Doctor Who - Primeira Temporada (2025)

4 Episódio 1 - A Noite das Mil Faces ( Parte 4 de 5)


A multidão começou a se dispersar ao redor, formando um círculo silencioso. Alguns olhavam com horror, outros com superstição fervilhando no olhar. Tóbee mantinha os homens de guarda, armas em punho, enquanto os mais velhos murmuravam preces de proteção.


A Doutora se ajoelhou ao lado do corpo contorcido. As luzes das tochas tremeluziam, lançando sombras deformadas sobre o chão.


Ela passou os dedos pelas veias inchadas do pescoço da criatura. A pele estava quente... mas não como febre... era como se o próprio tecido vibrasse, uma corrente instável de energia de origem incerta.


— Pulso... irregular... sinais nervosos ainda ativos... mas o padrão bioelétrico... está completamente fora de qualquer fisiologia humana ou animal que eu conheça... — ela murmurava, puxando do bolso um cilindro improvisado com sensores. Ligou o aparelho com um chiado. Os números dançaram erráticos na tela.


Nayeli ficou ao lado, inquieta.


— Doutora... ele... pediu ajuda... por que faria isso?


— Exatamente o que estou me perguntando. — respondeu ela, com um tom mais grave que o habitual. — Skinwalkers ou seja lá como chamam, são predadores. Imitadores. Eles enganam, caçam, manipulam... mas... suplicar por ajuda? Isso é novo... ou... — ela hesitou — ...ou tem algo por trás que ainda não conseguimos entender.


Ela se aproximou um pouco mais, abrindo uma pequena incisão na pele da criatura com uma lâmina cirúrgica que carregava no casaco. Ao invés de sangue, uma substância negra, quase como tinta misturada com óleo, escorreu... espessa... e pulsante.


— Não... — ela sussurrou, arregalando os olhos. — Isso não é só biológico... tem distorção temporal aqui... traços de energia dimensional... A criatura é a distorçao...


Antes que pudesse continuar o exame, um som repentino e profundo ecoou pela noite.


Um grave e familiar "VWORP... VWORP..." rasgou o silêncio como um trovão abafado.


Todos os olhares se voltaram para o centro da aldeia.


Ali... diante das cabanas... e das fogueiras apagadas... o ar começou a distorcer, girando em espirais de energia azul e dourada.


O chão tremeu levemente.


E então... com um estalo final... ela surgiu.


A TARDIS.


Materializando-se com sua forma inconfundível de cabine de polícia azul, as portas ainda fechadas, mas com as luzes do topo piscando como um farol no meio da escuridão.


Houve um murmúrio geral de pânico.


Alguns homens da aldeia deram passos para trás. Outros levantaram as armas como se esperassem que outro monstro surgisse dali.


Nayeli, porém, abriu um sorriso de puro alívio.


— A sua... casa... ela veio atrás de você...


A Doutora ficou de pé, os olhos fixos na TARDIS.


— Não... — disse ela num tom quase reverente — Ela veio porque sentiu o que eu senti. Alguma coisa... está prestes a acontecer... e ela quer estar no meio disso.


Tóbee aproximou-se, ainda desconfiado.


— O que diabos é aquilo?


— Nossa melhor chance de entender o que estamos enfrentando. — respondeu a Doutora, começando a andar em direção à TARDIS. — E se vocês quiserem sobreviver a essa noite... eu sugiro que parem de me impedir... e comecem a me ajudar.


Ela olhou por cima do ombro, com aquele sorriso determinado que só ela tinha.


— Porque isso... — apontou para o corpo ainda contorcido no chão — ...é só o começo. E se não pararmos agora, não terão outra lua para ver.


Sem perder mais tempo, empurrou as portas da TARDIS e entrou, deixando um rastro de expectativa... e medo... entre todos na aldeia.


Nayeli hesitou por um segundo... e então correu atrás dela, sem pensar duas vezes.


Lá fora... o vento mudou de direção.


E, no chão, o corpo do Skinwalker... começou a se mexer de novo.


Lentamente... como se algo... ou alguém... estivesse tentando forçar a saída.


Dentro da TARDIS, a Doutora parou por um instante, quase sem acreditar no que via.


As paredes, antes de tom sobre tom esverdeado com detalhes orgânicos e curvas suaves, agora haviam assumido um novo design: escuro, industrial, com painéis iluminados por milhares de pequenos LEDs azuis e roxos, cabos expostos correndo como veias tecnológicas entre os consoles. O chão metálico refletia a luz com um brilho frio, e o console central... oh, o console... agora parecia uma fusão entre engenharia galáctica e arte de um hacker: botões holográficos, monitores flutuantes e telas que respondiam ao simples toque do ar.


A Doutora girou sobre os calcanhares, de olhos arregalados.


— Você mudou... — disse ela, com um sorriso de surpresa genuína, passando as mãos pelas novas interfaces — Ficou mais... nervosa... elétrica... cheia de personalidade! E... linda. Absolutamente linda!


Ela girou uma alavanca com um estalo metálico e a tela principal se abriu em várias camadas de leitura.


Nayeli, parada perto da entrada, olhava tudo com uma mistura de fascínio e espanto.


— Isso tudo... estava aqui dentro... o tempo todo?


— Sim. — respondeu a Doutora, girando os controles com precisão — Por fora: uma caixa velha. Por dentro... — ela abriu os braços, como apresentando um palco — ...o maior laboratório de campo do universo.


Linhas de dados começaram a correr pela tela principal. A Doutora fez uma análise rápida: escaneou as amostras de tecido da criatura, os rastros energéticos colhidos na caverna e os resíduos temporais acumulados nas roupas de Nayeli.


O visor piscou com várias leituras de alerta.


— Matéria bioestrutural instável... padrão de mutação acelerada... sobreposição de frequências dimensionais... — ela franzia o cenho, falando cada vez mais rápido. — Isso não é só um Skinwalker tradicional... tem energia de fenda temporal aqui... distúrbios de tecido da realidade...


Ela girou outra alavanca. Um gráfico tridimensional surgiu, mostrando a estrutura molecular da criatura: camadas sobre camadas de código genético... mas com falhas grotescas... como se algo estivesse forçando uma fusão impossível.


— Isso... isso é uma tentativa de imitar... tudo. — concluiu ela, com um olhar sombrio. — Mas o corpo não está aguentando... o DNA está colapsando sobre si mesmo.


Antes que pudesse aprofundar a análise, um grito rasgou o ar.


Não vindo das caixas de som da TARDIS.


Vindo lá de fora.


Um urro... primal... de dor... e de algo mais... como se os próprios ossos da criatura estivessem se quebrando e se reformando ao mesmo tempo.


Nayeli correu até a porta, abrindo apenas o suficiente para olhar.


— Doutora... você precisa ver isso...


A Doutora a seguiu, encostando-se ao batente para observar.


O Skinwalker... deitado até pouco antes... agora se contorcia no chão da aldeia, os membros esticando em ângulos impossíveis. A pele rasgava em certos pontos, expondo camadas de tecido e músculos que pareciam mudar de forma a cada segundo.


Os olhos da criatura, antes negros como a noite, agora estavam alvejados... revirados... como se fosse cego... ou como se estivesse vendo algo muito além dali.


Hastiin e os outros da aldeia recuaram, alguns caindo de joelhos, apavorados.


O som dos ossos quebrando continuava... junto de um novo padrão de rugidos. Parte humano... parte animal... parte... algo que não tinha nome.


— Ele... ele tá mudando... de novo... — Nayeli sussurrou.


A Doutora respirou fundo.


— Não... — corrigiu, o olhar fixo e analítico. — Ele está... entrando em colapso.


Ela olhou para a TARDIS por um segundo... depois de volta para a criatura... e então para Nayeli.


— Preciso de mais dados. Preciso entender o que exatamente... o que começou tudo isso.


E já começava a correr de volta para o console.


Lá fora... o urro da criatura se elevava, fazendo as próprias pedras da aldeia tremerem.


E na tela da TARDIS... um novo alerta apareceu.


"Anomalia Temporal em Expansão."


A Doutora parou por um segundo... fechou os olhos... e sorriu de lado, como se reconhecesse o cheiro de perigo.


— Ótimo... — disse baixinho. — Agora ficou interessante.


O urro da criatura atingiu um tom tão agudo que parecia cortar o próprio ar. Todos na aldeia taparam os ouvidos, enquanto as crianças eram puxadas às pressas para dentro das tendas. Nayeli recuou, os olhos arregalados, a respiração presa na garganta.


No centro da clareira, o corpo do Skinwalker começou a se contorcer de forma mais violenta. As juntas estalaram com um som grotesco. O tórax inchou como se estivesse prestes a explodir… e então… as mudanças começaram.


Braços surgiram de onde antes havia costelas. Rostos começaram a emergir nas laterais do pescoço, nas costas, até mesmo nas palmas das mãos. Rostos... conhecidos.


O rosto de Kíyáani, com os olhos esbugalhados e a boca congelada num grito.


O rosto da própria Nayeli, ainda que distorcido, como uma pintura borrada.


O rosto da Doutora… três vezes… em ângulos impossíveis… cada um sorrindo de maneira mais macabra que o outro.


— Não... não... — Nayeli recuou mais um passo. — Isso... isso não pode ser real...


A criatura se ergueu com um movimento brusco. Seus múltiplos rostos começaram a gritar em uníssono, como um coral amaldiçoado. Uma mistura de vozes, cada uma sobreposta à outra, como se centenas de pessoas estivessem presas dentro daquele corpo deformado.


O chão tremeu.


E então... ela atacou.


Num salto impossível, a criatura atravessou a distância entre o centro da aldeia e uma das tendas mais próximas. As estacas de madeira voaram como se fossem feitas de palha, despedaçando-se no impacto.


Os aldeões começaram a correr, gritando, tentando se dispersar.


— Pra dentro! Todos pra dentro! — Hastiin Begay berrava, empunhando um velho rifle, disparando contra a criatura. As balas atravessavam o corpo, mas o Skinwalker apenas se moldava ao redor dos ferimentos, como se a matéria se recusasse a manter uma forma sólida.


A Doutora saiu da TARDIS aos saltos, correndo até Nayeli e puxando-a para trás de um monte de pedras.


— Certo! Respira! Olha pra mim! — disse ela, segurando o rosto da garota com as duas mãos. — Eu preciso que você confie em mim agora! Esse tipo de criatura está num ciclo de mutação descontrolada! Quanto mais medo, mais ela lê as emoções ao redor! Quanto mais agressão, mais ela cresce!


Nayeli tentava controlar o pânico.


— O que a gente faz?


A Doutora olhou em volta, avaliando o caos. O fogo das tendas começava a se espalhar. Mulheres e crianças corriam de um lado para o outro. Alguns guerreiros tentavam formar uma linha de defesa, mesmo com suas armas inúteis.


— Primeiro... precisamos tirar todos daqui! — disse ela, tirando a chave de fenda sônica do bolso e disparando contra um suporte de madeira, derrubando uma série de lonas para abrir um corredor de fuga entre as tendas. — Segundo... preciso de um pouco mais de tempo pra montar um plano.


O Skinwalker avançou outra vez, as bocas abertas de todos os seus rostos gritando nomes, repetindo frases ditas por moradores da aldeia... como se zombasse da humanidade deles.


De repente, uma das vozes gritou:


— Nayeli... por que você me deixou morrer?


A garota congelou.


— Kíyáani...? — sussurrou, a voz falhando.


A Doutora agarrou sua mão com força.


— Nayeli! Olha pra mim! Não é ele! Nunca foi! Não caia nisso!


A criatura golpeou o chão com uma força brutal, rachando a terra e derrubando mais duas tendas.


— Certo... — a Doutora respirou fundo, encarando a cena. — A TARDIS... agora.


Ela puxou Nayeli com ela, correndo entre os destroços, desviando dos ataques, até alcançar a porta da nave.


Uma última explosão de poeira e gritos se ergueu atrás delas quando a criatura soltou um novo urro.


Ao entrarem, a Doutora bateu a porta com força, girando controles com a urgência de quem está dançando numa corda bamba.


— Ok... TARDIS... me dá acesso ao sistema de contenção atmosférico... e... — ela apertou outro botão. — Me liga aos sensores externos! Quero uma leitura completa da composição molecular daquela coisa!


As luzes internas da TARDIS pulsaram como se a nave também sentisse a gravidade da situação.


No monitor, o espectro da criatura piscava em vermelho, com leituras instáveis de energia temporal, campos psíquicos e radiação extradimensional.


— Ela não está apenas tentando sobreviver... — murmurou a Doutora. — Está tentando... se replicar...


Ela virou-se para Nayeli, o olhar grave.


— Se não pararmos isso ago

ra... ela vai se espalhar. Não só por essa aldeia... mas por toda a linha do tempo.


Ela parou por um instante, respirou fundo... e sorriu de canto.


— Tá... hora de fazer o que faço de melhor. Mais uma vez.



A Doutora correu pelo console da TARDIS, os dedos deslizando freneticamente pelos painéis enquanto a nave vibrava com a sobrecarga de energia externa.



— Primeiro plano... contenção. — disse ela, ajustando os controles de escudo atmosférico. — Vou tentar projetar um campo de dispersão de partículas ao redor da aldeia... não vai segurá-la por muito tempo... mas talvez compre alguns minutos!



Nayeli, ainda ofegante, observava tudo com um misto de medo e fascínio.



— Você consegue mesmo fazer isso? Proteger a aldeia?



— Consigo tentar... — respondeu a Doutora, com aquele sorriso torto que misturava ousadia com um leve toque de desespero. — Mas vai precisar me ajudar. Eu preciso de um mapa mental de como a aldeia está disposta... os pontos de maior concentração de pessoas... e onde ela tem mais espaço pra se mover.



Enquanto Nayeli pegava um pedaço de carvão e começava a rabiscar no chão da TARDIS, a Doutora voltou ao monitor. As leituras de energia da criatura estavam ficando ainda mais instáveis. Algo nela estava... quebrando. A estrutura molecular oscilava entre estados sólidos e líquidos... o campo de distorção ao redor dela parecia à beira de um colapso.



A Doutora parou por um instante, encarando o visor com atenção.



— Espera... — murmurou, ampliando os dados. — Ela não está apenas atacando... Ela está... sofrendo.



As imagens térmicas mostravam flutuações violentas de temperatura interna. Cada mutação parecia mais dolorosa que a anterior. E agora... entre os gritos... havia algo novo.



Pedidos de ajuda.



— Nayeli... — a Doutora se virou para a garota. — Acho que ela... ou o que sobrou dela... está lutando contra si mesma. Uma parte dessa coisa quer sobreviver... mas outra... outra só quer que acabe.



Nayeli ergueu os olhos, assustada.



— Mas como... como a gente ajuda algo assim? Como se salva uma coisa que só sabe matar?



A Doutora respirou fundo, os olhos suavizando por um segundo.



— Primeiro... entendendo. Depois... escolhendo.



Ela se virou de novo para os controles, alternando a frequência do campo da TARDIS.



— Novo plano... Vou tentar forçar uma inversão de fase energética. Como um choque dimensional... empurrar ela de volta para a camada de realidade de onde veio. Mas... — ela fez uma pausa, olhando para Nayeli. — Se houver algo de consciente ainda lá dentro... talvez... só talvez... a gente consiga trazê-la de volta antes.



Do lado de fora, a criatura continuava o ataque. Suas formas agora se fundiam e se desfaziam em intervalos de segundos. Rostos surgiam e desapareciam como se estivessem sendo apagados e redesenhados por mãos invisíveis.



Hastiin Begay, armado com o rifle, gritava para os guerreiros da aldeia:



— Segurem as posições! Não deixem ela alcançar o círculo central!



Explosões de poeira e madeira quebrada ecoavam por todos os lados. O chão já estava cheio de sulcos, como se a própria terra estivesse tentando fugir.



A Doutora, agora de volta à porta da TARDIS, gritou para Nayeli:



— Pronta pra correr de novo?



Nayeli assentiu com força, mesmo com o medo nos olhos.



— Sempre.



As duas dispararam para fora da TARDIS, a Doutora com a chave de fenda sônica em mãos, Nayeli carregando a tocha de volta, como um farol no meio do caos.



— Hastiin! — a Doutora berrou para o chefe militar. — Mantenham distância! Vou tentar uma coisa!



Ela correu até o centro da aldeia, bem à frente da criatura que oscilava entre o monstro e os rostos das vítimas.



A Doutora ergueu a chave de fenda para o céu.



— Certo... Vamos ver se você escuta isso...



Um pulso sônico cortou o ar.



O tempo pareceu congelar por um segundo.



A criatura parou de avançar... e caiu de joelhos.



Os múltiplos rostos se contorcendo... e um único som escapou de todas as bocas ao mesmo tempo...



— Por favor... me ajude...



A Doutora baixou a chave... o olhar agora mais humano do que nunca.



— É exatamente isso que eu vim fazer...



A Doutora se aproximou devagar, com as palmas das mãos erguidas, os olhos fixos na criatura que agora tremia no centro da aldeia como um animal ferido. Os rostos em sua superfície oscilavam entre agonia e confusão, os olhos de cada um implorando por algo que eles próprios pareciam não entender.



— Respira... calma... — murmurou a Doutora, como se falasse com um ser humano à beira do colapso. — Eu sei que dói... tudo dentro de você tá lutando... puxando em direções diferentes... Mas eu preciso que me escute... me escute de verdade.



Ela ativou um pequeno projetor de campo portátil, uma peça de tecnologia improvisada a partir dos circuitos da TARDIS, e começou a emitir uma frequência baixa, modulada com o padrão de ondas cerebrais humanas em estado de calma.



Nayeli se manteve ao lado, com o olhar dividido entre o medo e a esperança.



— O que você tá fazendo? — perguntou a jovem, com a voz trêmula.



— Tentando estabilizar a mente dela... ou... o que restou dela. — respondeu a Doutora, com os olhos fixos nas leituras. — Se eu conseguir diminuir o pico de atividade neural... talvez a parte que ainda é... consciente... consiga tomar o controle.



Do lado de fora, os guerreiros da aldeia assistiam em silêncio. Alguns com as armas ainda erguidas, os dedos tensos nos gatilhos.



A criatura arqueou as costas, soltando um grito gutural, e as vozes de dezenas de pessoas ecoaram em descompasso, como se todas gritassem juntas. O chão ao redor dela começou a rachar levemente.



A Doutora avançou mais um passo.



— Eu sei que você tá com medo... eu também estaria. Mas escuta: o que tá acontecendo com você... essa mutação... não é só sua culpa. Tem algo interferindo... algo distorcendo as regras desse lugar. Eu vi os rastros... o deslocamento dimensional... — ela respirou fundo, com os olhos brilhando de determinação. — Mas eu posso ajudar. Posso te tirar desse ciclo. Se você me deixar.



Por um breve instante... os múltiplos rostos da criatura começaram a se fundir num só.



O corpo oscilava... tremia... as articulações estalavam como se estivessem se realinhando. De dentro da massa disforme, uma silhueta mais humana começou a emergir. Ainda retorcida... ainda coberta de camadas de pele que não pareciam pertencer a ela... mas agora com um formato reconhecível.



Um rosto.



Feminino.



Jovem.



Assustado.



Nayeli cobriu a boca, engolindo o choro.



— É... é alguém da aldeia?



A Doutora estreitou os olhos, analisando as feições.



— Não... — respondeu ela, com um sussurro carregado de surpresa. — Eu não a conheço... mas ela parece... perdida. Como eu...



A criatura... agora quase em uma forma humanóide... desabou no chão, respirando com dificuldade. As lágrimas misturadas à sujeira e ao sangue escorriam pelo rosto.



— Por favor... me tira daqui... — sussurrou ela, com a voz quebrada, os olhos buscando os da Doutora como uma âncora.



Sem hesitar, a Doutora se ajoelhou ao lado, posicionando o projetor de campo ao redor do corpo dela.



— Vou precisar abrir um campo de suspensão temporal... só por alguns minutos... até a TARDIS recalibrar um casulo de contenção.



Ela ajustou os controles, ativando o campo. Pequenas partículas douradas começaram a envolver a jovem, estabilizando a estrutura molecular dela... por um breve e frágil instante.



Nayeli se aproximou, ajoelhando ao lado.



— Ela vai... vai conseguir?



A Doutora abriu a boca para responder, mas naquele exato momento... o som de um disparo cortou o ar.



O impacto foi seco.



O corpo da jovem se arqueou... e então tombou, com um filete de sangue escorrendo entre os lábios.



Por um segundo... o mundo pareceu parar.



A Doutora a segurou nos braços, os olhos arregalados de puro choque. O campo de estabilização se desfez imediatamente, as partículas douradas se dissipando no ar.



— Não... não... — ela murmurou, pressionando as mãos contra o ferimento, desesperada. — Fica comigo... fica comigo... você ainda pode....



— Ela era uma ameaça — disse ele, como se fosse a coisa mais óbvia e inevitável do mundo.



Nayeli gritou, cobrindo a boca em desespero.



A criatura, com a respiração falhando, abriu lentamente os olhos ao sentir os braços da Doutora ao redor de si. O campo de estabilização já havia se dissipado, mas ela ainda lutava para manter a consciência por alguns segundos a mais.



Com esforço, ergueu uma das mãos trêmulas, os dedos ensanguentados tocando de leve o casaco da Doutora.



O olhar dela… era de uma tristeza profunda, um cansaço antigo, como se séculos de dor se condensassem naquele instante.



Os olhos vagaram para o céu… onde as primeiras estrelas começavam a surgir.



— As estrelas… — ela sussurrou, com a voz rouca, quase um fiapo de som. — Faz tanto tempo… desde que vi elas de verdade…



A Doutora inclinou-se mais perto, segurando firme a mão da criatura.



— Fica comigo… eu posso te ajudar… posso te levar pra casa… — disse ela, com os olhos marejados, a voz embargando.



A jovem… ou o que restava dela… sorriu de leve. Um sorriso frágil… quebrado… mas verdadeiro.



— Casa… — repetiu ela, com um suspiro carregado de saudade. — Eu… só queria… voltar pra casa…



Os olhos se perderam no brilho distante do céu… e o último suspiro escapou de seus lábios.



Silêncio.



A Doutora ficou ali… imóvel… com o corpo sem vida nos braços… os olhos fixos nas estrelas como se buscasse nelas uma resposta.



Ao lado, Nayeli chorava em silêncio.



O chefe militar, ainda com o rifle em mãos, abaixou a cabeça. O peso do que tinha feito finalmente começava a afundar em seus ombros. O olhar dele oscilava entre a Doutora… o corpo… e suas próprias mãos.



— Eu… eu não sabia que… — ele começou a dizer, mas a voz falhou.



A Doutora, sem olhar pra ele, apenas disse, num tom baixo e amargo:



— Às vezes… o monstro não é aquele que parece um.



Ela fechou os olhos da jovem com cuidado… e ficou ali… por mais um longo minuto… antes de, finalmente, se levantar.A Doutora largou o corpo da criatura com cuidado no chão, o olhar pesado de dor e frustração. Num movimento rápido, virou-se para o chefe militar, que ainda estava parado ali, os olhos desviando, sentindo o peso da culpa. Sem hesitar, ela avançou, tomou a arma de suas mãos e apontou-a diretamente para a cabeça dele.



— Como você se sente agora? — a voz dela estava firme, cortante, carregada de raiva contida. — Depois de decidir quem vive e quem morre, como se fosse um juiz, um carrasco... Você acha que isso vai apagar o que fez?



O chefe engoliu em seco, a respiração irregular, o olhar fixo no cano da arma.



— Eu... eu só queria proteger minha tribo... — tentou se justificar, mas a voz soou fraca, insegura.



— Proteger? — a Doutora rebateu, os olhos faiscando de fúria — Proteger não sé desculpa para ignorar vidas, para fechar os olhos diante do que é o certo. Você matou alguém que estava pedindo ajuda. E isso... é imperdoável.



Ela apertou um pouco mais o gatilho, o cano ainda a centímetros da testa dele, o silêncio pesado preenchendo o espaço entre eles.



— Você vai viver com isso. E, se tiver um pingo de sorte, vai aprender alguma coisa antes de repetir o erro.



Ela finalmente jogou a arma no chão, dando-lhe um último olhar gélido antes de se afastar, os ombros ainda tensos, a mente cheia de perguntas sem resposta e o coração pesado pela perda que não podia consertar.