Doce Vingança
18 Recomeço
Notas iniciais

Katniss sorriu com tristeza e deslizou a mão pelos cabelos dele.
— Ele gostava de beber vinho enquanto escutava suas óperas favoritas… — disse baixinho, como se confessasse a si mesmo. — E eu… eu gosto das mesmas coisas. Sempre gostei. Achei que era coincidência.
— Não era coincidência. Era sangue. Era amor. Era ele em você.
Peeta fechou os olhos, respirou fundo e encostou a testa na dela.
— Quero vê-lo. Me leva até ele.
A clínica estava silenciosa. Katniss apertava a mão de Peeta no elevador. Ele não dizia uma palavra desde que entraram no carro. Os olhos fixos na frente. As mãos trêmulas.
Quando a porta do quarto se abriu, Peeta paralisou por um tempo.
Ali estava ele.
Otho Mellark. Sentado em uma cadeira de rodas, o rosto envelhecido, os cabelos quase brancos, os olhos — os mesmos olhos de Peeta — perdidos entre o presente e alguma memória antiga que talvez nunca tivesse existido.
Ele vestia um suéter de lã fina, uma manta sobre as pernas. A janela ao lado deixava a luz suave iluminar sua pele pálida. Um vinil tocava suavemente uma ária de Puccini.
Peeta deu um passo. Depois outro.
Então parou. O ar não entrava. O chão parecia instável.
— É ele…? — murmurou, como se perguntasse a Katniss ou a si mesmo.
Ela apenas assentiu com um leve gesto da cabeça.
Peeta se ajoelhou diante do pai. Os olhos cheios de lágrimas, a garganta trancada por anos de silêncio.
— Oi, pai… — sussurrou, a voz falhando na última sílaba.
Otho virou o rosto devagar. Os olhos vagaram pelo ar, depois focaram nele.
Algo brilhou ali dentro. Um reconhecimento leve. Quase um sussurro da memória.
— Pietro… — disse com esforço, a voz rouca.
Peeta chorou.
— Sou eu. Peeta. Seu filho.
Otho ergueu a mão com lentidão e a pousou sobre o rosto dele. Um toque frágil, mas cheio de algo que não se esquecia, amor.
— Você voltou…
Katniss recuou discretamente, dando espaço, os olhos marejados. Observava o reencontro como quem assiste um milagre sem poder tocá-lo.
Peeta segurou a mão do pai entre as suas, encostando a testa nela.
— Me perdoa… por ter acreditado tão facilmente nas mentiras que me contaram.
Otho sorriu. Um sorriso leve, quebrado, mas real.
— Meu menino… meu menino da uva-doce…
Peeta riu entre as lágrimas. Aquilo… era memória. Verdade. Vida.
Ele o abraçou com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-lo.
E naquele abraço, todo o peso que Peeta carregava desde os dezoito anos se desfez em silêncio. Nenhuma vingança. Nenhuma mentira. Nenhum império valia mais do que aquele momento.
Ali, nos braços frágeis do pai, Peeta Mellark finalmente se sentiu inteiro.
Com algumas ligações Peeta conseguiu transferir o pai como se a velocidade da luz ditasse.
Agora ele precisava encarar a arquiteta de tudo.
A entrada da mansão luxuosa parecia ainda mais sufocante para Peeta naquela tarde. O céu pesado, o ar frio parecia não entrar em seus pulmões, o zumbido da cidade... tudo parecia empurrar sua raiva para a superfície. Katniss caminhava ao seu lado, os dedos entrelaçados nos dele. A visita a Otho tinha sido ao mesmo tempo um alívio e uma dor insuportável. O homem que ele amava estava vivo. Mas havia sido roubado dele.
Por ela.
Pela mulher que agora os aguardava do outro lado da porta.
A funcionária os anunciou. A porta se abriu num clique suave.
Alma surgiu no topo dos degraus de mármore branco, o robe de seda escorrendo pelos ombros como se fosse realeza. Os cabelos loiros platinados estavam impecáveis e os olhos brilharam com falsa emoção.
— Meu filho! — exclamou ela, descendo rapidamente os degraus e indo direto ao encontro dele. — Meu filho querido, como você pode desaparecer assim e se isolar do mundo? Morri de preocupação!
Ela o abraçou com força, mas Peeta não se moveu.
— Eu sabia! Eu sabia que essa qualquer ia te empurrar para o abismo! — gritou Alma, com os olhos agora fixos em Katniss, como se a presença dela fosse uma praga.
Peeta então se afastou do abraço, com uma frieza que fez o ar da sala gelar.
Seus olhos estavam diferentes — acesos, sombrios, prontos.
E quando ele falou, foi em italiano. Rápido. Cortante. Mortal.
— Mi fai schifo. Tu mi hai rovinato la vita. Sei um mostro, uma manipolatrice. Hai distrutto tutto ciò che avevo.
Trad-[Você me enoja. Você arruinou a minha vida. É um monstro, uma manipuladora. Destruiu tudo o que eu tinha.]
Alma recuou um passo, assustada.
— Peeta...?
Ele avançou mais um.
— Você não tem o direito de falar nada da Katniss. Nada!
— Ela fez você sofrer! — rebateu Alma, a voz ganhando tom defensivo.
— E você destruiu meu pai! — explodiu ele, o corpo inteiro trêmulo. — Você me tirou dele. Me fez pensar que ele estava morto! Você enterrou meu pai vivo, me deu Snow como substituto, como pai biológico, como se isso fosse normal e eu o odiava... Você me quebrou, mãe!
Alma empalideceu. As palavras de Peeta cortavam como facas.
— Você não entende, eu só quis proteger...
— Proteger? — Peeta deu uma risada amarga. — Você quis proteger seu nome. Sua fortuna. Sua imagem de perfeição. Mas o que você fez foi cruel. Você mentiu sobre o homem que me criou. Enterrou a memória dele como se fosse lixo. E depois me deu um monstro como Snow.
Katniss estava ali, parada, silenciosa. O rosto tenso, mas firme. Ela o deixou falar. Era a vez dele. E ele precisava disso.
Peeta então deu um passo à frente. Seu rosto estava a centímetros do dela.
— Você me roubou o direito de me despedir. E você roubou dele o direito de me ver crescer.
Sua voz quebrou por um instante.
— Você mentiu pra mim, manipulou minha dor. E agora quer fingir preocupação? Não. Não mais.
Alma tentou se recompor, mas sua maquiagem perfeita não escondia mais o choque, nem a fraqueza. Ela olhou para Katniss com ódio.
— Foi ela, não foi? Ela envenenou você contra mim.
— Ela me mostrou a verdade. A verdade que você escondeu.
Silêncio.
Peeta então estendeu a mão para Katniss. Ela a segurou sem hesitar. Ele virou o rosto para a mãe e, com toda a firmeza que a dor permitia, disse:
— Se algum dia eu voltar a te olhar nos olhos, será por ele. Pelo meu pai. Nunca por você.
Alma cambaleou levemente para trás, e pela primeira vez em muito tempo... ficou sem palavras.
Peeta se virou com Katniss, e os dois deixaram a mansão sem olhar para trás.
No último degrau já na saída, ainda de mãos dadas, Katniss sussurrou:
— Você foi forte, Peeta.
Ele olhou para ela, os olhos ainda marejados.
— Não fui forte. Fui verdadeiro. Pela primeira vez em anos.
E então ele a puxou para um beijo silencioso, não de alívio… mas de respeito, cumplicidade. De renascimento.
✦✦✦
Peeta ligou para os irmãos resumindo o que tinha acontecido e pediu para não comentar nada sobre Katniss, baile de máscaras, afinal o que realmente importava naquele instante era o bem-estar de Otho e o reencontro dos irmãos Mellark com o pai.
A sala privativa da nova clínica era elegante. Mais acolhedora. Diferente da prisão branca e esquecida onde Otho havia sido mantido por tantos anos. Agora, o espaço cheirava a erva-doce, livros e esperança. Pela primeira vez em muito tempo, o homem parecia… vivo.
Peeta estava parado próximo à janela. Usava um suéter de lã cinza e segurava uma xícara de café, os olhos fixos na entrada.
Katniss estava sentada ao lado de Otho, que dormia, com a cabeça levemente tombada para o lado. A música de fundo era leve, instrumental.
A porta se abriu.
Finnick foi o primeiro a entrar. Alto, forte, mas com os olhos marejados.
— Ele tá mesmo aqui… — sussurrou, sem conseguir esconder a emoção.
Peeta assentiu.
— E mais do que isso, Finn. Ele tá voltando pra gente.
Logo atrás, Cato entrou, de expressão dura — o advogado racional tentando conter a avalanche de sentimentos. E Presley veio por último, pequena, elegante, segurando um lenço de seda e soluçando sem som.
O trio se aproximou do pai em silêncio.
— Ele dorme muito, por enquanto — explicou Peeta. — Mas responde aos estímulos. Algumas memórias estão voltando. A voz, aos poucos. E os olhos… estão cheios de vida de novo.
Finnick ajoelhou ao lado da cama e tocou na mão do pai.
— Ele vai ficar com a melhor equipe que eu conheço. Já falei com o Dr. Aurelius e com o centro de reabilitação neural de Boston. A gente vai cuidar dele como ele merecia desde sempre.
Presley fungou e se inclinou, beijando a testa de Otho.
— Desculpa papai, a gente acreditou nela…
Peeta olhou para os três.
— Ela vai responder pelo que fez. Por esconder a verdade, por assinar documentos falsos, por abandono. Já conversei com minha equipe jurídica, os advogados estão acionando tudo. Mas agora… tudo o que importa é ele.
Cato finalmente quebrou o silêncio.
— E nós.
Todos assentiram.
— Nós quatro. Por ele — completou Peeta.
Otho abriu os olhos. Lentamente. Reconheceu algo naqueles rostos — seus filhos, suas sementes. Um pequeno sorriso formou-se em seus lábios trêmulos. Os olhos azuis brilharam de leve.
Finnick pegou a prancheta médica e começou a verificar os sinais, já assumindo seu papel.
— Vamos começar os testes motores amanhã. Se o sistema responder bem, iniciamos a terapia de marcha. Ele vai voltar a andar.
Katniss olhava tudo à distância, o coração apertado e grato. Ali estava a família que o destino tentou destruir — unida, ferida, mas renascendo.
Peeta se aproximou, tocou o ombro do pai e disse com voz firme:
— Você está em casa, pai. Pela primeira vez em muito tempo.
E Otho, com esforço, sussurrou:
— Meus meninos… minha princesa…
Presley chorou. Finnick sorriu. Cato desviou o olhar para o teto. Peeta abaixou a cabeça, vencido pelo peso doce do reencontro.
Katniss segurou a mão de Peeta.
— Você o trouxe de volta. E agora… vocês vão escrever uma nova história.
Atlas Technology – Sede, Manhattan – 8h12 da manhã
Peeta agora estava preparado, ou não, para enfrentar uma força da natureza a qual não imaginava a proporção catastrófica que havia se tornado até aquele momento.
O elevador se abriu no último andar com um ding suave, mas a calmaria durou exatamente três segundos.
Johanna estava parada no meio do corredor, braços cruzados, blazer aberto, caneta presa no coque como se fosse uma arma ninja. O salto ecoava como marteladas no chão de mármore. E os olhos? Bem… fogo puro.
Peeta deu um passo tímido para fora, de mãos dadas com Katniss, ainda tentando parecer o CEO poderoso e sereno.
— Bom dia… — Ele começou.
— Bom dia é o caralho, Peeta Mellark! — explodiu Johanna, marchando até ele como se fosse arrancar sua alma pelos olhos. — VOCÊ FAZ IDEIA DO CAOS QUE VIROU ESSA EMPRESA DEPOIS DO BAILE?!
Katniss arregalou os olhos e deu um passo para trás, mas Peeta, corajoso ou burro, tentou sorrir.
— Eu posso explicar…
— EXPLICAR?! — Johanna agora estava com o dedo apontado na cara dele. — Você desapareceu por quase UM MÊS! UM. MÊS! E me deixou aqui com a bomba nuclear que foi a sua vida amorosa de ensino médio versão Netflix Original!
— Jo... — Peeta tentava argumentar.
— Eu tive que dormir na PORRA do escritório! — gritou ela, apontando para uma pilha de travesseiros ao fundo de sua sala. — Sabe o que é passar cinco dias seguidos com o jurídico? CINCO! Com gente do marketing chorando, o TI surtando e advogados correndo feito galinha sem cabeça tentando derrubar o VÍDEO DO INFERNO!
Peeta piscou.
— Vídeo?
— Do Instagram, seu lerdo! Daqueles seus ex-amiguinhos ridículos do colegial! — Johanna bufava como um touro. — Os escândalos! A vergonha alheia! Tudo postado com legenda tipo: “O karma não falha, CEO vira o prato do dia”! — imitou ela, com a voz mais irritante possível.
Katniss pigarreou, visivelmente constrangida.
— Ai meu Deus… — murmurou ela.
— Graças a DEUS a imagem da Atlas continua intacta, porque EU, JOHANNA, A SANTA PATRONA DO CORPORATIVISMO, passei noites inteiras apagando incêndio com balde furado! — Ela estendeu os braços como quem invoca o além. — Se mais um influenciador tivesse marcado o perfil da Atlas em algum meme, eu ia dar um soco no wi-fi mundial!
Peeta coçou a nuca.
— Jo… eu… sinto muito.
— Sente? SENTE?! — Ela arregalou os olhos, depois apontou para Katniss. — E VOCÊ! Nem vem com esse olhar de Viúva-Negra-arrependida! Eu gosto de você. Super apoiei ter ido atrás dele, mas você meteu o Peter Pan aqui numa caverna de sofrimento emo! Vocês dois quase me mataram!
Katniss ergueu as mãos.
— Desculpa, Jo. Eu tava num estado péssimo. Você e a Delly viram.
— VOCÊ?! Imagina EU! — Johanna girou nos calcanhares, depois parou de repente e apontou de novo. — Ah, e só pra avisar, tem reunião com o conselho em vinte minutos. E sim, você vai encarar o Plutarch, Messala, Polux, Lyme e a comandante de brigada Jackson, que por algum motivo está mais venenosa que uma cascavel com cólica.
Peeta e Katniss trocaram olhares.
— Isso vai ser divertido… — murmurou Peeta.
— Divertido é o cacete. Agora mexam esse casalzinho trágico e delicioso até a sala de reuniões antes que eu mesma poste um vídeo de vocês se agarrando nos Hamptons com a legenda: CEO volta das cinzas, molhado e arrependido!
Katniss engasgou rindo.
— Isso seria meio poético.
— Seria um PROCESSO, é o que seria!
Peeta respirou fundo e, antes de entrar, lançou...
— Jo, obrigado por segurar tudo. De verdade.
Johanna revirou os olhos, mas deu um leve sorrisinho.
— Cala a boca, Peeta. Vai salvar a porra da sua empresa. E depois quero saber tudo sobre seu pai.
E com isso, a porta do escritório se fechou atrás deles… e Johanna gritou para a assistente:
— E QUE ALGUÉM TRAGA CAFÉ COM TRÊS ESPRESSOS E UM TRANQUILIZANTE PRA MIM, POR FAVOR!
✦✦✦
A sala de reuniões parecia mais fria do que o normal. Talvez fosse o ar-condicionado central ou o clima tenso que pairava sobre os conselheiros sentados em volta da mesa de vidro. A vista para Manhattan atrás das janelas de vidro não suavizava os semblantes fechados.
Plutarch Heavensbee estava no centro, girando sua caneta Montblanc entre os dedos como se fosse um maestro prestes a iniciar uma sinfonia dramática. À esquerda, Messala, calado como sempre, observava tudo com olhos de águia. Polux, já fazia gestos discretos com as mãos, traduzidos por uma assistente sentada logo ao lado. Lyme, de blazer ajustado e postura ereta, parecia uma torre humana. E Jackson, braços cruzados, tinha a expressão de quem acabara de sair de um campo de batalha e não estava disposta a perder tempo.
Peeta entrou com Katniss logo atrás. Ele soltou a mão dela discretamente antes de dar o primeiro passo à frente.
Plutarch quebrou o silêncio com um sorriso sarcástico.
— E vejam só quem resolveu ressuscitar! Nosso jovem titã moderno finalmente desceu do Monte Olimpo da depressão emocional... com acompanhante e tudo.
Katniss quase respondeu, mas Peeta ergueu a mão, pedindo a palavra. O olhar dele estava firme.
— Eu sei que decepcionei todos vocês. — Começou ele, a voz rouca, mas segura. — E antes que alguém pergunte, sim, eu estou bem. Não, não estou doente. Sim, precisei sumir. Não, não foi planejado. E, sim... — respirou ele fundo, lançando um olhar para Plutarch. —A empresa ficou nas mãos certas durante minha ausência. Johanna, merece uma estátua de bronze e uma sessão de spa vitalícia.
Plutarch entrelaçou os dedos.
— Ah, que bom que reconhece. Mas agora me diga, Peeta… — Sua voz soou como a de um vendedor de carros de luxo. — Você planeja sumir mais vezes ou teremos acesso à sua agenda emocional com antecedência?
Messala soltou um pigarro discreto. Lyme revirou os olhos. Jackson sequer piscou. Polux fez um sinal com as mãos. A assistente traduziu:
— Ele diz que sua ausência foi notada e sentida. E que todos estão aliviados por você estar aqui… mas isso não significa que escapará de responsabilizações.
Peeta assentiu.
— Justo. E em minha defesa, nem lembro as últimas férias que tirei. Desde que fundei a Atlas, o que faço é respirar ela. Todo o meu tempo, energia e vida têm sido dedicados a esta empresa. Não foi uma crise de estrelismo. Foi um colapso de humanidade.
Jackson, finalmente, falou, a voz grave e objetiva:
— Isso é bonito, Mellark. Mas os números quase vacilaram. Uma semana a mais e os acionistas teriam entrado com moção para uma intervenção. Você não é só um CEO, é um símbolo. Um símbolo não pode desaparecer.
Peeta fez que sim.
— E por isso estou aqui. Para dizer que estou pronto. Mais forte. Mais consciente. E sim… com algumas coisas pessoais que agora estão em ordem. — Ele olhou rapidamente para Katniss, que permanecia ao fundo da sala, silenciosa e atenta.
Lyme apoiou o queixo nos dedos.
— E quanto ao escândalo online?
Plutarch sorriu.
— Ah, sim. A treta emocional com gosto de novela turca.
Peeta encarou Plutarch diretamente.
— Tudo resolvido. Quem eu era no colegial não define quem eu sou agora. E tudo que surgiu nos vídeos não mancha a Atlas, mancha a mim. — Ele se inclinou para frente — E, estou lidando com isso como homem. Com advogado, com ações de responsabilidade social e com um novo projeto de mentoria para jovens empreendedores que já estamos preparando com o jurídico. Será anunciado oficialmente na próxima semana.
Messala ergueu uma sobrancelha. Polux fez mais sinais. A assistente traduziu:
— Isso é admirável. E necessário. Mostra responsabilidade.
Plutarch se levantou devagar.
— Muito bem. Discurso bonito. Olhos úmidos. Uma pitada de marketing emocional. Uma namorada redimida no fundo da sala. Parece roteiro do Oscar.
Peeta riu com ironia.
— E você, como sempre, dirigindo a cena.
Plutarch se aproximou e lhe deu dois tapinhas no ombro.
— Bem-vindo de volta, CEO dos corações partidos.
Jackson se levantou sem dizer palavra, apenas pegando sua pasta. Lyme acompanhou com um suspiro resignado.
Antes de sair, Polux fez um último gesto. A tradução foi:
— Seja melhor, Peeta. E não desapareça mais. O mundo precisa de líderes humanos, não mártires.
A sala foi esvaziando. Quando Peeta virou-se para Katniss, ela já estava sorrindo.
— CEO dos corações partidos, hein?
— Ele só não me chamou de “Ken da desgraça” porque a Drusilla não estava aqui.
— E você estava nervoso — disse Katniss, o puxando para fora da sala.
Peeta olhou para o corredor e murmurou:
— Agora só falta sobreviver à Johanna de novo.
A voz da assistente ecoou de longe:
— Ela está preparando mais café... e talvez um tapa na sua cara, senhor Mellark.
✦✦✦
O início de outubro trazia à mansão Everdeen um silêncio raro. O vento carregava o cheiro de folhas secas, maçã e canela — o cheiro que sempre anunciava que Asterid estava na cozinha preparando chá. O céu dourado pintava o jardim de luz suave.
Peeta, depois de uma manhã intensa ao lado do pai na clínica, havia voltado para a Atlas para resolver alguns assuntos.
No fundo da propriedade, Katniss caminhava devagar até o velho carvalho. Burdock estava sentado no banco de madeira, os óculos escorregando pelo nariz, um livro aberto no colo. Ele a olhou apenas de relance — o suficiente para perceber que algo havia mudado.
Ela parecia mais leve. E ao mesmo tempo, mais vulnerável do que nunca.
Katniss respirou fundo antes de se sentar ao lado dele, abraçando as próprias pernas.
— Papai...
Burdock fechou o livro devagar e girou o rosto na direção dela, atento.
— Quando você me chama assim... — disse com um meio sorriso terno. — É porque vem coisa grande.
Katniss não riu. Seus olhos estavam marejados, mas firmes.
— Eu voltei dos Hamptons... e preciso te contar tudo. Tudo mesmo. Sobre mim. Sobre o que fiz. E sobre o Peeta.
O leve sorriso do pai sumiu. Ele tirou os óculos, guardou o marcador de páginas entre as páginas que lia, fechou o livro e virou-se totalmente para ela.
— Eu estou ouvindo, minha menina. Vai com calma.
Katniss então contou.
Tudo.
Desde a humilhação no colégio. O plano de vingança. O baile de máscaras. A noite em que ela o destruiu.
E o momento em que o viu quebrado... e voltou para juntar seus pedaços.
Quando terminou, o sol já se escondia atrás das árvores, pintando o jardim de cobre.
Burdock permaneceu em silêncio por longos segundos.
— Então deixa eu ver se entendi... — Ele começou, com a voz mansa, porém grave. — Você se aproximou dele fingindo, se apaixonou no meio do caminho, se vingou mesmo sabendo que já gostava dele... o derrubou. E depois... voltou para ajudá-lo a se levantar?
Katniss abaixou os olhos.
— Eu sei que parece horrível, pai. Eu sei.
Ele não respondeu de imediato. Apenas inspirou e apoiou as mãos sobre o joelho.
— Eu errei tanto, pai. Mas agora... agora eu o amo. Amo de verdade. E não sei como isso aconteceu, só... aconteceu.
Burdock virou-se totalmente para ela, os olhos brilhando com aquele tipo de compreensão que só um pai tem.
— Você pode dizer que usava uma máscara de amante para enganá-lo, mas sempre achei que você sentia alguma coisa por ele. — Ele sorriu, leve.
— Achava?
— Ah, minha querida... — Ele riu baixinho. — A forma como você falava dele... o jeito que olhava pra ele. Sempre teve alguma coisa ali. Só que você estava machucada demais pra admitir.
Katniss sorriu pela primeira vez, fraca, tremida.
— Eu tenho medo, pai.
— Medo de quê?
— De não merecer ser amada assim. De machucar ele de novo. De um dia ele... ir embora.
Burdock segurou o rosto dela entre as mãos, com uma delicadeza que desmontaria qualquer muralha.
— Escuta bem o que eu vou te dizer, Katniss March Everdeen. — A voz dele ficou firme, paterna, profunda. — Você merece ser amada. Por inteiro. Com as partes boas e ruins. Com os erros e os acertos. E se esse amor sobreviveu à vingança... então vai sobreviver a qualquer coisa.
Ela deixou escapar uma lágrima solitária.
— Não tem casamento nem nada disso ainda, tá? — murmurou, tentando brincar.
Ele sorriu travesso, enxugando a lágrima com o polegar.
— Eu não perguntei nada disso. Ainda. Mas, se um dia esse pedido chegar... — ele deu um tapinha no joelho dela. — Eu exijo participar da escolha do vinho.
Katniss soltou uma risada sincera. Daquelas raras, que ela quase não lembrava de sentir desde adolescente.
Burdock ficou observando-a, emocionado.
— Você cresceu tanto, Kat — disse baixinho. — E eu tenho tanto orgulho de você.
Ela inclinou a cabeça sobre o ombro dele.
— Obrigada, pai. Isso significa que me perdoou as merdas que fiz? — perguntou ela, meio aflita.
Ele a abraçou pelos ombros, deixando que ela se encaixasse ali como quando era pequena.
— Sim, perdoei... Só me promete uma coisa — pediu em voz suave, quase paternal demais para aquele mundo adulto em que viviam. — Nada de máscaras. Nada de jogos. Se você ama esse homem... ame de verdade. De peito aberto. Sem se esconder.
Katniss assentiu devagar, sentindo o vento levar embora o peso que carregava há anos.
E ali, sob o carvalho, com folhas douradas rodopiando ao redor dos dois, pai e filha ficaram em silêncio.
Um silêncio que não doía.
Um silêncio de recomeço.
✦✦✦
A cobertura estava silenciosa, exceto pelo som suave da chuva batendo de leve nos vidros imensos. O aroma de chocolate quente e baunilha vinha da cozinha — cortesia de Peeta, que insistia em preparar algo “simples, mas irresistível”.
Katniss, enrolada no cobertor cinza de cashmere do sofá, observava o namorado ir e vir pela cozinha com uma expressão que misturava admiração e deboche amorosa.
— Eu ainda acho uma afronta você cozinhar melhor que alguns chefs famosos — provocou, apertando o cobertor contra o queixo.
Peeta abriu um sorriso torto.
— Ah é? Porque eu achei que você gostava disso.
— Gosto. — Ela ergueu o nariz, com ar convencido. — Principalmente quando você faz de propósito só pra me seduzir.
Ele riu, mexendo a panela.
— Eu não preciso cozinhar pra isso.
Katniss jogou uma almofada nele. Ele se esquivou com facilidade.
— Convencido.
— Eu? — Peeta caminhou devagar até ela, segurando duas canecas fumegantes. — Eu sou só um homem desesperado pra impressionar a mulher mais linda da cidade.
— Hmm… já tá puxando saco. — Ela pegou a caneca das mãos dele com um sorriso. — E nem adianta, eu sei a verdade.
— Que verdade?
— Que você ama quando eu te envergonho.
Peeta ergueu uma sobrancelha, se inclinando sobre o encosto do sofá.
— Katniss Everdeen… você tem prazer em me provocar?
Ela deu um gole demorado no chocolate quente, fingindo pensar.
— Digamos que… eu acho fofo.
— Fofo? — repetiu ele, ofendido de brincadeira. — Você me chama de fofo e depois quer que eu me comporte?
— Não. — Ela riu, puxando-o pela camisa. — Quero que você sente aqui. Comigo.
Ele obedeceu sem hesitar, se acomodando atrás dela e a puxando entre as pernas, encaixando o corpo dela sobre o seu. Katniss soltou um suspiro confortável, apoiando a nuca no peito dele enquanto ele envolvia sua cintura com os braços.
— Agora sim — murmurou ela. — Essa parte é a minha preferida.
— A minha também. — Peeta pousou o queixo no topo da cabeça dela. — Você aqui… sem ir embora… sem pressa. Assim, quietinha.
— Quietinha? — Ela virou um pouco o rosto. — Quem disse que eu estou quieta?
— Bom… — Ele beijou a curva do pescoço dela antes de continuar. — Você só fica agitada quando está com vergonha, ou quando está com segundas intenções.
Katniss revirou os olhos.
— Eu não fico com vergonha.
— Ah, fica sim.
— Mentiroso.
Peeta sorriu contra a pele dela.
— Fica tão envergonhada… que sua orelha até fica quente. Igual agora.
Ela levou a mão à própria orelha, surpresa e Peeta quase caiu na gargalhada.
— Viu? — Ele apertou a cintura dela, puxando-a mais pra perto. — Te peguei.
— Você é impossível — resmungou, tentando esconder um sorriso que ameaçava escapar.
— E você ama isso.
Katniss virou de frente para ele, sentando no colo do jeito que sempre deixava Peeta sem ar. A mão dele imediatamente foi para a coxa dela, subindo devagar, quase inconsciente, como se fosse instinto.
— Talvez eu ame. — Ela desceu os dedos pelo peito dele, traçando a linha da camisa. — Só um pouquinho.
— Só um pouquinho? — Peeta fingiu indignação. — E eu aqui achando que era sua perdição.
— É — disse ela com simplicidade. — Minha perdição favorita.
Ele a beijou rápido, um selinho leve, suave, como se saboreasse uma fruta delicada. Depois outro. E outro. Até Katniss rir contra a boca dele, segurando o rosto dele com as duas mãos.
— Você beija como se tivesse pressa — brincou ela.
— E você fala como se não percebesse que eu tô morrendo de saudade, mesmo depois de passar o dia inteiro com você. — Ele deslizou a mão pela nuca dela. — Vem cá.
O beijo dessa vez foi lento. Quente. Calmo. O tipo de beijo que não acelera o coração — acalma. Que preenche. Que diz tudo sem exigir nada.
Quando se separaram, Katniss encostou a testa na dele.
— Peeta?
— Hm?
— Eu nunca imaginei… que amar alguém poderia ser assim. Ser leve… e divertido… e intenso ao mesmo tempo.
Ele sorriu, passando o polegar na bochecha dela.
— Eu também não.
Ela respirou fundo.
— Eu sempre amei você, mesmo quando tentei me convencer de que tudo era apenas para te machucar. — Ela acariciou o rosto dele com a palma da mão.
E ele segurou o rosto dela com delicadeza, o polegar acariciando a bochecha.
— Katniss… posso te dizer uma coisa?
Ela ergueu os olhos cinzentos, curiosa.
— Claro.
Peeta respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras não com a mente… mas com o coração.
E então disse, com a voz baixa, rouca, carregada de amor:
— Sei il mio respiro, la mia pace, il mio destino. Se il mondo finisse domani... il mio ultimo pensiero sarebbe per te. E sarà così per il resto della mia vita. Sempre.
Trad-[Você é a minha respiração, a minha paz, o meu destino. Se amanhã o mundo acabasse… o meu último pensamento seria você. E será assim por toda a minha vida. Sempre.]
Katniss parou. Os olhos se encheram imediatamente, sem que ela pudesse impedir.
Ela levou a mão até a boca, tentando conter a emoção que subia como maré.
— Peeta… — sussurrou, com a voz falhando. — Por que você fala essas coisas pra mim desse jeito?
Ele sorriu, aproximando sua testa da dela.
— Porque é verdade. E porque você merece ouvir…
As lágrimas finalmente escorreram pelos olhos de Katniss. Ela segurou o rosto dele entre as mãos, puxou-o para um beijo lento, cheio de tremor, cheio de entrega.
— Eu te amo — disse ela, arfando contra os lábios dele. — Mais do que qualquer coisa.
Peeta a abraçou com força, como se a quisesse guardar dentro do próprio peito.
— Sempre, amore mio.
— Sempre —repetiu ela, enxugando o rosto. — Você me faz sentir como se o mundo fosse um lugar seguro.
Peeta fechou os olhos por um segundo, tocado.
— E você… faz o meu mundo inteiro ter sentido.
Katniss sorriu e se deitou sobre o peito dele novamente, ouvindo o som constante do coração dele, os dedos dele riscando desenhos invisíveis nas costas dela.
— Posso te pedir uma coisa? — murmurou ela.
— Qualquer coisa.
— Não deixa essa noite acabar.
Ele envolveu os braços ao redor dela, protegendo, acolhendo, pertencendo.
— Não vai acabar — prometeu ele. — Nem amanhã. Nem depois. Nem nunca.
Katniss sorriu, aquecida pelo som da voz dele, pelo toque, pelo amor que transbordava entre os dois.
E ali, com chocolate quente, chuva, abraços e beijos suaves… eles viveram uma noite que não precisava de mais nada para ser perfeita.

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