Dois Pesos e Duas Medidas

4 Capítulo 4 – Dissidente


Notas iniciais
Oi, gente! Eu estou muito puta da vida, porque acordei cedo para terminar de revisar o capítulo, mas cometi o erro de fazê-lo pelo celular (preguiça de sair da cama e ir até o computador). Acontece que a porra toda não salvou, talvez por alguma falha infeliz do Google Drive, e eu perdi todas as minhas modificações. Como não eram nada muito extravagante, afora uma vírgula aqui e outra pontuação diferente ali, eu decidi que postaria assim mesmo e corrigiria depois. Então, me perdoem os errinhos básicos. Eu disse que focaria o enredo mais no Naruto, não é? Eu mudei de ideia, vou trabalhar um pouco o lado do Sasuke também. Quem me aconselhou foi o Cojiro (#161163) e eu achei que ele estava certo, uma vez que explicaria melhor algumas coisas para vocês. A nova capa (outra, haha!) foi feita pela Coeur Pirate (#256714), como sempre! Se o capítulo anterior não tinha muitas respostas, esse vai preencher algumas lacunas que abri nos capítulos anteriores e abrir outras questões importantes, que quero trabalhar ao longo do enredo. Muito obrigada ao Renard Uchiha (#413070) pela recomendação que ele fez para “Dois Pesos e Duas Medidas”. Eu fico muito feliz em saber que a história remeta um pouco da realidade de vocês também (com relação aos amores de infância), porque além de ter colocado uma parte de mim mesma aqui dentro, eu encontrei uma parte importante de vocês também. E é isso. Obrigada pelos comentários, a quem adicionou o enredo aos Favoritos e Acompanhamentos. Esses pequenos incentivos significam muito para mim, de verdade! Espero que gostem. Beijocas!

"Nesse grande futuro, não podemos esquecer o nosso passado." — Bob Marley.

Capítulo 4 – Dissidente

– As roupas sujas estão na máquina, estenda-as no varal, assim que terminar de bater. – Ino informou, colocando os brincos de argola nas orelhas e olhando Itachi por cima do balcão que separava a sala da cozinha.

O moreno estava lavando a louça do almoço e apenas balançou a cabeça em concordância. Sasuke, que estava retirando os vasilhames e pratos usados de cima da mesa, encarou a mulher com curiosidade. Ela vestia o mesmo vestido da noite anterior e pegava os sapatos do armário para ir para a própria casa. A forma como a loira agia em torno do apartamento, fazendo com que várias questões flutuarem em sua cabeça.

– Vejo vocês. – ela disse, caminhando até o seu irmão mais velho e lhe dando um beijo na têmpora como despedida. A altura dos dois rivalizando, devido ao tamanho dos saltos altos que calçavam os pés femininos.

Com um pequeno aceno para Sasuke, ela saiu, tentando equilibrar a bolsa carteira, o molho de chaves, o maço de cigarros e o celular numa mesma mão. A ausência da Yamanaka fazendo com que um silêncio estranho se estendesse entre os dois, como se houvesse um milhão de palavras que deveriam ser ditas, mas nenhum deles estivesse disposto a dar o braço a torcer e começar o diálogo enfadonho, que sabiam estar por vir.

– Decepcionado? – Itachi indagou de repente, fazendo o caçulo se sobressaltar.

Sasuke franziu as sobrancelhas, colocando os vasilhames com os restos de comida em cima do balcão, uma vez que ele não sabia onde deveria guardar. O homem de cabelos compridos apontou um armário com o queixo, lançando um olhar sugestivo para o mesmo.

– Lá dentro tem alguns potes com tampas. – explicou, vendo o rapaz se mover para fazer o que lhe foi pedido. – Depois guarde na geladeira.

O mais novo tentou evitar revirar os olhos com as demandas autoritárias, mas não conseguiu. Por um momento, ele esqueceu sobre a pergunta esquisita do seu irmão, enquanto xingava o homem em pensamentos revoltados. Itachi não mudara absolutamente nada, continuava o mesmo mandão de sempre. “Idiota”, ele rosnou mentalmente.

– Decepcionado com o quê? – ele resmungou, lembrando-se da questão fora de ordem e pegando um par de vasilhas.

O primogênito lançou um olhar autoexplicativo em direção à porta, indicando sobre o que se referia: Ino Yamanaka. Sasuke zombou, bufando um riso de escárnio. Ele balançou a cabeça negativamente, tentando ignorar o escrutínio indisfarçado do outro, odiando a forma como seu irmão o deixava nervoso e vulnerável, mesmo depois de todos esses anos afastados.

– Estou apenas um pouco surpreso que os dois tenham durado tanto tempo. – deu de ombros, colocando as fatias pequenas de tonkatsu dentro do recipiente. – Você sabe muito bem que o tempo passou e eu não gosto dele desse jeito. Pelo menos, não mais. – murmurou de forma reflexiva, franzindo os lábios. – A vida seguiu para mim.

Itachi sorriu em concordância e compreensão, mas o caçulo não viu, pois estava perdido em seus próprios pensamentos. O rapaz entregou as travessas vazias para o Uchiha mais velho e se apoiou no balcão de mármore rojo.

– Eu não pensei que o relacionamento entre o Nagato e Naruto fosse tão ligado e profundo; o garoto até o chama de “pai”. – comentou casualmente, querendo mudar de assunto.

– Você saberia se não tivesse me proibido de falar sobre Naruto. – retrucou, colocando os últimos vasilhames no escorredor. Ele pegou um pano úmido e tirou o excesso de água da pia.

Sasuke assistia as ministrações do homem com respeito. Ele nunca pensou ver esse lado responsável e “dona de casa” no primogênito. O jovem tinha certeza que a maneira como o mais velho limpava a cozinha, faria Mikoto orgulhosa. Ambos foram educados a serem autossuficientes e independentes, inclusive nas tarefas domésticas. Quando ele era criança, costumava fazer beicinho para as aulas de sua mãe. Hoje em dia, no entanto, ele agradecia as lições.

– Falar sobre Nagato seria, invariavelmente, como falar sobre Naruto também. – deu de ombros, secando as mãos em uma toalha. – Eu posso ser um pouco cruel, Sasuke, mas eu entendi as suas decisões; que você precisava esquecer. Às vezes que decidi contar sobre algo de Nagato para você, eu tentava fazer de uma forma que não envolvesse Naruto. Achei que seria um pouco óbvio. – explicou a contragosto.

O rapaz mordeu o lado interno da bochecha, não sabendo ao certo o que responder. Itachi tinha razão, ele havia pedido para que não comentasse sobre o Uzumaki. No início foi difícil, a curiosidade e saudade apenas remoíam o seu interior, pedindo por um único e mísero pedaço do homem para saciar a falta. No entanto, conforme os meses foram se passando, o sentimento sufocante fora passando, até que não restava mais nada para se lembrar...

Falando em ocultar algumas informações, Sasuke se lembrou de um pequeno, mas importantíssimo detalhe:

– Por que você não contou para ele que eu estava a caminho? Eu não lhe pedi que escondesse absolutamente nada dele; pelo contrário... – perguntou e retrucou com um rosnado. – Teria me poupado o constrangimento, imbecil! – ele conteve a vontade de socar o rosto sorridente e descontraído.

– Como ele reagiu ao te ver depois de dez anos? – ele rebateu a questão como se fosse uma resposta, fazendo o caçulo arregalar os olhos em entendimento.

Itachi aumentou mais o sorriso.

Sasuke não era ingênuo, ele havia reconhecido o olhar de interesse nos orbes claros. A fome e o desejo evidentes pelas pupilas dilatadas, conforme o olhar percorria de cima a baixo do seu corpo, analíticos e sedentos. O rapaz desviou o rosto e tentou conter o próprio sorriso, mordendo o lábio inferior com força. Ao pegar o loiro desprecavido, ele teve a oportunidade de ver a reação de Naruto, sem que o mesmo tivesse tempo de se preparar psicologicamente para lidar com o moreno mais jovem. O melhor ataque era sempre aquele que conta com o elemento surpresa, não era o que diziam?

– Foi o que eu pensei. – o outro murmurou com diversão. – Fique a vontade. Mais tarde, eu lhe mostrarei o quarto do Naruto, você dorme lá esse final de semana, enquanto arrumo o quarto do Nagato. – informou, enquanto se afastava para o corredor, deixando o caçulo sozinho com suas próprias divagações.

(***)

Naruto olhou no espelho retrovisor, enquanto aumentava o volume da música. Nagato deu um grito animado, enquanto segurava uma raposa de pelúcia com nove caudas em uma mão. O bichinho quase voando pela janela com a força do vento, que adentrava pelos vidros escancarados. A batida da música e a alegria do menino o fazendo sorrir.

– “When I met you in the summer took my heart beat sound”. – ambos cantaram ao mesmo tempo. – “We fell in love as the leaves turn brown”!

O loiro batia os dedos no volante, acompanhando o afilhado em seu pequeno show e diversão particular. Os cabelos dos dois se debatendo para todos os lados, enquanto o Ford Torino GT 69, vermelho com pequenos detalhes em branco, corria pela Lincoln Highway. A baía de São Francisco fazendo um contraste bonito entre o azul do céu e do mar.

Minato ainda continuava morando no mesmo sobrado simples da Buchanan Street, mas o Uzumaki estava em Oakland agora, do outro lado da Califórnia, e precisava pegar a principal estrada do estado para conseguir chegar até a sua antiga residência. O caminho não era longo, se o trânsito estivesse favorável, em menos de 35 minutos, ele chegava em seu destino. Sábado era um dia tranquilo, e naquele momento, o tráfego estava livre, nada o impedia de aumentar consideravelmente a velocidade do veículo.

Nagato adorava, e ele também. Dava-lhes certa sensação de liberdade.

Quando a via da ponte chegou ao fim, ele sabia que estava chegando. O ruivo pequeno nem abria a boca, observando o caminho familiar com dificuldade, uma vez que ele estava preso pelo cinto da cadeira fixada no banco traseiro. A ansiedade de chegar na casa dos avôs tomando conta do momento alegre que ambos compartilharam mais cedo.

Naruto sorriu e balançou a cabeça negativamente. Ele entendia a inquietação, pois era extremamente parecido com o garoto, quando era mais novo. O loiro demorou a infância, a adolescência e parte da vida adulta para ser menos impaciente e tempestuoso sob as circunstâncias. Em sua mente, ele sabia que o afilhado seria diferente futuramente, porque o moleque era muito mais calmo e resguardado, mesmo se deixando levar pelas emoções às vezes.

Observar o ruivo dera outra perspectiva para o Uzumaki. O menino sempre o ensinava algo novo todos os dias. Nagato parecia ter o espírito de um velho no corpo de uma criança, porque era muito mais maduro e cuidadoso que muitos adultos ao seu redor. Inferno, o guri era muito mais prudente e sensato que ele mesmo na grande maioria das situações!

Quantas vezes o garoto se preocupava se ele estava cansado demais ou se os mais velhos já tinham tomado o café da manhã? O moleque recolhia e estendia as roupas no varal, varria o chão da cozinha, mesmo que a vassoura fosse maior que sua altura. Seu afilhado sempre estava atento em ajudar com as tarefas, o que o fazia ver o quanto ele era um idiota em sua própria infância, uma vez que nunca se preocupara em ajudar Minato naquela época. Naruto sempre fora um desordeiro, mesmo agora, ele tinha certa dificuldade em colocar as coisas em seus devidos lugares.

Virando à esquerda da Bush Street, ele entrou na rua onde morou por grande parte da vida. O caminho conhecido o transportando para algumas memórias, as quais ele sentia falta. Naquele tempo, tudo era muito mais fácil, os dias seguiam despreocupados, ainda que houvesse a incerteza do que aconteceria no futuro. Fora naquele bairro, Western Addition, que tudo havia começado e muito havia terminado também.

Ele estacionou o carro no mesmo lugar de sempre, à sombra de uma árvore na calçada da casa do seu pai. O lugar era estratégico e protegia o veículo do sol, evitando que o mesmo ficasse abafado, devido ao clima quente da Califórnia. Nagato nem esperou o seu guardião terminar de manobrar para se soltar do cinto de segurança. Ele estava eufórico por finalmente terem chegado.

Naruto puxou o freio de mão e pegou a mochila de couro jogada no bando do passageiro, ele deu uma olhada no afilhado, que recolhia a própria bolsa com tema infantil caída no carpete do carro. O ruivo correu até a porta, enquanto o homem mais velho verificava se o automóvel estava muito afastado da guia e se estava bem trancado, afinal, a residência Namikaze não tinha garagem para manter o Ford seguro.

– Kyuubi! – o garoto gritou ao longe, correndo porta adentro, esquecendo-se de Kakashi, que estava na entrada para receber os recém-chegados.

– Nagato, você disse “oi” para o ‘kashi no ojii-san? – o loiro chamou a atenção do moleque, que voltou para se curvar diante do senhor com o rosto vermelho em constrangimento.

– Gomen nasai, ‘kashi. – murmurou, fazendo o outro rir despreocupadamente.

– Não se preocupe, Naga-chan. – bagunçou os cabelos rubros em um cafuné. – Seu pai que deve me pedir desculpas por me chamar de velho. – retrucou com deboche, recebendo uma careta do rapaz.

– Você é velho. – respondeu com implicância.

– São apenas 14 anos de diferença. – ele brincou com um sorriso, fechando a porta, assim que o mais jovem entrou na casa. – Seu avô está na cozinha, Naga-chan. – lançou a ordem indireta, para que o menino não se esquecesse de falar com o parente e sendo obedecido prontamente.

O som das unhas da Kyuubi arranhando o chão de madeira era alto, quando o bichano correra em direção a Naruto, empolgado, enroscando em suas pernas de forma agitada e destrambelhada. O loiro sorriu, mas assim que se abaixou para fazer carinho nos pelos macios, o animal fugiu, como se divertisse em instigar um jogo de pega-pega entre seus donos. O homem abanou a cabeça, a raposa não mudaria nunca.

– O que ele está fazendo? – o rapaz perguntou para o padrasto, referindo-se a Minato e caminhando até a cozinha para falar com o próprio pai.

Kakashi colocou as mãos nos bolsos da calça e lhe deu um sorriso tranquilo.

– Ele está desembalando uma luminária que comprou em um site chinês. – ele informou com riso na voz. – Você o conhece.

– Eu sei. – o loiro riu. – Minato e sua paixão por objetos exóticos.

O mais velho só lhe deu tapas amigáveis no ombro e se afastou para o quintal dos fundos, a fim de observar Nagato e Kyuubi que corriam sem parar pelo jardim espaçoso. Ele viu o senhor na sala de jantar, analisando o objeto recém-adquirido com admiração brilhando em seus olhos azuis. A cor intensa dos orbes claros parecia se destacar ainda mais agora, que os cabelos estavam ficando grisalhos. Mesmo a evidência da idade não tirava a beleza do homem. A altura intimidante, o porte elegante e o modo sorridente o fazendo parecer muito mais jovem do que de fato o era.

– O que é isso? – Naruto perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

O patriarca sorriu, levantando a base da luminária, que ainda precisava ser montada. O objeto parecia brilhar, mesmo com a iluminação baixa do cômodo.

– É uma luminária chinesa. – explicou. – Eu fiquei impressionado com o design. – ele instigou, apontando para os desenhos feitos na superfície e esperando que o filho se aproximasse para dar uma olhada. – Eu mal posso acreditar que foram feitos à mão. Os traços e as pinturas são tão realistas... Olhe esses pássaros! – divagou, observando com mais atenção os detalhes da arte.

Naruto sorriu. Às vezes ele sentia saudade desses momentos. Era comum ver o mais velho trazer esses objetos, uma vez que era apaixonado por qualquer expressão artística existente no planeta. Minato era professor de História da Arte na Academy of Art University desde que o Uzumaki se conhecia por gente. Se o senhor não estivesse procurando por artefatos excêntricos, ele estaria criando algo para trabalhar, desde esculturas a fotografias.

– É lindo. – ele elogiou com um meio sorriso divertido. Seu pai era engraçado.

– É maravilhoso! – estendeu a luminária diante dos dois, contemplando-a. – Só não sei onde colocá-la ainda. – murmurou pensativamente.

– Já pensou em deixar no seu escritório? – indagou, atraindo um olhar incrédulo do mais velho e o fazendo segurar um muxoxo: ele levaria um pequeno puxão de orelha agora.

– Você puxou esse descuido de Kushina. – o homem brincou com um sorriso. – Se dependesse da sua mãe, ela apenas colocaria o “abajur” em qualquer lugar, sem se preocupar com aparência estética. – comentou com nostalgia e o olhar distante, como se lembrasse daquela época longínqua da sua vida, com saudade. – Às vezes é interessante, mas nem sempre podemos ser imprudentes. – explicou e andou até a sala de estar, retirando um vaso de uma mesa de canto e o substituindo pelo novo objeto, a fim de olhar a diferença no ambiente. – Há um conceito pra tudo no mundo, mesmo aquelas que dizem não ter nenhum tipo de conotação, denotam que não querem ter uma essência. O resultado dessa análise só muda de acordo com o ponto de vista; há uma infinidade de olhares e ângulos.

Naruto bufou. Minato tinha uma mania estranha de fazer analogias, as quais ele nunca entendia o significado imediatamente. As palavras do senhor ficavam girando em sua cabeça, até que ele compreendesse o que o patriarca quis dizer como todo aquele lengalenga.

– Você é o professor de arte e história aqui, pai. – retorquiu de forma entediada. – Eu sou apenas um editor e produtor de vídeos.

O mais velho colocou o vaso que segurava ao lado da estante com a TV. Por um momento, ao observar o resultado da troca, o rapaz entendeu a preocupação do homem com a combinação dos elementos. Com a luminária, que possuía o fundo da pintura perolado, o ambiente parecia muito mais iluminado e vivo, uma vez que todos os móveis do cômodo eram escuros e a janela ampla da sala de jantar não ajudava na claridade e decoração excessivamente sóbria.

– Mesmo que você seja “apenas um editor e produtor de vídeos”, eu sei que você é capaz de captar uma essência e expressão artística, quando se há uma. Afinal, alguém da sua profissão, precisa conhecer sobre arte também. – ele explicou, parando ao lado do filho para apreciar a mudança.

É... Minato tinha razão, ele era capaz de ver além de uma simples disposição de objetos ordenados desproporcionada ou harmoniosamente. No entanto, ele tinha uma enorme dificuldade em compreender significados nas entrelinhas. Palavras e explicações ambíguas nunca fora o seu forte. A impaciência de ter que dissertar sobre declarações imprecisas o deixava estressado. Sua cabeça já estava começando a doer com a perspectiva de que toda aquela conversa não era só relacionada com o significado da arte e sua expressividade.

(***)

– Acho que tem um pouco de amarelo aqui. – a voz infantil exclamou, girando o pincel, dentro do copo com água, para conseguir pegar a cor que queria, sem misturar as tonalidades.

O garoto estava sentado na mesa de jantar, apoiando a tela em um pequeno cavalete improvisado. As mãos pequenas fazendo uma bagunça inconsciente na madeira desgastada, mas extremamente bem cuidada. Kakashi, sentado em frente da porta de vidro, que separava a sala do jardim, apenas murmurou algo ininteligível em concordância.

– O papai e o vovô têm os olhos azuis como o céu; vou usar a mesma tinta para essas três coisas! – ele continuou o seu monólogo, sem perceber que seu avô estava praticamente cochilando do lado de fora. A brisa abafada da tarde e o aconchego confortável da cadeira estofada transportando o mais velho para o doce mundo dos sonhos, onde tudo se resumia em Minato correndo seminu pela orla da praia e o chamando com olhares sugestivos.

Talvez, ele devesse parar de ler os contos eróticos de Jiraiya.

– O que mais você está desenhando? – a voz do Namikaze adentrou os seus devaneios, enquanto o homem se sentava ao lado do neto.

Kakashi respirou profundamente e murmurou com a voz sonolenta:

– As curvas do seu corpo...

Nagato e Minato olharam para a direção do outro, com dúvidas muito diferentes pipocando em suas cabeças. Com um movimento de ombros, em indiferença, o garoto tornou a desenhar picos rebeldes no que parecia ser a cabeça de dois indivíduos, retratando os cabelos selvagens do pai e do avô ao seu lado.

– Estou desenhando você e o papai. Ainda preciso fazer o ‘kashi, a Ino-chan, o tio ‘tachi e o tio ‘suke. – explicou e depois lançou um olhar para a raposa, que estava deitada em cima de uma almofada ao lado do Hatake. – Eu não me esqueci de você, tá, Kyuubi? – perguntou, fazendo-a balançar o rabo felpudo de um lado para o outro, como se consentisse algo.

– Que tio ‘suke? – o loiro franziu as sobrancelhas em estranhamento. Por um momento, ele pensou em Hōzuki, namorado de Karin, sua sobrinha. Ele não sabia se a criança tinha se confundido na hora de pronunciar “tio Sui”, uma vez que o garoto ainda estava aprendendo a falar as palavras, sem se embolar muito.

– O irmão do tio ‘tachi. Ele chegou hoje de manhã e vai morar com a gente. – tornou a esclarecer, fazendo o outro enrugar ainda mais a testa, tentando se lembrar de algum irmão do Uchiha.

Com algum esforço, ele conseguiu se lembrar da criança que estava sempre com Karin, Suigetsu e Juugo há muitos anos.

– O irmãozinho do Itachi está na Califórnia? – ele indagou, não conseguindo conter a curiosidade.

O menino acenou com a cabeça, voltando a limpar o pincel na água, tornando-a ainda mais suja. No fundo, Minato pensou que precisava trocar o líquido do copo para não prejudicar as outras tintas, mas deixou para depois, porque ele tinha questões mais urgentes para responder.

– Chegou hoje e já brigou com o papai. – contou casualmente, considerando as próximas cores que usaria. – Mas, ele é legal e gosta das mesmas coisas que eu gosto. Não quero que ele fique chateado e vá embora, então, vou dar esse desenho de presente. Você acha que ele vai gostar desse retrato?

O Namikaze sorriu e bagunçou os cabelos do mais novo. Ele realmente amava o garoto, como se fosse seu neto biológico. Depois de Nagato, o homem desistiu da ideia de ter outros descendentes, porque era óbvio que Naruto não tinha planos de ter filhos, uma vez que ainda mantinha a insegurança de como criava o ruivo pequeno. Apesar do envolvimento estável com Ino Yamanaka, o velho senhor sabia que ambos não tinham planos de formar uma família.

– Eu acho que ele vai adorar! – Naruto surgiu de repente e incentivou. Fingindo não ter ouvido a parte em que o afilhado explicava o que aconteceu mais cedo. Por sorte, o miúdo só falou o resumo de toda a situação. Ele não queria que o homem soubesse do beijo, porque teria que entrar em outros tópicos que não convinham no momento. Minato não sabia de nada do que acontecera, nem do pequeno desentendimento que tiveram, antes dos Uchiha embarcarem de volta para o Japão.

Era passado e o que passou, passou. Nada mais importava naquele instante, exceto a conversa inadiável que pretendia ter com Sasuke, assim que voltasse para casa. Depois, era só seguir com a própria vida, como se nada tivesse acontecido, assim como antigamente.

Bom, pelo menos, era o que ele esperava...

(***)

– Nagato é um ótimo pintor. – Kakashi comentou casualmente, parando atrás de Naruto e observando a tela pequena, onde se encontrava uma bola laranja com traços pretos desenhados meticulosamente por mãos infantis. De acordo com o menino, era um retrato de Kyuubi.

O homem mais velho estendeu uma caneca de genmaicha para o rapaz, antes de ocupar o sofá ao lado. A TV ligada zunia um filme antigo e mesmo as vozes alteradas dos personagens não foram eficazes em desconcentrar o loiro, que ainda analisava atentamente os contornos descuidados do afilhado, em cima do tecido branco. Ao fundo, existiam alguns riscos desiguais em diversos tons de verde, os quais o Uzumaki suspeitava que fosse o gramado do jardim.

– Estou vendo que ele vai seguir a mesma profissão dos avôs. – ele respondeu com um sorriso, depositando o painel com cuidado em cima da mesa.

Naruto tentou se mexer pouco, pois a cabeça ruiva do garoto estava em seu colo, fazendo-o de travesseiro. O menino havia caído no sono, enquanto fazia companhia para o padrinho; Kyuubi aos seus pés. Ele pegou a xícara que lhe era oferecida, com um meneio de agradecimento.

– Ele será um artista talentoso. – o mais velho sorriu e se acomodou no outro sofá. – É um aprendiz rápido com uma personalidade ousada. Ele é um pouco confuso e ponderado demais, mas acredito que sejam características as quais podemos trabalhar com o tempo. – meditou, tomando um gole do próprio chá.

– Pelo visto, já o adotou como discípulo. – o loiro brincou, acariciando os fios vermelhos distraidamente.

Kakashi sorriu; os cantos dos olhos se enrugando com a ação.

– “Discípulo” é uma palavra muito forte. Eu diria apenas que ele é o meu aluno. – deu uma piscadela. – Mas, não é sobre esse assunto que quero conversar. – começou, encarando o outro homem com um semblante sério.

Naruto ponderou um momento, rodando a caneca entre as mãos e encarando a TV como se realmente prestasse atenção no enredo do filme. Uma parte dele já sabia o que o esperava. Seus pais eram perceptivos e deviam ter reparado, antes mesmo que ele externasse seus anseios, que algo o incomodava. Era um alívio e um aborrecimento. Os mais velhos tentavam não o pressionar sem necessidade, mas, quando percebiam que a situação se tornava preocupante, ambos tomavam providências. Aos menos, os dois tentavam respeitar o seu próprio espaço, sem se impor demasiadamente.

– Sobre o quê? – ele perguntou, lambendo os lábios de forma insegura.

– Nagato me contou sobre o que aconteceu essa manhã. Ele estava chateado, e preocupado também, com o seu temperamento. – respondeu em um tom de repreensão, que começou a irritar o Uzumaki. – Eu não sei ao certo o quanto é difícil ser responsável por uma criança, porque, quando comecei a me envolver com o seu pai, você já era crescido o suficiente para ser dono do próprio nariz. Mas, eu conversei muito com Minato sobre você e o passado. – ele suspirou e tomou um gole do próprio chá, encarando distraidamente o desenho em cima da mesa de centro. – Eu me vi em você, sabe por quê? Eu também tive um pai solteiro, que me dava pouca ou nenhuma atenção em casa, porque estava preocupado demais em como faria para me sustentar e me criar sozinho.

Naruto começou a morder o lábio inferior com força, indeciso sobre o que dizer e pensar naquele momento. Ele sabia que Kakashi também tinha perdido a mãe e o pai muito cedo, mas nunca o ouvira comentar sobre o assunto, sem que fosse superficialmente. O mais novo também evitava forçar esse tipo de diálogo, pois sabia que era um tópico sensível para qualquer pessoa. Mesmo depois de superada a perda de um ente querido, os sentimentos que envolviam a ausência eram extremamente delicados.

– Eu só entendi pelo que o meu pai passou, quando eu conheci o seu; assim como você o entende agora também, por cuidar do Nagato. – se inclinou e apoiou o cotovelo nos joelhos, para poder encarar o rapaz à sua frente. – Não cometa os mesmos erros que nossos pais cometeram, Naruto. Converse com o Nagato, seja mais claro e sincero; ele é apenas uma criança, mas é esperto e já percebe tudo ao seu redor, com certeza vai compreender seus medos, seus anseios, suas dúvidas... Fingir que nada o preocupa só aumenta a distância emocional entre vocês, deixando-o tenso, frustrado e irritado.

– Eu... – começou, mas hesitou. – Eu nunca tinha pensado nisso. – divagou, enquanto massageava a testa com a ponta dos dedos. – Eu sou tão idiota.

O homem sorriu e balançou a cabeça, ao mesmo tempo em que bagunçava os fios dourados da cabeça do seu próprio afilhado. Ele amava aquele moleque como se fosse o seu próprio filho.

– Sim, você é. – concordou em um tom de troça. – Mas, não é nada que não possa ser trabalhado com o tempo também. – se levantou para caminhar até a cozinha. – Apenas esteja ciente de que são essas emoções negativas e acumuladas, que você joga em cima do garoto. Admitir os próprios erros é um passo fundamental para iniciar uma mudança. – concluiu, colocando a caneca na pia e voltando para a sala de estar.

Naruto ergueu uma sobrancelha para o devaneio do padrasto.

– Você e o meu pai estão cheio de pensamentos filosóficos hoje. – comentou sarcasticamente, enquanto acariciava distraidamente os cabelos vermelhos do seu protegido. Ele precisava colocar Nagato na cama.

– É a convivência. – o outro respondeu, começando a subir as escadas para o andar superior, já estava tarde e o dia fora agitado, ele estava exausto.

O mais novo sorriu e balançou a cabeça negativamente. Com um último olhar para o garoto que estava em seu colo, ele decidiu que já estava na hora de ir para a cama. Pegando-o nos braços e o ouvindo resmungar pelos movimentos incessantes, ele desligou a TV pelo controle remoto e chamou Kyuubi com alguns estalos de língua. A raposa somente o olhou através de pálpebras sonolentas e voltou a dormir, ignorando-o. Desistindo, o Uzumaki se dirigiu ao seu antigo quarto e depositou o menino no colchão macio. O lugar já estava preparado para ambos e Naruto suspeitava que seu pai houvesse ajeitado o cômodo para acomodá-los, enquanto os dois brincavam no piso inferior.

Ele acariciou os cabelos vermelhos do afilhado por um momento, avaliando a conversa de alguns minutos atrás. Dúvidas ainda martelavam a sua cabeça. O loiro não tirava a razão do padrasto, mas em sua mente, manter Nagato ciente dos seus conflitos não mudaria absolutamente nada. A princípio, ele não sabia o que fazer, embora soubesse muito bem de que precisava mudar o seu gênio; seu temperamento. O homem não era mais um adolescente para se deixar levar pela cabeça quente; ele precisava ser mais consciente e ponderado sobre as próprias emoções e atitudes.

(***)

– Você vai dormir aqui nesse final de semana, enquanto arrumo o quarto do Nagato para você. – informou, abrindo a porta e mostrando o interior limpo, estéril e organizado.

Aquilo era novo para Sasuke. Ele esperava tudo, mas nunca um ambiente tão sóbrio. Aquela era uma das muitas provas de que Naruto não era mais aquele garotão de 18 anos que conhecera. É claro, havia uma pequena bagunça aqui e ali, mas nada muito exorbitante como costumava ver na época em que o rapaz cursava Vídeo e Mídia na California State University. Não havia mais nada laranja extravagante espalhado pela acomodação e nem pôsteres da equipe de Baseball, San Francisco Giants, pendurado nas paredes.

Por um segundo, ele ficou na dúvida.

– Esse é o quarto do Naruto? – perguntou, deixando as malas pesadas e enormes descansarem no canto esquerdo da entrada.

O mais velho apenas concordou com a cabeça, sem comentar mais nada; ele não sabia o que o seu irmão estava esperando, no final das contas. Uma parte do caçulo apenas acreditava encontrar algum indício de que sobrara algo de que conhecia. Fora Itachi e Ino, não havia sobrado muito, pelo que parecia.

E ele não sabia se ficava decepcionado, ou não.

– Descanse um pouco. Já está tarde e a viagem foi longa, você deve estar cansado. Quando o jantar estiver pronto, eu te chamo para comer. – o outro aconselhou, uma vez que ambos ficaram conversando parte do dia e perderam a noção do tempo. Com um meneio simples, ele saiu e fechou a porta atrás de si.

Ao ouvir o clique da fechadura, a mente de Sasuke começou a trabalhar em cima das lembranças, de forma furiosa. Uma parte dele já esperava por aquilo, mas outra estava um pouco irritada por se deixar levar tão fácil por pequenos fragmentos de um passado que já não existia. Agora, ele provava um pouco do resquício do que diziam sobre o primeiro amor de infância.

Era estranho, mas apesar da miríade confusa de sentimentos, ele só acolhia de braços abertos, a saudade que aquele tempo lhe causava; a comoção interna que denotava o quanto aquela pessoa e aquele perfume inconfundível naquele quarto, foram importantes. O restante, o Uchiha se recusava a reconhecer.

Ele alisou a colcha azul marinho que cobria a cama, sentindo a costura firme na ponta dos dedos e respirando fundo o cheiro tão característico, que há 10 anos lhe causava um reboliço no estômago e no baixo-ventre. O odor era meio cítrico e almiscarado, rebelde como o seu proprietário. E ele sentiu, com uma ponta de alívio, que nem tudo havia mudado.

O armário embutido que cobria a parede da cabeceira era escuro, feito de madeira africana, assim como as prateleiras cheias de livros acadêmicos e a mesa com o computador superequipado. O carpete claro e a persiana de tecido salmão davam contraste e um pouco de luminosidade ao local, mas não tiravam o efeito estranhamente formal dos outros móveis. As únicas evidências de personalidade eram os pequenos porta-retratos espalhados através do cômodo; as canetas coloridas jogadas ao acaso na superfície plana da escrivaninha e a pequena bandeira do time do coração.

Sasuke mordeu o lábio inferior, contendo um sorriso. Realmente, nem tudo havia mudado.

Uma curiosidade crescente o fez abrir as portas do guarda-roupa, evitando o máximo de barulho possível – ele não queria chamar a atenção do seu irmão mais velho. As cores extravagantes e a sobriedade de alguns ternos e blazers se misturavam em um conjunto desigual, mas muito característico. Não era a epítome da organização, mas também, não era uma baderna completa. As peças estavam dobradas, mas amontoadas em uma pilha irregular e precária de equilíbrio.

Balançando a cabeça negativamente, ele se sentou na cama e olhou para as duas malas grandes e outra menor estacionadas no canto do quarto. Não havia o porquê de ficar remoendo aqueles devaneios em sua cabeça. Naruto seguiu em frente com a própria vida e ele também não era mais o garoto apaixonado que um dia fora no passado. Sasuke tocou a bola para frente e recomeçou tudo de novo.

Descartando os pensamentos anteriores como se fossem nada, ele se levantou e caminhou até a bolsa de mão, onde ele guardara seus eletrônicos e algumas mudas de roupas, caso alguma de suas bagagens fosse extraviada. O moreno separou o notebook com cuidado, colocando-o em cima da cama. Seu celular jazia “morto” na mesa de cabeceira, uma vez que a bateria havia ido embora com o passar das horas.

Preguiçoso demais para ligar os outros aparelhos, ele focou a atenção no tablet e digitou a senha da conexão wireless, que seu irmão tinha lhe passado mais cedo. As mensagens e notificações saltaram na tela colorida, mas ele só deu atenção para uma em especial:

[ Me avisa, quando chegar na Califórnia. ]

Ele sorriu debochadamente e digitou a resposta; os polegares batendo na superfície plana com a experiência e agilidade de um datilógrafo profissional:

[ Já está sentindo a minha falta? ]