Notas iniciais
Olá bom dia amoras espero que estejam bem. Eu ando bem enjoada por conta do primeiro trimestre da gravidez então me perdoem por demorar em vir aqui postar. Já estamos encaminhando pra um final e não quis finalizar na vingança da Katniss, quero mostrar o pós. Agradeço o carinho de todas e principalmente da Vitória, minha fiel escudeira 😘❤️

O 23º andar estava diferente.

Não havia tensão corporativa nem gráficos ameaçadores projetados nas telas de vidro. No lugar disso, pequenas luzes douradas contornavam as divisórias, uma árvore minimalista ocupava o canto da sala de reuniões e caixas de panetone artesanal substituíam as pastas estratégicas.

Peeta estava de pé à cabeceira da mesa, sem gravata, mangas dobradas até os antebraços.

Johanna, encostada na parede, segurava uma taça de espumante.

— Antes que alguém tente trabalhar até meia-noite... — Começou Peeta. — Quero deixar uma coisa clara; a Atlas entra oficialmente em recesso a partir de amanhã.

Um murmúrio animado percorreu a equipe.

— Este ano foi… intenso. — Ele trocou um olhar rápido com Johanna. — Tivemos desafios públicos, pessoais, estratégicos. Mas encerramos o ano mais sólidos do que começamos.

Katniss estava sentada à lateral, elegante em um vestido verde-escuro de manga longa. Observava em silêncio orgulhoso.

— O Atlas Seed Labs já está funcionando. — Ele sorriu. — E isso só foi possível porque cada um de vocês escolheu permanecer.

Aplausos espontâneos.

Johanna levantou a taça.

— E porque o CEO finalmente aprendeu a ouvir conselhos.

Risos gerais.

— Aproveitem o recesso. Descansem. Fiquem com quem importa. Ano que vem a gente volta pra dominar o mundo — completou ela.

Peeta ergueu o copo.

— À equipe Atlas.

— À Atlas!

A música começou logo depois, Happy Christmas Everyone. Nada extravagante — jazz suave, luz baixa, brindes discretos. Não era uma festa de excessos. Era celebração de sobrevivência.

E, diferente do caos de meses atrás, o ano parecia estar encerrando em paz.

Apartamento de Cato – Noite de Natal

O apartamento estava aquecido por luzes amarelas e pelo cheiro de canela. Não havia ostentação. Havia cuidado.

A árvore ocupava a sala principal, decorada por Skye com enfeites desalinhados e orgulho absoluto. A enfermeira havia se retirado mais cedo, deixando apenas um número disponível caso fosse necessário. Otho estava acomodado em uma poltrona reclinável próxima à janela, usava uma calça caqui, camisa e suéter verde-escuro.

Cato circulava naturalmente pelo ambiente — camisa branca, mangas dobradas, postura mais leve do que meses atrás. Skye corria entre Anthony e Kate, enquanto Presley discutia animadamente com Jason sobre qual filme natalino era superior.

Asterid organizava os pratos com eficiência quase maternal. Burdock supervisionava o vinho como se fosse uma operação diplomática.

Annie estava sentada ao lado de Otho, conversando com ele em voz baixa. Finnick surgia da cozinha com um prato de rabanadas, satisfeito consigo mesmo.

— Avaliação médica oficial — disse ele, piscando para o pai. — Seu progresso está acima do esperado. Mas isso não te libera da dieta.

Otho riu baixo.

— Então hoje eu ignoro você como filho e como médico.

Risadas preencheram o ambiente.

Peeta aproximou-se do pai, ajoelhando-se ao lado da poltrona.

— Feliz Natal, pai.

Otho segurou a mão do filho com firmeza surpreendente.

— Feliz Natal, meu filho. Esse… é um bom ano.

Peeta assentiu, emocionado, mas sereno.

Foi quando Haymitch, segurando uma taça generosa de vinho, se aproximou da ala masculina dos Mellark e soltou, em italiano carregado de sotaque:

— Chi ha cucinato questo? Spero non sia stato Finnick.

[Quem cozinhou isso? Espero que não tenha sido o Finnick.]

Finnick virou-se devagar.

— Attento, zio. Posso sabotare il tuo copo.

[Cuidado, tio. Posso sabotar sua taça.]

Cato, encostado na bancada, ergueu a sobrancelha.

— Non litigate a Natale. Papà vi sta guardando.

[Não briguem no Natal. O papai está olhando.]

Peeta, ainda ajoelhado ao lado do pai, soltou um riso baixo.

— Papà è sempre stato il giudice silenzioso.

[O pai sempre foi o juiz silencioso.]

Presley, que escutava tudo com os braços cruzados, interferiu:

— Giudice? Lui era il dittatore elegante della famiglia.

[Juiz? Ele era o ditador elegante da família.]

Otho ergueu levemente a taça, divertido.

— E voi eravate tutti disastri ambulanti.

[E vocês eram todos desastres ambulantes.]

Haymitch apontou para Peeta.

— Questo almeno è diventato un uomo rispettabile.

[Esse pelo menos virou um homem respeitável.]

Cato soltou uma risada curta.

— Rispetabile? È innamorato fino al midollo.

[Respeitável? Ele está apaixonado até a medula.]

Finnick inclinou-se conspiratório:

— Sì, parla italiano solo quando vuole fare colpo sulla sua fidanzata.

[Sim, ele só fala em italiano quando quer impressionar a noiva.]

Peeta ergueu as mãos em falsa defesa.

— È una strategia legittima.

[É uma estratégia legítima.]

Presley gargalhou.

— Strategia? È disperazione romantica.

[Estratégia? É desespero romântico.]

Do outro lado da sala, Katniss observava o grupo falando rápido demais para qualquer um acompanhar direito. Ela cruzou os braços, desconfiada.

— O que vocês estão dizendo?

Todos ficaram em silêncio por um segundo.

Peeta virou-se para ela com a maior cara de inocência do mundo.

— Estamos discutindo… tradições familiares.

Haymitch completou:

— E aprovando oficialmente você como única pessoa capaz de manter esse bando sob controle.

Katniss estreitou os olhos.

— Eu tenho quase certeza de que isso não foi o que disseram.

Finnick levantou a taça.

— Segreto di famiglia.

[Segredo de família.]

Cato suspirou teatralmente.

— Troppo tardi. Lei capisce più di quanto pensiamo.

[Tarde demais. Ela entende mais do que a gente imagina.]

Peeta se aproximou dela e murmurou baixo, só para ela ouvir:

— Sei la parte migliore di questo caos.

[Você é a melhor parte desse caos.]

Ela tentou manter a expressão séria… mas falhou.

— Eu definitivamente preciso começar a estudar italiano.

Presley apontou dramática:

— Não faça isso. Eles vão perder o único poder secreto que acham que têm.

Otho soltou uma gargalhada rouca.

E por alguns minutos, o apartamento de Cato não foi palco de traumas passados, tratamentos médicos ou batalhas judiciais. Foi apenas uma sala cheia de Mellarks discutindo alto, atravessando frases em italiano, fingindo superioridade linguística… e rindo como se aquele fosse o Natal mais simples e mais precioso de todos.

Do outro lado, Katniss pensou que talvez fosse isso que significava pertencer:

Entender pouco… mas ser incluída em tudo.

A mesa foi montada. O jantar começou entre histórias antigas e provocações leves.

Em determinado momento, as luzes da sala foram suavizadas. Presley colocou uma música natalina antiga para tocar. Skye insistiu para que todos segurassem velas elétricas pequenas.

E ali, em meio a vozes que se misturavam, Peeta encontrou o olhar de Katniss do outro lado da sala.

Ele atravessou o espaço devagar.

Parou diante dela.

— Está tudo bem? — perguntou em voz baixa.

Ela olhou ao redor:

Cato servindo vinho ao pai.

Finnick ajudando Anthony com os talheres. Annie sorrindo com Kate. Burdock e Asterid conversando com Presley.

— Está — respondeu ela. — Está melhor do que eu achei que estaria.

Peeta segurou a mão dela.

— Eu te disse que a gente ia viver. Não só sobreviver.

Katniss observou Otho rir de algo que Skye cochichou em seu ouvido.

Respirou fundo.

E, desde o baile de máscaras, o passado não parecia mais uma sombra constante. Parecia apenas… um ano que estava terminando.

Ela se inclinou, encostando a testa na de Peeta.

— Feliz Natal, meu amor.

Ele sorriu.

— Feliz Natal, minha vida.

Lá fora, flocos tímidos de neve começaram a cair sobre Manhattan.

Dentro do apartamento, o calor não vinha do aquecedor. Vinha das escolhas feitas. E dos futuros que já estavam começando — alguns ainda invisíveis, mas inevitáveis.

A conversa atravessada em italiano continuava, rápida demais, cheia de interrupções e provocações. Katniss observava o grupo com os braços cruzados, cada vez mais convencida de que estavam conspirando contra ela — ou, no mínimo, se divertindo às custas dela.

— Certo — disse de repente, levantando a taça. — Já que estamos todos bilíngues hoje…

Os cinco homens pararam.

Peeta estreitou os olhos, desconfiado.

— Katniss…

Ela pigarreou, claramente improvisando.

— Buon… Natale, famiglia… Mellarki.

Presley levou a mão à boca. Finnick virou de costas. Cato apertou os lábios com força. Haymitch foi o primeiro a perder o controle.

— Mellarki?! — repetiu ele, quase engasgando de tanto rir.

Peeta levou a mão à testa.

— Amor… não tem “i” no final.

Katniss ergueu o queixo.

— Eu estava dando um toque moderno.

Presley já estava dobrada de tanto rir.

— Você basicamente transformou o sobrenome da família numa marca de massa italiana.

Finnick entrou na brincadeira.

— Signora Mellarki, produttrice ufficiale di spaghetti romantici.

[Senhora Mellarki, produtora oficial de espaguetes românticos.]

Cato acrescentou, sério demais para ser levado a sério.

— Um disastro linguistico… ma affascinante.

[Um desastre linguístico… mas fascinante.]

Katniss apontou o dedo para todos eles.

— Eu ainda não terminei.

Peeta cruzou os braços, sorrindo, claramente se divertindo mais do que deveria.

Ela respirou fundo e tentou de novo:

— Io sono… molto felice di… eh… stare com voi… pazzi.

Um segundo de silêncio.

Depois...

— Ela nos chamou de loucos — traduziu Presley, entre risos. — Mas com carinho.

Peeta se aproximou devagar, inclinando-se até ela.

— Molto bene, amore.

[Muito bem, amor.]

Ela sorriu, orgulhosa.

— Viu? Eu consigo.

Haymitch ergueu a taça.

— Progresso aceitável.

Finnick inclinou-se para Cato e murmurou alto o suficiente para que todos ouvissem:

— Ora è ufficiale. È uma Mellark.

[Agora é oficial. Ela é uma Mellark.]

Cato assentiu solenemente.

— Com errori grammaticali inclusi.

[Com erros gramaticais inclusos.]

Katniss fingiu indignação.

— Eu vou aprender só para poder xingar vocês fluentemente.

Peeta riu e segurou o rosto dela com delicadeza.

— Eu ensino. Mas só as partes bonitas.

Ela estreitou os olhos.

— Eu quero as partes perigosas também.

Ele inclinou-se até o ouvido dela e sussurrou:

— Quelle le hai già.

[Essas você já tem.]

Katniss sentiu o calor subir ao rosto.

Presley bateu palmas.

— Pronto. Agora temos oficialmente um casal bilíngue perigoso.

Haymitch tomou outro gole de vinho.

— Deus nos ajude.

E ali, entre risadas altas, erros de conjugação e provocações atravessadas, Katniss percebeu que não precisava entender cada palavra para fazer parte daquilo.

Ela já era parte.

Mesmo que, para sempre, fosse a única Mellark que inventava terminações italianas.

As risadas ainda ecoavam pela sala quando Finnick, de repente, ficou em silêncio.

Ele olhou para o pai.

Depois para Katniss.

Havia algo diferente no olhar dele — menos provocação, mais intenção.

— Katniss… — disse, aproximando-se alguns passos. — Você cantaria Senza Fine?

O ambiente suavizou automaticamente.

Otho ergueu levemente o rosto, atento.

Katniss sentiu o coração apertar.

— Claro.

Finnick sorriu de leve.

— Era a música favorita do papà. Ele colocava o vinil sempre que estava com saudades de onde nasceu. — Fez uma pausa. — Você cantou no baile… e ele não estava lá para ouvir.

Peeta olhou para o pai. Depois para ela.

Katniss já havia ensaiado aquela canção tantas vezes para o baile de máscaras. Cada frase memorizada, cada pausa medida. Mas ali… não havia palco. Não havia estratégia. Só família.

Ela pegou o celular devagar. Procurou a versão instrumental. Colocou em modo karaokê.

A primeira nota preencheu a sala com suavidade nostálgica.

Katniss respirou fundo. E começou a cantar. A voz saiu limpa, segura, mas diferente daquela noite do baile. Não havia desafio. Não havia vingança. Havia entrega.

— Senza fine… tu trascini la nostra vita…

Otho fechou os olhos imediatamente.

As mãos dele, marcadas pelo tempo, apertaram o braço da poltrona como se segurassem algo invisível — talvez uma memória antiga, talvez a própria juventude.

Katniss continuou.

— Senza um attimo di respiro...

Cato aproximou-se primeiro, ajoelhando-se ao lado da poltrona. Finnick ficou do outro lado. Peeta se posicionou atrás do pai, apoiando a mão firme sobre seu ombro.

A música falava de um amor que não termina.

De algo que atravessa o tempo.

Otho abriu os olhos quando Katniss chegou ao refrão final. Havia lágrimas ali. Não dramáticas. Não frágeis. Apenas reconhecidas.

Quando a última nota se dissolveu no ar, ninguém aplaudiu.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Otho levou a mão até o rosto, emocionado demais para disfarçar.

— Grazie… — murmurou, rouco.

Peeta inclinou-se e beijou o topo da cabeça do pai. Finnick abraçou os dois de uma vez, sem cerimônia. Cato respirou fundo, olhando para o teto como se estivesse segurando algo maior do que ele. Presley foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Esse é o melhor Natal que eu já tive — disse, limpando discretamente os olhos.

Skye, confusa com a emoção adulta, abraçou o avô também, como se entendesse intuitivamente que aquilo era importante.

Katniss permaneceu parada por um instante. Não como artista, mas como alguém que ofereceu algo verdadeiro.

Peeta ao seu lado não disse nada. Apenas a abraçou.

E ali, naquele abraço silencioso, ele agradeceu por muito mais do que a música.

Mais tarde, voltando para a cobertura

A cidade estava silenciosa, iluminada por luzes natalinas refletidas nas vitrines.

O frio mordia as mãos, mas Peeta não soltou a dela em nenhum momento.

Entraram no carro.

O trajeto até a cobertura foi feito em silêncio confortável.

Quando o elevador privativo começou a subir, Peeta finalmente falou.

— Eu te amei demais naquela noite.

Katniss virou o rosto devagar.

— No baile?

Ele assentiu.

— Quando você cantou Senza Fine no palco. Eu estava lá, no meio de todo aquele caos… e, por um segundo, tudo desapareceu. Só existia você. — Ele respirou fundo. — Eu já estava perdido antes disso, mas naquele momento… eu soube.

Katniss sentiu o peito apertar.

— Eu estava com tanta raiva naquele dia — confessou. — Mas… — hesitou ela. — Eu também já te amava.

Peeta a olhou, surpreso.

— Já?

Ela assentiu lentamente.

— Desde antes do plano terminar. Desde antes de eu admitir. Eu só não queria que fosse verdade.

O elevador abriu na cobertura.

Eles não saíram imediatamente.

Peeta encostou a testa na dela.

— Então a gente foi dois idiotas apaixonados tentando se machucar.

Katniss sorriu, com os olhos marejados.

— Dois idiotas orgulhosos.

Ele beijou a ponta do nariz dela.

— E agora?

Ela segurou o rosto dele com as duas mãos.

— Agora a gente para de fugir.

Lá fora, finalmente, a neve começava a cair sobre Manhattan. Dentro da cobertura, não havia mais palco. Não havia plateia. Apenas dois corações que, apesar de tudo, sempre estiveram caminhando um para o outro.

Sem fim.


✦✦✦


4 meses depois...


Manhattan brilhava como se soubesse. Do alto da cobertura privativa do The Monarch Club, as luzes da cidade pareciam um tapete estrelado sob os pés de Peeta Mellark. O bar era reservado apenas para convidados. Nada de exageros vulgares. Nada de clichês constrangedores. Aquela era uma despedida organizada por homens que o conheciam e que o respeitavam.

E, claro, que o provocariam até o limite.

Finnick foi o primeiro a erguer o copo de uísque.

— Senhores, estamos aqui para celebrar o fim da vida de Peeta Mellark como conhecemos.

Cato, encostado no bar, cruzou os braços.

— Ele sempre foi emocionalmente comprometido. Só está oficializando agora.

Risadas baixas ecoaram. Haymitch, sentado numa poltrona de couro, balançou o copo.

— Garoto, você tem certeza? Ainda dá tempo de fugir. Helicóptero tá no topo do prédio.

Peeta girou lentamente o gelo no copo.

— Vocês estão esquecendo um detalhe importante.

— Qual? — perguntou Finnick.

Ele sorriu.

— Eu sou o homem mais apaixonado dessa cidade.

O silêncio veio primeiro. Depois, um coro de vaias dramáticas.

— Ele perdeu completamente a dignidade — murmurou Cato.

Finnick colocou a mão no ombro dele.

— Última chance, Mellark. Mês que vem você acorda marido.

Peeta observou o horizonte. A lembrança dela surgiu como sempre — firme, intensa, viva.

— Vou acordar com a mulher que escolhi. Isso é diferente.

Haymitch assentiu, mais sério agora.

— Então brinda direito.

Os copos se tocaram.

— À Katniss — disse Peeta.

— À única mulher que conseguiu domesticar o CEO. — Finnick completou.

Peeta riu.

— Ela não me domesticou.

— Não? — Cato arqueou a sobrancelha.

— Não. Ela me escolheu. E eu escolhi ficar.

O vento noturno atravessou a varanda. A cidade abaixo seguia seu curso indiferente. Mas ali, naquele terraço, algo encerrava e algo começava.

Finnick entregou uma pequena caixa preta.

— Presente oficial da despedida.

Peeta abriu.

Dentro, uma bússola de prata.

— Para você nunca esquecer para onde está indo — disse Finnick. — E para onde sempre deve voltar.

Peeta fechou a caixa devagar.

— Eu já sei meu norte.

Pela primeira vez naquela noite, ninguém brincou. Porque todos sabiam. Ele estava exatamente onde queria estar.

Enquanto isso, em outro ponto da cidade, as luzes eram mais quentes. Mais douradas.

O SPA Aurum estava fechado para o público. Música suave preenchia o ambiente, velas aromáticas refletiam nas paredes de mármore, e uma piscina interna iluminada criava ondas de luz no teto.

No centro de tudo estava Katniss Everdeen.

Vestido de seda vinho, cabelos soltos em ondas naturais, taça de espumante na mão.

Johanna circulava como se fosse dona do lugar.

— Atenção. Essa mulher aqui vai casar mês que vem. Precisamos confirmar se ela está consciente.

Delly riu.

— Katniss, você tem plena noção do que está fazendo?

Ela levantou o olhar, sereno.

— Tenho.

Madge se aproximou.

— Última chance de desistir. Podemos forjar um sequestro elegante.

Katniss girou o líquido na taça.

— Vocês realmente acham que eu passaria oito anos arquitetando tudo para desistir agora?

Johanna sorriu de lado.

— Então é isso. Você ama ele.

Katniss não respondeu imediatamente.

Em vez disso, caminhou até a varanda interna, observando a cidade através do vidro.

— Ele me vê — disse, finalmente. — Não a versão que eu mostro. Não a que eu construí. Ele vê a parte que eu escondo. E ainda assim fica.

Delly segurou a mão dela.

— Isso é raro.

— Isso é definitivo. — Katniss completou.

Johanna ergueu a taça.

— Então brindemos à única mulher que conseguiu transformar vingança em amor.

— À Katniss. — disseram juntas.

Ela fechou os olhos por um segundo.

Pois, em algumas semanas deixaria de ser apenas Katniss Everdeen, seria esposa, mas naquela noite, era apenas uma mulher escolhendo o próprio destino.

Enquanto Peeta encarava o próprio fim de solteiro com whisky caro, skyline e provocações masculinas, a despedida de Katniss tinha outra textura. Mais quente. Mais feminina. Mais… verdadeira.

O ar cheirava a lavanda, baunilha e champanhe gelado. Um som suave de playlist acústica preenchia o ambiente com uma paz que só existia quando mulheres se reuniam sem pressa.

Katniss estava sentada em uma chaise de linho, os cabelos presos em um coque frouxo. Havia algo diferente nela — não era só felicidade. Era aquela sensação de estar prestes a atravessar uma porta sem retorno.

Delly surgiu, vindo do banheiro quase correndo.

E era impossível não notar. A barriga de cinco meses estava ali, redonda, linda, evidente sob o vestido soltinho em tom pêssego. Ela parecia irradiar luz enquanto carregava sua menina ainda não nascida. O chá revelação fora um evento íntimo apenas com aqueles que importavam. Agora, os cachos dourados caíam pelos seus ombros e os olhos estavam brilhando como se tudo nela fosse feito de expectativa.

— Eu quero muito que você sinta ela chutar — disse Delly, ofegante, como se o bebê fosse cair se ela perdesse um minuto da noite.

Johanna apareceu logo atrás, segurando uma sacola de farmácia.

— Ela achou que ia perder o “momento místico” em que vocês encostam na barriga e sentem a bebê chutar como se fosse um ritual de invocação.

Delly fez cara feia.

— Não é invocação. É conexão.

Johanna apontou para ela.

— Hormônios.

Katniss riu.

— Vem cá, Del.

Delly praticamente se jogou ao lado dela, e antes mesmo de qualquer conversa começar, Asterid surgiu.

Elegante, como sempre.

Não parecia “mãe de noiva”. Parecia uma rainha. Vestido de seda azul-marinho, cabelo preso, brincos discretos e um sorriso que misturava orgulho e nostalgia.

— Olha só você… — disse Asterid, tocando o rosto de Katniss com carinho. — Minha filha vai casar.

Katniss piscou, emocionada.

— Não fala assim, mãe.

Asterid sorriu.

— Eu esperei por esse dia sem nem saber.

Delly, do lado, fungou.

— Eu vou chorar.

Johanna virou o rosto.

— Não comece. Se a Delly chorar, eu vou chorar. E se eu chorar, eu vou processar alguém.

Katniss riu, e o riso veio leve. Como se o mundo, por uma noite, não tivesse passado.

Alguns minutos depois, já com taças de espumante (sem álcool para Delly, por ordem médica e por ameaça direta da Johanna), todas se acomodaram na sala principal do SPA, onde almofadas e mantas foram espalhadas no chão como se fosse uma noite do pijama chique.

Presley estava com uma energia elétrica. Saltos altíssimos, blazer branco impecável, cabelo loiro perfeito e um olhar que dizia “eu sou italiana por convivência”.

Ela abraçou Katniss com força.

— Você tá pronta? — perguntou, como se Katniss estivesse prestes a entrar em uma guerra.

Katniss riu.

— Eu acho que sim.

Presley apertou as mãos dela.

— Se não estiver, eu te arrasto mesmo assim. Você não tem noção do quanto meu irmão está… ridiculamente apaixonado.

Katniss corou.

— Eu sei.

— Não sabe. — Presley apontou o dedo. — Ele está no nível “se ela espirrar, eu compro uma empresa de lenço”.

Johanna levantou a mão.

— Confirmo. Já vi.

Annie levantou-se, serena, doce, com um vestido confortável e o cabelo preso com delicadeza. O abraço que ela deu em Katniss foi silencioso e profundo, como se dissesse: você está segura.

E então… Lenore. A esposa do Haymitch. Ela entrou com um sorriso gentil, segurando uma pequena caixa de macarons.

— Ele queria vir — disse ela, já rindo. — Mas eu disse que se ele aparecesse, eu mesma jogava ele no Hudson.

Johanna apontou para ela.

— Eu gosto de você.

Lenore piscou.

— Eu sei.

E, quando todas estavam ali, o foco inevitavelmente caiu em Delly.

Ou melhor…

Na barriga.

Delly estava sentada com as pernas cruzadas, as mãos apoiadas sobre o ventre como se estivesse segurando o próprio universo.

Asterid se ajoelhou ao lado dela e, com uma ternura quase sagrada, pousou a mão sobre a barriga.

— Ela está se mexendo? — Asterid perguntou baixinho.

Delly abriu um sorriso tão grande que parecia infantil.

— Ela chuta quando eu fico feliz.

Johanna bufou.

— Ela chuta quando você come chocolate.

Delly ignorou.

— Ela tá ouvindo vocês.

Presley se aproximou.

— Posso?

Delly assentiu.

Presley tocou a barriga com cuidado, o rosto suavizando.

— Oi, Joy. Eu sou sua tia Pres. E eu já estou planejando seus looks de inverno.

Johanna revirou os olhos.

— Essa criança vai nascer com um trench coat.

Katniss observava aquela cena como se fosse um quadro.

Asterid, Delly, Presley… as mãos na barriga, os sorrisos, o carinho.

E, por um segundo, algo apertou no peito dela.

Não era inveja.

Era uma saudade antiga.

Prim.

A lembrança veio como um flash... a irmã correndo pelo corredor, rindo, e depois… silêncio.

Katniss respirou fundo.

Annie percebeu.

Sempre percebia.

Ela tocou discretamente o ombro de Katniss.

— Você está bem? — perguntou baixo.

Katniss sorriu.

— Estou.

Mas não estava totalmente.

Foi Lenore quem puxou o assunto.

— Eu trouxe uma coisa.

Johanna estreitou os olhos.

— Se for uma oração, eu vou embora.

Lenore riu e abriu uma sacola.

— Karaokê portátil.

Houve um breve silêncio.

Então...

— NÃO! — Delly gritou.

— SIM! — Presley gritou.

Katniss soltou uma gargalhada.

Johanna ficou de pé, indignada.

— Eu me recuso. Eu sou uma mulher séria.

Delly apontou.

— Você já cantou.

Johanna cruzou os braços.

— Eu cantei uma vez e fui humilhada.

Katniss sorriu devagar.

— Você cantou por você?

Delly fez um biquinho.

— Não. Foi por mim.

Katniss ergueu uma sobrancelha.

— Então você vai cantar hoje também.

Johanna arregalou os olhos.

— Katniss.

Katniss se levantou lentamente.

Pegou o microfone.

E sorriu como quem tinha uma carta na manga.

— Eu vou começar.

Delly bateu palmas.

— SIM!

Presley já estava gravando.

— Meu Deus, isso vai para o meu feed.

Johanna colocou a mão no rosto.

— Eu odeio todas vocês.

Katniss rolou a lista.

E quando a música apareceu…

Ela não hesitou.

“You Oughta Know” — Alanis Morissette.

Delly gritou como se fosse um show.

— É ELA! É A MÚSICA!

Asterid riu, surpresa.

— Essa é aquela…?

— Aquela mesmo! — disse Delly, apontando. — Foi com essa música que a Katniss me empurrou pra cima da Johanna no dia que elas se conheceram!

Johanna fez uma careta.

— Eu não sabia se beijava a Delly ou se processava a Katniss.

Katniss começou a cantar.

E era impossível negar. Ela era boa.

Não “cantora profissional”. Mas intensa. Viva. Cheia de presença. A voz dela tinha raiva, ironia e humor — e isso fazia todo mundo rir e gritar junto.

Quando ela chegou no refrão, Delly levantou as mãos e cantou junto, emocionada.

Asterid aplaudia. Annie ria com os olhos brilhando. Lenore balançava a cabeça no ritmo, encantada e Presley filmava como se aquilo fosse o evento do ano.

Johanna, apesar de toda resistência, estava sorrindo.

Katniss cantava como se aquela música fosse uma despedida do passado. Como se dissesse “eu sobrevivi.”

E, quando terminou, a sala explodiu em aplausos. Delly estava chorando.

— Você é perfeita!

Johanna apontou.

— Não. Ela é perigosa.

Katniss riu.

— Sua vez.

Johanna deu dois passos para trás.

— Não.

Presley ergueu o celular.

— Se você não cantar, eu conto para o Peeta que você chorou quando viu o vídeo da festa de noivado.

Johanna congelou.

— Você não faria isso.

Presley sorriu.

— Faria.

Johanna tomou o microfone como se fosse uma arma.

— Eu odeio minha vida.

E cantou.

Mal, mas cantou.

E foi a coisa mais engraçada e humana do mundo.

Delly ria tanto que precisou segurar a barriga. Asterid enxugava lágrimas de rir. Katniss observava.

E, em muito tempo… Ela não sentia que estava fingindo nada.

Mais tarde, quando o karaokê já tinha virado uma guerra de risadas e as velas estavam quase no fim, Katniss saiu por um instante para a varanda interna do SPA.

A cidade estava ali. Brilhando.

Asterid a seguiu. Sem pressa. Sem perguntas invasivas. Apenas presença. Ela ficou ao lado da filha e segurou a mão dela.

— Você está feliz? — perguntou.

Katniss assentiu.

— Estou.

Asterid olhou para dentro, onde Delly ria, Johanna reclamava, Presley filmava, Annie conversava com Lenore.

— Você merece isso.

Katniss engoliu em seco.

— Às vezes eu penso na Prim e…

Asterid apertou a mão dela.

— Eu sei.

Katniss respirou fundo.

— Eu sinto que… se ela estivesse aqui… ela estaria ali dentro, fazendo barulho. Provavelmente cantando mais alto do que todo mundo.

Asterid sorriu com os olhos úmidos.

— Ela estaria.

Katniss piscou, e uma lágrima escapou.

Asterid beijou a testa dela.

— Você carrega a Prim de um jeito lindo. E sabe qual é a coisa mais forte?

Katniss olhou.

— O quê?

— Você não fala dela só com dor. Você fala dela com amor.

Katniss fechou os olhos.

E, por um segundo, sentiu. Como se a saudade fosse uma mão no ombro. Como se o passado, por uma noite, tivesse deixado de ser uma ferida e virado memória.

Quando voltaram para dentro, Delly já estava deitada numa chaise, com Johanna sentada ao lado como se fosse uma guarda-costas.

Presley entregou a Katniss uma taça.

— Último brinde.

Katniss ergueu a taça. Olhou para todas. A mãe. As amigas. A cunhada.

As mulheres que estavam ali como pilares.

E falou:

— Eu não sei como agradecer.

Johanna respondeu na hora:

— Não agradece. Só casa.

Delly completou:

— E seja feliz.

Annie sorriu.

— Você já é.

Lenore ergueu a taça.

— Ao amor.

Asterid concluiu, com a voz firme e doce:

— Ao “para sempre.”

E Katniss bebeu.

Com o coração leve.

Porque naquela noite, não havia vingança.

Só havia vida.

Quase meia-noite.

Peeta, já em casa, recebeu uma mensagem.

[23:57] Noiva💍— Você está se comportando?

Ele sorriu.

[23:58] Amor❤️— Depende. Você está?

A resposta veio segundos depois:

[00:00] Noiva💍— Estou pronta.

Ele digitou:

[00:01] Amor❤️— Eu também.

E, do outro lado da cidade que nunca dorme, dois corações bateram na mesma frequência.

Última noite de solteiros.

Primeira noite do resto de tudo.


Notas finais
Então é isso, próximo capítulo tem casamento ❤️