idiotas. Eu me incluo nesse pacote, porque sou um perfeito idiota. Mas existe uma diferença entre eu e essa turma.
— E qual é?
— De que eu reconheço a minha idiotice. Se não reconhecesse, não teria terminado com Luíza.
— É... É uma boa justificativa.
— E é por isso que eu tô disposto a recomeçar a minha vida, hoje.
— Vá fundo, meu amigo. Eu deveria seguir seu exemplo, mas não.
— E por quê?
— Porque... Ah, não sei.
— Não foge da raia... Me responde...
— Quer saber?! Porque eu tenho medo. Feliz?
— Não, não estou feliz.
— Então porque insiste?
— Por dois motivos.
— Quais?
— Que eu queria ouvir isso de você. E porque você fica uma gracinha quando se sente contrariada.
— Miguel, a gente se reencontrou há algumas horas, mas eu já tô com uma vontade louca de mandar você para o meio da merda. – disse se levantando
— Se é assim que trata as coisas... É com você... – respondeu, com um sorriso de canto
— Eu te odeio. E você continua a mesma peste de sete anos atrás. E o mesmo garoto chato e insistente de sempre. – respondeu, voltando atrás e pondo o dedo em riste
— Ah é? Então você me odeia? Não acredito.
— Pois acredite. Agora me deixe molhar os pés no mar. Ou afundo sua cara na areia.
— Tenta a sorte...
— Ué? Vai me bater?
— Não. Farei algo muito melhor que isso.
— Na boa, Miguel... Essa conversa não está dando mais pé. Nem sei porque...
Sam poderia ter terminado sua fala, mas a essas alturas, os lábios de Miguel calaram os seus. E por mais que tentasse resistir, esqueceu de tudo. Dos problemas, da fissura por canalhas, das horas... Pela primeira vez, sentiu a leveza que tanto procurava. E com quem ela menos esperava.
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