Doce Vingança
22 Mudança
Notas iniciais


A reunião tinha sido uma daquelas que drenavam até a alma.
Katniss ainda sentia a pressão na nuca, como se a luz fria da sala executiva da Atlas estivesse grudada na pele. Investidores, conselheiros, um cronograma impossível, e a sensação constante de que, quando Peeta Mellark entrava em um ambiente, tudo virava um campo de batalha sofisticado — com sorrisos afiados e frases polidas que escondiam veneno. Fim de ano era sempre caótico.
Ela ajeitou o casaco quando as portas do elevador privativo se fecharam atrás deles.
Peeta permaneceu em silêncio por alguns segundos, os olhos azuis fixos no reflexo dos próprios sapatos no chão espelhado. O terno impecável parecia uma armadura… mas Katniss sabia. Sabia pelo jeito como ele soltava o ar. Pelo modo como afrouxava a gravata como se estivesse desamarrando um nó do peito.
Quando o elevador começou a subir, ele finalmente falou:
— Eu juro que, se mais um daqueles homens tentar me explicar o meu próprio negócio, eu vou jogar um deles pela janela.
Katniss soltou uma risada baixa, cansada.
— Você não pode jogar investidores pela janela, Peeta.
— Eu sei. — Ele virou o rosto para ela, e o olhar estava exausto… mas também tinha aquela faísca que sempre a desarmava. — Mas posso imaginar. E isso já me ajuda.
Ela encostou a cabeça no ombro dele por um segundo. Um gesto pequeno. Íntimo. Quase automático.
O elevador subiu em silêncio, embalado apenas pelo som suave do mecanismo.
Quando as portas se abriram na cobertura, a atmosfera mudou como se o mundo inteiro tivesse ficado do lado de fora.
O apartamento de Peeta era o oposto da Atlas: quente, silencioso, amplo, com a cidade brilhando do lado de fora como um cenário. A luz baixa das luminárias embutidas deixava tudo com cara de refúgio.
Katniss tirou o casaco primeiro e as botas depois. A sensação do chão frio sob os pés foi quase um alívio físico.
Peeta largou a pasta na bancada, tirou o sobretudo, o blazer, o relógio do pulso e ficou parado por um instante, olhando para ela como se precisasse confirmar que ela estava ali de verdade.
— Vem — disse ele, simples.
Katniss ergueu uma sobrancelha.
— Pra onde?
Peeta caminhou até ela e tocou a cintura dela com as duas mãos, puxando-a devagar, como se quisesse desacelerar o mundo com aquele gesto.
— Pra banheira.
A palavra veio quase como um peso íntimo. Um convite.
E Katniss não recusou.
O banheiro da suíte principal parecia um hotel de luxo.
Mármore claro, espelhos enormes, velas aromáticas que Peeta acendeu sem dizer nada, como se já tivesse feito aquilo mil vezes — mas só agora tivesse alguém para dividir.
A banheira era funda, grande, feita para dois.
Katniss observou enquanto ele girava o registro e a água começou a correr, quente, preenchendo o espaço com vapor. Ele colocou um pouco de espuma e, por um instante, ela achou que aquilo era a versão mais estranha e bonita de intimidade — um homem como Peeta Mellark, acostumado a negociar milhões, ali… preparando um banho como se fosse a coisa mais importante do mundo.
E talvez fosse.
Ele tirou a gravata e jogou sobre a bancada. Depois a camisa.
Katniss não evitou olhar.
Não por malícia. Mas porque ela gostava de ver quem ele era quando tirava as camadas do mundo.
Quando entrou na banheira, primeiro ele, depois ela, o corpo dela relaxou de um jeito que a surpreendeu. A água quente abraçou sua pele como uma promessa.
Peeta soltou um suspiro longo, apoiando a cabeça no mármore.
— Eu odeio reuniões que começam com “precisamos conversar sobre riscos”.
Katniss riu, inclinando-se um pouco para encostar o ombro no dele.
— Você não gosta de riscos?
— Eu sou um risco — respondeu ele, com um sorriso de canto.
Ela virou o rosto para ele.
— Você é um problema.
Peeta abriu os olhos e a olhou.
— Um problema que você escolheu.
Katniss ficou quieta por um segundo.
Então, como se o silêncio fosse perigoso demais, ele quebrou com algo que parecia… leve. Quase casual.
— A Delly me mandou uma coisa hoje.
Katniss piscou.
— Delly?
Peeta assentiu, e algo no rosto dele suavizou imediatamente. A tensão da reunião parecia ter evaporado.
— Ela está… completamente encantada com essa fase.
Katniss franziu levemente a testa.
— Que fase?
Ele sorriu como se a resposta fosse óbvia demais para precisar ser explicada.
— A descoberta da gravidez.
Ah.
Katniss sentiu o coração dar um salto estranho. Não de alegria. De alerta.
Peeta continuou, sem perceber o microsegundo de tensão que atravessou o rosto dela.
— Cinco semanas. — Ele soltou um meio riso incrédulo. — Cinco semanas, Kat. Ela fez a primeira ultrassonografia hoje à tarde.
Katniss manteve o rosto neutro.
— Já?
— Foi consulta de confirmação. Ver se está tudo certo. — Ele inclinou o corpo para fora da banheira e pegou o celular na bancada. — Ela me mandou assim que saiu da clínica.
Katniss observou o rosto dele ser iluminado pela tela.
Ele virou o celular para ela.
— Olha.
Katniss viu a imagem.
Era quase abstrata.
Um fundo escuro.
Um pequeno saco gestacional.
E no centro… um pontinho minúsculo.
Só um ponto claro, discreto, quase invisível.
Mas Peeta estava olhando como se fosse a oitava maravilha do mundo.
— É só um pontinho… — murmurou ele, a voz mais baixa. — Mas é um bebê.
Katniss engoliu em seco.
Peeta aproximou o celular.
— Dá pra ver aqui… — Ele tocou a tela com cuidado, como se tivesse medo de machucar algo. — A médica disse que está tudo certinho pra cinco semanas.
Ele desligou a tela devagar, mas o sorriso continuou ali.
— Elas já estão falando em chá revelação.
Katniss arqueou levemente a sobrancelha.
— Já?
Peeta riu.
— Johanna contou que cada uma já escolheu um nome.
— Claro que escolheu — concordou Katniss.
Peeta apoiou o celular de volta na bancada e passou as mãos pela cintura dela, distraidamente.
— Se for menino, a Johanna quer chamar de Dylan.
Katniss sorriu de leve.
— Dylan Mason. Combina.
Peeta assentiu.
— Combina. — Ele fez uma pausa. E então, disse mais suave. — Se for menina… Delly quer chamar de Joy.
Katniss repetiu mentalmente.
Joy.
O nome parecia pequeno demais para o peso que carregava.
Peeta inclinou a cabeça para trás, olhando o teto por um segundo.
— Eu gostei dos dois nomes. — Ele sorriu, nostálgico. — Dylan… Joy… tem algo forte nos dois.
Katniss observava cada microexpressão dele.
O brilho. A ternura. O jeito como ele parecia… emocionado de verdade.
Não era euforia.
Era algo mais calmo.
Mais profundo.
Ela puxou o assunto com cuidado.
Como quem pisa em gelo fino.
— Você gosta mesmo disso, né?
Peeta voltou os olhos para ela.
— Do quê?
— De… tudo isso — apontou ela, discretamente para onde o celular estava. — Bebê. Nome. Chá revelação. Família.
Peeta não hesitou.
— Gosto.
Simples.
Direto.
Katniss apertou os dedos contra a espuma.
— E se…
A voz dela saiu mais baixa do que ela pretendia.
— Se eu não quisesse isso?
Peeta piscou.
— O quê?
Ela respirou fundo.
— Filhos.
A palavra ficou no ar como se o vapor entre eles fosse uma sentença.
Peeta ficou em silêncio por um segundo.
Dois.
E então… sorriu.
Um sorriso leve.
— Katniss… — Ele passou o polegar pelo ombro dela, desenhando círculos distraídos — Você não precisa pensar nisso agora.
Ela tentou insistir.
— Mas e se eu nunca quiser?
Ele inclinou o rosto, o sorriso ainda ali, doce demais.
— Amor… você está cansada. Aquela reunião te drenou. — Ele aproximou o corpo do dela, encostando a testa na dela. — A gente não precisa resolver o futuro hoje. Hoje a gente só precisa… respirar.
Katniss ficou imóvel.
Ele não tinha entendido.
Ou talvez tivesse entendido, mas não quis enxergar o peso da pergunta.
E antes que ela pudesse tentar de novo…
Ele mudou de assunto.
Naturalmente.
Quase cruel, mas sem intenção.
— Aliás… — Ele a puxou um pouco mais para perto, como se quisesse substituir aquela tensão por algo mais concreto. — Você precisa começar a trazer suas coisas pra cá.
Katniss piscou.
— O quê?
Peeta a encarou com um meio sorriso.
Falou como se fosse óbvio. Como se já fosse uma realidade:
— Praticamente não dorme mais na casa dos seus pais. Você vive aqui. — Ele tocou a bochecha dela com a ponta dos dedos. — E eu… eu quero que pare de fingir que isso não é sua casa também.
Ela o observou, tentando entender a mudança brusca.
— Peeta…
— Daqui a pouco a gente casa. — Ele beijou suavemente o ombro dela.
O assunto “filhos” evaporou como vapor na superfície da água.
Katniss não tentou puxar de volta.
Talvez por medo.
Talvez por exaustão.
Talvez porque o olhar dele naquele momento fosse tão sincero que ela não teve coragem de atravessar aquela alegria.
Ela apenas encostou a testa na dele e sussurrou:
— Você realmente quer que eu venha morar aqui?
Peeta franziu o cenho, a expressão mudando na mesma hora. Como se a pergunta tivesse o ferido.
— Está tendo alguma dúvida? — perguntou, apreensivo.
Katniss o encarou por um segundo.
E então se moveu.
Virou na banheira com cuidado, ficando de frente para ele. A água se agitou. Espuma deslizou pelo ombro dela. Se sentou no colo dele devagar, como se aquele gesto fosse uma resposta mais clara do que qualquer frase.
Peeta prendeu a respiração quando ela encaixou as pernas ao redor do quadril dele.
As mãos dele foram para a cintura dela imediatamente, firmes, protetoras.
Katniss segurou o rosto dele com as duas mãos.
E disse, olhando diretamente nos olhos dele:
— Não tenho dúvida alguma de que quero estar com você de todas as formas, meu amor.
O silêncio que veio depois foi tão cheio que parecia um abraço.
Peeta fechou os olhos por um instante, como se aquela frase fosse uma coisa que ele precisava ouvir há anos, mesmo sem saber.
Quando abriu de novo, os olhos estavam mais suaves.
Ele beijou a testa dela.
— Então vem. De verdade — sussurrou ele. — Não como visita. Não como “quase”. Vem como minha.
Katniss engoliu em seco.
Aquele “minha” era perigoso.
Mas, naquele momento… também era tudo.
Katniss o beijou profundamente antes de sair primeiro.
A pele ainda quente, os cabelos úmidos escorrendo pelas costas, o roupão branco amarrado na cintura de um jeito displicente — como se ela não soubesse o quanto aquilo era capaz de desmontar um homem.
Peeta saiu logo depois.
Sem pressa.
Como se não existisse mais nada no mundo além do som do próprio coração.
Ele passou a toalha no cabelo, largou no ombro e caminhou até ela. Katniss estava diante do espelho, passando hidratante nos braços, a expressão calma, mas os olhos ainda brilhando por causa do banho… e do que tinha ficado suspenso dentro dele.
Peeta parou atrás dela.
Não disse nada.
Apenas encostou o corpo no dela, devagar.
Katniss sentiu.
A respiração dele no pescoço. A presença.
Os braços de Peeta envolveram sua cintura por trás e a puxou contra o peito, como se estivesse encaixando algo que sempre pertenceu ali.
— Você sabe… — Começou com a voz baixa, rouca, carregada de sono e desejo. — Que quando você acorda assim, bonita desse jeito… eu fico completamente sem defesa.
Katniss fechou os olhos por um segundo.
— Sem defesa? — ela provocou, quase rindo.
Peeta beijou o ombro dela.
Depois o pescoço.
Beijos lentos, sem pressa, como se o tempo fosse uma coisa que ele pudesse dobrar com a boca.
— Sem defesa, sim — confirmou, a voz quase um sussurro. — Você acha que eu sou todo controle… mas com você…
Katniss virou o rosto um pouco, o olhar encontrando o dele no reflexo do espelho.
Peeta passou os dedos pela clavícula dela com delicadeza.
E então falou em italiano, baixo demais, como se fosse uma confissão.
— Mi fai impazzire, Katniss.
Trad-[Você me deixa louco, Katniss.]
Katniss sentiu um arrepio imediato.
— Você fala isso sempre.
— Porque é verdade sempre.
Ele puxou o laço do roupão dela só o suficiente para deixar o tecido abrir um pouco no colo, sem pressa, sem vulgaridade — apenas intenção.
Katniss engoliu em seco.
Peeta beijou a nuca dela.
— Amore mio… — murmurou ele. — Você tem noção do que faz comigo?
Katniss virou de frente para ele, ainda dentro do banheiro.
As mãos dela subiram para o rosto dele, molhado, quente, e ela o beijou.
Um beijo lento.
Profundo.
Peeta respondeu como se estivesse faminto — não de corpo, mas dela.
Do jeito dela.
Da presença dela.
Quando o beijo se quebrou, ele encostou a testa na dela.
— Eu amo você — disse, como se aquilo fosse a parte mais perigosa do que qualquer outra coisa.
Katniss respirou fundo, os olhos brilhando.
— Eu sei.
Peeta sorriu.
— Você sempre sabe.
E a mão dele apertou a cintura dela com firmeza, fazendo Katniss suspirar, fechando os olhos por um segundo… como se tivesse esquecido o mundo inteiro. E, ele fez com que realmente ela esquecesse.
Mais tarde, Katniss já estava no quarto, deitada, enquanto Peeta ficou na sala por alguns minutos.
Ele disse que ia buscar água.
Mas, na verdade, precisava… de um segundo só.
Um segundo sem ninguém vendo.
Sem ninguém ouvindo.
Peeta encostou no balcão da cozinha, pegou o celular e abriu a conversa com Delly.
A foto ainda estava lá.
A ultrassonografia.
Aquele fundo escuro.
Aquele pontinho minúsculo.
Nada mais.
E, mesmo assim, ele ficou olhando como se fosse a coisa mais preciosa que já tinha visto.
Peeta sorriu.
Um sorriso pequeno, silencioso.
Quase infantil.
Ele ampliou a imagem com os dedos, como se quisesse enxergar mais do que o olho humano podia.
— Oi, pontinho… — sussurrou ele.
A voz saiu baixa, quase ridícula.
E, ainda assim… ele não se importou.
Pensou em Johanna.
Pensou em Delly.
Pensou no jeito como Delly sempre sonhou com uma família e no jeito como Johanna fingia que não sonhava… mas sonhava.
Pensou no nome.
Dylan.
Joy.
E sentiu o peito aquecer.
— Vocês vão ser tão felizes… — murmurou.
E, por um instante, ele imaginou.
Uma criança correndo pela cobertura.
Uma risada pequena ecoando no corredor.
Katniss do outro lado, rindo também.
A ideia veio como um raio.
E ele afastou antes que doesse.
Peeta bloqueou o celular.
Respirou fundo.
Pegou a garrafa d’água.
E foi para o quarto como se nada tivesse acontecido.
Katniss estava deitada de costas.
O quarto estava escuro, exceto pela luz suave da cidade entrando pelas janelas enormes.
Peeta ainda não tinha chegado.
E, naquele silêncio, a mente dela fazia o que sempre fazia quando estava sozinha — abria as portas que ela mantinha trancadas.
Joy.
Dylan.
O nome repetiu dentro dela.
Joy.
“Alegria.”
Dylan.
“Filho do mar.”
Ela pensou em Delly com a mão na barriga.
Em Johanna fingindo sarcasmo, mas tremendo por dentro.
Em Peeta olhando a foto do pontinho como se fosse um milagre.
E então…
Ela sentiu medo.
Um medo frio.
Porque ela sabia o que vinha depois do amor.
Ela sabia o que vinha depois da alegria.
Perda.
Dor.
Ausência.
Ela apertou o lençol entre os dedos.
Joy.
Dylan.
Joy.
Dylan.
Como se repetir o nome pudesse neutralizar o pânico.
Katniss fechou os olhos e viu Prim.
Viu as trancinhas.
O vestido florido.
O corpo molhado.
A margem do rio.
O som aterrorizante que a mãe fez.
E o mundo inteiro desaparecendo.
Katniss respirou fundo, mas a respiração falhou.
— Não… — sussurrou para si mesma.
Não era sobre Delly.
Não era sobre Johanna.
Era sobre ela.
Sobre o que aquele brilho nos olhos do Peeta significava.
Sobre o que ele queria.
Sobre o que ela temia.
A porta do quarto se abriu.
Peeta entrou em silêncio, com uma garrafa d’água na mão.
Katniss virou o rosto devagar.
Ele se aproximou, deitou ao lado dela e puxou-a para perto sem dizer nada.
Katniss encaixou a cabeça no peito dele.
Ouviu o coração.
Forte.
Constante.
Peeta beijou o topo da cabeça dela.
— Você está longe — notou ele.
Katniss fechou os olhos.
— Só pensando.
Peeta passou a mão pelos cabelos dela.
— Em quê?
Katniss hesitou.
E então, quase sem querer, deixou escapar:
— Joy. Dylan.
Peeta ficou em silêncio por um segundo.
Depois sorriu no escuro.
— São nomes lindos.
Katniss apertou os olhos, segurando o medo.
Peeta não viu.
Ou fingiu não ver.
E, naquele instante, Katniss percebeu que o amor… às vezes, não era o que salvava.
Às vezes, era o que mais assustava.
✦✦✦
A luz da manhã entrou pelas cortinas da cobertura em faixas douradas, atravessando o quarto ainda silencioso.
Peeta dormia de bruços, o lençol baixo na cintura, a respiração profunda e tranquila — algo raro para alguém que carregava tantas decisões nas costas. A tatuagem de âncora entre as escápulas parecia mais suave sob a luz do amanhecer.
Katniss já estava acordada.
Ficou alguns segundos apenas observando. O contorno do ombro. A curva da coluna. A âncora — símbolo dele, mas que, de algum jeito, também era dela.
Ela se inclinou devagar e beijou a pele morna das costas dele.
Peeta murmurou algo incompreensível.
Katniss deslizou os lábios até a tatuagem, beijando exatamente sobre o desenho.
— Acorda, capitão — sussurrou.
Ele se mexeu, ainda meio perdido.
— Hm… cinco minutos…
Ela beijou de novo, mais demorado, deixando a ponta do nariz roçar a pele dele.
— Não.
Peeta abriu um olho, depois o outro, a voz rouca de sono.
— Você está usando táticas desleais.
Katniss sorriu contra a pele dele.
— Eu quero correr.
Ele virou o rosto no travesseiro, incrédulo.
— Correr? Agora?
— Agora. Antes que você invente uma reunião às sete da manhã.
Peeta finalmente se virou de lado, puxando-a pela cintura até que ela quase caiu sobre ele.
— Você acorda um homem com beijos estratégicos… pra correr?
— Sim.
Ele estudou o rosto dela por um segundo.
E sorriu.
— Cinco minutos.
— Dois.
— Três.
Ela beijou o canto da boca dele.
— Fechado.
— Só preciso passar a pomada aqui.
O braço direito ainda trazia a cicatriz recente — fina, rosada, protegida por pontos já removidos.
Ela sentou na beira da cama.
— A médica disse que se eu cuidar direitinho, quase não vai marcar — comentou, mostrando o tubo da pomada cicatrizante. — Dessas pós-cirúrgicas milagrosas.
Peeta ergueu-se e engatinhou até ela imediatamente.
— Você não precisava se machucar por mim.
— Eu não me machuquei por você. — Ela começou a espalhar a pomada com cuidado sobre a linha ainda sensível da pele. — Eu me machuquei porque ele perdeu o controle.
Ele observou em silêncio o cuidado dela consigo mesma.
Delly grávida.
Marvel preso.
E o ano quase acabando.
Katniss terminou de aplicar a pomada e levantou-se.
— Vamos?
Peeta arqueou a sobrancelha.
— Seu braço…
— Não está quebrado. Só marcado. — Ela sorriu de lado. — E eu preciso sentir que meu corpo ainda responde ao que eu mando.
Ele a puxou gentilmente pela cintura.
Vinte minutos depois, estavam na rua.
O céu estava cinza claro. Apenas o frio típico de início de dezembro, aquele que morde as bochechas mas não paralisa a cidade.
Ambos de preto. Moletom, tênis confortáveis. A cidade com comércios já decorados em clima de natal ainda despertava, o ar fresco da manhã limpando qualquer resquício da noite anterior.
Começaram trotando lado a lado.
O ritmo era confortável. Não competitivo. Apenas… compartilhado.
Katniss respirava fundo, sentindo os pulmões expandirem, o corpo respondendo.
Peeta olhou para ela de canto de olho.
— Você está feliz.
— Estou.
— Eu sabia.
Ela sorriu, mas não respondeu.
Viraram a esquina do parque. O sol começava a subir entre os prédios.
Por alguns minutos correram em silêncio.
Até que, naturalmente, as mãos se encontraram.
Primeiro os dedos roçando. Depois se entrelaçando.
Eles diminuíram o ritmo, quase caminhando.
— Falando em família… — Katniss começou, casual. — A Presley não mandou mensagem faz dois dias. E não vi nenhuma postagem de Milão.
Peeta soltou um suspiro leve.
— Ah. Isso.
— Isso o quê?
Ele revirou os olhos com carinho.
— Ela está transferindo o curso de moda para Nova York.
Katniss virou o rosto, surpresa.
— Sério?
— Segundo ela, “não dá pra namorar Jason Kim à distância”. — Ele fez aspas no ar. — Minha irmã e essa fixação por tudo que é dorama.
Katniss riu.
— Você é insuportável.
— Eu sou realista.
Ela desacelerou ainda mais.
— Ué, amor… se fosse você vivendo e trabalhando aqui e eu em outro país… como se sentiria?
Peeta parou.
Literalmente parou.
Katniss quase deu dois passos à frente antes de perceber.
Ele se virou para ela, sério de repente, e a puxou pela cintura, enlaçando-a ali mesmo no meio da calçada quase vazia.
— Totalmente perdido — disse sem hesitar. — Eu iria atrás de você. Transferiria a Atlas pra onde você estivesse.
Katniss levantou uma sobrancelha.
— Transferiria a Atlas?
— Sem pensar duas vezes.
Ela sorriu, satisfeita.
— Então dá pra entender a Pres.
Ele suspirou.
— Tem toda razão. Mas não sou insensível, é só que…
— Eu sei. — Ela tocou o rosto dele. — Você só quer o melhor pra ela.
Peeta assentiu.
— O que me deixa mais tranquilo é que o tio Haymitch vem com ela. Sei que Presley se vira sozinha… mas eu mesmo iria até a Itália só pra fazer companhia.
Katniss o observou com aquele olhar que ficava macio demais quando ele falava dos irmãos.
— Eu te amo, Peeta Mellark.
Ele sorriu de leve.
— Eu sei.
Ela balançou a cabeça.
— É tão lindo esse cuidado que você tem com eles. Esse carinho. Eles têm muita sorte de ter você como irmão.
O sorriso dele suavizou ainda mais.
Katniss ficou em silêncio por um segundo.
E, como acontece quando a manhã está muito bonita, uma lembrança veio sem pedir licença.
Prim correndo no quintal. Rindo. Os cabelos ao vento. Uma tarde comum que, na época, parecia eterna.
O sorriso de Katniss vacilou.
Peeta percebeu.
Sempre percebia.
Ele levantou a mão e tocou o rosto dela com delicadeza.
— Ela cuida de você durante seus sonhos.
Katniss piscou, surpresa.
— O quê?
Ele sorriu.
— Eu já vi você sorrindo enquanto dorme. Às vezes você sussurra o nome dela. Não é tristeza. É… saudade bonita.
Os olhos de Katniss marejaram sem que ela percebesse.
— Você presta atenção demais.
— É meu trabalho.
Uma lágrima escapou, silenciosa.
Peeta passou o polegar pela bochecha dela, enxugando-a.
— Ela cuida de você. De um jeito que você nem percebe.
Katniss respirou fundo, tentando manter a voz firme.
— Eu queria ter protegido mais.
Ele encostou a testa na dela.
— Você fez tudo o que podia. E continua fazendo.
Ela fechou os olhos por um instante.
O mundo ao redor parecia distante.
Peeta a puxou para um abraço breve, apertado, como se soubesse exatamente quanto peso ela carregava.
Depois se afastou com um meio sorriso.
— Pois é… quem sempre cuidou de mim foi o Finn.
Katniss ergueu o olhar.
— Você fala dele como se fosse um segundo pai.
— Às vezes era. — Ele deu de ombros. — Mas agora eu cuido deles.
Ela apertou a mão dele.
— E cuida muito bem.
Ele deu um beijo rápido na testa dela.
— Vamos passar no mercado? Você disse que estavam faltando algumas coisas.
Katniss fungou, rindo levemente.
— Sim. Café. Frutas. E talvez… aquela granola que você finge que não gosta.
Peeta fez cara de ofendido.
— Eu não finjo.
— Finge.
Eles retomaram a corrida, agora mais leve, mais solta.
De mãos dadas.
Entre conversas sobre supermercado, listas mentais e piadas sobre doramas.
Mas por baixo de tudo — sob o sol nascente, sob o ritmo sincronizado dos passos — havia algo mais forte.
Amor.
Simples.
Cotidiano.
E absoluto.
Alguns dias depois…
As caixas estavam espalhadas pela sala.
O apartamento, que sempre tinha sido impecável, agora parecia… vivo.
Havia roupas dobradas em cima do sofá, livros empilhados no chão, sapatos alinhados perto da entrada e uma pilha absurda de produtos de skincare no balcão do banheiro social.
Katniss estava sentada no tapete, de shorts e camiseta, o cabelo preso de qualquer jeito, abrindo uma caixa com etiquetas escritas em letra elegante.
Peeta surgiu carregando duas caixas ao mesmo tempo, como se aquilo fosse um treino.
— Onde eu coloco essa? — perguntou ele.
Katniss olhou para a etiqueta e riu.
— “Óculos. Não mexer.”.
Peeta fez uma careta.
— Você tem mais óculos do que uma ótica.
Katniss jogou uma almofada nele.
— Cala a boca.
Peeta deixou as caixas no chão e olhou ao redor. O apartamento estava… diferente.
Ele parecia mais quente. Mais cheio. Menos solitário.
— Sua mãe, como reagiu? — Ele quis saber.
— Hã... vejamos... Segundo ela, não desgrudo de você desde que começamos a sair e que eu estava grandinha... brincadeira. Ela disse algo parecido, mas com os olhos marejados iguais aos meus e prometemos uma a outra separar um dia da semana para o dia de mãe e filha. — Katniss mordeu levemente o lábio inferior, imersa em pensamentos profundos. — Já meu pai, exigiu que domingo temos que ir à sorveteria, pelos menos combinar um horário.
— Isso significa, nada de genro participando —presumiu ele, dando um sorriso enviesado.
— Tipo isso... — Katniss abriu a próxima caixa, a de cintos.
Peeta coçou a nuca e falou, bem-humorado, como se fosse uma constatação inevitável:
— Nossa… eu devia vender esse apartamento e comprar logo uma casa gigante.
Katniss ergueu a sobrancelha.
— Casa?
Peeta apontou para o caos ao redor.
— Sim. Porque, a esse ritmo… eu vou precisar transformar um quarto inteiro em closet exclusivo só pra você.
Katniss riu alto.
— Peeta!
Ele abriu os braços.
— Amor, eu estou falando sério. Isso aqui é uma invasão.
Katniss se levantou, caminhou até ele e o abraçou pela cintura, encostando o rosto no peito dele.
— Você está reclamando?
Peeta beijou o topo da cabeça dela.
— Eu estou me rendendo.
Katniss fechou os olhos.
— Esse apartamento é grande e confortável o bastante para nós.
E, por alguns segundos, tudo ficou em paz.
Mesmo com caixas.
Mesmo com assuntos que ainda doíam.
Mesmo com o futuro batendo à porta, esperando a hora certa de entrar.
Ainda haviam caixas abertas. Papel bolha espalhado pelo chão. Um abajur apoiado de lado no sofá. Katniss estava ajoelhada perto de uma caixa marcada como “livros importantes”, mas claramente misturada com lembranças que ela jurava que não tinha guardado.
Peeta estava no closet tentando, com esforço visível, reorganizar um espaço que já não era mais exclusivamente dele.
— Katniss — chamou ele de dentro do closet. — Eu preciso de um plano estratégico.
— Para quê? — respondeu ela, sem olhar.
— Para entender como você pretende fazer caber quarenta e três vestidos em um espaço que já estava matematicamente calculado.
Ela riu.
— Você está exagerando.
Peeta apareceu na porta do closet segurando três vestidos e uma expressão teatralmente ofendida.
— Eu contei.
Katniss ergueu os olhos.
— Você contou?
— Eu sou CEO de uma empresa de tecnologia. Contar é parte do meu trabalho.
Ela se levantou e caminhou até ele, tomando um dos vestidos das mãos dele.
— Eu prometo que não vou ocupar tudo.
Peeta inclinou a cabeça.
— Amor, eu quero que você ocupe tudo.
Ela abriu um sorriso pequeno, sincero.
E foi exatamente nesse momento que a campainha tocou.
Uma vez.
Depois outra.
E uma terceira, insistente.
Peeta olhou para Katniss.
— Eu não estou esperando ninguém.
Katniss franziu o cenho.
— Nem eu.
A campainha tocou de novo. Longa. Impaciente.
Peeta caminhou até a porta, ainda descalço, passando a mão pelos cabelos como se já previsse o caos.
Quando abriu…
— SURPRESA, POMBINHOS DOMÉSTICOS.
Johanna Mason entrou como se o apartamento fosse dela.
Cabelo preso em um rabo alto, óculos escuros enormes e uma sacola gigante pendurada no ombro.
Peeta piscou.
— Como você sabe a senha?
Johanna tirou os óculos.
— Loirinho sua senha é a mesma a do armário da época no MIT. Eu abria para pegar seu antitranspirante.
Katniss apareceu atrás de Peeta, cruzando os braços.
— Johanna.
Johanna analisou a cena.
As caixas. As roupas.
Ela sorriu lentamente.
— Ah... Vocês estão oficialmente “juntando as trouxas”.
Peeta suspirou.
— O que você quer?
Johanna ergueu a sacola dramáticamente.
— Notícias. E uma bomba.
Katniss estreitou os olhos.
— Que tipo de bomba?
Johanna entrou na sala, largando a sacola na mesa de centro.
— Do tipo que envolve Delly, hormônios e enjoos.
Peeta imediatamente ficou atento.
— Está tudo bem?
Johanna fez uma pausa teatral.
— Depende do que você considera “bem”.
Katniss já estava tensa.
— Johanna...
Ela abriu a sacola e tirou… uma mini tiara cor-de-rosa com um unicórnio brilhante.
— Delly comprou isso ontem.
Peeta piscou.
— Uma tiara?
Johanna levantou o dedo.
— Não uma tiara. A primeira de muitas. Porque, segundo a Delly, será uma menina.
Katniss tentou não rir.
— E você?
— Bem, minha aposta é em Dylan. Ok... falando sério, nascendo bem e saudável, vou estar feliz. Tudo isso já está sendo um milagre. — Johanna cruzou os braços. — Entretanto, ela jura que é menina, pois acordou dizendo que teve um sonho, onde comprava essa tiara que tinha visto em um site. E, não é que ela comprou!
Peeta soltou uma risada involuntária.
— Isso é meio fofo.
Johanna apontou para ele.
— FOFO? Ela já está fazendo uma lista de possíveis escolas. A criança ainda nem nasceu! E outra ainda nem sabemos o sexo.
Katniss sentou no braço do sofá, rindo agora.
— Isso é bem a Delly.
Johanna se jogou no sofá, exasperada.
— E tem mais. Ontem à noite, às duas da manhã, ela me acordou para discutir se “ela” vai preferir balé ou equitação.
Peeta arregalou os olhos.
— Às duas da manhã?
— Sim. — Johanna respirou fundo. — E quando eu disse que talvez a criança só queira brincar com areia… ela chorou.
Katniss cobriu a boca, tentando conter o riso.
— Hormônios.
Johanna apontou dramaticamente.
— EXATAMENTE. Hormônios.
Peeta caminhou até a mesa, pegando a tiara e observando como se fosse um objeto sagrado.
— Essa criança vai ser muito amada.
Johanna suavizou um pouco.
— Eu sei — suspirou ela. — E é por isso que eu estou fingindo que não estou completamente apavorada.
Katniss percebeu algo no tom dela.
— Apavorada?
Johanna deu de ombros.
— Eu sou ótima em resolver problemas. Em enfrentar crises. Em discutir contratos milionários. — Ela fez uma pausa. — Mas trocar fralda? Isso não estava no meu plano estratégico.
Peeta riu.
— Você vai ser incrível.
Johanna fez uma careta.
— Não espalha isso. Eu tenho reputação.
Ela se levantou, caminhando até as caixas espalhadas.
— E vocês dois? — perguntou ela, chutando levemente uma caixa com o pé. — Já estão no estágio “vamos comprar uma casa com jardim e cachorro”?
Peeta respondeu antes que Katniss pudesse falar:
— Eu estava sugerindo algo nessa linha.
Katniss lançou um olhar rápido para ele.
Johanna captou.
Porque Johanna sempre captava.
Ela ergueu uma sobrancelha lentamente.
— Hm.
Silêncio.
Peeta continuou, animado:
— Eu estava dizendo que talvez esse apartamento fique pequeno. Principalmente se…
Ele parou.
Johanna inclinou a cabeça.
— Se…?
Peeta riu.
— Se o closet continuar crescendo nesse ritmo.
Johanna soltou uma gargalhada.
— Ah, Mellark, você é tão inocente às vezes que dói.
Katniss sentiu o estômago apertar.
Johanna olhou de um para o outro.
Mas, surpreendentemente, decidiu não pressionar.
Em vez disso, abriu outra parte da sacola.
— Enfim. Eu trouxe brigadeiros porque Delly está cuidando da alimentação e doces não está no cardápio dela. — Ela revirou os olhos. — E eu me recuso a comer tudo sozinha, pois euzinha preciso urgente de açúcar. É isso ou beber meu estoque de gim.
Peeta pegou um imediatamente.
— Então oficialmente temos sobremesa.
Johanna cruzou os braços.
— E oficialmente vocês dois precisam de uma cafeteira maior. Porque se eu tiver que subir aqui de novo às duas da manhã por causa de mais uma crise existencial materna… vou precisar de muito café forte.
Katniss finalmente relaxou o suficiente para rir de verdade.
O apartamento parecia menor, mais cheio, mais vivo.
Johanna caminhou até a porta, já se despedindo.
— Ah, e mais uma coisa. —Ela se virou com aquele sorriso perigoso. — Delly está convencida de que a “Joy” vai ter “olhos como os do padrinho”.
Peeta congelou.
— O quê?
Johanna abriu a porta.
— Só estou avisando. Ela já está projetando características genéticas que não fazem sentido.
Katniss engasgou com o riso.
Johanna piscou.
— Boa sorte com isso, Mellark.
E saiu como tinha entrado.
Silêncio.
Peeta olhou para Katniss.
— Eu não tenho nada a ver com isso.
Katniss cruzou os braços, fingindo seriedade.
— Claro que não.
Ele se aproximou devagar.
— Você está rindo de mim.
— Estou.
Ele puxou a cintura dela.
— Injusto.
Ela ergueu o rosto para ele.
— Você seria um padrinho convencido se eu não rir.
Ele inclinou a testa contra a dela.
— Eu seria um padrinho maravilhoso.
Katniss sentiu o coração acelerar — mas dessa vez não por causa da piada.
Ela quase voltou ao assunto.
Quase.
Mas escolheu ficar ali.
Entre caixas, brigadeiros e a promessa silenciosa de que, mesmo com bombas cômicas… a vida deles estava ficando cada vez mais entrelaçada.
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