Doce Vingança
21 Sementes
Notas iniciais


A van preta com vidros escurecidos parou discretamente em frente à Escola Pública 187, no coração do Bronx. O prédio, antes cinzento e sem vida, agora exibia um mural vibrante com traços de arte urbana. Códigos binários se misturavam a silhuetas de crianças, circuitos, planetas e a frase em letras azuis:
“O futuro começa aqui.”
Katniss desceu primeiro, com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e óculos escuros. Usava jeans escuro, camisa polo azul-marinho com o logo da Atlas em prata discreto e um sobretudo. Peeta veio logo atrás, mais casual do que o normal — camisa polo azul-marinho também com a logo da Atlas, calça cáqui e tênis. O casal andava lado a lado, mãos entrelaçadas.
— Você vai me dizer por que estamos aqui? — Katniss perguntou, desconfiada.
— Só confia em mim — respondeu Peeta, apertando levemente os dedos dela.
Na porta da escola, Effie Trinket aguardava com um grupo de educadores e repórteres discretamente posicionados. Nada de flashes escandalosos. Era algo íntimo, controlado. Como Peeta havia exigido.
— Bem-vindos ao primeiro laboratório do projeto Atlas Seed Labs — anunciou Effie com um sorriso genuíno.
Katniss parou.
— O quê?
Peeta virou-se para ela, olhos brilhando.
— Seu projeto. Seu olhar. Sua ideia. Nós tornamos realidade. E você vai ver com seus próprios olhos o que começou.
Katniss ficou em silêncio, completamente tomada pela surpresa. Ela piscou algumas vezes, o rosto vulnerável, emocionado. Imaginava que ainda demoraria alguns meses até aquilo se materializar e sair dos slides que projetaram em uma das reuniões.
— Peeta…
— Vem. Deixa eu te mostrar.
Ele a guiou para dentro. O corredor havia sido todo pintado pelas próprias crianças da escola, sob a supervisão de artistas locais. Em vez de paredes descascadas, havia explosões de cores, citações de grandes inventores e cientistas, e fotos das próprias turmas.
E então chegaram à sala do laboratório.
Luzes de LED. Ar-condicionado ligado. Computadores modernos. Impressoras 3D em funcionamento. Kits de robótica sobre as bancadas. Cabos organizados em trilhos inteligentes. Telas touchscreen nas paredes.
E crianças. Muitas crianças. Entre 10 e 14 anos. Sentadas em estações duplas, algumas com olhos arregalados diante das interfaces, outras mexendo em placas de Arduino como se fossem peças de LEGO.
— Eles estão em aula experimental de prototipagem — explicou uma das coordenadoras. — Já estamos na terceira semana de uso e o engajamento subiu 80% nas disciplinas de exatas. E acredite se quiser, ninguém falta mais às aulas nas quartas — disse com um sorriso orgulhoso.
Uma garotinha negra de tranças decoradas com fitas coloridas se aproximou, tímida.
— Você é a moça que teve a ideia disso aqui?
Katniss se agachou, emocionada.
— Talvez eu seja. Mas sabe o que é mais legal? Foi você quem deu vida a isso.
— Eu quero ser engenheira. Igual a minha mãe queria ser, mas não pôde — disse a menina.
Peeta se agachou ao lado das duas, sorrindo.
— E agora você vai poder. Nós vamos garantir isso.
A menina se jogou num abraço espontâneo. Katniss a envolveu sem hesitar, os olhos marejados.
— Obrigada, moça.
Katniss riu, olhando para Peeta. Ele deu de ombros.
— Eu disse que seria especial.
Na saída, Johanna apareceu do nada com óculos escuros, um copo de café e sua língua afiada.
— Alguém para essa dupla antes que eles ganhem um Nobel e deixem todos nós parecendo inúteis.
Peeta riu. Katniss enxugou uma lágrima.
— Você sabia desde o início?
— Eu sabia que você era brilhante. Só precisava de espaço para mostrar isso. E agora o Bronx inteiro vai ver — disse ele, segurando o rosto dela com carinho.
Lá fora, os alunos se juntaram para uma foto. Ao centro, uma placa prateada brilhava com os dizeres:
“Atlas Seed Labs — Transformando ideias em futuros.”
Katniss olhou para o letreiro. Depois, para Peeta.
— Eu nunca vou conseguir te agradecer por isso.
— Você já agradeceu. Só por existir.
Entre sorrisos e cliques suaves das câmeras, o casal sabia — aquilo era só o começo.
✦✦✦
O apartamento de Delly e Johanna tinha aquele tipo de aconchego que não se comprava com dinheiro. Apesar de amplo, não era ostentoso, mas era vivo. Havia plantas espalhadas perto das janelas, fotografias em porta-retratos desalinhados, livros empilhados em lugares improváveis e uma mesa de jantar que claramente já tinha sido palco de muitas conversas importantes.
O cheiro de comida caseira preenchia o ambiente.
Katniss ajudava Delly a finalizar a sobremesa enquanto Johanna e Peeta discutiam algo perto do fogão — uma conversa atravessada por provocações, risadas e o sarcasmo habitual de Johanna.
— Se você queimar isso, Mellark, eu juro que te expulso da minha cozinha — ameaçou Johanna, apontando a colher como se fosse uma arma.
— Relaxa, guerreira. Eu sei respeitar território sagrado — respondeu Peeta, rindo.
Katniss observava a cena com um sorriso discreto. Era fácil esquecer, naqueles momentos simples, tudo o que haviam enfrentado para chegar ali. O passado parecia distante quando estavam cercados por pessoas que os amavam de verdade.
O jantar foi leve. Conversas soltas, risadas espontâneas, histórias da festa de noivado recente de Katniss e Peeta, a surpresa do projeto em vigor da Atlas Seed Labs, planos de viagens futuras, pequenas provocações.
Mas havia algo diferente no ar.
Katniss percebeu primeiro.
Delly estava inquieta. Ansiosa demais. Silenciosa em momentos em que normalmente falaria demais. Johanna, por outro lado, parecia… ensaiada. Como alguém que planejou mentalmente uma conversa difícil várias vezes.
Foi depois da sobremesa, quando as taças de vinho estavam pela metade e o clima confortável já havia se instalado, que Johanna apoiou os cotovelos na mesa e respirou fundo.
— Tá — disse, de uma vez. — Antes que eu desista, vamos falar logo.
Delly arregalou os olhos.
— Joh...
— Não, amor. — Johanna segurou a mão dela com firmeza. — A gente combinou. Juntas.
O silêncio se espalhou.
Peeta pousou o garfo com cuidado. Katniss cruzou as mãos no colo, atenta.
— O que foi? — Peeta perguntou, gentil.
Johanna inclinou-se um pouco para frente, encarando primeiro Katniss, depois Peeta.
— A gente conversou muito nos últimos meses. — Começou. — Muito mesmo. E não foi uma conversa simples.
Delly respirou fundo e continuou, a voz doce, mas firme:
— A gente quer ter um filho.
Peeta piscou, surpreso, mas não desconfortável.
Katniss manteve o olhar atento, sereno.
— Bem, não sei se o processo dará certo logo de cara. — Delly se apressou a explicar. — Mas… queremos construir isso. Uma família. Do nosso jeito.
Johanna apertou a mão da esposa.
— E a gente quer fazer isso juntas. Sem esconder nada. Sem atalhos tortos.
O coração de Katniss bateu mais lento. Ela já intuía onde aquilo chegaria.
— Por isso… — Delly olhou diretamente para Peeta agora, os olhos marejados. — A gente queria te fazer um pedido. Um pedido muito grande. E que só faz sentido se for um sim dos dois.
Peeta endireitou-se na cadeira.
— De mim… e da Katniss?
Johanna assentiu.
— A gente queria que você doasse material genético — disse, sem rodeios. — Para que a Delly possa engravidar.
O silêncio que se seguiu não foi pesado. Foi reverente.
Peeta demorou alguns segundos para reagir. Seu primeiro impulso foi olhar para Katniss.
Ela estava calma. O rosto neutro, mas o olhar aberto. Sem choque. Sem reprovação.
— Claro que nada disso acontece sem o consentimento de vocês dois. — Delly acrescentou rápido. — Principalmente seu, Katniss. A gente jamais faria algo que te deixasse desconfortável.
Johanna respirou fundo.
— Amor não é posse — explicou. — É escolha. E a gente só quer seguir se essa escolha for de todos.
Katniss sentiu algo se mover dentro do peito. Não era dor. Nem ciúme. Era… compreensão.
Ela olhou para Peeta.
E assentiu.
Simples assim.
Peeta arregalou os olhos.
— Você… — Ele começou, claramente surpreso. — Você está bem com isso?
Katniss sorriu de leve.
— Estou.
A resposta foi firme, mas suave.
Por dentro, os pensamentos dela se organizaram silenciosamente.
Seria uma forma de Peeta ter um filho.
Uma forma de ver aquele desejo tão antigo dele ganhar vida.
E talvez… isso fosse suficiente.
Peeta engoliu em seco. A emoção subiu rápido demais.
— Eu… — Ele passou a mão pelo rosto. — Eu nunca imaginei que ouviria isso assim. Desse jeito.
Ele olhou para Delly.
— Você sabe que eu faria qualquer coisa por você.
Depois, para Johanna.
— E por você também. Sempre fui péssimo em dizer isso, mas vocês são família.
Johanna desviou o olhar, emocionada demais para disfarçar.
— Então… você aceitaria? — Delly perguntou, quase num sussurro.
Peeta respirou fundo.
— Eu aceito — declarou. — Se a Katniss estiver realmente de acordo.
Ele voltou o olhar para ela.
Katniss segurou a mão dele por cima da mesa.
— Claro que estou — repetiu.
Peeta sorriu, aliviado, emocionado… e sonhador.
— Quem sabe… — disse ele, meio rindo, meio sério. — Um dia a gente conta pra essa criança que ela nasceu cercada de amor por todos os lados.
Katniss apenas sorriu.
Deixou ele sonhar.
Johanna levantou-se abruptamente e puxou Delly para um abraço apertado.
— Droga… — murmurou. — Eu disse que ia chorar.
Delly riu entre lágrimas.
— Amor de todas as formas. Do jeito mais honesto que existe.
Peeta levantou a taça.
— Às famílias que a gente escolhe. — Brindou.
Katniss ergueu a dela.
— E às que ainda vão nascer.
Os quatro brindaram.
E naquele ambiente tão cheio de vida, um novo tipo de futuro começou a ser desenhado — não perfeito, não convencional, mas profundamente verdadeiro.
Amor, em todas as formas.
No decorrer da semana o loiro já estava no laboratório de genética assistida que era silencioso demais.
Não frio, apenas cuidadoso. Tudo ali parecia desenhado para não invadir, não assustar, não ferir. Tons claros, vidro fosco, profissionais que falavam baixo, como se compreendessem que aquele lugar lidava menos com corpos e mais com decisões que mudavam vidas.
Peeta assinou o último formulário com a caneta azul e respirou fundo.
Katniss estava sentada ao lado dele, a perna cruzada, a mão apoiada sobre a coxa dele de forma quase imperceptível — um gesto simples, mas que o mantinha seguro.
— Está tudo certo, Sr. Mellark — disse a médica, com um sorriso gentil. — Seus exames estão excelentes. Saúde perfeita. Perfil genético compatível. Podemos prosseguir quando quiser.
Peeta assentiu.
— Vamos fazer isso.
Ele se levantou quando a enfermeira o chamou, mas antes de segui-la, inclinou-se até Katniss.
— Obrigado — murmurou. — Por confiar em mim.
Ela sorriu de leve.
— Obrigado você. Por ser quem é.
A porta se fechou atrás dele.
Katniss ficou sozinha na sala por alguns minutos, observando os quadros na parede — imagens abstratas que falavam de começos, de continuidade, de futuro. Não havia ansiedade dentro dela. Apenas uma estranha sensação de… paz.
Quando Peeta voltou, parecia mais leve. Não havia constrangimento em seu rosto, apenas um brilho contido, algo entre responsabilidade e orgulho.
— Tudo certo — disse, sentando-se novamente ao lado dela.
Katniss assentiu, apertando de leve os dedos dele.
— Eu sei.
A inseminação aconteceu duas semanas depois.
Johanna não largou a mão de Delly em nenhum segundo.
O quarto era pequeno, acolhedor, com luz suave e música instrumental baixa. Delly respirava fundo, nervosa e emocionada demais para falar qualquer coisa coerente.
— Ei — murmurou Johanna, encostando a testa na dela. — Lembra do que eu te disse quando a gente decidiu isso?
Delly sorriu, os olhos marejados.
— Que a gente nunca faria nada sozinhas.
— Exatamente.
Katniss estava sentada em uma cadeira próxima, observando em silêncio respeitoso. Peeta permanecia ao lado dela, sério, atento, quase solene.
Quando a médica anunciou que o procedimento havia sido concluído, Delly começou a chorar — não de dor, mas de alívio.
Johanna beijou a testa da esposa com cuidado.
— Já é — sussurrou. — Já começou.
Peeta desviou o olhar por um segundo, sentindo algo apertar no peito. Katniss percebeu. Segurou a mão dele com firmeza.
Ele apertou de volta.
✦✦✦
O jantar de Ação de Graças aconteceu na mansão Everdeen.
A casa estava iluminada de forma acolhedora, com velas espalhadas pelos aparadores, guirlandas discretas e o cheiro inconfundível de comida caseira ocupando cada canto. O grande jardim ao fundo ainda guardava as cores do outono, folhas douradas espalhadas pelo gramado impecável.
A mesa principal parecia saída de uma revista: peru dourado no centro, travessas de purê, legumes assados, farofas variadas, molhos, tortas doces alinhadas sobre o aparador lateral. Taças de vinho, água aromatizada e sucos coloridos completavam o cenário.
Funcionários circulavam pela sala acomodando os últimos pratos.
Burdock com um sorriso orgulhoso, ajudava Asterid a acomodar os vasos de flores.
— Se alguém sair daqui com fome, eu mudo de profissão — comentou ele, arrancando risadas gerais.
Otho Mellark estava sentado à cabeceira oposta, conversando animadamente com Finnick sobre viagens e a vinícola da família na Itália, enquanto Annie observava tudo com aquele sorriso tranquilo de quem se sentia em casa. Anthony e Kate disputavam quem alcançava primeiro os pãezinhos, sob o olhar atento — e divertido — de Cato, enquanto Skye ria alto, incentivando a bagunça.
Presley, sentada perto de Katniss, analisava a decoração.
— Sério, Kat, sua mãe devia abrir uma empresa só pra organizar feriados. Isso aqui tá melhor que muito evento de gala.
Katniss sorriu.
— Ela leva datas comemorativas muito a sério.
— Isso explica o peru — comentou Peeta, olhando para o prato já cheio. — Se eu não levantar dessa mesa hoje, saibam que fui feliz.
Johanna riu alto, erguendo a taça.
— Últimas palavras clássicas antes do coma alimentar.
Delly, sentada ao lado dela, riu junto, mas manteve a taça de suco intacta diante de si.
O jantar seguiu leve, recheado de histórias antigas, provocações carinhosas e gargalhadas. Otho contou episódios da infância dos filhos, Finnick relembrou uma viagem caótica em família, Johanna fez questão de expor pequenas vergonhas alheias de Peeta — seletivamente.
Katniss, em meio à conversa, percebeu algo.
Delly ainda não havia tocado no vinho.
Ela franziu levemente a testa, mas não comentou nada. Peeta, porém, percebeu o mesmo. Seus olhos se cruzaram por um segundo — um acordo silencioso.
Quando as sobremesas foram servidas e as crianças já se espalhavam pela sala, Johanna se levantou discretamente.
— Ok — disse, batendo de leve a taça com a colher. — Antes que alguém entre em colapso de açúcar… Del, amor, vamos roubar o casal por um minutinho?
Peeta piscou, confuso.
— A gente fez alguma coisa?
— Ainda não — respondeu Johanna, sorrindo de lado.
Delly segurou a mão de Katniss com delicadeza.
— Prometo que não é nada assustador.
Eles se afastaram alguns passos, parando perto da janela que dava para o jardim iluminado.
Por um segundo, Delly respirou fundo. Johanna entrelaçou os dedos nos dela.
— A gente queria contar isso com calma. — Delly começou, a voz suave, mas carregada de emoção. — E longe da plateia.
Peeta sentiu o coração acelerar.
— Vocês estão me deixando nervoso.
Johanna sorriu.
— Relaxa, Mellark. É coisa boa.
Delly então olhou diretamente para os dois.
— Deu certo... Estou grávida.
O mundo pareceu silenciar por um instante.
Peeta levou a mão ao rosto, completamente tomado pela surpresa. Katniss sentiu o impacto como uma onda quente atravessando o peito.
— Delly… — murmurou ela, os olhos já marejados.
Johanna riu e chorou ao mesmo tempo, puxando Delly para um beijo rápido.
— Eu disse que ia explodir se não contasse.
Peeta respirou fundo.
— Isso é… isso é incrível.
Delly sorriu, a mão pousando instintivamente sobre o ventre ainda plano.
— Tem mais uma coisa — disse ela, agora com uma serenidade nova, firme. — A gente conversou muito. Pensou em cada detalhe.
Ela olhou para Katniss. Depois para Peeta.
— A gente quer que vocês sejam oficialmente os padrinhos.
Peeta arregalou os olhos.
— O quê?
Johanna cruzou os braços, satisfeita.
— Amor em todas as formas — disse. — E ninguém representa isso melhor do que vocês dois.
Katniss engoliu em seco.
— Vocês têm certeza?
— Absoluta — respondeu Delly. — Esse bebê existe porque vocês acreditaram. Porque estiveram presentes. Porque ensinaram, sem perceber, o que é família.
Peeta se aproximou primeiro, abraçando Delly com cuidado, depois Johanna. Estava emocionado demais para falar.
Katniss se juntou logo em seguida.
— É uma honra — disse, firme. — De verdade.
Delly sorriu, os olhos brilhando.
— Então… padrinhos?
Peeta assentiu, a voz embargada.
— Para sempre.
Katniss sorriu.
E, ao pensar naquele futuro que crescia dentro do corpo de Delly, ela não sentiu medo. Sentiu pertencimento.
Do outro lado da sala, risadas ecoavam, copos tilintavam, e o calor de uma família grande, imperfeita e verdadeira preenchia a mansão Everdeen.
✦✦✦
O fim daquela tarde em Manhattan tinha aquela luz dourada que fazia tudo parecer mais leve. Peeta e Katniss caminhavam de mãos dadas, rindo baixo, os casacos leves balançando com a brisa. A fachada de vidro da sede da Atlas brilhava atrás deles.
— Você quer o de creme ou o de canela? — perguntou Katniss, empurrando o ombro dele com carinho.
— Os dois. E talvez um de blueberry também. Você vai dividir comigo, né?
— Nem pensar. — Ela riu.
Foi quando passaram pela entrada de um beco lateral. E tudo desabou em segundos.
Um vulto saiu da sombra com fúria nos olhos.
Marvel.
O rosto coberto de raiva, barba por fazer, olhos injetados de dor. Ele agarrou Peeta pelo colarinho e o empurrou violentamente contra a parede de tijolos do beco.
— VOCÊ ARRUINOU A MINHA VIDA! — rugiu Marvel, desferindo um soco no rosto de Peeta.
Peeta tentou se defender, mas Marvel estava em fúria cega.
— Aquele baile… aquela maldita exposição… você sabia o que ela ia fazer? VOCÊ ESTAVA COM ELA?! — vociferou, socando de novo.
— Marvel, PARA! — gritou Katniss, correndo até eles.
Ela tentou puxá-lo, mas Marvel, fora de si, a empurrou com força sem nem olhar. Katniss caiu de lado, batendo o rosto contra a parede e o braço se chocando contra uma garrafa quebrada no chão. O vidro rasgou a pele, abrindo um corte que sangrou imediatamente, mais chocante do que profundo.
— KATNISS! — exclamou Peeta, tentando se soltar para alcançá-la.
Um casal que passava pela calçada ouviu os gritos e já falava com a polícia pelo celular.
Peeta reuniu força e empurrou Marvel com o ombro, o fazendo cambalear para trás.
— VOCÊ ENCOSTOU NELA! VOCÊ MACHUCOU ELA... DESGRAÇADO! — rosnou Peeta, o rosto ensanguentado.
As sirenes ecoaram um minuto depois.
Duas viaturas encostaram. Os agentes saíram armados, gritando comandos. Marvel não reagiu, ainda respirando pesado, como se só agora percebesse o que havia feito.
Foi algemado no chão. Katniss, pressionando o braço contra o corpo, o rosto pálido, olhava para Peeta com dor e alívio.
Peeta correu até ela, ajoelhando-se com cuidado.
— Fica comigo. Você vai ficar bem. Eu tô aqui. Eu tô aqui...
Ela segurou o rosto dele com a mão livre, ofegante.
— Você também tá machucado…
— Não importa. Nada importa. Só você.
Os policiais chamaram uma ambulância. E no beco de uma cidade que nunca para, o passado encontrou seu fim em sangue e sirenes, mas de certa forma, também em amor.
No quarto do hospital estava calmo demais. Apenas o som intermitente do monitor cardíaco preenchia o espaço, junto ao conhecido cheiro de álcool e antisséptico.
Katniss estava deitada, o braço direito enfaixado com cuidado. O corte, embora superficial, havia exigido alguns pontos para garantir uma boa cicatrização. Nada grave, mas o suficiente para assustar.
Peeta estava sentado ao lado da cama, o rosto ainda marcado por hematomas leves do confronto, mas o olhar focado inteiramente nela.
Ele observava os fios castanhos espalhados pelo travesseiro, o movimento lento da respiração dela. E segurava com delicadeza a mão esquerda de Katniss, que não estava machucada.
Ela acordou devagar. Os olhos cinzentos buscando por algo — e encontrando nele.
— Ei — disse Peeta, sorrindo suave. — Você voltou.
Ela tentou sorrir, mas o rosto ainda estava sensível.
— Você… tá bem?
— Eu tô ótimo. — Ele se inclinou e beijou sua testa. — Agora que você tá aqui, tô mais do que bem.
Ela olhou para o próprio braço enfaixado e soltou um suspiro baixo.
— Isso foi idiota…
— Foi coragem, amor... foi você, como sempre. —Ele se levantou e pegou a sacola sobre a mesinha. — Trouxe reforços.
Katniss arqueou uma sobrancelha, mesmo dolorida. Ele tirou de dentro uma caixa da Dunkin’ Donuts, com os donuts preferidos dela: creme, canela e blueberry. E junto, um copo de chocolate quente com o nome “Sra. Mellark?” rabiscado em caneta preta no copo de isopor.
Ela riu, apesar do desconforto.
— Você roubou meu título antes do tempo.
— Eu tô só testando o som dele… — disse ele, sentando-se ao lado da cama e abrindo a caixa. — Agora come. Os médicos disseram que açúcar ajuda a acalmar depois do susto.
Ela pegou o donut com a mão boa e mordeu, fechando os olhos com prazer.
— Deus, eu te amo.
Peeta parou por um segundo. Aquilo não era novo. Mas ali, naquele quarto frio, depois do medo, do sangue e da violência… aquilo era tudo.
— Eu também te amo — respondeu ele. — E nunca mais vou deixar ninguém te machucar. Nem eu. Nem mais ninguém.
Katniss puxou a mão dele contra o peito.
— A gente vai sobreviver a tudo isso, né?
— A gente não só vai sobreviver — sussurrou ele. — A gente vai viver. De verdade. — Peeta suspirou antes de prosseguir. — Liguei pra sua mãe e avisei ela sobre o que aconteceu, mas eu disse para não se preocupar que, assim que recebesse alta eu te levaria imediatamente para vê-la.
Katniss abriu e fechou a boca sentindo um certo incômodo surgir.
— Peeta... sabe como minha mãe é super protetora por causa da Pri...
— Da sua irmã. Eu sei. Lembro de você contando como seus pais lidaram com a perda e como você ficou depois... minha memória não é tão péssima assim. — Os dois sorriram, Katniss e Peeta conversaram sobre quando ele havia sido um idiota com ela, mas àquela memória do primeiro encontro deles, a ida ao cinema e depois ao Mc Donald's, era novidade.
E, entre um donut e um beijo na testa, os dois selaram uma nova promessa — não de perfeição, mas de permanência.
Na manhã seguinte, Katniss já estava vestida quando a médica entrou para a última checagem. O braço direito permanecia envolto em uma faixa leve, mais preventiva do que necessária. Alguns pontos, repouso por poucos dias, nada que a impedisse de voltar à rotina rapidamente.
— Está tudo certo — disse a médica, com um sorriso profissional. — Alta liberada. Evite esforço com o braço por alguns dias e mantenha o curativo limpo.
Katniss assentiu.
Peeta agradeceu, segurando os papéis da alta com uma força excessiva demais.
Quando ficaram sozinhos, ele ajudou Katniss a vestir o casaco com cuidado, como se ela pudesse se quebrar com um toque errado.
— Você tá exagerando — murmurou ela, com um meio sorriso.
— Vou exagerar por pelo menos mais uma semana — respondeu ele. — Depois eu negocio comigo mesmo.
Ela riu baixo. Mas, quando já caminhavam lentamente em direção ao elevador, Katniss ficou em silêncio por alguns segundos. O sorriso desapareceu aos poucos.
— Peeta… — disse, sem olhar diretamente para ele.
— Oi.
Ela respirou fundo.
— E o Marvel… o que acontece com ele agora?
Peeta parou de andar.
Por um instante, pareceu medir as palavras. Não queria mentir. Nem suavizar demais. Katniss merecia saber.
— Ele foi preso em flagrante — falou por fim. — A agressão foi registrada como tentativa de lesão corporal grave contra mim… e agressão contra você. Tem testemunhas, imagens de câmeras da rua e o relatório médico.
Katniss franziu levemente a testa.
— Tentativa de lesão grave?
— Ele me atacou repetidamente. — Peeta falou baixo, mas firme. — E te empurrou com força suficiente pra te ferir. Isso pesa. Bastante.
Ela engoliu em seco.
— Ele vai responder em liberdade?
— Não agora. — Peeta balançou a cabeça. — O advogado disse que, pelo histórico dele e pelo estado alterado em que estava, o juiz pode negar fiança inicialmente. Pelo menos até a audiência de custódia.
Katniss apoiou o corpo contra a parede do corredor, sentindo o peso daquilo tudo finalmente se acomodar.
— Eu não queria… — começou, mas parou.
Peeta se aproximou, segurando o rosto dela com delicadeza.
— Ei. Não é sobre o que você queria. É sobre o que ele fez. Ele cruzou uma linha, Katniss. E isso tem consequências. —Peeta respirou fundo. — Marvel sempre agiu dessa forma, esperando ser defendido pelos pais. Ele não amadureceu com o tempo. Não se importou e muito menos se arrependeu com o que fez com você no passado.
— Ele parecia… fora de si — sussurrou ela. — Como se tivesse perdido tudo.
— Ele perdeu o controle. — Peeta corrigiu com suavidade. — E isso não é responsabilidade sua. Nem minha.
O elevador chegou com um sinal discreto. Eles entraram.
Enquanto desciam, Katniss olhou para o reflexo dos dois no espelho metálico — o inchaço no lado direito de seu rosto, o curativo no braço, o hematoma leve ainda visível no rosto dele, as mãos entrelaçadas com força.
— Isso vai se arrastar, né? — perguntou ela. — Processo, advogados, manchetes…
Peeta soltou um suspiro lento.
— Provavelmente. — Fez uma pausa. — Mas eu vou até o fim. Não por vingança. Por proteção. Por você. Pela gente.
Ela assentiu.
— Eu só não quero que isso vire outra coisa grande demais.
— Já virou — respondeu ele, com honestidade. — Mas não vai nos engolir. Não dessa vez.
O elevador parou no térreo.
Antes de sair, Katniss apertou a mão dele.
— Obrigada por não esconder isso de mim.
Peeta beijou a testa dela com cuidado.
— A gente enfrenta tudo juntos. Até as partes feias.
E enquanto atravessavam o saguão do hospital em direção à luz do lado de fora, ambos sabiam: aquele ataque não tinha sido apenas um rompante de violência.
Era o início de um processo longo.
E o passado, finalmente, começava a ser responsabilizado.
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