Dois Pesos e Duas Medidas

3 Capítulo 3 – Preceito


Notas iniciais
Gente, eu vou ser super breve, porque eu estou caindo de sono e preciso acordar super cedo amanhã. Não esperem respostas muito esclarecedoras desse capítulo, porque muitas delas virão conforme o andamento do texto. Preciso agradecer de coração a Amaya Ragnarock, pela recomendação que deixou para o enredo. Fiquei um pouco surpresa, porque não esperava algo assim tão cedo e, apesar de achar que vocês devem esperar um pouco para recomendar o enredo, eu não pude deixar de sentir o coração pular de alegria. Fiquei lisonjeada, de verdade! Ah, a nova capa foi feita pela Coeur Pirate (#256714), de novo... Eu quase não sabia que capa escolher, mas como essa combinou com o capítulo, achei que se enquadrava mais no enredo... Menina difícil, quase me fez entrar em parafuso, porque não sabia qual que eu gostava mais! Obrigada por todos os comentários e pelo apoio bonito que tem me dado, valorizo-os demais! Espero que gostem, Beijocas!

"Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto." — William Shakespeare.

Capítulo 3 — Preceito

(Naruto – 18 anos)

Naruto olhou para um lado, olhou para o outro, e correu até o outro lado da rua. Sua jaqueta de couro marrom e blusa de moletom cinza esvoaçaram com o movimento rápido, mas ele mal registrou o vento gelado adentrar pela roupa quente. Estava particularmente frio naquela manhã de inverno, mas ele estava agitado demais para ficar quieto em casa, debaixo das cobertas, vendo algum programa ridículo de televisão, por esse motivo, ele decidiu que seria um bom momento para importunar certo Uchiha.

O rapaz nem terminou de subir as escadas que dava à entrada para apertar a campainha, pulando por alguns segundos para amenizar o sentimento de ansiedade. O Uzumaki não tinha motivo para estar se sentindo daquela forma, mas era uma característica própria e involuntária, ele apenas não gostava de ficar parado, pois o entediava com muita facilidade. Olhando a rua cinzenta e vazia, ele soltou um muxoxo, antes de ouvir a porta se abrir.

Olhando para baixo, ele encontrou os olhos negros do irmão mais novo do seu melhor amigo.

– Hey, Sasuke! – cumprimentou com um riso fácil na voz, vendo os lábios pequenos fazerem beicinho para segurarem um sorriso.

O menino lhe deu espaço para que ele entrasse, ventava muito forte naquele dia e pelo que o moreno havia observado do clima em São Francisco, é que os invernos eram chuvosos e cinzentos. Ele não queria que ambos fossem pegos de surpresa, se uma tempestade começasse a cair repentinamente. Ele abriu a boca para falar, mas fora interrompido pela voz de sua mãe no corredor que dava para a cozinha:

– Naruto?! – ela sorriu, secando as mãos no avental branco, enquanto andava em direção aos dois e acenava para que Sasuke fechasse a porta. – Itachi saiu com Fugaku para comprar mesas de estudos para os quartos. Entre e espere aqui dentro, tenho certeza que eles não vão demorar. – a mulher exclamou animadamente.

Com um aceno e um sorriso, Naruto chutou os tênis para o canto e tirou a jaqueta de couro, pendurando-a em um cabide no armário do hall de entrada. Sasuke o acompanhou em silêncio até a cozinha. A mesa de carvalho estava cheia de ingredientes, vasilhames e formas de bolo, além de papel sulfite, lápis de cor e canetinhas coloridas. O mais novo dos três se sentou e começou a desenhar, completamente calado, e o loiro o acompanhou, acomodando-se ao lado do garoto para poder observar o que ele estava fazendo.

Mikoto parecia estar fazendo algum doce, enquanto o mais novo se distraia com os estudos. Parecia um acaso comum de família, mas, de alguma forma, para o Uzumaki, aquela cena parecia ser um tanto solitária para o menino pequeno, que naquele momento se remexia, incomodado com alguma coisa. Dando de ombros, ele apoiou o cotovelo na superfície de madeira e o queixo nas mãos, enquanto variava o olhar entre mãe e filho.

“Poxa, os dois são realmente parecidos!”, ele pensou com a sobrancelha franzida em concentração. O cabelo preto azulado, a tonalidade translúcida da pele, o formato dos olhos, do rosto, do nariz pequeno e delicado, do queixo fino e os lábios pálidos... Seus pensamentos bruscamente interrompidos pela voz feminina.

– Itachi me pediu para fazer bolo de morango esta manhã. Ao contrário de Sasuke, ele realmente gosta de doces. – ela contou casualmente, talvez para quebrar o silêncio.

Naruto considerou a informação um segundo e depois sorriu.

– Eu também adoro doces, Mikoto-san. – lançou a dica com uma piscadela, seu japonês soando horrível e enrolado aos seus ouvidos, fazendo a mulher rir e balançar a cabeça negativamente.

Rindo também, ele olhou para o outro garoto, esperando que a conversa tivesse chamado um pouco a atenção do menino, mas Sasuke parecia estar concentrado em sua lição ou, seja lá o que for que estivesse fazendo, afinal, ele só conseguia ver a forma infantil debruçada no papel, o movimento rápido de suas mãos e os picos levantados do cabelo na parte da nuca.

Por algum motivo, ele sentia que no fundo, no fundo, aquela criança o lembrava de si mesmo. Sempre sozinho, embora fosse rodeado de pessoas. Naruto não tinha muitos amigos, quando era apenas um pirralho, principalmente porque ele era um moleque irritante, que adorava chamar a atenção, e, levando-se em conta que ele não tinha muita vigilância de Minato na época, seus métodos para conseguir o que queria eram os mais inadequados possíveis. No entanto, o caçulo Uchiha era diferente, pois era introvertido demais para fazer amizade com facilidade, o que o fazia se trancar para as pessoas de fora.

Ao vê-lo sempre em silêncio e solitário, Naruto sentia o coração apertar em compaixão, por esse motivo, sempre brigava com Itachi, quando o mesmo agia com descaso para com o irmão mais novo. Ele quase conseguia experimentar a sensação amarga da rejeição na própria boca, quando via os olhos negros se apagarem em tristeza. Doía como se fosse nele, pois se lembrava de si mesmo, pedindo que o pai lhe desse um pouco de consideração e o homem negava, pois estava ocupado demais com o trabalho.

Ele sabe agora que não é fácil ser pai solteiro, mas ele não sabia disso naquela fase de sua vida, e, mesmo hoje, o conhecimento disso não apagava os momentos em que ele se questionou por ser sempre deixado de lado, como se fosse nada...

– Então, espero que não se importe em ser a minha cobaia. – a mulher brincou com riso na voz, arrancando-o dos pensamentos negativos.

Ela levou um prato com um bolo inacabado até a mesa, para mostrá-lo ao seu visitante. A massa alta estava recheada com creme e morangos picados, que o fez salivar em resposta, enquanto segurava o instinto de afundar o dedo no doce e prová-lo sem o consentimento da matriarca. Ela lhe lançou um sorriso divertido e pegou um pote de chantili caseiro, enquanto espalhava pelo bolo com cuidado.

– Nunca! – ele exclamou com o olhar de determinação, adotando a pose de um cavalheiro desbravado. – Com essas mãos de fada, qualquer coisa que você faça é como mágica! – ele declarou, fingindo olhar para os lados em suspeita, antes de sussurrar. – Pediria a sua mão em casamento, se a senhora já não fosse casada. – murmurou com um beicinho.

Mikoto deu uma risada gostosa e, naquele ponto, Sasuke já havia deixado o desenho de lado para observar a troca com um sorriso bonito nos lábios. Os orbes negros de ambos brilhavam e ele se sentiu exultante outra vez, pois conseguira distrair o menino. Ele sempre flertava com a matriarca Uchiha, mesmo na frente de Fugaku, porque se divertia com as caretas constipadas de Itachi e a reação do restante da família.

– Se você tivesse aparecido na minha adolescência, eu me casaria com você. – ela fingiu um olhar severo, como se o culpasse por ambos não serem casados. – Não conte sobre isso para o seu pai, Sasuke. – ela deu uma piscadela, fazendo o menino inspirar uma respiração eufórica por ter sido incluído na brincadeira.

– Eu não vou contar, mas só se fizer a minha comida favorita para o almoço! – ele retrucou com uma feição nada menos que obstinada, fazendo Naruto abrir a boca em choque.

“Garoto abusado!”, pensou com espanto.

– Sabia que me pediria algo em troca – a mulher olhou o caçulo com repreensão fingida. –, tão parecido com o seu pai. – ela murmurou, enquanto o encarava profundamente, antes de abrir um sorriso. – Feito, mas só hoje! – ela alertou.

– Hn! – finalizou como se fechasse um contrato importante, o que era irônico, levando-se em consideração que ele era apenas uma criança.

Naruto observava a troca com interesse. Apesar do que seus amigos lhe falavam sobre o relacionamento com as mães, Mikoto e Sasuke pareciam se entender de forma impressionante. Mesmo Itachi não era tão próximo de ambos os pais, como o mais novo aparentava ser da matriarca. Ele não sabia se era assim com Fugaku também, mas ele achou bonito e sentiu certa inveja abater a boca do seu estômago; ele queria que sua mãe tivesse viva, quem sabe seria assim também.

– Naruto, você pode raspar a tigela se quiser. – ela lhe ofereceu o vasilhame com chantili, praticamente vazio. Ele olhou para o objeto por alguns segundos, mal reparando como os outros dois o encaravam. Mikoto tinha um pequeno sorriso compreensivo nos lábios, enquanto Sasuke apenas olhava o receio do adolescente com certa curiosidade.

O Uzumaki apenas encarou os olhos negros da mulher, sentindo um misto de emoções conflitante. Franzindo a boca, ele aceitou o convite, sentindo o coração apertar de forma desconfortável, mas ao mesmo tempo boa. Era uma solicitação simples, um apelo silencioso, para que ele se sentisse em casa como se fosse um membro da família, o que significava ser tratado com os mesmos privilégios.

Ele olhou para baixo, tentando esconder o sorriso radiante e a emoção que sabia transbordar dos seus olhos, ao mesmo tempo em que pegava a vasilha com mãos firmes, porém com movimentos apreensivos.

– Obrigado, Mikoto-san. – agradeceu com a voz baixa.

Ela apenas fez um ruído simples para reconhecer sua gratidão, antes de se virar novamente para a pia. Ele ainda podia sentir outro par de olhos achatando o seu crânio e sabia que deveria estar parecendo contraditório para a criança ao seu lado. Erguendo os orbes para o Uchiha mais novo, ele pôde distinguir curiosidade e análise crítica. O olhar deveria enervá-lo, mas Naruto sabia que não estava agindo naturalmente nos últimos minutos; o loiro apenas estranhava tal intensidade, vindo de um garoto que mal deveria ter saído das fraldas.

– Não adianta me olhar desse jeito, eu não vou dividir com você! – ele jorrou com uma carranca fingida para quebrar aquele clima desconfortável, fazendo o menino arregalar as íris escuras em confusão.

Sasuke fez um bico ressabiado, franzindo a sobrancelha em conjunto:

– Eu não gosto de doces. – murmurou um pouco mal-humorado, olhando a tigela com insignificância.

– Hm... – Naruto retrucou teatralmente, enfiando a colher de chantili na boca. – Não sabe o que está perdendo. – murmurou abafadamente, devido o talher firmemente preso entre os dentes, e enfiou a mão no vasilhame para pegar uma pequena quantidade com o dedo indicador.

O moleque estava fingindo indiferença, olhando para a folha de papel colorida com falsa concentração. O fato só fez o loiro mais agitado e divertido, com um pigarreio florido, ele chamou a atenção do moreno pequeno e, quando Sasuke voltou seus olhos para o adolescente, rapidamente percebeu a intenção por trás dos orbes brincalhões azuis e desviou o mais rápido que pôde do dígito que invadia o seu espaço pessoal com velocidade.

Infelizmente, a sua agilidade não foi o suficiente para impedir que a sua bochecha se sujasse com o conteúdo melado. Ele tentou gritar, ralhar ou brigar com o loiro, mas tudo o que saiu foi uma risada, enquanto ele tentava fugir novamente dos dedos insistentes, que continuavam a cutucar e sujá-lo em toda parte. O moreno tentou correr, mas o Uzumaki agarrou o seu tronco com um abraço apertado, ao mesmo tempo em que o melecava de chantili o máximo que podia.

O riso dos dois se confundiu, fazendo Mikoto rir também, assistindo aquela batalha perdida do seu filho ao tentar agarrar o braço que o atacava.

– Eu não sei quem é mais criança. – uma voz grave soou pela cozinha, silenciando os três desordeiros e atraindo a atenção deles para si. Fugaku encarava a confusão com certa descrença, enquanto Itachi apenas rolava os olhos para a cena, já esperando algo parecido vir do melhor amigo.

Naruto deu um sorriso sem graça, sentindo algo macio bater em sua cabeça. A matriarca havia o acertado com o pano de prato, enquanto dizia que Sasuke deveria tomar um banho, porque ele estava uma bagunça de creme branco e cabelos melecados. Olhando para baixo, ele encontrou as íris escuras brilhando em divertimento, admiração, alegria sincera e algo mais que não sabia distinguir...

– Você chegou mais cedo que eu esperava. – uma voz suave sussurrou, quebrando o encantamento momentâneo que prendia os olhares de seu irmão mais novo e seu melhor amigo.

Ambos o encararam como se o vissem pela primeira vez em muito tempo; Itachi preferiu ignorar a situação a agir como se nada tivesse acontecido, com a mesma cara de paisagem que lhe era tão característica. Ele entrou no apartamento carregando algumas sacolas plásticas e lançando um último lampejo breve para as malas grandes espalhadas pelo corredor.

– Coloque as malas para dentro. – ordenou, fingindo não notar a forma como Sasuke tencionou o maxilar, como se rangesse os dentes.

Sua demanda mobilizou até mesmo Naruto, que rapidamente se moveu para auxiliar o rapaz com as bagagens. Ele estava se sentindo confuso, eufórico e um tanto perdido. “Por que Itachi não me contou que o irmão estaria vindo?”, indagou-se mentalmente, segurando a ânsia de encher o homem de perguntas. Não era o momento para agir impulsivamente e tornar desconfortável o recém-chegado. O Uzumaki não era um epítome da hospitalidade, mas sabia quando deveria agir com um pouco mais de parcimônia.

– Eu estava esperando que você chegasse para o jantar. Se eu soubesse que chegaria tão cedo, teria ido ao supermercado ontem à noite. – ele jorrou casualmente, fingindo ignorar a bagunça que havia causado. Mesmo Nagato estava olhando para toda aquela movimentação com inúmeros pontos de interrogações nadando acima de sua cabeça vermelha.

Com leves tapas no ombro do menino, ele indicou que o garoto deveria ajuda-lo com as sacolas. Um sorriso escapou de seus lábios, quando viu o “sobrinho” praticamente pular com o susto, antes de correr até o balcão que separava a sala da cozinha, para guardar as compras. Desde cedo, o moleque entendeu que morar com mais dois homens, significava colaborar com as tarefas da casa igualmente.

– Nagato, esse é meu irmão, Sasuke, e ele vai passar um tempo com a gente. – ele explicou, indicando o homem com o queixo, antes de pegar algumas latas e enfiá-las dentro do armário.

Ele ignorou o olhar que Naruto lhe dirigiu e começou a guardar os vegetais dentro da gaveta da geladeira. Ele sabia que não deveria agir tão despreocupado, quando havia ocultado algo importante do seu melhor amigo, mas Itachi também sabia da suposta briga que ambos tiveram no passado – antes de seu irmãozinho tolo ter ido embora para o Japão – e, conhecendo o loiro como conhecia, sabia que o Uzumaki iria ficar preocupado com o clima da casa e se recusaria a ficar no apartamento que era dos dois, indo para a casa de seu pai ou para a residência da Yamanaka. Agora, estando diante de seu irmão, o homem veria que Sasuke não era mais aquela criança birrenta e mimada do passado, podendo acabar o assunto que deixaram em aberto lá atrás como duas pessoas adultas.

De acordo com o mais novo, não existia mais mágoas para remoer, pois finalmente entendera o que aconteceu naquela época, por esse motivo, qualquer preocupação de Naruto seria infundada; e ele poderia ver o fato com os próprios olhos se quisesse.

– Prazer em conhecê-lo, Uchiha-san. – Nagato se curvou diante do moreno, com um rubor de constrangimento nas bochechas. Sua timidez fazendo com que ele agisse mais contido que o habitual.

– O prazer é meu, Nagato. – ele declarou com seu sotaque perceptível e um pequeno sorriso nos lábios, esquecendo-se momentaneamente da personalidade desagradável de Itachi. – Pode me chamar de Sasuke, se quiser. – informou, recebendo um beicinho, que deveria ser um sorriso mais contido. – Ouvi falar muito de você. – informou, sentindo o menino se aquecer vagarosamente para a sua pessoa.

– Ah... – ele murmurou, olhando para o tio como se o questionasse sobre o que ele havia dito, e que esperava que não fosse nada ruim, como o fato dele ainda fazer xixi na cama de vez em quando.

Naruto estava em um silêncio denso, enquanto ajudava o melhor amigo a terminar de guardar a comida, depois de ter colocado as malas do outro homem para dentro. Ele lançava olhares breves para Nagato, Sasuke e Itachi, sentindo-se traído e tentando não se deixar levar pela cena que acontecia à sua frente. Seu afilhado parecia um tanto desconfiado e receoso, o que o fez revirar os olhos em incompreensão, às vezes ele era tão parecido com Konan, sempre cauteloso, analítico e apreensivo.

– Sasuke vai ficar aqui por um tempo, até arranjar outro lugar para morar. – Itachi decidiu começar a esclarecer, agora que seu irmão e Nagato estavam distraídos conversando sobre astronomia, um dos temas de interesse do ruivo pequeno. – Ele acabou de se formar em Arte e Design na Universidade de Kyoto e decidiu que precisava fazer um intercâmbio, visto como seu inglês não evoluiu muito no Japão. – explicou, observando o homem se apoiar na pia da cozinha e cruzar os braços, enquanto o observava falar com atenção.

– E por que não me avisou antes? – Naruto retrucou com uma carranca estragando suas feições. Ele estava irritado e chateado com a displicência do seu melhor amigo. Pagava parte das despesas daquele apartamento e morava ali dentro, o mínimo que Itachi deveria ter feito, era comunicá-lo que seu irmão estaria passando uma temporada com eles.

– Porque eu te conheço. – elucidou com finalidade, como se a frase simples dissesse muito.

– Explicou muita coisa. – respondeu com ironia. – Eu moro aqui e também pago pelas despesas desse lugar, estou no meu direito de receber satisfações. – ele descruzou os braços e os ergueu como se pedisse paciência aos céus. – Caramba, Itachi, custava ter me avisado que mais alguém moraria em casa? – não quis parecer rude, mas quando pôde perceber, o apelido carinhoso havia dado lugar ao rosnado insolente do nome do seu melhor amigo.

Um silêncio ainda mais grave se instalou pela sala, e Naruto percebeu que havia dito a pergunta em um tom mais alto do que deveria, chamando a atenção do centro de sua conversa e de Nagato. Ele sentiu o pesar gelar a boca do seu estômago, mas não recuou sob os olhares que havia atraído. Ele reparou os lábios pálidos se franzirem, enquanto Sasuke se levantava do sofá que estava sentado com o seu afilhado.

– Se isso te incomoda tanto, Uzumaki, eu posso encontrar outro lugar para ficar. – ele propôs com contrariedade.

Naruto não era sonso, embora parecesse idiota a maior parte do tempo, ele podia sentir que, apesar da pergunta formal e educada, a postura e o olhar dele eram claramente petulantes. Com um movimento da mão, ele pediu a Itachi, que ameaçou se manifestar naquele momento, se calasse.

– Você fica, embora eu ainda me pergunte onde você vai dormir, uma vez que o idiota do seu irmão não me deu tempo de preparar nada antes da sua chegada. – ele pontuou em tom de quem não queria discussões acerca do assunto.

– Eu tenho um amigo que vive em North Beach, que me ofereceu um espaço se eu precisasse, não precisa se preocupar comigo. – o moreno respondeu, começando a ficar claramente irritado com o tom autoritário; ele não era mais a porra de uma criança para tratá-lo como se fosse um filho ou irmão mais novo. Ele não queria ser denominado dessa forma, porque não queria ser mais considerado assim há muito tempo.

– Sasuke ficará no meu quarto, Naruto. – Itachi esclareceu, tentando amenizar o clima ainda mais palpável e desconfortável entre eles.

Nagato parecia não entender absolutamente nada e encarava os adultos, conforme eles abriam a boca para falar. Ele raramente via o seu pai tão nervoso e, quando acontecia, ele se sentia nervoso também, mas por motivos diferentes. O loiro demorava muito para se acalmar e, por vezes, descontava a frustração em quem estava mais próximo. Da última vez, ele passou horas chorando no quarto, porque fora o escolhido para receber o ataque de fúria do homem.

Ino fora atraída pelo tom alterado da voz de Naruto, mas apenas Itachi percebeu que ela chamava o garoto com um sorriso reconfortante, vestida em nada mais que uma das muitas cuecas boxer e regatas do amante. Ela lançou um olhar preocupado para os dois, antes de encontrar os olhos negros do mais velho. Com um aceno simples, a Yamanaka levou o menino para o quarto, murmurando palavras reconfortantes para distrai-lo.

Percebendo o deslocamento do seu afilhado para o quarto, Naruto suspirou em uma tentativa esdrúxula de se tranquilizar, lembrando-se da última vez em que deixara suas emoções tomarem conta da situação. No fundo, sabia que estava dramatizando a situação, mas ele ainda se lembrava como se fosse ontem a forma como o garoto, agora um homem, saíra correndo da casa do seu pai, antes de embarcar para o Japão.

Ele ficara noites sem dormir, pensando e se questionando sobre onde havia errado para receber tal tratamento áspero; se martirizando por algo que não sabia ao certo o que era. Itachi sabia o quanto aquela memória do passado o incomodava, porque de certa forma, ele se culpava pelo que havia acontecido. Naquele tempo, Naruto reconsiderou seus próprios preceitos sobre a vida, inclusive um fato em particular; quem sabe, o Uchiha mais velho tivesse razão, aquele beijo de brincadeira jamais deveria ter acontecido, pois, para o Uzumaki não poderia ter significado nada demais, mas talvez para Sasuke, a história não fosse a mesma.

Ele achava apenas que estava saciando uma curiosidade juvenil sobre a sexualidade, comum em muitas pessoas. Ele mesmo havia passado pelo mesmo na adolescência.

Com um último olhar para o que era apenas um garoto da última vez que o vira, ele notou o quanto o menino havia crescido. “Êh, o tempo faz mágica com as pessoas...”, pensou com a admiração um pouco embaçada pelo incômodo e constrangimento.

Ele notou que o olhar do homem está fixo no corredor, onde a Yamanaka sumira com o seu afilhado. Ele não podia distinguir o que se passava pela cabeça do moreno, mas tinha certeza que ele a reconheceu, pois havia um rastro de surpresa nos trejeitos contidos. Naruto compreendia o sentimento do rapaz, porque também se surpreendia com o fato do relacionamento de ambos ter durado tanto tempo. Balançando a cabeça para dissipar os pensamentos, voltou a se concentrar no assunto principal da conversa:

– Não – Naruto contestou com contrariedade por estar se repetindo. –, você fica. – disse em voz baixa, embora o tom continuasse tão autoritário quanto antes. – Esse final de semana, eu levarei Nagato para a casa dos meus pais, você pode ficar no meu quarto ou no dele se quiser. Isso te dará tempo para descansar, enquanto Itachi arranja um lugar para você ficar. – terminou, olhando para o melhor amigo.

O Uchiha mais velho ficou em silêncio, observando a postura determinada do loiro. Naruto havia mudado muito com a paternidade e às vezes, ele se via incapaz de contestar as palavras tão firmes quanto às do seu pai, Fugaku. Era como estar sendo repreendido e manipulado como uma criança. Sasuke deveria ter notado o mesmo, porque ele olhava o Uzumaki, como se o mesmo tivesse adquirido uma segunda cabeça.

– Aproveite enquanto eu estiver fora para arrumar o quarto do Nagato. Acho que Sasuke vai querer um pouco mais de privacidade, o moleque pode dormir no meu quarto por um tempo. – falou para o moreno estacionado na cozinha, mal reparando na forma como o homem o encarava.

– Não vejo necessidade... – o caçulo começou, tentando ser sutil, mas sendo interrompido. Ele segurou um suspiro irritado.

– Nagato pode ficar comigo, Naruto. – Itachi respondeu humildemente. – Você trabalha a noite na grande maioria das vezes, será ruim para você e para ele dividirem um quarto. – alertou, reconhecendo que uma criança não precisava tanto de particularidade quanto um adulto. O menino não se importaria de ter companhia para dormir, quando sempre recorria aos mais velhos para pedir proteção, quando tinha pesadelos.

– Se você diz... – Naruto deu de ombros, enfadado com a conversa. Ele estava se sentindo drenado, como se tivesse batalhado uma guerra. – Estou saindo depois do almoço. – informou, indo em direção ao corredor que dava aos quartos, perdendo a troca de olhares entre os dois Uchiha.

(***)

Naruto respirou fundo, antes de abrir a porta, repreendendo-se mentalmente pela falta de controle há alguns minutos. Ele encontrou Ino e Nagato sentados em sua cama, conversando, fazendo o assunto parar assim que ambos perceberam a sua entrada no cômodo, dando a entender que o tema do diálogo havia acabado de chegar. O fato não o incomodou ao todo, afinal, ele sabia que tinha exagerado, tinha certeza que a mulher só estava explicando a situação para o menino.

– Vamos passar o final de semana na casa dos seus avôs. – comunicou em um tom ameno, para tranquilizar o afilhado.

A expressão tensa do garoto dera lugar a um sorriso genuíno. Fazia algumas semanas que não levava o ruivo para ver Minato e Kakashi, e a chegada de Sasuke não fora apenas uma desculpa. Nagato adorava a casa dos seus pais, porque podia fazer praticamente o que quisesse.

– Isso quer dizer que vou poder brincar com a Kyuubi! – ele exclamou, pulando na cama e quase caindo em cima da loira ao seu lado.

– Cuidado para não cair! – Ino gritou no momento em que ele perdia o equilíbrio. Com um movimento ágil, ela segurou o corpo pequeno e o puxou, antes que ele se estatelasse no chão.

Kyuubi era a raposa de estimação do seu pai. Pessoas normais tinham gatos ou cachorros, mas o homem adotou uma raposa vermelha de uma instituição que recupera os bichos feridos da caça autorizada. Pelo que sabia, o animal havia perdido a mãe antes do desmame e, por ter crescido ao redor de humanos, não era preparado para sobreviver ao seu habitat natural.

– Moleque... – meio resmungou, meio brincou, enquanto deitava na cama, com a cara escondida entre os travesseiros, ainda se sentindo muito irritado.

Nagato se sentou, preocupado, reparando no humor azedo do seu guardião e observando a loira passar a mão nas costas tensas do homem em um gesto reconfortante.

– Aquele é o irmão mais novo do Itachi? – ela indagou um pouco surpresa, recebendo apenas um aceno como resposta. – Uau, ele cresceu... – murmurou reflexivamente, constatando o óbvio. – Quem diria que aquele menino tímido se transformaria nesse homem? – perguntou mais para si mesma que para qualquer um dos dois, enquanto deitava e se apoiava no ombro do outro.

Nesse ponto, Naruto riu e balançou a cabeça negativamente.

– De olho em garotões, Ino? – jorrou com escárnio, recebendo um tapa estalado na bunda como resposta. – Ouch, não tão forte, amor!

– Falou o cara que beijou o Sasuke, quando o “menino” tinha 12 anos! – despejou, floreando e cantarolando a frase com deboche.

– Êh! – a voz infantil gritou. Ele engatinhou até o pai e deitou de forma que seu rosto ficasse de frente para a face do homem. – Mas, qual é o problema?

Naruto riu ainda mais com a pergunta inocente, ele realmente se divertia com as indagações ingênuas do garoto. Erguendo a mão, ele segurou a parte traseira da cabeça ruiva e colocou um beijo duro na testa coberta pelos fios rubros. Ele amava tanto esse moleque, que só de pensar na forma como o deixou assustado há alguns minutos, doía-lhe a consciência.

– É, Ino, qual é o problema? – jogou com um sorriso atrevido.

– Não é como os beijos que eu e Naruto costumamos a dar em você, Naga-chan, é como os beijos que eu troco com seu pai. – ela esclareceu duramente, vendo os olhos azuis, quase lilases, se arregalarem em surpresa, antes do rostinho rechonchudo se contorcer em nojo.

– Eca, germes! – murmurou com uma careta, da mesma forma que fazia quando o casal se beijava por muito tempo.

Os dois adultos riram mais um pouco, contagiados pelo humor simples de uma criança. Em breve, Nagato entenderia que beijos não era apenas uma troca nojenta de saliva e, como ele costumava dizer, bactérias. Por enquanto, ele pretendia preservar esse lado infantil e inocente do garoto, porque tudo tinha o seu tempo certo, quando chegasse a hora, ele explicaria tudo o que o ruivo precisava saber.

– Quer ajuda para arrumar suas coisas, Naga-chan? – Ino perguntou em tom ameno, enquanto alisava os fios rubros e macios. – Em breve Itachi terminará de preparar o almoço e você precisa estar pronto, ou vai chegar tarde na casa dos seus avôs. – explicou, enquanto se levantava.

O menino se levantou em um pulo, correndo na frente, em direção ao seu próprio quarto, exclamando sobre como se divertiria em rever os parentes e a raposa de estimação dos seus pais, enquanto Naruto apenas abraçava um dos muitos travesseiros em cima da cama. Ele poupou um olhar para a mulher que se espreguiçava.

– Não acha melhor colocar algumas roupas? Não que eu esteja reclamando sobre você vestindo as minhas cuecas; Itachi já está acostumado a te ver andando seminua pela casa, mas o Sasuke, não. – ele murmurou, brincando com a barra da regata branca que ela vestia, antes de enfiar a mão por dentro da peça e acariciar a barriga lisa da loira, sentindo-a tencionar o abdômen com o toque suave dos dedos atrevidos e quentes.

– Ele pode se acostumar com isso também. – ela retrucou de forma abusada, dando um meio sorriso e se inclinando para roubar um selinho dos lábios um pouco ressecados pela desidratação usual da manhã.

– Querendo impressionar o garotão? – Naruto indagou, gargalhando quando Ino só lhe respondeu com um “tsk” indignado e beliscou o interior da sua coxa com as unhas compridas. – Ai, isso dói! – reclamou, revirando-se na cama até sair do alcance das mãos que o atacavam.

– Não fui eu quem beijou o garotão, quando ele tinha 12 anos! – ela retrucou novamente, fugindo de um travesseiro que Naruto havia lhe tacado, pegando-o no chão e tacando de volta, enquanto soltava um riso escandaloso.

O Uzumaki riu também, pegando a almofada, antes que essa o atingisse. Levantando-se da cama, ele começou a vasculhar a mesinha de cabeceira à procura do seu maço de cigarros e isqueiro. O loiro evitava fumar na frente do afilhado, por isso, aproveitou que o garoto estava no outro quarto para relaxar um pouco. Ele caminhou até a janela, deixou o cinzeiro no parapeito e colocou o fumo na boca, acendendo-o com uma tragada profunda.

– Preciso arrumar as minhas coisas também. – ele comentou casualmente, olhando profundamente para mulher que caminhava em sua direção.

– Vai ficar lá durante o final de semana também? – ela indagou depois de um tempo, esfregando a mão no maxilar áspero pela barba por fazer. Ino respirou fundo, controlando a vontade de incentivar o homem a terminar o que haviam começado, antes daquela confusão toda aparecer de manhã.

Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente, olhando para a vista da janela. O céu estava límpido, tão azul quanto os olhos que o observava. Naruto se inclinou para o toque da mulher, tragando outra vez e se sentindo aliviado que a Yamanaka não fizera muitas perguntas sobre a discussão entre ele, Itachi e Sasuke. Sabia que o interrogatório não iria demorar muito tempo, mas o Uzumaki não estava afim de pensar no assunto no momento. Por algum motivo que desconhecia, ele se sentia mais afetado com a situação do que gostaria de admitir.

– Me liga, quando voltar. – pausa. – Eu vou ajudar Nagato. – ela informou, antes de afastar e sair do quarto, sem olhar para trás.

Vendo-se sozinho, ele refletiu no porquê de estar tão sobrecarregado desde que se dera conta de que aquele homem em sua sala era nada mais, nada menos, que Sasuke Uchiha. De repente, seus sentimentos estavam à flor da pele, querendo extravasar tudo o que ele havia guardado por tanto tempo. Aquela frustração, arrependimento e raiva de si mesmo, quando notara a rejeição nos olhos negros, trazendo um bolo desagradável na garganta.

Ele não se sentia pesaroso pelas escolhas que havia feito, mas se condenava pelas consequências que isso trouxera. Nunca foi sua intenção machucar o garoto. Agora, com o retorno dele para São Francisco, via-se obrigado a esclarecer aquele assunto com o rapaz. Ele odiava mal-entendidos, porque sempre abriam portas para conclusões precipitadas, e ele não estava disposto a condenar a convivência harmoniosa da sua casa, por causa de palavras não ditas no passado...

“Droga, Itachi...”, ele culpou, voltando a puxar a fumaça do cigarro para seus pulmões. No fundo, ele entendia as atitudes ocultas do seu melhor amigo: Itachi só estava querendo ajudar.