Doctor Who - Primeira Temporada (2025)

5 Episódio 1 - A Noite das Mil Faces ( Parte 5 de 5)



O dia amanhecia lentamente sobre a aldeia, tingindo o céu com suaves tons de laranja e rosa. O sol despontava no horizonte, iluminando as figuras silenciosas dos nativos que, apesar do cansaço e da dor, já se movimentavam para reconstruir o que a noite anterior havia destruído — consertando casas, limpando escombros, cuidando dos feridos.



No centro da aldeia, a TARDIS permanecia imóvel, sua luz azulada mais estável, quase familiar. A porta se abriu e a Doutora surgiu, vestindo uma roupa simples, mas com uma presença marcante.



Ela usava um casaco vinho de corte reto, feito de tecido leve, que caía até pouco abaixo dos quadris, ajustando-se ao corpo com elegância discreta. O tom profundo do casaco contrastava suavemente com a pele clara, dando-lhe um ar de sobriedade e calor ao mesmo tempo. Por baixo, uma camiseta azul de botões, fina e levemente amassada pelo uso, que deixava transparecer a praticidade de quem está sempre em movimento.



A calça de alfaiataria xadrez, em tons neutros de cinza e marrom, tinha um corte reto e impecável, conferindo-lhe um ar contemporâneo e refinado sem perder a funcionalidade. Nos pés, um par de All Star azul, já desgastado nas bordas, com cadarços levemente frouxos.



Nayeli, ao ver sua amiga daquela forma, sorriu com uma alegria sincera. O olhar da jovem brilhava, não apenas pelo visual, mas pelo reencontro, pela força que a Doutora emanava.



— Olha só quem voltou a brilhar — disse Nayeli, a voz leve, tentando esconder a preocupação ainda presente. — Essa roupa simples combina muito com você, Doutora.



A Doutora sorriu, ajeitando a gola do casaco e mexendo no cadarço do All Star.



— Gosto de coisas simples que funcionam — respondeu, com aquele brilho característico nos olhos. — Mas o que importa mesmo é que estamos aqui para consertar o que foi quebrado. E garantir que isso nunca mais aconteça.



Nayeli cruzou os braços, olhando para o horizonte.



— A tribo vai precisar de você. Ainda há medo e dúvidas. Eles querem respostas, não só explicações.



A Doutora caminhou até ela, tocando seu ombro com leve firmeza.



— O que aconteceu aqui irá virar contos, histórias. Lendas que afastaram invasores, as melhores histórias não precisam de explicações— Nayeli, você tem uma parte essencial disso. Tem uma coragem que eu admiro.



Nayeli desviou o olhar, meio tímida, meio desafiadora.



— Eu só quero ajudar. Como você disse, a teimosia não é exclusividade sua.



A Doutora riu, puxando Nayeli para um abraço rápido.



— Exatamente. Por isso vai fazer coisas fantasticas. Mas antes...





(...)





Nayeli observava a Doutora com atenção enquanto ela caminhava em direção ao corpo da criatura, ainda deitado com cuidado ao lado da TARDIS. O rosto do ser parecia mais calmo agora, como se, mesmo na morte, tivesse finalmente encontrado um instante de paz. O céu começava a ganhar tons mais claros, e uma brisa suave percorria a aldeia.



A Doutora parou por um momento ao lado do corpo, olhando para as estrelas ainda visíveis no céu da manhã. Seus olhos estavam marejados, mas havia uma determinação contida em cada gesto.



Nayeli se aproximou devagar, abraçando os próprios braços, como se tentasse se proteger do momento que sabia que viria.



— Você vai levá-lo, não é? — perguntou ela, a voz baixa, quase um sussurro.



A Doutora assentiu, agachando-se ao lado da criatura e começando a preparar uma manta improvisada para envolvê-lo.



— Ele... merecia mais do que encontrou aqui — disse, com a voz embargada. — Não era só um monstro. No fim... era só alguém perdido... com saudade de casa.



Nayeli ficou em silêncio por alguns segundos, observando os movimentos cuidadosos da Doutora. Então respirou fundo, criando coragem.



— E você? — perguntou. — Pra onde vai agora?



A Doutora sorriu de leve, mas com os olhos ainda carregados de tristeza.



— Primeiro... para as estrelas. Vou encontrar um lugar bonito... calmo... onde ele possa descansar. Depois disso... — ela olhou para Nayeli com um carinho genuíno — A vida continua. Sempre continua. Próxima aventura... próximo desafio, preciso das minhas respostas também



Nayeli assentiu, lutando contra a vontade de pedir que ela ficasse por mais tempo.



— Eu sabia que você ia partir. Faz parte de quem você é... Mas... volta um dia? — perguntou, com um sorriso tímido.



A Doutora se levantou, já com o corpo do ser envolvido, pronto para ser levado. Se aproximou de Nayeli e, com um gesto rápido e afetuoso, bagunçou o cabelo da jovem com a mão.



— Você já me conhece. Nunca digo adeus... só... até logo.


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Antes que a Doutora pudesse dar o primeiro passo rumo à TARDIS, um movimento chamou sua atenção. Um grupo de aldeões, liderados por Hastiin Begay, o chefe militar, aproximou-se lentamente. O olhar de Begay estava baixo, carregado de culpa e arrependimento. As expressões nos rostos dos outros eram um misto de respeito, alívio... e uma certa vergonha por tudo o que havia acontecido.



Begay respirou fundo, depois se adiantou um passo.



— Nós... devemos a você. — Sua voz era grave, mas mais contida agora, sem o tom autoritário de antes. — E... desculpas... pelo que aconteceu. Fizemos o que achávamos certo... mas agora... vejo que não foi.



A Doutora os encarou por um momento, em silêncio. O peso dos últimos acontecimentos estava estampado em seu rosto. Mesmo assim, ela respirou fundo, ergueu o queixo e suavizou um pouco o olhar.



— Eu sei que foi pelo medo. O medo faz isso com as pessoas... transforma julgamento em impulso... e impulso... em tragédia.



Ela lançou um último olhar para o corpo envolto na manta aos seus pés.



— Só espero que da próxima vez... escolham diferente, toda vida vale a pena... Seja ela a mais diferente de todas...



Os aldeões assentiram em silêncio, alguns deles murmurando palavras de gratidão e despedida. Uma anciã se aproximou discretamente, deixando no chão, perto da TARDIS, um pequeno amuleto de proteção feito com contas e penas. Um gesto humilde... mas carregado de significado.



A Doutora sorriu de canto, abaixando-se para pegar o amuleto com cuidado.



— Obrigada...



Com gentileza, ela ergueu o corpo da criatura e o levou para dentro da TARDIS. Por um instante, ficou ali dentro, acomodando o ser com o mesmo respeito que teria por qualquer outra vida. Ligou alguns controles, programou as coordenadas... e então, com um suspiro cansado, caminhou de volta até a porta para se despedir de Nayeli.



Nayeli hesitou só por um segundo... então correu na direção da Doutora e a abraçou com força. Um abraço apertado, sincero... carregado de tudo que as duas viveram juntas.



Surpresa no primeiro momento, a Doutora logo correspondeu, envolvendo Nayeli com os braços de maneira protetora. Ficaram assim por alguns segundos, apenas sentindo a presença uma da outra.



— Você vai fazer coisas incríveis, Nayeli... eu sei disso. — murmurou a Doutora, antes de se afastar com delicadeza, ainda com as mãos nos ombros da garota. — Cuide deles... Por mim, tá bem?



Nayeli enxugou os olhos rapidamente e tentou sorrir.



— Sempre.



A Doutora deu um último aceno para todos, os olhos passeando pelos rostos da aldeia... então subiu a rampa da TARDIS. Com um último olhar para Nayeli através da tela dos computadores da TARDIS... puxou a alavanca.


O som característico da TARDIS ecoou pela aldeia, e em poucos segundos... ela havia desaparecido.



(...)


O interior da TARDIS mergulhava num silêncio quase sobrenatural. A luz ambiente havia diminuído ainda mais, banhando o console central com um tom de azul profundo, como a calmaria antes de uma tempestade. As estruturas metálicas da nave, que em outros momentos vibravam com vida própria, agora pareciam segurar o fôlego junto com ela.



A Doutora caminhava com passos lentos e pesados até o centro da sala. A cada passo, o eco discreto de suas botas soava como batidas de um relógio, marcando o tempo entre o adeus e o vazio que vinha depois.



No chão, sobre uma plataforma improvisada de tecido, repousava o corpo. Ainda envolto na manta de linho cru, o semblante do ser — que em vida fora atormentado, distorcido e violento — agora parecia absurdamente calmo. Como se, finalmente, tivesse encontrado um instante de paz... mesmo que tardio.



Ela ajoelhou-se ao lado dele. Passou os dedos com delicadeza pela lateral da face… um gesto de humanidade… de redenção… ou, talvez, apenas de arrependimento. A memória das últimas palavras dele ecoava, tão recente quanto uma ferida aberta:



"Sinto falta de casa..."



Com um suspiro preso na garganta, a Doutora se levantou. Dirigiu-se ao console e, com movimentos suaves, ajustou as coordenadas para um campo estelar isolado. Um local fora de qualquer rota, distante de qualquer civilização. Um pedaço de céu só deles dois.



O som grave das engrenagens temporais ressoou como um lamento. A TARDIS deslizou suavemente até o ponto escolhido… materializando-se no coração de um espaço frio e solitário. Do lado de fora, o cosmos se estendia em todas as direções. Estrelas pálidas. Nebulosas como pinceladas de tinta suspensa. Um manto de tons suaves: lilás, azul, âmbar. Um lugar de silêncio absoluto… e de beleza mortal.



A Doutora caminhou até as portas. Abriu-as devagar… o campo gravitacional manteve a atmosfera interna intacta, mas lá fora… só o vazio.



Com cuidado, ela carregou o corpo até a soleira. Parou ali… apenas por um segundo… como se esperasse que alguma última palavra surgisse… que o universo lhe desse um sinal.



— Eu te prometi… que você voltaria pra casa… — ela murmurou, com a voz falha. — E… às vezes… o céu… é o mais perto de casa que a gente consegue.



Com um gesto delicado, deixou o corpo flutuar. Ele se afastou, deslizando em direção ao abismo estrelado… desaparecendo aos poucos como uma sombra dissolvida pela luz distante.



A Doutora permaneceu na porta, observando até que o último ponto visível sumisse no horizonte de estrelas. As lágrimas escorriam, silenciosas. Quando, por fim, fechou as portas da TARDIS, foi com uma lentidão ritualística… como se selasse aquele momento para sempre.



De volta ao console… os dedos ainda trêmulos… ela respirou fundo. Procurava alguma distração… algum comando a executar… qualquer coisa que não fosse pensar.



E então… veio o som.



Um leve roçar… quase imperceptível… como se algo tivesse sido deixado ali… por mãos invisíveis.



Ela olhou para o chão.



Ali… repousava um envelope.



Um papel de gramatura fina… de textura sedosa… cujas bordas ostentavam um intrincado desenho em dourado. Não parecia simples… havia algo nele que parecia… antigo demais… e ao mesmo tempo… novo demais.



A Doutora se ajoelhou, pegando-o com cuidado. Ao tocar o envelope, sentiu… por uma fração de segundo… um arrepio súbito na nuca. Como se algo… ou alguém… a estivesse observando.



Ela virou o cartão.



A caligrafia era… curiosa.



Refinada… mas com um leve toque de exagero… como alguém tentando parecer mais nobre ou clássico do que realmente era. Algo… teatral. A letra parecia… forçada… cheia de voltas desnecessárias… como se quem a tivesse escrito quisesse impressionar… ou provocar.



O texto, porém, era direto:



"Convidamos cordialmente para uma noite inesquecível:


Teatro Globe – Londres – Terra – Ano de 2025."



A Doutora arqueou as sobrancelhas.



Londres.


2025.


Um teatro.



Sua mente… ainda pesada com o luto… agora começava a girar com outra velocidade. Uma peça… Um convite… surgido do nada… no meio do espaço profundo… logo após um funeral solitário.



A coincidência era… improvável.


A oportunidade de ser uma armadilha… alta demais para ignorar.



Seus lábios esboçaram um sorriso enviesado. Aquele sorriso cínico, cansado… mas curioso… que só ela conseguia fazer.



— Claro… Porque… por que não? — sussurrou para si mesma.



Mas, antes de puxar as alavancas… por um breve instante… sentiu novamente aquela sensação… como um olhar invisível nas suas costas… como um eco de riso… abafado… vindo de lugar nenhum.



Ela congelou.


Olhou em volta.


Nada.



Apenas o som grave e eterno da TARDIS… pulsando… como se também… estivesse em alerta.



Sem mais hesitar… com um estalar de dedos… puxou as alavancas com firmeza. O motor temporal rugiu de volta à vida… e a TARDIS desapareceu no vórtice… deixando aquele período e se direcionando para os dias atuais em busca de respostas, mesmo tendo algumas suspeitas.





(...)



Londres não tinha o hábito de ser gentil. E naquela segunda-feira, parecia fazer questão de provar isso.



O som da chuva batia de leve no vidro da janela do pequeno flat, como se o tempo estivesse com preguiça de passar. Abby estava sentada no chão da sala, cercada por um campo de batalha feito de currículos amassados, cartas de recusa e folhas rabiscadas com ideias de empregos que ela sabia que nunca conseguiria.



A caneca de café, esquecida ao lado, já estava fria. Ela girava o lápis entre os dedos, encarando o teto com olhar perdido. O rádio tocava alguma música indie melancólica ao fundo, mas era só ruído agora.



Respirou fundo. Fechou os olhos por um instante. Tentou aquele exercício que leu em algum blog de saúde mental: inspirar contando até quatro, segurar por quatro, expirar em quatro tempos. Não adiantou.



Pegou o celular. Nenhuma mensagem nova. Abriu o app de empregos. Mais um silêncio virtual.



— Parabéns, Abby… você oficialmente se tornou a rainha do não-retorno… — murmurou, com aquele sorriso torto que usava quando queria evitar um colapso.



Levantou com esforço, pegou o moletom pendurado na cadeira e o vestiu por cima da camiseta amarrotada. No espelho da porta, deu uma olhada rápida. Olheiras profundas, cabelo castanho-avermelhado preso de qualquer jeito, e aquele olhar de quem já tinha se acostumado com a derrota.



Mas mesmo assim… ela abriu a porta.



Porque se tinha uma coisa que Abby ainda fazia… era continuar andando.





---



As ruas estavam molhadas e o vento gelado cortava as bochechas. Abby seguiu pela calçada, chutando pequenas poças, os fones de ouvido tocando uma música que ela mal registrava. Londres passava por ela como um filme que ela já tinha visto vezes demais.



Passou pela banca de jornais, ignorou o panfleto de entrega de sushi que alguém tentou lhe entregar e só parou quando percebeu que estava numa rua onde nunca andava: Bow Lane.



Foi então que viu.



Um envelope preto. Solitário. Deixado com cuidado no corrimão de ferro de uma escadaria que levava à entrada de uma estação de metrô desativada.



Ela congelou.



Olhou em volta. As pessoas passavam como sempre, com pressa, com os olhos grudados nos celulares, com fones nos ouvidos. Ninguém parecia notar o envelope.



Abby se aproximou, hesitante. Pegou o papel. Era mais pesado do que esperava. Tinha textura. Tinha… presença.



Abriu a aba com cuidado.



Dentro, um cartão preto, com letras douradas, impressas em alto-relevo:



"Você está convidada para uma noite inesquecível."



Ela franziu o cenho, dando uma risada seca.



— Claro… Porque o universo tá sempre pronto pra me dar presentes, né? — ironizou.



Mas antes que pudesse dobrar o cartão…


Algo aconteceu.



As letras… começaram a mudar.



Ela piscou, achando que era ilusão de ótica. Mas não era.



A tinta dourada parecia viva, escorrendo, se mexendo… como se o próprio papel respirasse. As palavras antigas desapareceram. No lugar delas, um novo texto foi se formando… devagar… como uma assinatura de tinta fresca.



Quando terminou… só uma única palavra restou:



"Abby"



Ela deu um passo para trás, o coração disparando no peito.



— Tá de brincadeira comigo… — murmurou, olhando ao redor, procurando alguma câmera escondida, algum idiota rindo de uma pegadinha elaborada. Mas a rua continuava indiferente. As pessoas seguiam seus caminhos. Ninguém olhava pra ela.



Ela tentou rasgar o cartão… mas o papel parecia feito de algum material estranho. Não cedia.



Tentou jogá-lo no lixo… mas os dedos se recusavam a soltar.



Aquela sensação de frio na nuca… de que alguém a observava… ficou mais forte.



Respirando fundo, enfiou o cartão de volta no bolso. E continuou andando. O resto do caminho foi automático. Ela mal lembrava como chegou até a porta de casa de novo.


Sentou-se no sofá, as mãos ainda tremendo um pouco. Tirou o cartão do bolso mais uma vez. O nome ainda estava lá.



Fixo.


Definitivo.


Como se sempre tivesse estado ali.



Ela olhou para o relógio. Quase 19h.



E mesmo com o medo latejando dentro dela… Abby pegou as chaves e saiu de novo.



Porque, no fundo, ela sabia…


Que esse convite não era o tipo de coisa que se ignora. E além do mais, não tinha muito mais o que fazer para ocupar e a curiosidade a aguçava ainda mais.





Notas finais
Doctor Who Retorna em '' Um Ensaio para Loucura ''